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Patagônia 2015

Patagônia 2015

Nos arredores de Bariloche.

A escolha do segundo destino de férias em 2015 coube ao Artur e não fiquei surpresa quando ele definiu: “vamos para a Patagônia”. Além de uma viagem de bicicleta, o roteiro incluía visitar a família hermana que ele conheceu quando cicloviajou de Santiago a Ushuaia em 2012.

A Felicitas foi nos buscar no aeroporto em Bariloche e fizemos uma surpresa para o Careca, que não fazia ideia da nossa chegada. Antes de partirmos para o Chile, tivemos um dia de descanso e os amigos aproveitaram para colocar um pouco do papo em dia. 

Paso Cardenal Samoré

Com o tempo contado, fomos de ônibus de Bariloche para Puerto Varas para iniciarmos o pedal. A viagem demorada foi compensada pelas belezas do caminho. Primeiro, passamos por uma parte da Rota dos Sete Lagos e depois seguimos para o Paso Cardenal Antonio Samoré. Ao longo da estrada ainda havia bastante neve e ficamos pensando em como seria pedalar por ali.

Puerto Varas – Ensenada (45 km)

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Ciclovia ligando Puerto Varas a Ensenada.

O primeiro dia de pedal foi bastante tranquilo: pedalamos por uma ciclovia que liga Puerto Varas a Ensenada e pudemos admirar o vulcão Osorno por praticamente todo o caminho. Chegamos cedo ao nosso destino e nos instalamos no camping Montaña.

A cidade não oferece muitas opções e parte do comércio ainda estava fechada porque a temporada não havia começado. Nesse camping, por exemplo, há um restaurante que só funciona durante o mês de janeiro.

Passamos o resto do dia admirando o vulcão Osorno na beira do Lago Llanquihue e tirando fotos. Preparamos o jantar e, em homenagem ao Tux e ao Davi, que fizeram a primeira parte da viagem com o Artur em 2012, tomamos vinho de caixinha tetra-pak. Um vinho da casa “melhorado”.

Ensenada – Puelo (79 km)

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Tchau, Osorno!

Aos poucos, deixamos o Osorno para trás, mas fomos acompanhados por outros picos nevados por um bom trecho. Havia muita água cristalina por todo o caminho, incluindo o Rio Petrohué. 

O almoço foi em Cochamó e, pela primeira vez, estive num restaurante onde não se serve água. A cidade não tem muita estrutura, mas a região é linda e atrai pessoas interessadas em caminhadas. Há alguns roteiros bem legais de trekking por ali e óbvio que eles estão na minha infindável lista de “quero fazer/quero voltar”.

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Olá rípio!

A partir de Cochamó, demos adeus ao asfalto e olá ao rípio. Logo na saída, encaramos um trecho com pedras maiores e muito sobe e desce. Embora não fossem longas e tampouco íngremes, as subidas eram frequentes e estávamos cansados quando encerramos o dia. 

Como era de se esperar, Puelo é uma vila pequena. Porém, teve algumas boas surpresas como um hostel novinho, limpo e ajeitado, um mercadinho bacana e wifi gratuito na praça (hehe). 

Puelo – Hornopiren (92 km)

Este foi o tramo mais longo da viagem. O começo foi no asfalto, com uma vista incrível para picos nevados, mas logo vieram o rípio e um sobe e desce pior do que o do dia anterior. As subidas e descidas eram mais íngremes do que na véspera e mais frequentes também.

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Entre Puelo e Contao.

Fizemos uma pausa para comer antes de chegarmos a Contao e vi, pela primeira vez, um leão marinho. 

Quando chegamos à vila, compramos água e mais algumas comidinhas antes de continuarmos. Nesse recomeço, encaramos uma subida chatinha e bateu uma preguicinha, mas tínhamos chegado cedo em Contao e achamos que não valia a pena pernoitar ali. De qualquer forma, o pedal rendeu, pois havia um trecho de asfalto no nosso caminho, já que a Carretera está sendo asfaltada aos poucos.

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A vista da chegada a Hornopirén encanta.

Na chegada a Hornopiren, passamos pela casa de um casal que nos havia oferecido carona mais cedo. O preço do camping era bom, mas optamos por ficar numa parte mais central. Acabamos hospedados em um hotel bem legal, com bom preço.

Depois de nos instalarmos, fomos atrás das passagens das balsas para Caleta Gonzalo (companhia Transportes Austral). É preciso ficar atento ainda às datas das balsas, pois, dependendo da época, ela não funciona diariamente.

