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Do Marinzinho ao Marins num treino de trail run

Galera no cume do Marins

Todo mundo feliz no cume do Marins.

No começo de janeiro, os amigos do Se Ela Corre eu Corro, Cris e Gabriel, fizeram um convite para participar de um treino de trail run em Marmelópolis-MG. Eu não corro (embora tente, às vezes), mas acabei topando porque o percurso incluía um trecho da travessia Itaguaré-Marins, que eu já conhecia.

A viagem de São Paulo até Marmelópolis foi debaixo de chuva em boa parte do caminho e com bastante neblina no trecho de terra até a pousada do Djalma. Ficamos botando o papo em dia e fomos dormir um pouco tarde. A ansiedade ainda fez com que eu acordasse várias vezes durante a noite.

Marinzinho-Marins

Todo mundo a postos

Vistoria: check; briefing: check; foto: check. Bora subir!

No sábado, levantei cedo, me arrumei, tomei café e fui com os amigos para a vistoria e briefing (impossível não lembrar das provas de Audax). Os itens obrigatórios checados na vistoria eram anorak, cobertor de emergência, apito, kit básico de primeiros socorros e o estado do tênis de trilha/trekking. Foi engraçado ouvir o pessoal reclamando que estava carregando muito peso e eu só conseguia pensar: “nossa, nunca estive tão leve”.

Saímos da Pousada do Maeda em direção ao Pico do Marinzinho. Éramos mais de 70 pessoas divididas entre os grupos avançado, intermediário e conservador. O pessoal do avançado, como era de se esperar, disparou. Fui com o intermediário, pensando que, se não aguentasse, poderia me juntar ao conservador. Até rolou um trotezinho na descida, mas depois a subida começou e não parou mais.

O primeiro trecho é uma estrada de terra e depois vem uma trilha pela mata. Não consegui manter o mesmo ritmo nessa parte, mas bateu a empolgação quando começou a escalaminhada. Segui junto com a Luara e logo reencontramos o pessoal – Cris, Gabriel, Karol e Will – no cume do Marinzinho. Pausa curta para fotos e lanchinho e tocamos em direção ao Marins.

Escalaminhada

E começou o trepa-pedra.

Essa parte foi a mais legal para mim. Consegui desenvolver um bom ritmo, fui lembrando de vários trechos da travessia e matando a saudade da montanha. Chegando ao platô, o grupo se dividiu entre os que iriam descer e os que queriam fazer o cume. Subimos bem e o tempo ajudou a termos uma vista linda lá de cima.

A descida do Marins foi melhor do que imaginávamos. Estava com receio da parte da “escadinha” porque tinha dado uma travada nas outras vezes que passei por ali. O Romário, que estava guiando nosso grupo, foi super atencioso e ajudou muito nessa descida, orientando o pessoal sobre onde se apoiar. Quando chegou minha vez, desci com tanta facilidade que até desacreditei.

Flagra

Pega no flagra ou pose para foto? Foto: Gabriel Ciszewski.

O treino terminava com 8km em estrada de terra. O pessoal logo disparou na corrida e fui ficando para trás. Decidi não forçar e comecei a caminhar, mas logo aproveitei a carona do Sinoca.

Encerramos o sábado com uma roda de conversa, muita cantoria de raiz (haha), vinho e cerveja.

Pedra Montada e Caminho das Águas

O treino original no domingo era irmos até o Itaguaré e voltarmos, porém, na véspera, fui sondar com o sr. Djalma se poderíamos deixar os carros no campinho, mas ele avisou que continua não sendo uma boa ideia. O pessoal acabou se dividindo. Um casal foi fazer o Itaguaré, pois está treinando para uma prova, outra turma subiu até a Pedra Montada e lá se dividiu de novo, com algumas pessoas indo mais uma vez ao cume do Marinzinho.

É para lá que nós vamos

É para lá que nós vamos!

Nós saímos mais tarde e fomos até a Pedra Montada. Fiquei com vontade de continuar até o Marinzinho, mas quis aproveitar a companhia dos amigos. Descemos e fomos para o Caminho das Águas. Desta vez, conheci todas as cachoeiras dali com direito a banho beeeeem gelado.

Durante e depois do almoço, ficamos conversando mais um pouco e o pessoal começou a se dispersar. O Will e eu não queríamos chegar muito tarde em São Paulo e saímos de lá no meio da tarde.

O treino foi organizado com esmero pelo Marcelo Sinoca e pela Juliana Salviano, da Trail Runners Brasil (TRB) e não poderiam ter escolhido percurso melhor. Agradecimento especial aos “laranjinhas” pelo convite e companhia. Conheci tanta gente e me diverti tanto que já quero repeteco – até porque garanti minha camiseta e tenho que honrá-la. ;)

Cicloviagem da virada 2017

Admirando a Serra da Beleza

Admirando a vista da Serra da Beleza.

Uma amiga querida, a Vivi, me fez um convite irrecusável para o final de ano: uma cicloviagem só de mulheres. Ela bolou um roteiro bem legal de São João Del Rei a Volta Redonda e mandou um e-mail detalhado com informações de distâncias, altimetrias, hospedagens e estimativa de tempo entre uma cidade e outra.

Embarquei em São Paulo junto com a Fernanda e a Renata com destino a São João Del Rei, onde encontramos a Vivi. O transporte das bikes foi bem tranquilo e o motorista foi bastante atencioso. Não pegamos trânsito e a viagem demorou 8 longas horas. Nessa primeira noite, ficamos no AZ Hostel, no centro histórico. Preço bom e lugar bacana.

De São João Del Rei a Madre de Deus de Minas

Como o café da manhã é oferecido fora do hostel, atrasamos um pouco nossa saída. Pedimos informação para o rapaz na recepção sobre o melhor caminho para sairmos da cidade e logo de cara já lembramos que subida para mineiro é algo bem relativo.

Nós e os caminhões

Vivi ganhou o título de miss simpatia.

Estava com receio dos 13 primeiros quilômetros. Passamos por eles de ônibus no dia anterior e a pista é bem estreita, sem acostamento e com movimento intenso de caminhões. Mas não tivemos qualquer problema. Pelo contrário, numa longa descida, um caminhoneiro até segurou o trânsito para nós.

Primeiro café da viagem

O primeiro café da viagem. Que delícia!

A estrada que vai para Madre de Deus é linda, tranquila e cheia de sobe-desce. Aqui rolou o primeiro café da viagem, sob a convidativa sombra de árvores. Um cara num jipe parou para ver se estava tudo bem e fez uma cara bem engraçada ao perceber que estávamos fazendo café.

Essa estrada é cercada por plantações de milho e não tem abastecimento algum. O calor estava infernal e ao nos depararmos com uma casa no meio do caminho parecia que tínhamos encontrado um oásis. Faltavam poucos quilômetros para a cidade, mas a água geladinha servida pela Mara fez uma diferença enorme.

Em Madre de Deus, almoçamos no restaurante Aconchego Mineiro, da Dalva. Comida simples e saborosa temperada com simpatia. A pousada fica ali perto, depois de uma subida, claro. Tomamos banho e esperamos o sol dar uma trégua antes de darmos uma volta. Não há muito o que fazer por ali, então tomamos um açaí e depois jantamos no mesmo restaurante.

De Madre de Deus de Minas a Bom Jardim de Minas

Pelo gráfico de altimetria, sabíamos que hoje seria um dia de muito sobe e desce. E também o dia de maior quilometragem de toda a viagem. O que nos deixou mais tranquilas é que havia mais cidadezinhas pelo caminho e água não seria um problema como na véspera.

Água, café, queijo e vinho

Água, gatorade, queijos e vinhos.

Seguimos bem até São Vicente de Minas, onde paramos em uma lojinha para pegar água, gatorade e beliscar algumas comidinhas. Descobrimos que aqui é onde fica a fábrica da Polenghi e havia uma boa oferta de diferentes tipos de queijos. Os vinhos também estavam com preços bons e levamos dois.

Quase chegando a Andrelândia, o filho de uma amiga, a Roberta Godinho, foi nos encontrar na estrada. Depois, seguimos até a cidade, onde almoçamos no Pub House. Logo chegou a mãe da Roberta. “Encontrei as meninas de bicicleta.” E depois a tia, a irmã, filhos e sobrinhos. Muita simpatia e ótima recepção. Eles tiraram tantas fotos nossas que a moça do restaurante perguntou: “vocês são famosas?”.

Quando voltamos para a estrada a Vivi reclamou que a bicicleta estava muito pesada para pedalar. Paramos para olhar e percebemos que as marchas mais leves não estavam entrando. O cabo estava meio molenga no sti e pensei se o cabo poderia estar desfiando. Primeiro tentamos regular o câmbio, mas não rolou. Então, ligamos para nosso consultor especial, o Artur, e esse foi o diagnóstico. Fomos à bicicletaria Planet Bike, em Andrelândia, e o Quelson fez a troca.

Olha a subida

Se não gosta de subida, melhor não ir para Minas.

A próxima parada foi em Arantina para água e, por falta de tempo, não teve café na estrada. As subidas não eram íngremes, mas eram longas e frequentes.

Em Bom Jardim de Minas, fomos direto para o centro procurar um lugar para jantarmos, Logo o dono da pousada onde tínhamos reserva apareceu, preocupado conosco – a mesma coisa aconteceu no dia anterior. Ele nos indicou um atalho já que os Chalés Camará ficam a uns 3km da cidade. Óbvio que nem tudo é fácil e tivemos que encarar a pior subida até então: 14%.

A noite terminou com vinho, céu estrelado, risadas e muita conversa boa.

De Bom Jardim de Minas a Conservatória

Café na varanda do chalé

Café para começar bem o dia.

Tivemos uma manhã bem preguiçosa, com direito a enrolar na cama e fazer café na varanda do chalé. A Vivi é dona do charmoso Musette Café e levou um café bem bom, prensa francesa e hario para preparar café. O café plantado pelo pai da Renata também estava na bagagem e eu levei uma cafeteira italiana.

Cicloviagem da Virada

Que serra mais linda!

Café tomado, fomos para a estrada. O percurso de hoje foi o mais lindo. Começamos num falso plano com vento contra e morros a perder de vista. Ao contrário do que nos falaram, a estrada é tranquila demais e uma delícia para pedalar. Descemos a primeira serra do dia e fiquei para trás, por um misto de receio de descidas íngremes com curvas e paradas parar admirar a paisagem e tirar fotos.

Que calor!

Todo mundo com calor.

Almoçamos em Santa Rita do Jacutinga num restaurante recomendado pela mãe da Vivi e, por causa do calor, enrolamos quase duas horas num café antes de criarmos coragem para encarar a Serra da Beleza.

O tempo começou a virar e o vento contra deu o ar da graça, mas não pegamos chuva. Esta foi a subida mais cansativa, nem tanto pela altimetria, mas pela moleza provocada pelo calor. Faltando uns 2km para o topo, entendi porque ela é chamada de Serra da Beleza: que vista incrível! O lugar é famoso também pelas histórias de ovnis e bastante procurado por ufólogos.

