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O retorno

No começo da prova. Foto: Artur Vieira.

Foto: Artur Vieira.

Para quem terminou 2012 sem poder sequer subir em uma bicicleta, não posso reclamar. Superei a expectativa do médico e me recuperei na metade do tempo previsto. Dois meses depois da queda, dei a primeira volta na Caçarola.

Com receio de outro tombo, pedalei cheia de cautela. Além disso, qualquer irregularidade no asfalto, por menor que fosse, me lembrava que agora tenho uma placa de titânio no braço esquerdo.

Recomecei com uma voltinha aqui e outra ali dentro da cidade, fui para a ciclovia da Marginal Pinheiros e voltei à estrada com alguns amigos. Na primeira descida longa, percebi o trauma do tombo: as mãos apertavam os freios com mais força e o prazer de ganhar velocidade sem esforço já era.

Pelo menos não desanimei com as longas distâncias e, assim que tive o aval do ortopedista, fiz minha inscrição para o Audax 200 km em Rio das Ostras para conseguir o primeiro brevet da série 2013.

Um ano antes, foi lá que pedalei 200 km pela primeira vez. Escolhi essa prova pela data, já pensando no brevet 300 km em São Paulo, que seria realizado duas semanas depois em Boituva.

A prova valeu pelo brevet, porém, perdi a vontade de pedalar por essas bandas de novo. Alguns acontecimentos não foram graves, mas demonstraram falta de organização: atraso na largada, troca da plaquinha de identificação do ciclista (o voluntário não achou minha placa e me deu outra), falta de atenção na marcação do tempo no PC (minha passagem pelo PC 1 foi registrada na planilha do desafio 100 km) e demora no primeiro PC (uma amiga ficou 25 minutos na fila para carimbar o passaporte).

No entanto, o primeiro grande problema foi um erro na planilha que confundiu muita gente e fez vários ciclistas seguirem por uma estrada errada e pedalarem quilômetros a mais.

Vevê, Artur e eu achamos o percurso estranho, mas não havia ninguém para perguntarmos sobre o caminho. Depois de rodarmos um pouco mais no sentido errado, o Artur resolveu parar para pedir informação a um rapaz que pescava sobre uma pontezinha. Ele parou de repente e eu vinha logo atrás, conferindo a planilha. Quando levantei os olhos, tentei frear, mas já estava muito perto.

Foi tudo muito rápido, mas ainda assim, senti como se estivesse caindo em câmera lenta. Meus receios eram bater um dos cotovelos e acertar o rosto do Artur com o capacete (caí em cima dele). Por alguns instantes, fiquei em choque e as lágrimas vieram com o susto. Era o primeiro Audax depois do acidente e lá estava eu no chão de novo. O Artur ficou inteiro e eu ganhei hematomas enormes e bem escuros nos quadris, mas, por sorte, nada grave.

Não podemos dizer o mesmo da bicicleta dele, cujas rodas entortaram. Tentamos fazer pressão, pulamos em cima e nada. Até que lembrei do comentário de um amigo e o Artur decidiu testar a “técnica”.

Claro que a roda não ficou alinhada, mas foi o suficiente para seguirmos até o próximo PC. Decidimos voltar pelo mesmo caminho e ficamos perdidos mais uma vez. A Vevê ligou para um dos organizadores, que nos avisou que havia mesmo um erro na planilha. Pedimos informação para dois senhores na rua e conseguimos achar o caminho.

Apesar do aperto, chegamos a tempo. Estava um pouco nervosa e fiquei irritada ao ouvir um comentário irônico do organizador da prova.

“O PC já está fechando.”
“Eu sei, mas tivemos problemas por causa da planilha errada. Pedalamos a mais.”
“Ué, mas vocês não estão treinando para os 300?”

Erros acontecem, mas tratar com descaso e ironia uma falha na planilha, para mim, demonstra falta de cuidado e de preocupação com os ciclistas.

Por sorte, o Artur conseguiu novas rodas e seguimos para o próximo PC. Foi um trecho chato de pedalar. Estava preocupada com o tempo e a Vevê, com câimbras, mas conseguimos chegar com um pouco de folga.