Chegamos pouco antes do horário de fechamento do escritório e levei um tremendo susto quando a moça disse que não tinha mais lugar para embarcarmos no dia seguinte. Por sorte, o responsável pelo lugar apareceu nesse momento e falou: “eles estão de bicicleta. Pode vender as passagens.” Não havia espaço era para automóveis. 

Hornopiren – Caleta Gonzalo

A primeira providência do dia foi buscar as passagens, que ainda não haviam sido pagas. A atendente já tinha encerrado o caixa quando fomos comprá-las na véspera e, por isso, as deixou apenas reservadas.

Antes de embarcarmos, passamos numa vendinha para comprarmos mais comida e aproveitamos para pegar um vinho. Taí algo interessante no Chile, mesmo em mercadinhos safados, dá para encontrar bons vinhos.

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Prendendo as bicicletas no caminhão.

Conhecemos um casal do País Basco que estava começando a viagem pela Carretera. Juntos, combinamos com um caminhoneiro para fazer o transporte das nossas bicicletas num trecho de 10km entre Leptepú e Fiordo Largo, enquanto nós seguiríamos em uma van. O pessoal da empresa de transporte pede para que isso seja feito para não haver atraso na partida da segunda balsa.

A estrada não era ruim como falaram e constatamos que chegaríamos a tempo com as bicicletas. Só que teria sido horrível pedalar com a poeira absurda levantada pelos carros e caminhões passando em comboio.

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Duas balsas ligam Hornopirén a Caleta Gonzalo.

A segunda balsa é rápida e em cerca de 20 minutos estávamos em Caleta Gonzalo, dentro do Parque Pumalín.

Esse parque foi criado pelo fundador da empresa The North Face, Douglas Tompkins. Depois de uma viagem à região, ele se apaixonou pela Patagônia, começou a comprar terras por ali e criou áreas de preservação. 

Em Caleta Gonzalo há um café, um centro de informações, cabanas e um camping. O centro de informações estava fechado, pois a temporada ainda não havia começado. E essa foi a mesma explicação dada pelo guarda-parque Jorge para não termos encontrado ninguém responsável pelo camping. Simpático, ele disse para aproveitarmos. 

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Camping no Parque Pumalín.

A primeira providência foi tomarmos um banho de pia, pois não há chuveiros ali. O restante do dia foi bem tranquilo. Montamos a barraca, organizamos as tralhas, jantamos e ficamos conversando e tomando vinho até o sono chegar.

Caleta Gonzalo – Chaitén (56 km)

Apesar de muitas subidas, a estrada estava ok no começo. Mas é claro que o rípio piorou depois, com bastante cascalho e pedras grandes. 

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Estrada que corta o Parque Pumalín.

Cruzar o parque por essa estrada foi incrível. Primeiro, há um trecho de vegetação mais fechada e depois vimos muitas árvores mortas. Deduzimos que era consequência da última erupção do vulcão Chaitén em 2008.

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Muita água pelo caminho.

Alguém pelo caminho nos contou que há pouco tempo ocorreu uma enchente por ali e talvez isso explique algumas árvores arrancadas pelas raízes que vimos nas laterais da estrada, além de um pouco de erosão.

Já próximo à cidade, começa um trecho de asfalto que serve como estrada e como pista de pouso. A vista ao chegar à cidade é bem bonita.

Chaitén está retomando as atividades, porém, ainda tem jeito de cidade abandonada em alguns pontos. Tentamos hospedagem num hostel, mas não havia sinal de vida. Por fim, fomos parar numa cabaña com a regalia de uma cozinha e um “vizinho” brasileiro, o Baki, que estava indo de Curitiba para o Ushuaia de moto. 

Chaitén – Villa Santa Lucia

O tempo amanheceu feio e decidimos tentar uma carona. Um casal nos deixou em El Amarillo, uma vila junto ao parque de mesmo nome e continuação do Parque Pumalín. Ali, havia sido recém-inaugurado um mercado bastante ajeitado, com alimentos, artesanato, roupas e diversos equipamentos para camping. Entrei para comprar café, mas nem precisei: a bebida era cortesia. 

Enquanto tentávamos a segunda carona, reencontramos nosso conterrâneo Baki, que teve um contratempo com a moto e voltava para Chaitén. Vimos também um casal de alemães que estava nas balsas conosco e viajava em uma linda Toyota Land Cruiser com um camper. O Artur se apaixonou!