Descemos bem e brindamos o terceiro dia de pedal com cerveja de boteco. Depois, fomos para a casa reservada pela Vivi para a virada, onde fomos muito bem recebidas. Além de decorarem a casa e deixarem um pote com mix de castanhas, nos presentearam com um prosecco.

Relaxamos um pouco antes de tomar banho e dar uma volta pelo centrinho. Não havia muitas opções e acabamos jantando pizza em frente à chamada praça de baixo.

Conservatória

Nosso plano de tomar banho de cachoeira não rolou. A única com acesso fácil, a Cachoeira da Índia, está interditada. Depois do café, a Vivi foi pedalar um pouco para atingir a meta do desafio Rapha 500 do Strava e a Renata foi junto.

Cicloviagem da Virada

Nós e as bikes em Conservatória-RJ.

Almoçamos no restaurante Gema da Roça, que fica na Rodovia Canção do Amor. Um cara que trabalha lá, o Miguel, veio conversar conosco sobre as bikes. Ele falou sobre algumas estradas de terra legais da região, nos deu um mapa dos arredores e se despediu dizendo que iria passar a tarde na Cachoeira do Destino. Fiquei com vontade de vir para cá com a mtb.

Nossa virada foi bem tranquila. Pedimos pizza, brindamos com prosecco e ficamos papeando enquanto a chuva caía forte. Assistimos à queima de fogos da sacada e fomos dormir pouco depois da meia-noite. Definitivamente, um bom começo de ano.

De Conservatória a Volta Redonda

Depois do café, já estava com tudo pronto, mas a saída de hoje foi enrolada. Nos despedimos da simpática família e fomos encarar a Serra da Beleza novamente. No roteiro inicial, iríamos passar por São José do Turvo, mas descobrimos que o caminho até lá é por terra. Com a mudança, pedalamos cerca de 20km a mais.

Descemos tanto na chegada a Conservatória que imaginamos uma subida bem pior do que ela realmente é. Quando chegamos ao topo, até me perguntei: “já acabou?”. Escolhemos um ponto com uma vista incrível e fizemos o último café da viagem, com direito a sequilho para acompanhar.

Os prazeres da descida

Redescobrindo os prazeres da descida na Serra da Beleza.

Encaramos uma longa descida até Santa Isabel do Rio Preto, onde paramos num boteco para comprarmos água. O calor era tanto que acabamos pedindo também uma cerveja. Mal saímos do bar, o pneu da Renata furou e voltamos para trocá-lo.

O restante do caminho foi tranquilo, com poucas subidas, porém, o calor estava insuportável e bateu um pouco de moleza. Fui acompanhando a Fê, que teve uma leve queda de pressão. Em Nossa Senhora do Amparo, mais uma parada rápida para água e isotônico e seguimos para os últimos quilômetros.

Quanto mais perto da cidade, maior a falta de respeito por parte dos motoristas. Tomamos algumas finas, mas, por sorte, não aconteceu nada grave. O desafio final era a ladeira para chegar à casa dos pais da Vivi, que está dividida em três estágios: inclinada, pqp e a subidinha final, que seria ok se não viesse depois da pior parte. Todo mundo empurrou.

Um brinde!

Um brinde para comemorar esses dias fantásticos.

Fomos muito bem recepcionadas pela mãe da Vivi, com uma mesa farta (ela fez moqueca de jaca verde para mim), e pelo Artur, que levou Bauzeras para brindarmos. O restante do dia foi de comilança, piscina e pernas para o ar.

Quando a Vivi fez o convite, eu tinha certeza de que essa viagem seria bem legal. Só não tinha ideia de que seria ainda mais incrível do que eu imaginei. Estradas lindas, companhias especiais, subidas e mais subidas. Fez um danado para a alma!

Quilometragem e altimetria

Dia 1 – São João Del Rei a Madre de Deus de Minas: 59,2km; 994m acumulados
Dia 2 – Madre de Deus de Minas a Bom Jardim de Minas: 91,9km; 1.648m acumulados
Dia 3 – Bom Jardim de Minas a Conservatória: 75,6km; 863m acumulados
Dia 4 – Dia da virada
Dia 5 – Conservatória a Volta Redonda: 65,4km; 828m acumulados

Tem mais fotos e uns vídeos engraçadinhos aqui.

Minha primeira cicloviagem solo

De Itanhandu para Resende

Em abril de 2015, decidi que iria fazer uma viagem de bicicleta sozinha num final de semana. Abri o Google Maps e o Ride with GPS e fui olhando estradas e pensando nas possibilidades. Para facilitar a logística, escolhi cidades com boas opções de ônibus de e para São Paulo como pontos de partida e de chegada. E, entre elas, optei pelas estradas menos movimentadas.

Por vários motivos, a viagem aconteceu apenas em maio de 2016. O dia amanheceu chuvoso e foi assim até minha chegada a Itanhandu. Enquanto pegava água na vendinha da rodoviária, a chuva foi diminuindo e parou de vez assim que comecei a pedalar. Um bom sinal!

De Itanhandu a Alagoa

De Itanhandu para Resende

Peguei um trechinho da Estrada Real que liga Itanhandu a Itamonte e foram 10 km de bastante lama. A estrada estava escorregadia em algumas partes e fui com cautela, principalmente, nas descidas.

A estrada de Itamonte para Alagoa faz parte do Caminho dos Anjos com uma longa subida de 20 km. Como eu sabia o que me aguardava a partir dali, aproveitei para comer um pouco num boteco na cidade.

Nessa saída de Itamonte, já num bairro mais afastado, uma senhora abanou a mão para mim super animada e gritou: "vamos chegar prum cafezim". Por essas e outras que amo viajar por Minas.

De Itanhandu para Resende

A primeira parte da subida é asfaltada e foi bem mais tranquila de pedalar do que no Carnaval graças ao tempo ameno e às marchas mais leves. Parei no mesmo boteco da outra viagem para comprar água antes de encarar o segundo trecho, que é de paralelepípedos e mais íngreme.

De Itanhandu para Resende

Fiquei bem feliz por chegar ao topo sem sinal de chuva. Para descer, escolhi o caminho à esquerda e fui por dentro do Parque Estadual Serra do Papagaio. A estrada é bem bonita, porém, como iria escurecer logo, não parei para tirar fotos.

Pouco antes de encontrar o asfalto novamente, há uma bifurcação e fui pelo caminho da esquerda, pois queria passar em frente à Pousada Casarão (minha primeira opção de hospedagem quando estava planejando o roteiro). Os últimos 10 km foram no asfalto e sem iluminação.

Em Alagoa, fui direto para a Pousada Flores da Mantiqueira, onde a Guela me esperava. Infelizmente, o restaurante do Gustavo estava fechado, mas ela encomendou meu jantar enquanto eu tomava banho. Um senhor que estava na pousada me reconheceu da estrada. Ele passou de moto e me cumprimentou perto da outra pousada.

De Alagoa a Penedo

Enrolei um pouquinho na cama quentinha e saí às 8h30 da pousada depois de um bom café. O começou foi tranquilo e as primeiras subidas foram suaves, com muitas árvores sombreando o caminho e o barulho constante de água.

De Itanhandu para Resende

No meio da primeira subida mais longa, fiquei pensando se poderia ser a primeira serra do dia, mas depois não tive a menor dúvida quando ela realmente começou. Na descida, fui ultrapassada por uma caminhonete que encontrei logo depois parada em frente a uma casa. Conversei um pouco com dois senhores e segui.

A descida ficou pior: mais íngreme, esburacada e com pedras soltas. Levei um tombo besta por estar devagar demais e não conseguir desclipar a tempo. Nada grave.

De Itanhandu para Resende

Em Santo Antônio do Rio Grande, parei num mercadinho para comer e beber algo. Esse distrito de Bocaina de Minas é uma graça e depois descobri que há muitas cachoeiras legais por ali, então, vale a pena voltar.

São apenas 10 km até Mirantão, outro distrito de Bocaina de Minas. Só que tem uma serrinha no meio do caminho. Parei num trailer de lanches para tomar uma coca e depois continuei rumo a Visconde de Mauá.

Esse trecho é predominantemente plano e com algumas descidas. A estrada vai margeando o Rio Preto e ao poucos surgem casas, sítios e pousadas pelo caminho. Pouco antes de começar o asfalto, as subidas recomeçaram com muitas pedras e buracos. Acho que alguns motoristas não gostaram muito de serem ultrapassados por mim nessa parte.

De Itanhandu para Resende

A terra acaba na estrada que liga Visconde de Mauá à Maringá. Há uma subidinha curta até Visconde de Mauá, depois são 3 km até o topo da Serra da Pedra Selada e, por fim, uma longa descida. Apesar da estrada ser linda, foi um pouco chato descer com os carros. Não há acostamento e nem sempre eles reduzem a velocidade ou tomam distância na hora da ultrapassagem.

Cheguei uma hora antes do que havia programado e fui direto para uma pousadinha já reservada. A noite terminou com pizza e cerveja.

De Penedo a Resende

De Itanhandu para Resende

Nem tudo são flores e, para voltar para São Paulo, tiver que encarar quase 13 km na Dutra para chegar à rodoviária de Resende. Deixei para comprar a passagem na hora e dancei, pois o primeiro ônibus já estava lotado.

Essa viagem é uma boa opção para um final de semana, seguindo direto para Resende para pegar o ônibus. Fiz em três dias, pois queria conhecer Penedo por causa da colonização finlandesa. Pena que não encontrei muita coisa além de lojinhas de souvenirs.

Bikepacking e rota

Como a altimetria é puxada, quis viajar leve. Dormi em pousadas e viajei apenas com uma roupa para pedalar, uma roupa de "civil", uma necessaire pequena e um par de chinelos. Ao invés de alforje, optei por acomodar minhas tralhas na bolsa Marimbondo, de bikepacking.

1º dia: 52,5 km com + 1.349m
2º dia: 78,7 km com + 1.716m

Itanhandu-Resende

A rota está disponível no Ride with GPS.

Superagui 2016

Superagui

Seis bicicletas, alforjes e um carrinho de bebê.

Quem me conhece sabe que não sou nem um pouco fã de praia, mas de vez em quando eu vou para acompanhar amigos. Desta vez, o destino foi a Ilha do Superagui e éramos três casais e um bebê de um ano em uma cicloviagem.

Fomos de carro de São Paulo até Cananeia, onde encontramos o pessoal e pegamos o primeiro barco até a Vila no Marujá na Ilha do Cardoso. Esse trecho leva cerca de uma hora. Por garantia, já deixamos a volta combinada.

A primeira parte do pedal foi bastante tranquila. Seguimos por 19 km pela praia com pouco vento contra. No “centrinho” da ilha, nos avisaram que a praia ia até o Bar das Mulheres e lá encontraríamos alguém para nos levar na segunda travessia de barco.

Superagui

Entre uma ilha e outra, travessia de barco.

A surpresa foi nos depararmos com um bar fechado e com jeito de abandonado. Descobrimos depois que ele abre apenas na temporada, ou seja, no verão. Aproveitamos para fazermos um lanchinho e depois fomos até uma das casas ali procurar alguém com barco, o que foi bem fácil. Negociamos a ida e a volta.