Foi a primeira vez que pedalei com o Artur em um Audax e gostei. Por causa do atraso, ele aumentou nosso ritmo e achei bom pedalar com alguém mais forte que me puxou além da zona de conforto. Na volta, recuperamos o tempo perdido e terminamos a prova em 12h30.

Quando tudo dá certo no final, os perrengues do percurso nem parecem mais tão ruins. Além disso, a sensação de terminar esse brevet depois de dois meses sem subir em uma bicicleta foi de-li-ci-o-sa. Porém, acho bastante improvável eu pedalar outra prova em Rio das Ostras.

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Audax 200 km em Rio das Ostras

New Yorker no Audax!
Foto do Christian Sens.

No domingo da prova, madrugamos, tomamos café da manhã (pastel e caldo de cana!) e partimos. Quase 130 ciclistas e o objetivo de completar 200 km em até 13 horas e 30 minutos. Aos poucos, os grupos foram se distanciando, cada um no seu ritmo.

O início foi bem tranquilo. Tivemos apoio de guardas que seguravam o trânsito quando passávamos em cruzamentos e havia um carro acompanhando os ciclistas em parte do percurso até Cantagalo. A estrada estava tranquila, com poucos carros e, apesar do maior movimento de veículos, também não tivemos problemas no trecho urbano, em Macaé.

A passagem pelos PCs 1 e 2 foi rápida. Apresentamos os passaportes, comemos bananas, enchemos as caramanholas e fomos em frente. Faltando uns 35 km para o PC 3, vimos os primeiros ciclistas voltando. O calor aumentava e paramos um pouquinho para tomar uma Coca-Cola (dica do Odir) numa vendinha de beira de estrada.

A parada no PC 3 foi a mais longa. Almoçamos o macarrão com molho ao sugo (a vegetariana agradece!) oferecido pelos organizadores, descansamos um pouco, reencontramos os amigos e voltamos para a estrada.

O ritmo da volta foi mais sossegado, com outra parada entre PCs. Ficamos papeando com ciclistas do Rio sobre as provas noturnas e dei algumas dicas para a dona do restaurante que quer aprender a pedalar. Meu ânimo era tanto que o Shadow até brincou: “quero um pouquinho disso que você tomou”. Se bem que, logo depois, ele descobriu uma garrafa com café e acabei ficando um pouco para trás até o PC 4.

Encaramos uma parte chatinha de pedalar, com asfalto bastante irregular no acostamento. Em compensação, os últimos quilômetros antes do PC 5 foram os mais agradáveis. Estrada impecável, paisagem incrível, temperatura mais amena. Pedalamos com mais velocidade, mais ou menos junto com o “time das fixas”.

Os últimos quilômetros foram no escuro e, como tínhamos tempo, seguimos bem tranquilamente.

A alegria ao chegarmos foi enorme e teve um gostinho ainda mais especial para mim: completei meu primeiro brevet na véspera do meu aniversário. Foi o melhor presente!

***

Quando o Odir me falou para fazer o Audax com a Dahon, achei que ele estava brincando. Porém, quando contei para o Silas que estava inscrita na prova em Rio das Ostras, ele sugeriu a mesma coisa. E o Toni Pedalante também.

Para acabar com a dúvida, aproveitei duas cicloviagens para testar a pequena em longas distâncias. Depois de encarar a subida para Campos do Jordão e a ida para Itu pela estrada dos Romeiros, a decisão estava tomada.

Meu primeiro Audax

Audax by piacere
Audax, a photo by piacere on Flickr.

“Desculpa te falar isso, mas… você não vai completar.” Essa foi a frase que mais ouvi quando algumas pessoas ficaram sabendo que me inscrevi para o Audax de 200km, em Holambra.

Tinha lido alguns relatos no blog das Pedalinas, mas a decisão de participar veio mesmo depois de completar a Rota Márcia Prado. São propostas completamente diferentes, mas ter percorrido, em um dia, uma distância muito maior do que faço no dia a dia me deixou super animada. O fato de não acordar com dores no dia seguinte foi outro incentivo.

Em um mês e meio, li mais relatos, busquei dicas de quem já tinha feito a prova, conversei com amigos e fui mexendo na bicicleta. A Caiçara, que tem esse nome, pois veio da praia e tinha guidão alto, ganhou um guidão reto, bar ends, e perdeu o jeito praiano.