Nossa carona até Villa Santa Lucia foi um rapaz e sua fofíssima mãe. Ela me convidou várias vezes para visitá-la em La Junta e repetia: “A señora o señorita no lo se.”

A estrada estava em obras e alguns trechos estavam bem ruins para passar. Provavelmente, logo virá o asfalto por aqui também. 

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Villa Santa Lucia.

Ao desembarcarmos, encontramos alguns cicloturistas subindo a Carretera Austral. Um casal de franceses, um outro francês que eles conheceram no caminho e que começou a viagem no Rio de Janeiro e um inglês com muitas histórias para contar. Era sua terceira viagem pela Patagônia, além de já ter pedalado na África e percorrido a Transamazônica.

O Artur se apaixonou pela bicicleta do inglês Justin, uma George Longstaff feita sob medida e que o acompanha há 15 anos pelas estradas do mundo.

Villa Santa Lucia – Futaleufu (79,8 km)

Estava apreensiva com esse trecho devido à altimetria mais puxada. Porém, o pedal foi bem mais tranquilo do que imaginei. Encaramos tempo nublado, mas sem chuva e pudemos admirar bem o caminho, repleto de montanhas ainda com neve.

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Lago Yelcho.

Próximo ao lago Yelcho, um cachorro saiu correndo de sua casa e nos acompanhou por cerca de 10 km. Por sorte, paramos numa casa onde as moradoras conheciam seus donos e se comprometeram a devolvê-lo.

Apesar de pequena, Futalefeu é ajeitada. Chegamos num domingo e praticamente todo o comércio estava fechado, claro. A salvação para os ciclistas esfomeados foi um centro comunitário onde acontecia uma feirinha de artesanato.

O Artur comeu duas fatias de um delicioso tiramissu e eu experimentei o mote com huesillos. No Equador, mote é um tipo de milho muito saboroso, mas, em território chileno, é trigo. Tomei a bebida bem gelada e achei gostosa a princípio, só que ela é tão doce que se tornou enjoativa.

Conversando com a senhora que nos vendeu as bebidas e doces, descobrimos que há muitos brasileiros morando em Futalefeu e, por pouco, não cruzamos com um deles.

A cidade possui muitas opções de hospedagem que só funcionam na temporada. E novembro definitivamente não se encaixa nesse período. Para nossa última noite no Chile, nos hospedamos no hotel Antigua Casona e jantamos na Hosteria Rio Grande. Era tanta comida, que nem dei conta.

Futaleufú – Trevelín (50 km)

Tivemos a manhã mais preguiçosa da viagem e também o melhor café da manhã. O dono do hotel, um italiano que há dois anos trocou Milão por Futaleufú, preparou uma mesa farta e ainda nos deu lanchinhos para a viagem.

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Minha primeira fronteira de bicicleta.

Os 10 km até a fronteira foram fáceis: asfalto e descida. E a entrada na Argentina foi ainda mais tranquila do que a saída do Chile. O cara que carimbou nossos passaportes até arriscou um pouco de português e o responsável pela aduana apenas perguntou se as bicicletas eram nossas e nos liberou.

O restante do caminho foi ruim por causa das costelas de vaca. E os últimos 7 km foram piores do que os 33 km anteriores. Não bastasse a estrada piorar, o vento contra apareceu, afinal, tínhamos entrado na Patagônia Argentina.

Trevelín é uma cidade bem fofa de colonização gaulesa e famosa pelas casas de chá. Até queríamos experimentar a cerimônia do chá, mas achamos caro (200 pesos por pessoa) e não queríamos nos entupir de doces. Acabamos jantando numa pizzaria mesmo.

Trevelín – Los Alerces (74 km)

Antes de partir, fomos ao mercado e à padaria abastecer nosso estoque de comida. Infelizmente, não encontrei nenhuma opção de empanada vegetariana.

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Chegamos e não havia ninguém na portaria.

Os 35 km até Futalaufquen são asfaltados e, apesar de quatro subidas puxadas bem na sequência, esse trecho rendeu. Fomos até o centro de visitantes do Parque Los Alerces onde conseguimos um mapa com indicações de hospedagem pelo caminho.

Seguimos até o Lago Verde, onde há um camping recém-inaugurado que custava 150 pesos. Só que a mulher que nos deu o preço não tinha mais nenhuma informação sobre a estadia. A outra opção de hospedagem ali era um resort, mas isso estava fora de cogitação. Decidimos voltar e ficamos no camping do Rio Arrayanes, um pouco mais em conta (120 pesos) e com boa estrutura – banho quente, banheiros limpos e uma lojinha de conveniência com comida e itens básicos.