O último trecho era pela Praia Deserta, com 20 km de extensão. O vento contra aumentou um pouco e deixou o pedal um pouco mais chatinho. Aqui é uma questão de gosto e achei tedioso pedalar numa reta só. Ainda bem que era uma cicloviagem e as companhias animaram o caminho.

O primeiro dia de viagem terminou numa vila onde estão concentradas as pousadas, campings e restaurantes. A Tricia já havia feito nossa reserva, mas o lugar estava bem tranquilo por causa da baixa temporada.

No segundo dia, ficamos de bobeira por ali. Caminhamos, vimos golfinhos, comemos e descansamos.

Superagui

Rumo à Cananeia.

Com receio de perdermos os barcos, saímos cedo no terceiro dia. O tempo estava a nosso favor e, sem vento contra, chegamos adiantados ao primeiro ponto de encontro.

Outra parada para lanche no Bar das Mulheres e descobrimos um jacaré ali perto. Ainda bem que ele estava quietinho tomando sol e nem ligou para nós.

O pedal seguiu tranquilo pelos quilômetros restantes e chegamos quase duas horas antes do previsto. Esperamos num dos bares da Ilha do Cardoso, comendo besteiras e brindando à viagem.

Quando estava pesquisando o roteiro, descobri que existe uma rota de cicloturismo que passa por ali. Para quem tiver interesse, aqui estão os links:

Circuito Lagamar
Cananeia-Superagu

Outra dica é que viajar em maio foi uma boa escolha, pois não estava tão calor e as pousadas não estavam cheias.

Carnaval 2016

Carnaval 2016

Ah, Minas Gerais.

Neste ano, combinamos uma cicloviagem com um casal de amigos, a Elo e o Silvio, e nossa opção foi o Caminho dos Anjos, que estava na cabeça desde o carnaval do ano passado, quando passamos por algumas plaquinhas.

Saímos sexta à noite de São Paulo rumo a Passa Quatro. Optamos por dormir num hostel, onde deixamos o carro, para começarmos a pedalar cedo no dia seguinte. Só que o plano não deu certo. Com o cansaço de quem foi deitar às 2h da manhã, acabamos dormindo um pouquinho mais e, nos dias seguintes, mantivemos essa tendência de sair quase sempre depois do planejado.

De Passa Quatro a Alagoa

O começo é bem bonito. Subimos um pouco e ficamos admirando a paisagem. Com 10 km, vimos uma placa indicando a Pedra da Mina e, pouco depois, reencontramos um trio de senhoras que estava fazendo o trajeto a pé e saíram antes de nós do hostel.

O trecho entre Itanhandu e Itamonte estava um pouco movimentado, provavelmente por causa do carnaval. Essa parte foi um pouco chata por causa dos carros passando com som alto, mas fizemos uma parada para lanchinho na beira de um rio para compensar.

Itamonte

Subida para Itamonte.

Depois de Itamonte é que o bicho pega com uma longa subida. São cerca de 20 km sempre subindo. Esse trecho é um misto de asfalto e paralelepípedos e quase derretemos com o calor de 38°C. Enquanto subíamos, o céu ficava cada vez mais escuro na direção para onde estávamos indo. Logo começou um chove-e-para e a temperatura foi caindo.

Ao chegarmos ao topo da subida, que fica no Parque Estadual Serra do Papagaio, a chuva resolveu apertar e não parou mais. Seguimos pelo asfalto esburacado em várias partes. Alguns motoristas imprudentes passaram por nós em uma velocidade que indicava descaso com os ciclistas, com a lama escorregadia e com o abismo do lado esquerdo.

Ainda empolgada com a viagem da Patagônia, fui com uma bike touring com guidão drop e freios cantilever. O resultado é que sofri um tanto na descida e tive que parar algumas vezes para alongar os dedos, as mãos e punhos. Faltando menos de dez quilômetros para Alagoa, diminuímos a velocidade para acompanhar uma família que pedalava sem luzes. A mãe ia na frente e o pai seguia com a filha na garupa. Ambas tentavam inutilmente se protegerem da chuva com sombrinhas.

Em Alagoa, nos hospedamos na Pousada Flores da Mantiqueira da fofíssima Guela. Chegamos ensopados e ela gentilmente lavou (!) todas as nossas roupas – pensamos que a oferta era apenas para centrifugar as peças. E ainda ganhamos café e chá quentinhos.

Por indicação dela, jantamos no restaurante Sabor & Arte, do Gustavo. Foi um jantar farto com salada de couve orgânica e comida caseira feita com carinho.

De Alagoa a Aiuruoca

O café da manhã foi uma delícia e óbvio que enrolamos para sair de novo. A estrada começou tranquila e deliciosa para pedalar. Vimos um filhote de cobra coral que se escondeu rapidinho no mato. Encontramos uma família caminhando e um casal de ciclistas também de São Paulo que estavam aproveitando o feriado por ali.

Cangalha

A caminho do Matutu via Cangalha.

Chegando perto de Aiuruoca, há uma bifurcação. A rota oficial do Caminho dos Anjos vai pela direita, mas nós optamos por conhecer a região chamada Cangalha. Além de paisagens lindas, havia muita subida! A descida é por um singletrack bastante técnico e, apesar do garfo rígido, do guidão drop e, principalmente, da minha falta de habilidade, consegui descer alguns trechos pedalando sem problemas.

O singletrack termina no Vale do Matutu, que conhecemos em uma viagem de final de ano. Já que estávamos ali, aproveitamos para almoçar no restaurante da Tia Iraci. Entre pratos fartos, cachaças e cervejas artesanais, decidimos abortar o restante da viagem. A Elo estava sentindo muita dor num dos joelhos e o trecho seguinte até a cachoeira dos Garcias tem subidas bastante puxadas. Então, ficamos um bom tempo aproveitando o espaço do restaurante, que tem um quintal delicioso.

O dia terminou na Estalagem do Mirante. Chegamos no momento em que a chuva apertava e demos sorte, pois ainda havia lugares no quarto destinado aos peregrinos.

De Aiuruoca a Virgínia

Estalagem do Mirante

Estalagem do Mirante.

Já que a viagem de bike havia sido abortada, não nos preocupamos em sair cedo. Depois do café-da-manhã, fomos até um mirante dentro da pousada e ficamos admirando a paisagem e batendo papo.

Aiuruoca

Centro de Aiuruoca.

Pedalamos até o centro de Aiuruoca e aí rolou uma saga para resgatarmos o carro em Passa Quatro e depois as bikes em Aiuruoca. Decidimos dormir no Pesqueiro 13 Lagos em Virgínia, porém, embora tenhamos confirmado a hospedagem com o sr. Mauro, não havia ninguém para nos receber. Fomos parar num hotel recém-inaugurado.

De Virgínia a Marmelópolis

Fuçando no GPS, o Artur sugeriu seguirmos por uma estrada que liga Virgínia a Marmelópolis. Assim, iríamos embora passeando. A sugestão agradou todo mundo, pois a estrada é linda, cercada de árvores e com uma cachoeira enorme em uma de suas curvas. Enquanto subíamos, subíamos e subíamos, eu pensava, preciso voltar aqui para pedalar.

Caminho das Águas

Trilha das Águas, dica do sr. Maeda.

Em Marmelópolis, fomos visitar o fofíssimo senhor Maeda. Ele nos deu a dica do Caminho Trilha das Águas, com direito a mapinha desenhado e xerocado. Saímos pelos fundos da pousada até uma estrada e depois pegamos uma trilha que leva a uma sequência de cachoeiras. A água estava geladíssima, mas depois que acostumamos, não queríamos mais sair dali.

Eu já tinha viajado com a Elo e fiquei muito feliz com as companhias. Rimos muito, comemos bastante, pedalamos um pouco (haha). A parte mais difícil, sem dúvida, foi voltar para São Paulo.

Flickr

Patagônia 2015

Patagônia 2015

Nos arredores de Bariloche.

A escolha do segundo destino de férias em 2015 coube ao Artur e não fiquei surpresa quando ele definiu: “vamos para a Patagônia”. Além de uma viagem de bicicleta, o roteiro incluía visitar a família hermana que ele conheceu quando cicloviajou de Santiago a Ushuaia em 2012.

A Felicitas foi nos buscar no aeroporto em Bariloche e fizemos uma surpresa para o Careca, que não fazia ideia da nossa chegada. Antes de partirmos para o Chile, tivemos um dia de descanso e os amigos aproveitaram para colocar um pouco do papo em dia. 

Paso Cardenal Samoré

Com o tempo contado, fomos de ônibus de Bariloche para Puerto Varas para iniciarmos o pedal. A viagem demorada foi compensada pelas belezas do caminho. Primeiro, passamos por uma parte da Rota dos Sete Lagos e depois seguimos para o Paso Cardenal Antonio Samoré. Ao longo da estrada ainda havia bastante neve e ficamos pensando em como seria pedalar por ali.

Puerto Varas – Ensenada (45 km)

Patagônia 2015

Ciclovia ligando Puerto Varas a Ensenada.

O primeiro dia de pedal foi bastante tranquilo: pedalamos por uma ciclovia que liga Puerto Varas a Ensenada e pudemos admirar o vulcão Osorno por praticamente todo o caminho. Chegamos cedo ao nosso destino e nos instalamos no camping Montaña.

A cidade não oferece muitas opções e parte do comércio ainda estava fechada porque a temporada não havia começado. Nesse camping, por exemplo, há um restaurante que só funciona durante o mês de janeiro.

Passamos o resto do dia admirando o vulcão Osorno na beira do Lago Llanquihue e tirando fotos. Preparamos o jantar e, em homenagem ao Tux e ao Davi, que fizeram a primeira parte da viagem com o Artur em 2012, tomamos vinho de caixinha tetra-pak. Um vinho da casa “melhorado”.

Ensenada – Puelo (79 km)

Patagônia 2015

Tchau, Osorno!

Aos poucos, deixamos o Osorno para trás, mas fomos acompanhados por outros picos nevados por um bom trecho. Havia muita água cristalina por todo o caminho, incluindo o Rio Petrohué. 

O almoço foi em Cochamó e, pela primeira vez, estive num restaurante onde não se serve água. A cidade não tem muita estrutura, mas a região é linda e atrai pessoas interessadas em caminhadas. Há alguns roteiros bem legais de trekking por ali e óbvio que eles estão na minha infindável lista de “quero fazer/quero voltar”.

Patagônia 2015

Olá rípio!

A partir de Cochamó, demos adeus ao asfalto e olá ao rípio. Logo na saída, encaramos um trecho com pedras maiores e muito sobe e desce. Embora não fossem longas e tampouco íngremes, as subidas eram frequentes e estávamos cansados quando encerramos o dia. 

Como era de se esperar, Puelo é uma vila pequena. Porém, teve algumas boas surpresas como um hostel novinho, limpo e ajeitado, um mercadinho bacana e wifi gratuito na praça (hehe). 

