Monthly Archives: June 2018

De carro pela Argentina, Chile e Bolívia

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Rodamos quase 8 mil quilômetros em 18 dias.

Para quem pretendia passar as férias num sítio próximo a São Paulo, uma viagem de carro passando por três países foi uma mudança e tanto. Nossa companheira de férias ganhou uma passagem para Portugal e nós decidimos passear pela América do Sul. Em uma semana, planejamos tudo e pegamos a estrada.

Rumo ao Chile

Os primeiros dias resumiram-se a longas horas na estrada. Foram quase 600km em uma estrada reta, de pista simples, com alguns caminhões e muito calor. A região do Chaco argentino definitivamente não me atraiu. Na primeira noite na Argentina, dormimos em Resistência, que consideramos mais ajeitada do que a vizinha Corrientes.

A segunda noite foi em San Salvador de Jujuy, onde jantamos no restaurante Viracocha, de comida tradicional do norte argentino e que serve uma empanada de quinoa deliciosa.

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O primeiro salar da viagem: Salinas Grandes, na Argentina.

A partir de San Salvador de Jujuy, com a aproximação dos Andes, a paisagem e o clima melhoram. A região é bastante árida, com montanhas coloridas e muitos cardones – cactos gigantes. Passamos por Purmamarca, cruzamos o primeiro salar da viagem – o Salinas Grandes – e seguimos para a fronteira com o Chile.

Cruzar o paso de Jama foi bem mais tranquilo do que eu esperava. Os guichês estão organizados em sequência. Carimbos de saída da Argentina nos passaportes, aduana do carro, carimbos de entrada no Chile e aduana do carro. Embora o seguro Carta Verde seja obrigatório e estivesse na pastinha de documentos, nesta fronteira, tive que apresentar apenas o documento do carro e minha habilitação brasileira. Cheguei a mostrar a Permissão Internacional para Dirigir, mas a oficial nem deu bola. O último passo foi a vistoria do carro.

Neste ponto, eu estava com um pouco de dor de cabeça por causa da altitude. Em San Salvador de Jujuy, estávamos a 1.259m e o paso fica a 4.200m. O caminho continua subindo e, em busca do Salar de Tara, chegamos a 4.811m, o que me deixou imprestável. Apesar disso, tivemos uma bela surpresa no caminho para San Pedro de Atacama: começou a nevar no deserto!

O Artur ficou chocado com o tamanho da cidade. Há dezoito anos quando ele esteve lá, havia basicamente um restaurante e um hotel/camping. Hoje em dia, há muitas opções. A rua principal é a Caracoles, onde estão muitas das agências de turismo e restaurantes. Durante o dia, o movimento é pequeno, pois os turistas estão nos tours pela região. À noite, a rua fica lotada.

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Livraria charmosa a poucos quilômetros de San Pedro de Atacama.

Na minha lista de lugares para conhecer estava a Librería del Desierto, que pertence ao escritor chileno Diego Álamos. Localizada a 6km de San Pedro, a livraria funciona em um contêiner instalado no quintal da casa dele e é focada em autores chilenos. Além da beleza do lugar e da tentação dos livros, a visita vale a pena pela simpatia do Diego. Ficamos cerca de duas horas ali batendo papo.

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Dunas e anfiteatro no Valle de la Luna.

No final da tarde, fomos ao Valle de la Luna, também a cerca de 6km da cidade. Seguindo a estrada dentro da reserva, fizemos o passeio por dentro das cavernas de sal, passamos pelo anfiteatro e depois chegamos à formação chamada de Três Marias. Ao longo do caminho, há estacionamentos. Tentamos deixar o carro em um deles e seguir a pé até as dunas, mas os guias do parque não autorizaram. Andar por ali valia apenas para quem estava em um tour pago. Bom, deixamos o carro em outro estacionamento e fomos para as dunas para ver o por-do-sol. O lugar fica lotado, então, se quiser pegar um bom lugar, é melhor não ir muito tarde. Algumas agências oferecem a opção de ir para lá pedalando e voltar de carro.

No dia seguinte, paramos na laguna de Chaxa para fotografar flamingos e depois seguimos rumo ao paso Sico. A ideia era acessar uma estrada de terra para chegarmos à laguna Lejía, só que a existência de um posto de carabineiros frustrou nossos planos. Com o argumento de que a estrada por ali é muito ruim e ninguém poderia nos resgatar caso acontecesse algo, eles proibiram nossa passagem.