Encerramos o dia de pedal com um jantar caprichado e cervejas artesanais geladas no rio próximo a onde montamos a barraca.

Los Alerces – Cholila (51 km)

Arrumamos tudo e deixamos as bicicletas na entrada do camping para podermos fazer a caminhada do Alerce Solitário e até o mirante para um glaciar. Seguimos a dica de atalho da moça do camping e levamos duas horas e 20 minutos para irmos e voltarmos incluindo o tempo para tirarmos muitas fotos da paisagem incrível.

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Em busca do Alerce Solitário.

O pedal até Cholila foi cansativo. Pedras, subidas e calor! Não estava mais acostumada a pedalar com 30˚C. Gostei bastante de conhecer o Parque Los Alerces e, com certeza, é um lugar para voltar e fazer mais caminhadas. 

Este foi o dia de encontrarmos ciclistas seguindo para o sul. Foram dois casais (dois americanos e um sul-africano e uma americana) e um trio não sei de onde. O rapaz sul-africano quis saber se estávamos achando a Argentina muito cara, pois estava inconformado com os preços cobrados.

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Uma ótima surpresa em Cholila.

Em Cholila, ficamos no hostel Piuke Mapu. Laura, a dona, é professora de apicultura e seu marido, Dario, escalador e guia de montanha. Eles fazem um trabalho de sustentabilidade com separação do lixo, banheiro seco e “bicimáquinas”, bicicletas feitas por um mexicano que passou por ali e que substituem eletrodomésticos. Há uma bicibomba para bombear água, uma bicimolino para moer grãos e uma bicilicuadora para preparar sucos e vitaminas com vista para as montanhas ao redor da cidade. A bici para lavar roupas foi doada a uma senhora.

Conversamos bastante com o Dario que nos contou sobre o trabalho que tenta realizar com os adolescentes de Cholila. Segundo ele, a população está dividida entre os donos da terra e as pessoas que trabalham para eles. A ideia é dar treinamento aos jovens para que eles possam sair desse esquema e atuarem como guias de turismo. Nossa primeira impressão é de que não havia muito o que conhecer por ali, porém, o Dario nos mostrou que estávamos bastante enganados.

Ele também nos contou a história de Butch Cassidy, o ladrão de bancos que fugiu dos Estados Unidos e se escondeu em Cholila. O policial que deveria prendê-lo chegou à cidade e o encanto foi tanto que comprou terras por ali e mandou avisar que não voltava mais. Butch fugiu para a Bolívia, onde, ao que parece, morreu. Ficamos sabendo dessa história porque Dario produz a cerveja Butch Cassidy e vimos algumas garrafas. Infelizmente, não havia nenhuma em estoque para provarmos.

Jantamos no restaurante/café Rai Mapu, indicado pelo Dario e pela Laura. É um espaço alternativo, meio hippie e bastante politizado. Aproveitamos para experimentar a cerveja Ruta 40, também recomendada pelo nosso anfitrião.

Cholila – El Bolsón (77 km)

O último dia pedalado começou com subidas e essa foi a parte fácil. Logo veio o famoso vento contra patagônico que faz o pedal não render e te tira da estrada com uma facilidade assustadora. 

Seguimos assim até Epuyén, onde paramos numa vendinha da estrada para fazermos um lanchinho. O Artur comprou um salame e eu peguei uma garrafinha de suco de mirtilo. Divino!

Antes de voltarmos para a estrada, ficamos conversando com o dono do lugar, o simpático senhor Roberto. Depois de passar a vida toda em Buenos Aires, ele se aposentou, foi a Epuyén visitar alguns amigos e não saiu mais de lá. Ex-fumante, ele nos disse com lágrimas nos olhos sobre um ataque cardíaco que sofreu: “Eu morri e nasci de novo”. Hoje, ele vive uma vida mais simples e uma de suas maiores alegrias é o contato com os viajantes que param em sua venda ao passar pela Ruta 40.

Nossa segunda trégua do vento foi em uma sorveteria em Hoyo, onde dei continuidade à degustação iniciada em Trevelín. O sorvete de morango frescos da região foi, sem dúvida, o melhor de toda essa viagem. E olha que vieram outros mais famosos depois.

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Enfim, El Bolsón.

Chegando em El Bolsón, fomos abordados pelo dono de um hostel, que nos ofereceu um quarto privativo por preço de camping. Ele e sua esposa queriam porque queriam que ficássemos mais tempo ali e foram nos perguntando sobre o roteiro e o que tínhamos achado da viagem.