Puelo – Hornopiren (92 km)

Este foi o tramo mais longo da viagem. O começo foi no asfalto, com uma vista incrível para picos nevados, mas logo vieram o rípio e um sobe e desce pior do que o do dia anterior. As subidas e descidas eram mais íngremes do que na véspera e mais frequentes também.

Patagônia 2015

Entre Puelo e Contao.

Fizemos uma pausa para comer antes de chegarmos a Contao e vi, pela primeira vez, um leão marinho. 

Quando chegamos à vila, compramos água e mais algumas comidinhas antes de continuarmos. Nesse recomeço, encaramos uma subida chatinha e bateu uma preguicinha, mas tínhamos chegado cedo em Contao e achamos que não valia a pena pernoitar ali. De qualquer forma, o pedal rendeu, pois havia um trecho de asfalto no nosso caminho, já que a Carretera está sendo asfaltada aos poucos.

Patagônia 2015

A vista da chegada a Hornopirén encanta.

Na chegada a Hornopiren, passamos pela casa de um casal que nos havia oferecido carona mais cedo. O preço do camping era bom, mas optamos por ficar numa parte mais central. Acabamos hospedados em um hotel bem legal, com bom preço.

Depois de nos instalarmos, fomos atrás das passagens das balsas para Caleta Gonzalo (companhia Transportes Austral). É preciso ficar atento ainda às datas das balsas, pois, dependendo da época, ela não funciona diariamente.

Chegamos pouco antes do horário de fechamento do escritório e levei um tremendo susto quando a moça disse que não tinha mais lugar para embarcarmos no dia seguinte. Por sorte, o responsável pelo lugar apareceu nesse momento e falou: “eles estão de bicicleta. Pode vender as passagens.” Não havia espaço era para automóveis. 

Hornopiren – Caleta Gonzalo

A primeira providência do dia foi buscar as passagens, que ainda não haviam sido pagas. A atendente já tinha encerrado o caixa quando fomos comprá-las na véspera e, por isso, as deixou apenas reservadas.

Antes de embarcarmos, passamos numa vendinha para comprarmos mais comida e aproveitamos para pegar um vinho. Taí algo interessante no Chile, mesmo em mercadinhos safados, dá para encontrar bons vinhos.

Patagônia 2015

Prendendo as bicicletas no caminhão.

Conhecemos um casal do País Basco que estava começando a viagem pela Carretera. Juntos, combinamos com um caminhoneiro para fazer o transporte das nossas bicicletas num trecho de 10km entre Leptepú e Fiordo Largo, enquanto nós seguiríamos em uma van. O pessoal da empresa de transporte pede para que isso seja feito para não haver atraso na partida da segunda balsa.

A estrada não era ruim como falaram e constatamos que chegaríamos a tempo com as bicicletas. Só que teria sido horrível pedalar com a poeira absurda levantada pelos carros e caminhões passando em comboio.

Patagônia 2015

Duas balsas ligam Hornopirén a Caleta Gonzalo.

A segunda balsa é rápida e em cerca de 20 minutos estávamos em Caleta Gonzalo, dentro do Parque Pumalín.

Esse parque foi criado pelo fundador da empresa The North Face, Douglas Tompkins. Depois de uma viagem à região, ele se apaixonou pela Patagônia, começou a comprar terras por ali e criou áreas de preservação. 

Em Caleta Gonzalo há um café, um centro de informações, cabanas e um camping. O centro de informações estava fechado, pois a temporada ainda não havia começado. E essa foi a mesma explicação dada pelo guarda-parque Jorge para não termos encontrado ninguém responsável pelo camping. Simpático, ele disse para aproveitarmos. 

Patagônia 2015

Camping no Parque Pumalín.

A primeira providência foi tomarmos um banho de pia, pois não há chuveiros ali. O restante do dia foi bem tranquilo. Montamos a barraca, organizamos as tralhas, jantamos e ficamos conversando e tomando vinho até o sono chegar.

Caleta Gonzalo – Chaitén (56 km)

Apesar de muitas subidas, a estrada estava ok no começo. Mas é claro que o rípio piorou depois, com bastante cascalho e pedras grandes. 

Patagônia 2015

Estrada que corta o Parque Pumalín.

Cruzar o parque por essa estrada foi incrível. Primeiro, há um trecho de vegetação mais fechada e depois vimos muitas árvores mortas. Deduzimos que era consequência da última erupção do vulcão Chaitén em 2008.

Patagônia 2015

Muita água pelo caminho.

Alguém pelo caminho nos contou que há pouco tempo ocorreu uma enchente por ali e talvez isso explique algumas árvores arrancadas pelas raízes que vimos nas laterais da estrada, além de um pouco de erosão.

Já próximo à cidade, começa um trecho de asfalto que serve como estrada e como pista de pouso. A vista ao chegar à cidade é bem bonita.

Chaitén está retomando as atividades, porém, ainda tem jeito de cidade abandonada em alguns pontos. Tentamos hospedagem num hostel, mas não havia sinal de vida. Por fim, fomos parar numa cabaña com a regalia de uma cozinha e um “vizinho” brasileiro, o Baki, que estava indo de Curitiba para o Ushuaia de moto. 

Chaitén – Villa Santa Lucia

O tempo amanheceu feio e decidimos tentar uma carona. Um casal nos deixou em El Amarillo, uma vila junto ao parque de mesmo nome e continuação do Parque Pumalín. Ali, havia sido recém-inaugurado um mercado bastante ajeitado, com alimentos, artesanato, roupas e diversos equipamentos para camping. Entrei para comprar café, mas nem precisei: a bebida era cortesia. 

Enquanto tentávamos a segunda carona, reencontramos nosso conterrâneo Baki, que teve um contratempo com a moto e voltava para Chaitén. Vimos também um casal de alemães que estava nas balsas conosco e viajava em uma linda Toyota Land Cruiser com um camper. O Artur se apaixonou!

Nossa carona até Villa Santa Lucia foi um rapaz e sua fofíssima mãe. Ela me convidou várias vezes para visitá-la em La Junta e repetia: “A señora o señorita no lo se.”

A estrada estava em obras e alguns trechos estavam bem ruins para passar. Provavelmente, logo virá o asfalto por aqui também. 

Patagônia 2015

Villa Santa Lucia.

Ao desembarcarmos, encontramos alguns cicloturistas subindo a Carretera Austral. Um casal de franceses, um outro francês que eles conheceram no caminho e que começou a viagem no Rio de Janeiro e um inglês com muitas histórias para contar. Era sua terceira viagem pela Patagônia, além de já ter pedalado na África e percorrido a Transamazônica.

O Artur se apaixonou pela bicicleta do inglês Justin, uma George Longstaff feita sob medida e que o acompanha há 15 anos pelas estradas do mundo.

Villa Santa Lucia – Futaleufu (79,8 km)

Estava apreensiva com esse trecho devido à altimetria mais puxada. Porém, o pedal foi bem mais tranquilo do que imaginei. Encaramos tempo nublado, mas sem chuva e pudemos admirar bem o caminho, repleto de montanhas ainda com neve.

Patagônia 2015

Lago Yelcho.

Próximo ao lago Yelcho, um cachorro saiu correndo de sua casa e nos acompanhou por cerca de 10 km. Por sorte, paramos numa casa onde as moradoras conheciam seus donos e se comprometeram a devolvê-lo.

Apesar de pequena, Futalefeu é ajeitada. Chegamos num domingo e praticamente todo o comércio estava fechado, claro. A salvação para os ciclistas esfomeados foi um centro comunitário onde acontecia uma feirinha de artesanato.

O Artur comeu duas fatias de um delicioso tiramissu e eu experimentei o mote com huesillos. No Equador, mote é um tipo de milho muito saboroso, mas, em território chileno, é trigo. Tomei a bebida bem gelada e achei gostosa a princípio, só que ela é tão doce que se tornou enjoativa.

Conversando com a senhora que nos vendeu as bebidas e doces, descobrimos que há muitos brasileiros morando em Futalefeu e, por pouco, não cruzamos com um deles.

A cidade possui muitas opções de hospedagem que só funcionam na temporada. E novembro definitivamente não se encaixa nesse período. Para nossa última noite no Chile, nos hospedamos no hotel Antigua Casona e jantamos na Hosteria Rio Grande. Era tanta comida, que nem dei conta.

Futaleufú – Trevelín (50 km)

Tivemos a manhã mais preguiçosa da viagem e também o melhor café da manhã. O dono do hotel, um italiano que há dois anos trocou Milão por Futaleufú, preparou uma mesa farta e ainda nos deu lanchinhos para a viagem.

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Minha primeira fronteira de bicicleta.

Os 10 km até a fronteira foram fáceis: asfalto e descida. E a entrada na Argentina foi ainda mais tranquila do que a saída do Chile. O cara que carimbou nossos passaportes até arriscou um pouco de português e o responsável pela aduana apenas perguntou se as bicicletas eram nossas e nos liberou.

O restante do caminho foi ruim por causa das costelas de vaca. E os últimos 7 km foram piores do que os 33 km anteriores. Não bastasse a estrada piorar, o vento contra apareceu, afinal, tínhamos entrado na Patagônia Argentina.

Trevelín é uma cidade bem fofa de colonização gaulesa e famosa pelas casas de chá. Até queríamos experimentar a cerimônia do chá, mas achamos caro (200 pesos por pessoa) e não queríamos nos entupir de doces. Acabamos jantando numa pizzaria mesmo.

Trevelín – Los Alerces (74 km)

Antes de partir, fomos ao mercado e à padaria abastecer nosso estoque de comida. Infelizmente, não encontrei nenhuma opção de empanada vegetariana.

Patagônia 2015

Chegamos e não havia ninguém na portaria.

Os 35 km até Futalaufquen são asfaltados e, apesar de quatro subidas puxadas bem na sequência, esse trecho rendeu. Fomos até o centro de visitantes do Parque Los Alerces onde conseguimos um mapa com indicações de hospedagem pelo caminho.

Seguimos até o Lago Verde, onde há um camping recém-inaugurado que custava 150 pesos. Só que a mulher que nos deu o preço não tinha mais nenhuma informação sobre a estadia. A outra opção de hospedagem ali era um resort, mas isso estava fora de cogitação. Decidimos voltar e ficamos no camping do Rio Arrayanes, um pouco mais em conta (120 pesos) e com boa estrutura – banho quente, banheiros limpos e uma lojinha de conveniência com comida e itens básicos.

Encerramos o dia de pedal com um jantar caprichado e cervejas artesanais geladas no rio próximo a onde montamos a barraca.

Los Alerces – Cholila (51 km)

Arrumamos tudo e deixamos as bicicletas na entrada do camping para podermos fazer a caminhada do Alerce Solitário e até o mirante para um glaciar. Seguimos a dica de atalho da moça do camping e levamos duas horas e 20 minutos para irmos e voltarmos incluindo o tempo para tirarmos muitas fotos da paisagem incrível.

Patagônia 2015

Em busca do Alerce Solitário.