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Caveirinho no cenário do nosso camping selvagem.

Se fôssemos voltar para San Pedro, chegaríamos tarde à cidade, então, decidimos acampar próximos a algumas formações rochosas. Só que o vento era tanto, que não nos animamos a montar a barraca e decidimos dormir dentro do carro. Claro que a ventania parou no meio da madrugada, mas deixamos por isso mesmo. Quando acordamos, nossa respiração condensada no para-brisa do carro tinha congelado. O jeito foi esperar o sol esquentar um pouco e esse gelo derreter para poder dirigir.

Passamos mais uma noite em San Pedro e levantamos cedo para subirmos o vulcão Láscar. A estrada até a entrada para a vila Talabre é asfaltada; a partir daí, é só areia com costelas de vaca. Não vimos o nascer do sol na beira da laguna Lejía, mas o astro rei iluminou os vulcões do caminho de maneira incrível.

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Laguna Lejía e diversos vulcões vistos de longe durante subida do vulcão Láscar.

É possível estacionar o carro num ponto relativamente alto para começar a caminhada – partimos de 4.825m. O Láscar é um vulcão fácil do ponto de vista técnico; a subida nada mais é do que uma caminhada. O grande porém é a altitude: eu tinha que andar bem devagar para não perder o fôlego. E valeu muito a pena quando chegamos à cratera do vulcão a 5.449m e vimos a fumacinha saindo – o Láscar é um vulcão ativo. Com o vento aumentando de intensidade, logo começamos a descida com cuidado para não escorregarmos na areia fofa. Chegando ao carro, estávamos um pouco baqueados pelos efeitos da altitude combinados ao esforço físico.

Bolívia

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Admirando a Ruta de las Lagunas .

Depois da última noite no Atacama, partimos para a Bolívia. Optamos por cruzar a fronteira pelo paso Hito Cajón (também chamado Portezuelo del Cajón) para conhecer a chamada Ruta de las Lagunas. Esse paso gera algumas controvérsias, pois dizem que o risco de assalto na estrada é grande e que a cobrança de propina é frequente – lemos alguns comentários no app iOverlander. Não sei se foi o fato de estarmos entrando e não saindo ou por sermos brasileiros, mas fizemos a imigração sem qualquer problema, enquanto três gringos tiveram que pagar 17 pesos bolivianos (se não me falha a memória) ao deixarem a Bolívia.

Com os passaportes carimbados, fomos informados pelos guardas que a aduana do carro seria feita somente no posto Apacheta, que fica dentro de uma mineradora a 80 km dali, pois a aduana na entrada da Reserva Eduardo Avaroa estava fechada nesse horário. Seguimos com receio de perder o horário e não encontramos ninguém quando chegamos ao posto. O guarda apareceu em 15 minutos e não queria fazer o processo; disse que deveríamos ter feito isso na entrada da reserva e nos mandou esperar. Cerca de 20 minutos depois, me chamou à sua sala e começou a inserir os dados no sistema Sivetur. Para quem viaja com carro próprio na Bolívia, ter os dados do veículo inseridos nesse sistema é fundamental. O consulado brasileiro em Santa Cruz de la Sierra informa que carros fora desse sistema podem ser confiscados e irem a leilão em pouquíssimo tempo, sem que os representantes brasileiros possam interferir.

Assim que recebemos os papéis, voltamos para a estrada e continuamos na direção da Laguna Colorada. Encontramos hospedagem no povoado de Huyallajara, onde todas as casas parecem terem sido transformadas em hospedagem ou vendinha. Além da “cozinha” (um cômodo com um tambor cheio de água e uma pia sem cano), dividimos uma garrafa de vinho boliviano com um casal de peruanos – longe de ser bom, pelo menos não deu dor de cabeça.

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Árbol de Piedra, uma das atrações do Deserto de Siloli.

Ao deixarmos a reserva, pagamos o valor dos ingressos, 150 pesos bolivianos por pessoa, já que não havia ninguém para nos cobrar na outra entrada. Paramos para admirar a Árvore de Pedra, antes de continuarmos pelo Deserto de Siloli. Não há uma estrada certinha e as diversas marcas de pneus na areia podem facilmente confundir os motoristas. Atravessamos esse trecho seguindo uma rota baixada do wikiloc e inserida no gps.