Encerramos o dia com um menu degustação de cervejas em um restaurante tradicional indicado pelo dono do hostel. A cerveja de framboesa era incrível!

El Bolsón – Bariloche

Decidimos voltar de ônibus para Bariloche porque há muitos caminhões na estrada e não queríamos encerrar a viagem assim. A parte ruim é ter que pagar uma grana para os motoristas ao embarcar as bicicletas. Eles falam que é taxa da companhia, porém, isso é lorota.

Fomos pedalando da rodoviária até a casa da família hermana e todos ficaram muito felizes com nossa chegada antecipada.

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¡Que fiaca!

Os dias seguintes em Bariloche foram bem legais. Conhecemos alguns vizinhos, compramos verduras orgânicas, acompanhamos o Careca quando ele foi vender pão. Até tentei aprender a fazer pão com ele, mas me perdi nas medidas: um pouquinho de fermento, joga umas colheradas de açúcar, vai colocando a farinha, esse tanto de água, sal, sementes e voilá!

Ainda assim, passei bastante tempo na cozinha. Fiz temaki, quibe de batatas com verduras e esfihas, que foram carinhosamente chamadas de “empanadas árabes”. Depois desse dia, definitivamente, quero um forno de barro. As esfihas foram assadas em poucos minutos e ficaram deliciosas!

San Martín de los Andes

Continuando com as visitas, fomos para San Martín de los Andes visitar o Ingo, que trocou a Alemanha pela Argentina, conheceu o Artur e o Davi na viagem de 2012 e que eu já havia encontrado quando ele fez uma escala em São Paulo em 2013.

Embora também seja uma cidade turística, San Martín não tem o mesmo apelo de Bariloche, que tende para um turismo de consumo. Isso já foi suficiente para me encantar muito mais.

Fomos conhecer o Museu La Pastera, um antigo armazém de feno para animais onde Che Guevara passou algumas noites durante a viagem de motocicleta que fez pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado. Depois, ficamos andando pela cidade, até a hora de encontrarmos o Ingo novamente. Voltamos no dia seguinte para Bariloche.

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A família hermana.

Antes de voltarmos ao Brasil, ainda fomos conhecer um pouco mais de Bariloche. Acompanhados da Sarita, fomos com o Careca conhecer a Colonia Suiza e a região onde fica o Hotel Llao Llao.

Eu já tinha ouvido isso antes e é impossível não concordar: a Patagônia é apaixonante! E olha que visitei só um pedacinho. Com tantas opções para conhecer e explorar, 20 dias servem apenas para deixar um gostinho de quero mais.

Para quem quiser ver mais fotos, clique aqui.

Pedalando pelo Equador

Chimborazo

Chimborazo, o maior vulcão do Equador.

A inspiração para as férias veio de um blog que sigo, o While Out Riding, do Cass Gilbert. Junto com os irmãos Dammer, ele pedalou a Transecuador e teceu mil elogios ao país.

Decisão tomada e passagens compradas, começamos a pesquisar sobre cicloviagens pelo Equador e a ansiedade crescia a cada foto de paisagem bonita que víamos ou relato interessante que líamos. E, como nenhum de nós conhecia o Equador, achamos legal descobrirmos esse país juntos.

Quito

A viagem começou na capital do país, Quito, onde passamos quatro dias para descansarmos da correria pré-férias e conhecermos um pouco da cidade.

Pichincha

Teleférico em Quito.

Seguindo a dica do Mathias Fingermann, fomos pedalando até o teleférico que leva ao vulcão Pichincha e subimos com as bikes. O ingresso custava 8 dólares por pessoa, porém, como desceríamos de bicicleta, pagamos 6 dólares para os dois.

Esse desconto existe porque ali há uma pista de downhill. Muitas pessoas sobem com o teleférico, mas descem pedalando e algumas cabines têm até um suporte para pendurar bicicletas. Só que ao invés de encarar esse downhill, optamos por uma estrada que segue para a zona sul da cidade.

O começo era cheio de pedras, mas depois se transformou numa estrada de terra batida. Aos poucos, começaram a surgir algumas casas até que chegamos ao início de um bairro. Fomos pedir informação a um agente de trânsito que estava ali, pois havia uma bifurcação. Ele não quis nos deixar seguir pedalando, pois ali era perigoso e blá-blá-blá e tivemos que “pegar uma carona” num ônibus de linha, que nos deixou no centro histórico, de onde continuamos pedalando.