O pedal até Cholila foi cansativo. Pedras, subidas e calor! Não estava mais acostumada a pedalar com 30˚C. Gostei bastante de conhecer o Parque Los Alerces e, com certeza, é um lugar para voltar e fazer mais caminhadas. 

Este foi o dia de encontrarmos ciclistas seguindo para o sul. Foram dois casais (dois americanos e um sul-africano e uma americana) e um trio não sei de onde. O rapaz sul-africano quis saber se estávamos achando a Argentina muito cara, pois estava inconformado com os preços cobrados.

Patagônia 2015

Uma ótima surpresa em Cholila.

Em Cholila, ficamos no hostel Piuke Mapu. Laura, a dona, é professora de apicultura e seu marido, Dario, escalador e guia de montanha. Eles fazem um trabalho de sustentabilidade com separação do lixo, banheiro seco e “bicimáquinas”, bicicletas feitas por um mexicano que passou por ali e que substituem eletrodomésticos. Há uma bicibomba para bombear água, uma bicimolino para moer grãos e uma bicilicuadora para preparar sucos e vitaminas com vista para as montanhas ao redor da cidade. A bici para lavar roupas foi doada a uma senhora.

Conversamos bastante com o Dario que nos contou sobre o trabalho que tenta realizar com os adolescentes de Cholila. Segundo ele, a população está dividida entre os donos da terra e as pessoas que trabalham para eles. A ideia é dar treinamento aos jovens para que eles possam sair desse esquema e atuarem como guias de turismo. Nossa primeira impressão é de que não havia muito o que conhecer por ali, porém, o Dario nos mostrou que estávamos bastante enganados.

Ele também nos contou a história de Butch Cassidy, o ladrão de bancos que fugiu dos Estados Unidos e se escondeu em Cholila. O policial que deveria prendê-lo chegou à cidade e o encanto foi tanto que comprou terras por ali e mandou avisar que não voltava mais. Butch fugiu para a Bolívia, onde, ao que parece, morreu. Ficamos sabendo dessa história porque Dario produz a cerveja Butch Cassidy e vimos algumas garrafas. Infelizmente, não havia nenhuma em estoque para provarmos.

Jantamos no restaurante/café Rai Mapu, indicado pelo Dario e pela Laura. É um espaço alternativo, meio hippie e bastante politizado. Aproveitamos para experimentar a cerveja Ruta 40, também recomendada pelo nosso anfitrião.

Cholila – El Bolsón (77 km)

O último dia pedalado começou com subidas e essa foi a parte fácil. Logo veio o famoso vento contra patagônico que faz o pedal não render e te tira da estrada com uma facilidade assustadora. 

Seguimos assim até Epuyén, onde paramos numa vendinha da estrada para fazermos um lanchinho. O Artur comprou um salame e eu peguei uma garrafinha de suco de mirtilo. Divino!

Antes de voltarmos para a estrada, ficamos conversando com o dono do lugar, o simpático senhor Roberto. Depois de passar a vida toda em Buenos Aires, ele se aposentou, foi a Epuyén visitar alguns amigos e não saiu mais de lá. Ex-fumante, ele nos disse com lágrimas nos olhos sobre um ataque cardíaco que sofreu: “Eu morri e nasci de novo”. Hoje, ele vive uma vida mais simples e uma de suas maiores alegrias é o contato com os viajantes que param em sua venda ao passar pela Ruta 40.

Nossa segunda trégua do vento foi em uma sorveteria em Hoyo, onde dei continuidade à degustação iniciada em Trevelín. O sorvete de morango frescos da região foi, sem dúvida, o melhor de toda essa viagem. E olha que vieram outros mais famosos depois.

Patagônia 2015

Enfim, El Bolsón.

Chegando em El Bolsón, fomos abordados pelo dono de um hostel, que nos ofereceu um quarto privativo por preço de camping. Ele e sua esposa queriam porque queriam que ficássemos mais tempo ali e foram nos perguntando sobre o roteiro e o que tínhamos achado da viagem.

Encerramos o dia com um menu degustação de cervejas em um restaurante tradicional indicado pelo dono do hostel. A cerveja de framboesa era incrível!

El Bolsón – Bariloche

Decidimos voltar de ônibus para Bariloche porque há muitos caminhões na estrada e não queríamos encerrar a viagem assim. A parte ruim é ter que pagar uma grana para os motoristas ao embarcar as bicicletas. Eles falam que é taxa da companhia, porém, isso é lorota.

Fomos pedalando da rodoviária até a casa da família hermana e todos ficaram muito felizes com nossa chegada antecipada.

Patagônia 2015

¡Que fiaca!

Os dias seguintes em Bariloche foram bem legais. Conhecemos alguns vizinhos, compramos verduras orgânicas, acompanhamos o Careca quando ele foi vender pão. Até tentei aprender a fazer pão com ele, mas me perdi nas medidas: um pouquinho de fermento, joga umas colheradas de açúcar, vai colocando a farinha, esse tanto de água, sal, sementes e voilá!

Ainda assim, passei bastante tempo na cozinha. Fiz temaki, quibe de batatas com verduras e esfihas, que foram carinhosamente chamadas de “empanadas árabes”. Depois desse dia, definitivamente, quero um forno de barro. As esfihas foram assadas em poucos minutos e ficaram deliciosas!

San Martín de los Andes

Continuando com as visitas, fomos para San Martín de los Andes visitar o Ingo, que trocou a Alemanha pela Argentina, conheceu o Artur e o Davi na viagem de 2012 e que eu já havia encontrado quando ele fez uma escala em São Paulo em 2013.

Embora também seja uma cidade turística, San Martín não tem o mesmo apelo de Bariloche, que tende para um turismo de consumo. Isso já foi suficiente para me encantar muito mais.

Fomos conhecer o Museu La Pastera, um antigo armazém de feno para animais onde Che Guevara passou algumas noites durante a viagem de motocicleta que fez pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado. Depois, ficamos andando pela cidade, até a hora de encontrarmos o Ingo novamente. Voltamos no dia seguinte para Bariloche.

Patagônia 2015

A família hermana.

Antes de voltarmos ao Brasil, ainda fomos conhecer um pouco mais de Bariloche. Acompanhados da Sarita, fomos com o Careca conhecer a Colonia Suiza e a região onde fica o Hotel Llao Llao.

Eu já tinha ouvido isso antes e é impossível não concordar: a Patagônia é apaixonante! E olha que visitei só um pedacinho. Com tantas opções para conhecer e explorar, 20 dias servem apenas para deixar um gostinho de quero mais.

Para quem quiser ver mais fotos, clique aqui.

Minas Outback

Minas Outback - ago 2015

Mulheres cicloviajantes na serra velha de Campos do Jordão.

Uma cicloviagem só de mulheres! A ideia surgiu quando, conversando com o Artur e o Tux, sobre um pedal pela Mantiqueira, foi usado o termo Minas Outback. Era uma referência ao estado de Minas Gerais e à ideia do Oregon Outback, mas adotei o termo com outro objetivo.

Minas Outback - ago 2015

Mantiqueira é sempre uma boa escolha.

Planejei um roteiro e chamei algumas meninas que sei que gostam de cicloviajar. Como foi a primeira vez que organizei algo assim, preferi chamar pouca gente. No começo, achava que seríamos apenas a Gabi e eu, mas, aos poucos, algumas mulheres foram topando e chamando outras.

Para não corrermos o risco de perder o ônibus, a Nataly sugeriu invertermos a rota. Essa mudança deixou o pedal mais tranquilo, ficamos folgadas em relação aos horários no domingo e ainda ganhamos uma horinha de sono.

Minas Outback - ago2015

Campos do Jordão – Monteiro Lobato – São Francisco Xavier – Caçapava.

No sábado, conseguimos embarcar as dez bicicletas e os alforjes sem qualquer problema e partimos às 6h para Campos do Jordão. Tomamos café da manhã perto da rodoviária e “chocamos” os atendentes do lugar pelo tanto que comemos (e olha que nem foi tanto assim).

O pedal começou gelado com a descida da serra velha. Foi uma delícia passar de novo por ali e lembrar da minha primeira cicloviagem.

Ao chegarmos à bifurcação para Santo Antônio do Pinhal, tivemos o primeiro e único problema mecânico da viagem. O câmbio dianteiro da Nataly não funcionava mais. Tentamos arrumar, mas a questão era o cabo e não tínhamos reserva. Por sorte, a corrente estava na coroa menor.

Minas Outback - ago 2015

Meu restaurante favorito em Monteiro Lobato.

Em Monteiro Lobato, almoçamos no restaurante Resgate Caipira. Chegamos no finalzinho do almoço, mas ainda tinha comida suficiente para as ciclistas esfomeadas. Subimos a serrinha para São Francisco Xavier com luz do dia, mas a descida foi apenas com as luzes dos faróis.

A hospedagem foi na Pousada Canto dos Pássaros, um pouco antes da entrada de São Francisco. Já havia ficado lá durante outra cicloviagem de fim de semana. O lugar é uma delícia e o atendimento muito simpático. Como tínhamos bastante comida nos alforjes, desencanamos de jantar em algum restaurante e aproveitamos a cozinha comunitária para compartilharmos as guloseimas, os vinhos e cervejas (de pinhão e avelã!).

Estrada do Livro

A manhã começou devagar. Tomamos café da manhã com calma e saímos às 10h da pousada. Pedalamos tranquilamente e logo estávamos em Monteiro Lobato de novo.

Como teríamos que encarar duas serrinhas em uma estrada sem abastecimento, sugeri almoçarmos no mesmo restaurante do dia anterior. Aqui o grupo se dividiu, pois algumas meninas disseram que ainda estavam cheias do café e decidiram seguir pedalando.

A Estrada do Livro também é chamada de Estrada Velha pelos moradores da região. O percurso é lindo, com duas serrinhas curtas e íngremes. Entre uma e outra, fica um dos sítios do Pica-pau Amarelo. Segundo nos contaram, esse é onde Monteiro Lobato morava.

Paramos para uma foto em frente à placa e reencontramos as meninas que optaram por não almoçar. A Vivi e eu ficamos doidas por um café e fomos perguntar se tinha ali. Num tom bastante mal educado, a dona disse: “são dez reais para visitar o sítio e servimos almoço apenas com reserva. Não temos café”. Então tá, não voltamos mais.

Minas Outback - ago 2015

Reagrupando.

De volta à estrada, encaramos o trecho de terra e pedrinhas, que, no sentido Caçapava, é uma subidinha de 3km. Cada uma subia no seu ritmo e, em determinado ponto, parávamos para reagrupar, sem deixar ninguém para trás.

Ao planejar a rota, esqueci de descontar os quilômetros de ida e volta entre São Francisco Xavier e a pousada, por isso, o pedal do dia foi mais curto do que achei que seria. Chegamos a tempo de trocar as passagens para um horário mais cedo e ainda deu para brindarmos à cicloviagem com cervejas no boteco da rodoviária.

Foi uma experiência e tanto! Era uma viagem em grupo, mas havia autossuficiência, pois cada uma era responsável por suas passagens, hospedagem, lanchinhos.