Pelo caminho, encontramos diversos Land Cruisers, o carro favorito dos bolivianos para transportar os turistas e acelerar pelo deserto como se não houvesse costelas de vaca. Apesar de ninguém falar nada, pelo jeito como nos olhavam em algumas paradas, tínhamos a sensação de que éramos mal vistos pelos guias por estarmos ali com carro próprio.

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Encontro inesperado com ciclistas franceses.

Mas o deserto trouxe uma boa surpresa para nós. Encontramos dois ciclistas franceses, os irmãos Clément e Aurélien, que saíram da Colômbia com destino ao Ushuaia. Oferecemos água a eles e ouvimos algumas histórias sobre viagens e o projeto Ocean Cleaner’zh de limpeza e conservação dos oceanos, promovido pelos dois em parceria com mais um amigo.

Uyuni é meio caótica, as regras de trânsito não parecem ter muito valor por ali e a cidade em si não tem muita graça. Tudo é centrado no turismo, com várias agências e seus pacotes clássicos para o salar e arredores, hotéis e restaurantes. Estes oferecem praticamente o mesmo cardápio, que inclui de pizza a comida mexicana, com opções variadas de bebidas a base de café. Jantamos uma pizza nada especial e nos surpreendemos com a cerveja de quinoa – lembrava uma weissbier e era bem boa. Fiquei surpresa também com a quantidade de coreanos passeando por ali – dois dos quais protagonizaram um ensaio fotográfico de casamento no cemitério de trens.

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Hotel, restaurante e lojinha no Salar de Uyuni.

Na beira do Salar de Uyuni, contratamos um guia para percorrer um trecho dessa imensidão de sal e fomos até o hotel, onde também funciona um restaurante e uma lojinha de souvenir, claro. Não arriscamos ir com nosso carro porque o sal detona os veículos; além disso, os bolivianos já ficam preparados, forrando a parte de baixo dos carros com lonas.

No caminho entre Uyuni e Villazón, passamos por dois pedágios. Embora um deles fosse bastante informal – uma cancela no meio da estrada com uma casinha ao lado – e bem mais caro (pagamos 20 pesos bolivianos neste e 5 no outro), nosso maior susto foi quando dois militares nos pararam entre as vilas Oploca e Tupiza.

Para nosso azar, ainda trazíamos um galão de combustível, que compramos para cruzar o trecho das lagunas e não foi necessário. Ao revistar o carro, um deles obviamente encrespou com isso. Argumentamos que nos inspiramos nos bolivianos e o questionamento seguinte foi sobre o quanto pagamos pelo litro de gasolina, já que o combustível é vendido por preços diferentes para bolivianos e estrangeiros. Não me recordo os valores exatos, mas quem vem de fora paga o dobro. Até recebemos a “dica” para irmos aos postos com galões, darmos os números dos nossos RGs e enrolarmos um pouco na pronúncia dos nossos sobrenomes (no meu caso, é impossível!) para pagarmos mais barato. No entanto, a Bolívia já é um país de gente sofrida e que passou por tanta exploração, que em momento algum cogitamos essa possibilidade.

O militar aquietou-se ao receber a resposta sobre nossas profissões. Nosso interrogador devolveu nossos passaportes e a carteira de motorista do Artur, disse para esvaziarmos o galão e seguirmos viagem. Considerando o que li em relação ao confisco dos carros não inseridos no Sivetur, fiquei surpresa porque ele não pediu nenhum documento referente ao veículo.

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Paisagens bolivianas a caminho da fronteira de Villazón.

A fronteira de Villazón e La Quiaca é integrada e os trâmites de migração são feitos apenas no guichê argentino – assim, não há carimbo de saída da Bolívia no passaporte. Conversamos bastante com o oficial argentino que fez nossa aduana e suspeitamos que ele passou um pano para nós com o responsável pela revistas dos carros. Depois de um tempão examinando toda a bagagem de uma família argentina, ele mal olhou nosso porta-malas e nos liberou.

Argentina

No caminho para Salta, vimos uma procissão da Virgem da Candelária, que fechava parte da rodovia. Embora as pessoas dessa região sejam claramente de origem indígena, a devoção à santa católica mostra bem a influência dos colonizadores espanhóis.

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Artesanias de Uquía.

Sem pressa, aproveitamos para conhecer algumas vilas charmosas que estavam em nosso trajeto. A primeira parada foi em Uquía, que se destaca pelo artesanato de cerâmica e objetos diversos feitos com o tronco seco dos cardones.