Vimos muitas pessoas pedalando em Quito e há investimentos na cidade para incentivar esse modal. Além de algumas ciclovias, há bicicletas públicas para alugar e, aos domingos, uma das principais avenidas da cidade, a Avenida Río Amazonas é fechada para carros e por ali circulam apenas pedestres e bicicletas.

Apesar disso, achei um pouco tenso pedalar em Quito. A buzina impera e os motoristas, em geral, são imprudentes. As rotatórias em algumas grandes vias também não são muito convidativas para ciclistas.

Palugo

Nosso primeiro dia pedalando foi de Quito para a vila Palugo. A saída indicada pelo Google Maps era pela mesma estrada que liga a cidade ao aeroporto e, próximo à entrada do túnel, há uma faixa enorme proibindo bicicletas. Pedimos informação para dois guardas de trânsito e eles nos mandaram exatamente por ali.

Ainda no Brasil, tinha entrado em contato com os irmãos Thomas, Mijael e Mathias Dammer e combinamos uma visita. Eles moram nos arredores de Quito e trabalham com agricultura orgânica, além de serem guias de montanha.

O sítio Nahual é lindo e a estrutura visa à sustentabilidade: água aquecida por meio de energia solar, banheiros secos, construções de adobe. Fomos à casa de um dos irmãos e adoramos o que vimos. Tendo como principais materiais o adobe, a madeira e o vidro, o sobrado é bastante aconchegante.

No começo da noite, nos reunimos com os três e, munidos de mapas e de um notebook, fomos refinando a rota previamente traçada. Eles já pedalaram todos os caminhos que queríamos fazer e tinham dicas excelentes.

Só achei curioso o fato de eles não passarem as distâncias em quilômetros. Quando perguntava sobre a quilometragem de uma cidade para outra a resposta era em tempo. “Ah, de Isinlivi para Quilotoa é um dia de pedal.”

Cotopaxi

Nos despedimos dos irmãos e pedalamos um trecho urbano no sentido do aeroporto antes de entramos na ciclovia El Chaquiñán. São cerca de 21 km ligando as cidades de Puembo a Cumbayá com paisagens bem bonitas. Cruzamos com alguns ciclistas treinando por ali e acabamos pedalando mais do que precisávamos, pois nossa saída era em Tumbaco.

El Chaquiñan

Ciclovia El Chaquiñan.

Deveríamos passar por um tal de Portal de Villa Vega, porém, nosso esquema de PPS (pare-pergunte-siga) não estava funcionando muito bem, pois cada pessoa com quem conversávamos nos indicava um caminho diferente. Como tínhamos o nome do nosso próximo destino, aproveitamos uma lan house para checarmos a rota. Direção mais ou menos confirmada, partimos rumo à vila La Merced, onde passamos a noite.

Depois de tomarmos café da manhã e abastecermos nossa “despensa”, pegamos a estrada. O começo tinha muitas pedras e subidas, mas ficamos muito animados quando avistamos, pela primeira vez, o Cotopaxi. Pegamos um trecho de rodovia, porém, logo voltamos para estradas de paralelepípedos. Embora estivéssemos subindo constantemente, a inclinação não era ruim. O que segurava nosso ritmo era a irregularidade da estrada.

Pela rota que pesquisamos, seria um dia apenas subindo. Por isso, quando começamos a descer bastante eu já sabia que havíamos errado o caminho. Pedimos informação para um senhor que passava por ali de trator e ele nos disse que estávamos perto da vila de Patichubamba, uma das referências de rota dos irmãos Dammer. Menos mal.

Ainda faltavam 30 km até o Parque Cotopaxi e não chegaríamos lá com luz do dia. Por isso, aproveitamos a hospedagem encontrada no caminho e encerramos os trabalhos mais cedo. O senhor que nos recebeu no camping fez questão de frisar que estávamos a 2.970 m acima do nível do mar.

Cotopaxi

Da estrada para a trilha, a caminho do Cotopaxi.

No dia seguinte, tivemos um início tranquilo. Já estávamos a mais de 3.000 m e ainda havia bastante vegetação. Depois de uma estradinha que lembrava a Mantiqueira, veio mais uma dúvida sobre o caminho. Tínhamos que cruzar um rio, mas não encontrávamos a ponte para atravessarmos. Deixamos as bikes num canto e fomos checar a trilha a pé. Encontramos uma pequena ponte de madeira e foi por aí mesmo que seguimos.