Alguns conhecidos não tinham muita certeza sobre esse pedal. Vai dar certo? Vai ter quórum? No fim, deu certíssimo e foi só o primeiro. Se alguma mulher está na dúvida sobre fazer uma cicloviagem, espero que este evento seja um incentivo. Sozinha ou com amigas, simplesmente vá.

Pedalando pelo Equador

Chimborazo

Chimborazo, o maior vulcão do Equador.

A inspiração para as férias veio de um blog que sigo, o While Out Riding, do Cass Gilbert. Junto com os irmãos Dammer, ele pedalou a Transecuador e teceu mil elogios ao país.

Decisão tomada e passagens compradas, começamos a pesquisar sobre cicloviagens pelo Equador e a ansiedade crescia a cada foto de paisagem bonita que víamos ou relato interessante que líamos. E, como nenhum de nós conhecia o Equador, achamos legal descobrirmos esse país juntos.

Quito

A viagem começou na capital do país, Quito, onde passamos quatro dias para descansarmos da correria pré-férias e conhecermos um pouco da cidade.

Pichincha

Teleférico em Quito.

Seguindo a dica do Mathias Fingermann, fomos pedalando até o teleférico que leva ao vulcão Pichincha e subimos com as bikes. O ingresso custava 8 dólares por pessoa, porém, como desceríamos de bicicleta, pagamos 6 dólares para os dois.

Esse desconto existe porque ali há uma pista de downhill. Muitas pessoas sobem com o teleférico, mas descem pedalando e algumas cabines têm até um suporte para pendurar bicicletas. Só que ao invés de encarar esse downhill, optamos por uma estrada que segue para a zona sul da cidade.

O começo era cheio de pedras, mas depois se transformou numa estrada de terra batida. Aos poucos, começaram a surgir algumas casas até que chegamos ao início de um bairro. Fomos pedir informação a um agente de trânsito que estava ali, pois havia uma bifurcação. Ele não quis nos deixar seguir pedalando, pois ali era perigoso e blá-blá-blá e tivemos que “pegar uma carona” num ônibus de linha, que nos deixou no centro histórico, de onde continuamos pedalando.

Vimos muitas pessoas pedalando em Quito e há investimentos na cidade para incentivar esse modal. Além de algumas ciclovias, há bicicletas públicas para alugar e, aos domingos, uma das principais avenidas da cidade, a Avenida Río Amazonas é fechada para carros e por ali circulam apenas pedestres e bicicletas.

Apesar disso, achei um pouco tenso pedalar em Quito. A buzina impera e os motoristas, em geral, são imprudentes. As rotatórias em algumas grandes vias também não são muito convidativas para ciclistas.

Palugo

Nosso primeiro dia pedalando foi de Quito para a vila Palugo. A saída indicada pelo Google Maps era pela mesma estrada que liga a cidade ao aeroporto e, próximo à entrada do túnel, há uma faixa enorme proibindo bicicletas. Pedimos informação para dois guardas de trânsito e eles nos mandaram exatamente por ali.

Ainda no Brasil, tinha entrado em contato com os irmãos Thomas, Mijael e Mathias Dammer e combinamos uma visita. Eles moram nos arredores de Quito e trabalham com agricultura orgânica, além de serem guias de montanha.

O sítio Nahual é lindo e a estrutura visa à sustentabilidade: água aquecida por meio de energia solar, banheiros secos, construções de adobe. Fomos à casa de um dos irmãos e adoramos o que vimos. Tendo como principais materiais o adobe, a madeira e o vidro, o sobrado é bastante aconchegante.

No começo da noite, nos reunimos com os três e, munidos de mapas e de um notebook, fomos refinando a rota previamente traçada. Eles já pedalaram todos os caminhos que queríamos fazer e tinham dicas excelentes.

Só achei curioso o fato de eles não passarem as distâncias em quilômetros. Quando perguntava sobre a quilometragem de uma cidade para outra a resposta era em tempo. “Ah, de Isinlivi para Quilotoa é um dia de pedal.”

Cotopaxi

Nos despedimos dos irmãos e pedalamos um trecho urbano no sentido do aeroporto antes de entramos na ciclovia El Chaquiñán. São cerca de 21 km ligando as cidades de Puembo a Cumbayá com paisagens bem bonitas. Cruzamos com alguns ciclistas treinando por ali e acabamos pedalando mais do que precisávamos, pois nossa saída era em Tumbaco.

El Chaquiñan

Ciclovia El Chaquiñan.

Deveríamos passar por um tal de Portal de Villa Vega, porém, nosso esquema de PPS (pare-pergunte-siga) não estava funcionando muito bem, pois cada pessoa com quem conversávamos nos indicava um caminho diferente. Como tínhamos o nome do nosso próximo destino, aproveitamos uma lan house para checarmos a rota. Direção mais ou menos confirmada, partimos rumo à vila La Merced, onde passamos a noite.

Depois de tomarmos café da manhã e abastecermos nossa “despensa”, pegamos a estrada. O começo tinha muitas pedras e subidas, mas ficamos muito animados quando avistamos, pela primeira vez, o Cotopaxi. Pegamos um trecho de rodovia, porém, logo voltamos para estradas de paralelepípedos. Embora estivéssemos subindo constantemente, a inclinação não era ruim. O que segurava nosso ritmo era a irregularidade da estrada.

Pela rota que pesquisamos, seria um dia apenas subindo. Por isso, quando começamos a descer bastante eu já sabia que havíamos errado o caminho. Pedimos informação para um senhor que passava por ali de trator e ele nos disse que estávamos perto da vila de Patichubamba, uma das referências de rota dos irmãos Dammer. Menos mal.

Ainda faltavam 30 km até o Parque Cotopaxi e não chegaríamos lá com luz do dia. Por isso, aproveitamos a hospedagem encontrada no caminho e encerramos os trabalhos mais cedo. O senhor que nos recebeu no camping fez questão de frisar que estávamos a 2.970 m acima do nível do mar.

Cotopaxi

Da estrada para a trilha, a caminho do Cotopaxi.

No dia seguinte, tivemos um início tranquilo. Já estávamos a mais de 3.000 m e ainda havia bastante vegetação. Depois de uma estradinha que lembrava a Mantiqueira, veio mais uma dúvida sobre o caminho. Tínhamos que cruzar um rio, mas não encontrávamos a ponte para atravessarmos. Deixamos as bikes num canto e fomos checar a trilha a pé. Encontramos uma pequena ponte de madeira e foi por aí mesmo que seguimos.

Saímos num cruzamento de estradas e aproveitamos para almoçar no restaurante que há ali. Milho e favas cozidos acompanhados de queijo branco. Ficamos um tempo conversando com o dono do lugar e um senhor que apareceu logo depois.

Pedalamos os últimos quilômetros até o parque com vento contra, um pouco de chuva e frio. A passagem pelo Control Norte foi tranquila, tivemos apenas que apresentar nossos passaportes para registro e não pagamos nada. Seguimos de lá para a hospedagem Tambopaxi.

Cotopaxi

Luzes acesas no Refúgio José Ribas.

Ao escolhermos a hospedagem, resolvemos nos mimar um pouco. Ao invés de camping ou alojamento, optamos por um quarto não compartilhado, o que, no Tambopaxi, significa um quarto na ala VIP. Além do banho mais quente da viagem, tínhamos uma vista incrível para o vulcão e decidimos passar duas noites ali.

Depois do descanso, continuamos a viagem dentro do parque. O pedal começou com um pouco de vento contra que se tornava a favor conforme as curvas do caminho. Pela primeira vez na viagem, passamos dos 4.000 m.

Cotopaxi National Park

Com a chuva, veio o frio.

A subida estava tranquila até a chuva começar. A combinação de vento, chuva e altitude fez com que a sensação térmica caísse muito rapidamente. As mãos estavam bastante geladas e, mesmo colocando luvas mais quentes, elas não esquentavam.

Queríamos chegar a uma cabana abandonada indicada pelos Dammer, porém, no meio do caminho tinha um portão e um aviso de que se tratava de propriedade privada. Ficamos alguns minutos parados ali e, enquanto pensávamos no que fazer, a chuva foi aumentando. Decidimos voltar um pouco, sair da estrada e levantarmos acampamento.

Cotopaxi

Nada mal acampar com essa vista.

Ficamos algum tempo na barraca, ouvindo a chuva cair e nos aquecendo. Quando ela passou, fomos explorar o lugar e nos surpreendemos ao perceber o quão perto do Cotopaxi estávamos. O tempo fechado de antes tinha escondido o vulcão completamente. Dormimos a 4.050 m acima do nível do mar, com um vulcão no “quintal” da nossa barraca e temperatura próxima de 0°C. Foi uma ótima noite!

O dia amanheceu sem chuva, mas o tempo ainda estava um pouco fechado. Refizemos o caminho do dia seguinte, aproveitando para fotografar um pouco. O vento estava mais forte do que no dia anterior e, quando soprava contra, nos obrigava a pedalar até nas descidas.

Cotopaxi

Vida selvagem no Parque Nacional Cotopaxi.

Passamos pela Laguna de Limpiopungo, que tem uma ótima vista do vulcão Rumiñahui, e depois seguimos para o Control Sur, saindo do Parque Nacional do Cotopaxi. Pegamos um trechinho da rodovia Panamericana e logo chegamos à cidade de Lasso, onde passamos a noite no hostel Cabaña de los Volcanes.

Quilotoa

A saída de Lasso foi chatinha, pois começava numa rodovia estreita e com muitos caminhões. O movimento foi diminuindo e, na primeira bifurcação com placa para Isinlivi, voltamos a pedalar numa estrada de pedras, numa subida suave.

Depois veio a primeira serra com curvas tão fechadas que a apelidamos de “caracoliños”. Pelo caminho, cruzamos com muitas caminhonetes que fazem o transporte de camponeses, moradores e alunos da região.

Isinlivi

Caracoliños no caminho para Isinlivi.

Com poucos quilômetros rodados, já percebemos uma grande mudança na paisagem e nas feições das pessoas. Esta é uma região mais rural e havia muitas plantações, que quase nunca conseguíamos identificar. E a população tem traços mais indígenas e usa roupas tradicionais, principalmente, as mulheres.

Logo alcançamos a segunda serra e o vento contra não dava trégua. Já tínhamos passado dos 3.000 m e cada vez que parava para recuperar o fôlego, ficava impressionada com o quanto tínhamos subido.

Isinlivi

Depois de chegarmos a 3.900m, começou a descida para voltarmos aos 2.900m.

A descida foi longa e gelada: cerca de 15 km de muitas curvas, pedras e névoa que escondia parte do caminho. Ficamos hospedados no hostel Taita Cristobal e gostamos muito. Pagamos 14 dólares por pessoa por um quarto com banheiro privativo e esse valor incluía também o jantar e o café da manhã. E ainda ficamos um bom tempo conversando com o dono, o Paco.

Queríamos sair cedo, porém, amanheceu chovendo e, enquanto esperávamos o tempo melhorar, ficamos jogando dominó. Depois de três partidas, fomos para a estrada. Logo no começo, encaramos uma boa descida seguida de uma boa subida. Isso foi apenas uma prévia do dia, que teve muito sobe-e-desce e um pouco mais de chuva.