Cercada por montanhas, Tilcara é uma graça e estava bem movimentada com muitos turistas argentinos. Aproveitamos para dar umas voltas pelo centro e comer empanadas e alfajores antes de voltarmos para a estrada. Fizemos ainda uma parada em Purmamarca, famosa pelo Cerro de los Siete Colores e ainda mais turística.

Depois de tantos dias passando por lugares pequenos, foi estranho chegarmos a uma cidade grande como Salta. Por azar, nosso dia livre na cidade era uma segunda-feira e alguns dos museus que queríamos visitar estavam fechados. Por outro lado, no Museu Histórico do Norte, tivemos a sorte de encontrar o Wildo, um guia muito simpático e que ficou animado com a curiosidade deste casal brasileiro.

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Videiras de uma dentre as diversas bodegas de Cafayate.

O próximo destino era Cafayate, incluído na lista por ser a cidade com as vinícolas em maior altitude do mundo, a 1.683m acima do nível do mar. Em um dia, fizemos três visitas guiadas, sendo duas com degustação. A Piattelli e a El Esteco são as maiores e com processos mais modernos. Visitamos ainda a Nanni, que produz alguns vinhos orgânicos e cuja visita é gratuita – paga-se à parte a degustação.

De volta ao Brasil

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Amigos queridos!

Ao pesquisar o caminho de volta para a casa, optamos por cruzar a fronteira em San Javier/Porto Xavier e passarmos pelo sítio dos amigos Ana e André, também conhecidos como Pedarilhos, que moram em Tangará-SC. Fiquei muito feliz por, finalmente, conhecê-los pessoalmente. Embora rápida, foi uma visita divertidíssima!

Dicas

Meus textos aqui são longos e sei que nem todo mundo tem paciência para lê-los. Então, para facilitar, decidi colocar algumas dicas aqui no final.

San Pedro de Atacama

  • Hostel El Anexo: melhor custo benefício que encontramos em San Pedro de Atacama. A simpática dona sempre reserva algum espaço para camping e motorhomes.
  • Franchuteria: MELHOR padaria da vila sem um pingo de dúvida. Deu água na boca só de pensar nos croissants.
  • Café Bumkaldi: foi o único lugar onde encontramos um café bom. Oferece ainda empanadas e bolos – opções veganas também.
  • Empório Andino: fica numa das pontas da Calle Caracoles e oferece ótimas empanadas.

Tilcara

  • Makoka: lugar charmoso, com um café gostoso e alfajor recheado com doce de cayote (a fruta, parente da abóbora, é chamada de gila em português e é comum no sul do Brasil). No local, é possível encontrar diversos livros sobre culinária local, cultura indígena e sobre a dominação espanhola.

Salta

  • Hostel Yatasto: nossa hospedagem em Salta, com garagem.
  • El Charruá: dica da dona do hostel, agradou à vegetariana e ao onívoro.
  • Casa Moderna: localizado na Calle España, 674, a casa não é nada moderna. Trata-se de um empório antigo – e lindo! Infelizmente, não é permitido tirar fotos.

Cafayate

  • Hostal Caetano: foi o melhor custo-benefício que encontramos na cidade.
  • Bodega Nanni: oferece visitas guiadas gratuitas – a degustação, no final, é paga à parte. Quem faz a visita tem direito a um voucher de desconto (5%) para jantar no restaurante que funciona dentro da vinícola – o desconto é ainda maior para quem pagar em dinheiro. Jantar delicioso!!

Apps

A navegação durante a viagem foi feita basicamente com os aplicativos abaixo. A exceção foi a rota das lagunas, onde usamos um aparelho de gps (eTrex 35) com um track baixado do wikiloc.

  • Google Maps: descobri nesta viagem que o app possibilita baixar mapas para consultas offline.
  • iOverlander: traz dicas de locais para camping (tanto selvagem quanto com estrutura), restaurantes, pontos de água, mecânicos, bancos, fronteiras entre outros. Conteúdo atualizado pelos próprios usuários, é mais voltado para quem viaja de carro, mas encontrei dicas e informações postadas por ciclistas.
  • Maps.me: recomendado pelo casal de peruanos, também traz dicas para viajantes e traça rotas utilizando carro, transporte público, bicicleta e até a pé. É preciso baixar os mapas antes.

#michayarturoenlaruta

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