Saímos num cruzamento de estradas e aproveitamos para almoçar no restaurante que há ali. Milho e favas cozidos acompanhados de queijo branco. Ficamos um tempo conversando com o dono do lugar e um senhor que apareceu logo depois.

Pedalamos os últimos quilômetros até o parque com vento contra, um pouco de chuva e frio. A passagem pelo Control Norte foi tranquila, tivemos apenas que apresentar nossos passaportes para registro e não pagamos nada. Seguimos de lá para a hospedagem Tambopaxi.

Cotopaxi

Luzes acesas no Refúgio José Ribas.

Ao escolhermos a hospedagem, resolvemos nos mimar um pouco. Ao invés de camping ou alojamento, optamos por um quarto não compartilhado, o que, no Tambopaxi, significa um quarto na ala VIP. Além do banho mais quente da viagem, tínhamos uma vista incrível para o vulcão e decidimos passar duas noites ali.

Depois do descanso, continuamos a viagem dentro do parque. O pedal começou com um pouco de vento contra que se tornava a favor conforme as curvas do caminho. Pela primeira vez na viagem, passamos dos 4.000 m.

Cotopaxi National Park

Com a chuva, veio o frio.

A subida estava tranquila até a chuva começar. A combinação de vento, chuva e altitude fez com que a sensação térmica caísse muito rapidamente. As mãos estavam bastante geladas e, mesmo colocando luvas mais quentes, elas não esquentavam.

Queríamos chegar a uma cabana abandonada indicada pelos Dammer, porém, no meio do caminho tinha um portão e um aviso de que se tratava de propriedade privada. Ficamos alguns minutos parados ali e, enquanto pensávamos no que fazer, a chuva foi aumentando. Decidimos voltar um pouco, sair da estrada e levantarmos acampamento.

Cotopaxi

Nada mal acampar com essa vista.

Ficamos algum tempo na barraca, ouvindo a chuva cair e nos aquecendo. Quando ela passou, fomos explorar o lugar e nos surpreendemos ao perceber o quão perto do Cotopaxi estávamos. O tempo fechado de antes tinha escondido o vulcão completamente. Dormimos a 4.050 m acima do nível do mar, com um vulcão no “quintal” da nossa barraca e temperatura próxima de 0°C. Foi uma ótima noite!

O dia amanheceu sem chuva, mas o tempo ainda estava um pouco fechado. Refizemos o caminho do dia seguinte, aproveitando para fotografar um pouco. O vento estava mais forte do que no dia anterior e, quando soprava contra, nos obrigava a pedalar até nas descidas.

Cotopaxi

Vida selvagem no Parque Nacional Cotopaxi.

Passamos pela Laguna de Limpiopungo, que tem uma ótima vista do vulcão Rumiñahui, e depois seguimos para o Control Sur, saindo do Parque Nacional do Cotopaxi. Pegamos um trechinho da rodovia Panamericana e logo chegamos à cidade de Lasso, onde passamos a noite no hostel Cabaña de los Volcanes.

Quilotoa

A saída de Lasso foi chatinha, pois começava numa rodovia estreita e com muitos caminhões. O movimento foi diminuindo e, na primeira bifurcação com placa para Isinlivi, voltamos a pedalar numa estrada de pedras, numa subida suave.

Depois veio a primeira serra com curvas tão fechadas que a apelidamos de “caracoliños”. Pelo caminho, cruzamos com muitas caminhonetes que fazem o transporte de camponeses, moradores e alunos da região.

Isinlivi

Caracoliños no caminho para Isinlivi.

Com poucos quilômetros rodados, já percebemos uma grande mudança na paisagem e nas feições das pessoas. Esta é uma região mais rural e havia muitas plantações, que quase nunca conseguíamos identificar. E a população tem traços mais indígenas e usa roupas tradicionais, principalmente, as mulheres.

Logo alcançamos a segunda serra e o vento contra não dava trégua. Já tínhamos passado dos 3.000 m e cada vez que parava para recuperar o fôlego, ficava impressionada com o quanto tínhamos subido.

Isinlivi

Depois de chegarmos a 3.900m, começou a descida para voltarmos aos 2.900m.

A descida foi longa e gelada: cerca de 15 km de muitas curvas, pedras e névoa que escondia parte do caminho. Ficamos hospedados no hostel Taita Cristobal e gostamos muito. Pagamos 14 dólares por pessoa por um quarto com banheiro privativo e esse valor incluía também o jantar e o café da manhã. E ainda ficamos um bom tempo conversando com o dono, o Paco.