Fomos passando por vários pueblos indicados pelo Paco e quase todas as pessoas que encontramos pelo caminho nos cumprimentavam e algumas ainda perguntavam de onde estávamos vindo e para onde iríamos. Era só falar Quilotoa para ouvir “ih, estão longe”.

Tunguiche

Os irmãos Gilmar, Emerson e Danilo voltando da escola em Tunguiche.

O trecho de Tunguiche para Pilapuchin foi bastante cansativo. De novo subimos um “caracoliños”, só que desta vez combinado com areia, que passou a fazer parte do caminho por vários quilômetros.

Passamos por uma bifurcação para Shalala, mas seguimos no caminho para Quilotoa, pois não sabíamos como era a estrutura da vila. Depois descobrimos que foram feitos investimentos em Shalala para receber turistas que querem visitar a Laguna Quilotoa: camping, pousada, restaurantes e um deck de observação.

Quilotoa

Descendo até a beira da lagoa Quilotoa.

A vila Quilotoa funciona em torno da laguna. O comércio por ali é formado basicamente por hostels, restaurantes, lojas de souvenirs e vendinhas.

Tinha lido uma recomendação sobre o hostel Cabañas Quilotoa e o fato de ter aquecedor em cada quarto me animou a ficar ali. Como era logo na entrada da vila, infelizmente não vimos as outras opções. Pagamos 20 dólares por pessoa com jantar e café da manhã. O problema é que o lugar era sujo e as donas agiam como se estivessem nos fazendo um favor e não prestando um serviço.

No dia seguinte, fomos até a beira da laguna. Um guia online indicava meia hora para descer e uma hora para subir. Subimos em 40 minutos, mas com várias paradas para descansarmos um pouco. Há quem alugue mulas para evitar esse desgate.

Depois de almoçarmos, fomos para Zumbahua. Sem dúvida, foi o pedal mais fácil da viagem toda: 12,4 km de descida. Nessa região, há várias feiras tradicionais, que acontecem cada dia da semana em uma cidade diferente. A de Zumbahua é aos sábados e não queríamos perdê-la.

Zumbahua

Mercado em Zumbahua.

Levantamos cedo e fomos primeiro ver a feira de animais, que acontece a algumas quadras da praça. O negócio funciona com os donos dos bichos parados segurando os animais presos a cordas a espera dos compradores. Havia muitos porcos, ovelhas e algumas lhamas. A outra feira tinha barracas de frutas, de secos e molhados, roupas, sapatos, lã e comida. Aproveitei para comprar algumas frutas.

A feira traz vida para a cidade. Tivemos a impressão de que muitos que ali estavam usavam suas melhores roupas, como se aquele fosse o momento mais esperado da semana. Depois de fazermos muitas fotos, fomos pegar o ônibus para Angamarca.

Chimborazo

Embarcamos num ônibus lotado e viajamos quase o tempo todo em pé. Os bagageiros estavam cheios e as bicicletas foram no teto do ônibus. A cada virada brusca na beira de precipícios, eu ficava agoniada com medo das bikes saírem voando.

Desde o momento em que descemos do ônibus tive uma sensação ruim em relação à Angamarca. Conversamos com poucas pessoas ali, mas parecia que queriam sempre tirar algum proveito. Para ajudar, começou a chover forte e o caminho por onde deveríamos seguir ficou intransitável até para 4×4. Ou seja, seria uma subida íngreme escorregando na lama.

Acabamos voltando para Zumbahua e, de lá, seguimos para Latacunga, onde passamos a noite e refizemos nosso roteiro. Demos mais um descanso para nossas pernas e fomos de ônibus até Riobamba. Não tinha lugar para sentarmos e o cobrador falou para irmos na cabine com o motorista. Conversamos tanto que fui a viagem inteira ali.

Chimborazo

Visão privilegiada do Chimborazo.

Saindo de Riobamba, pegamos uma estrada secundária para irmos ao Chimborazo. Por boa parte do caminho, pedalamos em direção a nuvens escuras e sem qualquer visão do Chimborazo. Porém, conforme nos aproximávamos, o tempo foi melhorando e logo as nuvens começaram a se dissipar.

Passamos por um pueblo bem na hora da saída da escola. As crianças ficaram ao nosso redor, bastante curiosas. Numa subida, duas menininhas começaram a empurrar a bicicleta do Artur e depois vieram fazer o mesmo comigo. Descemos das bikes e fomos andando lado a lado e conversando um pouco com elas.

Antes da estrada de asfalto para a Reserva do Chimborazo, encontramos um local perfeito para acamparmos com vista privilegiada para o vulcão. Deixamos as bikes na estrada e fomos procurar um lugar para montarmos a barraca. Nisso, um carro de polícia parou. Os policiais não tinham nos visto e ficaram intrigados com as bikes no caminho. Fomos conversar, explicamos sobre a viagem e perguntamos se era permitido acampar por ali. Um deles respondeu: proibido não é, mas é perigoso. Eles foram embora e pensamos: não passa ninguém aqui, como vai ser perigoso?

Chimborazo

Irmãs curiosas.

Foi só falarmos e uma caminhonete estacionou e dela saíram duas mulheres, um homem e duas crianças. Eles tinham ido ali cortar capim para aquecer os animais. O Artur ficou cerca de uma hora conversando com o cara e eu, com as crianças. As mulheres cortaram todo o capim sozinhas e o cara ficou apenas observando.

Resolvemos procurar outro lugar para acampar e seguimos em frente até uma vila que parecia abandonada. O Artur foi na frente e logo voltou dizendo: há uma opção de hospedagem, por 12 dólares o quarto ou podemos acampar de graça. Converse com a belga que está por lá. E ele voltou para a estrada para tirar fotos do Chimborazo, que estava lindo nesse final de tarde.

Chimborazo

Camping próximo ao Chimborazo.

Tínhamos lido sobre a Casa Condor em algum site, mas o lugar parecia abandonado e foi uma surpresa encontrarmos os belgas Justine e Edward. Optamos pelo camping, mas aproveitamos a cozinha para prepararmos o jantar e muito chá.

Logo chegaram os mexicanos Cynthia e Gustavo que estão viajando num Fusca. Ambos os casais têm a meta de chegar a Ushuaia. Porém, os belgas juntaram dinheiro e planejam viajar por um ano, enquanto os mexicanos estão na estrada há dois anos e vão trabalhando pelo caminho para bancar a viagem.

Mesmo tendo ido dormir tarde por causa das boas conversas, acordamos cedo por causa do barulho do vento. Arrumamos nossas coisas e tomamos café da manhã com calma, antes de nos despedirmos dos casais.

El Arenal

Atravessando a região desértica El Arenal.

Tínhamos bastante subida pela frente e muito vento, em alguns momentos a favor, mas quase sempre contra. A maior parte do caminho foi pela região El Arenal, um ecossistema chamado de páramo seco, de clima desértico.

Nas laterais da estrada, havia barrancos que pouco a pouco estão sendo desgastados pela erosão causada pelo vento. Pudemos sentir um pouco disso na pele, pois o vento trazia areia e até algumas pedrinhas que batiam com força no capacete e no rosto.

El Arenal

Vicuñas.

El Arenal é também uma área de preservação da vicuñas e tivemos a sorte de encontrarmos dois grupos grandes desses animais na beira da estrada.

Quando cruzamos a estrada Ambato-Guaranda, nos despedimos do Chimborazo. O vento contra com areia ficou ainda pior e eu tive dificuldade de pedalar nesse trecho. Mas logo veio a descida. Chegamos a um pequeno povoado e ali decidimos seguir por um trecho de downhill. Foram 7km descendo ao lado de um vale lindo e então chegamos à Salinas.

Salinas

Tinha lido sobre a cidade no blog do Cass, mas eu quis conhecer o lugar depois de ler um post que o Artur achou na internet. Salinas tem esse nome porque, 40 anos atrás, sua economia girava em torno de uma mina de sal, que pertencia a uma família muito rica. Até que um padre italiano foi morar na cidade e decidiu por fim a esse monopólio. Ele conseguiu empréstimos e organizou uma cooperativa para produzir queijo.

Salinas

Queijaria em Salinas com capacidade para processar 10 mil litros de leite por dia.

Esse modelo deu tão certo que começaram a surgir outras cooperativas e, atualmente, são 30 pueblos integrados com Salinas produzindo queijos (gruyére, parmesão, dambo e outros), chocolates deliciosos, lã de alpaca e de ovelha, frutas e cogumelos desidratados, produtos de soja e até bolas de futebol. Alguns produtos são exportados para Alemanha, Itália, Finlândia e Japão.

Salinas

O Tour Salinerito passa pelas principais fábricas da cidade. Pagamos 15 dólares para duas pessoas.

Depois do tour, sentamos num banquinho da praça e fomos abordados pela polícia da imigração que queria ver nossos documentos. Eles nos acompanharam até o hostel, onde estavam os passaportes, e, embora o policial tentasse manter uma pose de durão perguntando quando chegamos, por onde entramos, quanto tempo ficaríamos no país e tal, ao ouvir que estávamos viajando de bicicleta, a policial abriu um sorriso e exclamou “¡que chévere!”.

Salinas

Gianpaolo: ótima conversa e excelente comida.

Nesses dias em Salinas, conversamos bastante com um italiano que mora no Equador há 12 anos, o Gian Paolo. Fomos três vezes à pizzaria dele e ficamos, pelo menos, duas horas e meia batendo papo. De Salinas, pedalamos até Guaranda, onde pegamos um ônibus de volta para Quito.

Trechos pedalados

Palungo – La Merced 57 km – 824 m acumulados
La Merced – Molinuco 25 km – 693 m acumulados
Molinuco – Tambopaxi 30 km – 1.039 m acumulados
Tambopaxi – meio volta do Cotopaxi 28 km – 426 m acumulados
Meia volta do Cotopaxi – Lasso 53 km – 269 m acumulados
Lasso – Isinlivi 46 km – 1.108 m acumulados
Isinlivi – Quilotoa 33,8 km – 1.496 m acumulados
Quilotoa – Zambahua 12,4 km – 83 m acumulados
Riombamba – Casa Cóndor 30 km – 1.245 m acumulados
Casa Cóndor – Salinas 37 km – 1.006 m acumulados
Salinas – Guaranda 23,8 km – 217 m acumulados

Comida

Em geral, a comida do Equador não empolgou muito. As refeições quase sempre eram compostas por uma sopa (a maioria de macarrão com frango) e o prato principal com arroz, lentilha (às vezes), salada e carne.

Nas cidades pequenas, embora os restaurante até tivessem um cardápio, normalmente, havia apenas uma opção. Em Lasso, assim que sentamos, o garçom trouxe dois copos de suco e depois as tigelas de sopa. Devolvi uma delas porque tinha frango e avisei que não como carne. Ele fez uma careta e disse que só tinha arroz, salada e ovo para mim.