Meu amigo Giu me avisou sobre o relevo de morros na região de Holambra, mas, apesar de a incerteza estar começando a dar as caras, insisti nos 200 km.

Quando chegamos para a vistoria, vi o pessoal com pinta de atleta e bicicletas que pesavam, pelo menos, metade da minha e brinquei: “o que estou fazendo aqui?”.

Na largada, percebi que meu ciclocomputador não funcionava. Parei para arrumar e fiquei para trás. Achei que era a última, quando um ciclista (desculpa, sou ruim de nomes) o Guilherme José de Sá (que reencontrei nos 300 km de Holambra, em 2013) parou para me ajudar. Ele seguiu e eu acelerei para alcançar o pessoal.

De cara, percebi que preciso treinar muito as subidas, mas fui levando. Durante um trecho, pedalei mais ou menos junto com outros dois ciclistas. Conversamos um pouco até um deles aumentar o ritmo e seguir sozinho. Depois, foi a minha vez de deixar o outro menino para trás para não perder o PC1.

Eu não tinha muito tempo, por isso a parada foi rápida. Voltei para a estrada e, por um bom trecho, não vi ninguém e até pensei que tivesse errado o caminho, mas logo alcancei outros ciclistas.

O trecho entre o PC1 e o PC2 era menor, porém foi o pior para mim. A 10 km do posto, não tinha mais água, nem gatorade e nem um posto no caminho. O sol deu o ar da graça e as subidas ficaram ainda mais difíceis para mim. Faltando 5 km, olhei o relógio e bateu o desânimo: iria perder o PC. Liguei para o Giu, que já tinha terminado os 135 km, e pedi resgate. Combinamos de nos encontrar no posto.

Quando cheguei, o Albert me saudou com um “ah, vá!” (num tom de mais surpresa ainda do que quando ele soube da minha inscrição) e pediu o passaporte, avisando que só faltava um minuto para o PC fechar. Entreguei correndo e fui beber água.

O pessoal do Audax em Holambra ligou para saber se eu tinha chegado, pois o Giu iria me buscar. Pensei um pouco e retornei a ligação dizendo que não precisava, tinha decidido continuar. O desânimo tinha desaparecido completamente e não sentia mais o cansaço.

O tempo mudou de novo. Foi-se embora o sol escaldante, veio o vento e, em seguida, a chuva. Fui ultrapassada por três ciclistas que estavam no PC2 comigo e haviam saído um pouquinho depois. Ao final de um morro, encontrei os três esperando por mim. Achei incrível essa atenção, porém avisei que eles não deveriam fazer mais isso, já que eu iria atrasá-los. Pedalamos juntos por mais um tempo e eles seguiram viagem.

Quando peguei o trecho sentido Limeira, tive certeza de que não completaria a prova. Tentei mais um pouco e, faltando 11 km para o PC3, as forças acabaram de vez.

Fiz uma loucura (mas pode chamar de burrice também) e aceitei a carona de um senhor que parou para perguntar se estava tudo bem. Ele disse que estava no outro sentido da pista quando me viu e, depois de levar um amigo para casa, voltou para ver se eu estava bem. “Vi vários ciclistas num posto de gasolina e imaginei que você estivesse com eles. Achei um absurdo eles te deixarem para trás.” Eu ri e expliquei que era uma prova de longa distância e que ninguém havia me deixado para trás.

No PC3, reencontrei os três meninos e avisei que era a última, pois o cara atrás de mim havia desistido. Voltei para Holambra de carona com o Richard, o Toni e o Labadia.

Foi impossível não lembrar do que ouvi do dono de uma bicicletaria. “É melhor você ter a frustração de percorrer os 135 km do desafio e perceber que você poderia ir além, do que ficar frustrada por não completar os 200 km”.

Meu lado teimosa ficou um pouco frustrado, sim, mas passou rápido. Pedalei 162 km em 10 horas, num percurso com muitas subidas. Como disse o amigo Kyono, eu conheci o meu limite e agora quero quebrá-lo. A inscrição para os 200 km em Rio das Ostras já está feita. ;)