Na primeira noite no Tambopaxi, pedimos o menu completo. A sopa de entrada era muito gostosa: um creme de batata com queijo e uma fatia de abacate. Depois, vieram batatas fritas e carne para o Artur e berinjela para mim. Tudo estava delicioso, porém, as porções deixavam a desejar para quem tinha pedalado o dia todo. Pedi mais uma porção de sopa para cada um e eles capricharam mais.

Em Isinlivi, comemos muito! Além de sopa de legumes, comemos couve-flor e brócolis, uma salada morna de tomates, ervilhas, pimentões e cogumelos, pequenas panquecas de batata e bolinho de chuva servido com melado como sobremesa.

Zumbahua

Frutas deliciosas.

Experimentamos sucos de frutas locais como naranjilla e tomate de árbol, que, como o nome diz, cresce em árvore e é delicioso. Comi physallis direto do pé e comprada na feira e experimentei a versão mais doce que há do maracujá, a granadilla. Já sinto falta dessas frutas.

No restaurante em que almoçamos em Riobamba quase não havia opções para mim. O rapaz abriu uma exceção e me serviu um prato do menu do café da manhã: patacones (banana verde frita) recheados com queijo e acompanhados de ovos fritos. Não me imagino começando o dia com uma refeição dessas.

Nos primeiros dias em Quito, fomos à cervejaria Cherusker. Fiquei feliz por encontrar um hambúrguer vegetariano no cardápio. Estava bom, mas não era nada demais. As cervejas da casa, por outro lado, são muito boas.

Para encerrar a viagem, em nossa última noite no Equador, fomos comemorar na Cervecería Abysmo. A parte de comida era fraca. Não havia nenhuma opção vegetariana, mas eles modificaram o prato de nachos para mim. Ainda assim, tinha tanto queijo cremoso que fiquei logo enjoada. Pelo menos, as cervejas deles são muito boas! Aproveitamos uma promoção e tomamos três tipos: vanilla coffee ale, honey ale e a weissbier da casa.

Enfim

Chimborazo

Terra de vulcões.

As paisagens equatorianas são realmente lindas e não é preciso percorrer grandes distâncias para ver cenários bastante diversos. As pessoas foram muito amigáveis e o fato de estarmos de bicicleta nos permitiu ter um contato maior com elas, que, em alguns casos, nos paravam no meio da estrada para conversar.

Essa viagem foi completamente diferente de todas as que eu tinha feito até então. E foi, sem qualquer dúvida, uma das mais gostosas!

Mais fotos no Flickr.

Travessia Itaguaré-Marins

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Começando o segundo dia da travessia. Foto: Artur Vieira.

Há algum tempo, o Artur e eu falamos sobre fazer a travessia do Marins para o Itaguaré e aproveitamos o feriado de 21 de abril para realizá-la. No sábado, saímos um pouco atrasados de São Paulo e ainda pegamos bastante trânsito na Dutra. Chegamos à Pousada do Maeda pouco depois das 11h.

Após nos dar várias dicas, o senhor Maeda nos levou até o início da trilha para o Itaguaré. Invertemos a ordem, pois, em caso de chuva na volta, seria mais fácil nos resgatar no acampamento base do Marins. Nesse caminho, passamos por um dos trechos da cicloviagem de Carnaval, quando saímos de Marmelópolis rumo à cidade de Passa Quatro.

Achei o início meio chatinho e cansativo. Levamos cerca de uma hora e meia no trecho de mata, sempre subindo. Encontramos cinco pessoas e estranhamos bastante o fato de dois rapazes estarem carregando facas e facões. Havia também uma cachorrinha, que parecia perdida, e acabou nos acompanhando durante boa parte desse primeiro dia.

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O tempo abriu depois que passamos pelo Itaguaré. Foto: Artur Vieira.

Quando chegamos perto do Itaguaré, o tempo fechou e desencanamos de subir até o cume, pois não teríamos nenhuma visão. Conversamos um pouco com um trio que iria passar a noite ali e eles se prontificaram a cuidar da cachorrinha.

Seguindo a dica do sr. Maeda, enchemos uma garrafa com água perto de um bambuzal. Como era o último ponto de água até o Morro do Careca, nessa hora, percebemos que levamos pouca água para realizar a travessia.

Às 17h, chegamos ao local de acampamento recomendado pelo sr. Maeda, com vista para o Itaguaré. Conversamos com três caras que iriam acampar ali, mas decidimos andar um pouco mais. Depois de uns dez minutos, consideramos que logo iria escurecer, que havia um espaço legal e reservado para montarmos nossa barraca e que não seria nada mal acordar olhando para o Itaguaré e optamos por voltar.

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Nada mal acordar com uma vista dessas. Foto: Artur Vieira.

Montamos nosso acampamento, beliscamos algumas comidinhas e fomos esticar as pernas dentro da barraca. O cansaço foi batendo e, antes que pegássemos no sono, fomos preparar o jantar: polenta com cogumelos. Depois de organizarmos tudo, ficamos admirando o céu estrelado antes de voltarmos para a barraca.

Segundo dia

Acordei várias vezes durante a noite, ora com calor, ora com dor de cabeça, ora porque estava meio torta e acabei atrapalhando um pouco o sono do Artur. Levantamos às 6h. Tomamos café da manhã e desmontamos o acampamento.

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O sobe e desce que nos aguardava no segundo dia. Foto: Artur Vieira.

Logo começou um sobe e desce, com trechos de vegetação fechada e capim alto. Estávamos racionando a água e, enquanto seguíamos em direção ao Marins, fomos considerando duas possibilidades: chegando ao cume do Marinzinho, pegarmos a trilha para a Pousada Maeda, ou fazermos a travessia em dois dias.

Fizemos algumas paradas para descansarmos, eu principalmente, e para comermos. Os caras que acamparam perto de nós na noite anterior estavam num ritmo muito bom e logo nos ultrapassaram. Papemos um pouquinho ao lado da Pedra Redonda, onde eles aproveitaram para descansar um pouco. Depois, eles seguiram sempre na nossa frente

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Vamos em frente. Foto: Artur Vieira.

A parte até o Marinzinho foi a mais puxada para mim. Pouco antes de chegar ao cume, há um trecho com três cordas amarradas para auxiliar na subida ou na descida. Usamos a vermelha, que parecia mais nova.

No cume do Marinzinho, vimos a placa para a Pousada do Maeda. Lembrei do sr. Maeda falando três ou quatro vezes que, se eu não aguentasse, poderia pegar esse “atalho”. Como a parte mais difícil tinha ficado para trás, decidimos continuar com a travessia. Isso significava duas horas a mais de escalaminhada do que se fossemos dali para a pousada.

Chegando à área do charco, ouvimos o barulho de água corrente. O Artur comentou que ali seria um ponto de abastecimento, mas a ideia não me animou muito porque mais para frente há uma placa informando que a qualidade da água é bem ruim. De qualquer forma, não paramos para ganhar tempo.

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E o tempo começou a virar.

A previsão estava certa e logo começou a chuva, que foi ficando cada vez mais forte. Com o cansaço aumentando e muitas pedras no caminho, diminuímos o ritmo e seguimos com cuidado para não escorregarmos. A chuva formou várias cachoeiras no Marins e a água descia com tanta força que dava para ouvirmos o barulho mesmo estando um pouco afastados. A visão era linda, porém, não faço questão de pegar chuva ali de novo.

No Morro do Careca, ligamos para o Maeda para adiantar nosso resgate. Nossa água tinha acabado, mas nem nos preocupamos em enchermos as garrafas no riacho que existe ali perto. Estávamos quase no final.

A travessia não foi nada fácil e terminamos o percurso bastante cansados. Ao mesmo tempo, estávamos muito felizes e orgulhosos de nós mesmos pelo desafio superado. Concluímos a travessia em dois ao invés de três dias. Foram 5 horas no primeiro dia e, dez horas e 40 minutos no segundo, incluindo as paradas para descanso e lanchinhos na trilha.

Senhor Maeda e a pousada

Assim que começamos a travessia, o Artur falou que só pelas histórias que ouvimos e pelo passeio de Bandeirante, a viagem já tinha valido a pena.

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Conhecendo o museu do montanhismo com o senhor Maeda. Foto: Artur Vieira.

Com 74 anos e muita simpatia, esse senhor nascido em Nagazaki tem muitas histórias legais para contar. A travessia Marins x Itaguaré foi aberta por ele e pelo pessoal do Centro Excurcionista Campineiro (que, aliás, ele ajudou a fundar), em 1993. No ano anterior, ele abriu a travessia da Serra Fina.

Esses e outros feitos são contados no museu do montanhismo, que fica na pousada. Lá estão reunidos equipamentos, roupas, revistas e muitas fotos de diversas expedições das quais ele participou no Brasil e em outros países da América Latina.

Mesmo tendo ficado pouco tempo, achamos a hospedagem excelente. E ficou ainda melhor. Estava tomando café da manhã, quando a senhora Maeda apareceu com um prato de pinhões recém-cozidos e ainda quentes. Na noite anterior, eles viram o quanto gosto de pinhão e, por isso, prepararam esse mimo para eu levar para casa.

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Casal Maeda.

Claro que já estamos pensando em voltar para aproveitarmos a simpatia do casal e as atrações da região. As fotos da travessia tiradas pelo Artur estão aqui.

Desafio Terra em Pedro de Toledo

Desafio Terra 59km

Para chegar ao PC, só atravessando o rio.

O programa de 12 de abril foi o Desafio Terra do Randonneurs Litoral, realizado em Pedro de Toledo. Fiz minha inscrição para a prova de 59km, que passava pela estrada do Despraiado e pela trilha da Colina Verde.

Desafio Terra 59km

Vistas e subidas de tirar o fôlego.

Não conhecia a região e fiquei impressionada com as paisagens lindas. Vale a pena voltar para um passeio tranquilo e com tempo para um bom banho de rio. Com a altimetria superando os 1300m acumulados, era óbvio que teríamos muitas subidas. Havia também tantas pedras soltas no caminho que as descidas exigiam bastante cautela. Para chegarmos ao PC1, era necessário atravessar um rio. Teve gente que reclamou porque molhou a sapatilha, mas achei uma delícia aquela água gelada que dava quase na altura do meu joelho.

Desafio Terra 59km

No meio do caminho tinha uma cobra.

Na volta desse PC e no trecho da Colina Verde, tive a companhia de quatro ciclistas de São Paulo. Infelizmente, esqueci de perguntar os nomes. Os ritmos só mudaram quando começou o trecho de descida. É claro que fiquei para trás! De jeito nenhum eu soltaria os freios passando por aquelas pedras.

Desafio Terra 59km

Teve singletrack também.

O PC surpresa foi instalado na pracinha do bairro Três Barras. Passei rapidinho por ali e acelerei a pedalada nos últimos 6km. Fiquei muito feliz por ter feito essa prova. O percurso não era nada fácil, mas as paisagens compensaram. E o clima entre os participantes estava ótimo também, sem qualquer competição, como um audax deve ser. Parabéns aos organizadores e a todos os que pedalaram!