Queríamos sair cedo, porém, amanheceu chovendo e, enquanto esperávamos o tempo melhorar, ficamos jogando dominó. Depois de três partidas, fomos para a estrada. Logo no começo, encaramos uma boa descida seguida de uma boa subida. Isso foi apenas uma prévia do dia, que teve muito sobe-e-desce e um pouco mais de chuva.

Fomos passando por vários pueblos indicados pelo Paco e quase todas as pessoas que encontramos pelo caminho nos cumprimentavam e algumas ainda perguntavam de onde estávamos vindo e para onde iríamos. Era só falar Quilotoa para ouvir “ih, estão longe”.

Tunguiche

Os irmãos Gilmar, Emerson e Danilo voltando da escola em Tunguiche.

O trecho de Tunguiche para Pilapuchin foi bastante cansativo. De novo subimos um “caracoliños”, só que desta vez combinado com areia, que passou a fazer parte do caminho por vários quilômetros.

Passamos por uma bifurcação para Shalala, mas seguimos no caminho para Quilotoa, pois não sabíamos como era a estrutura da vila. Depois descobrimos que foram feitos investimentos em Shalala para receber turistas que querem visitar a Laguna Quilotoa: camping, pousada, restaurantes e um deck de observação.

Quilotoa

Descendo até a beira da lagoa Quilotoa.

A vila Quilotoa funciona em torno da laguna. O comércio por ali é formado basicamente por hostels, restaurantes, lojas de souvenirs e vendinhas.

Tinha lido uma recomendação sobre o hostel Cabañas Quilotoa e o fato de ter aquecedor em cada quarto me animou a ficar ali. Como era logo na entrada da vila, infelizmente não vimos as outras opções. Pagamos 20 dólares por pessoa com jantar e café da manhã. O problema é que o lugar era sujo e as donas agiam como se estivessem nos fazendo um favor e não prestando um serviço.

No dia seguinte, fomos até a beira da laguna. Um guia online indicava meia hora para descer e uma hora para subir. Subimos em 40 minutos, mas com várias paradas para descansarmos um pouco. Há quem alugue mulas para evitar esse desgate.

Depois de almoçarmos, fomos para Zumbahua. Sem dúvida, foi o pedal mais fácil da viagem toda: 12,4 km de descida. Nessa região, há várias feiras tradicionais, que acontecem cada dia da semana em uma cidade diferente. A de Zumbahua é aos sábados e não queríamos perdê-la.

Zumbahua

Mercado em Zumbahua.

Levantamos cedo e fomos primeiro ver a feira de animais, que acontece a algumas quadras da praça. O negócio funciona com os donos dos bichos parados segurando os animais presos a cordas a espera dos compradores. Havia muitos porcos, ovelhas e algumas lhamas. A outra feira tinha barracas de frutas, de secos e molhados, roupas, sapatos, lã e comida. Aproveitei para comprar algumas frutas.

A feira traz vida para a cidade. Tivemos a impressão de que muitos que ali estavam usavam suas melhores roupas, como se aquele fosse o momento mais esperado da semana. Depois de fazermos muitas fotos, fomos pegar o ônibus para Angamarca.

Chimborazo

Embarcamos num ônibus lotado e viajamos quase o tempo todo em pé. Os bagageiros estavam cheios e as bicicletas foram no teto do ônibus. A cada virada brusca na beira de precipícios, eu ficava agoniada com medo das bikes saírem voando.

Desde o momento em que descemos do ônibus tive uma sensação ruim em relação à Angamarca. Conversamos com poucas pessoas ali, mas parecia que queriam sempre tirar algum proveito. Para ajudar, começou a chover forte e o caminho por onde deveríamos seguir ficou intransitável até para 4×4. Ou seja, seria uma subida íngreme escorregando na lama.

Acabamos voltando para Zumbahua e, de lá, seguimos para Latacunga, onde passamos a noite e refizemos nosso roteiro. Demos mais um descanso para nossas pernas e fomos de ônibus até Riobamba. Não tinha lugar para sentarmos e o cobrador falou para irmos na cabine com o motorista. Conversamos tanto que fui a viagem inteira ali.

Chimborazo

Visão privilegiada do Chimborazo.

Saindo de Riobamba, pegamos uma estrada secundária para irmos ao Chimborazo. Por boa parte do caminho, pedalamos em direção a nuvens escuras e sem qualquer visão do Chimborazo. Porém, conforme nos aproximávamos, o tempo foi melhorando e logo as nuvens começaram a se dissipar.

Passamos por um pueblo bem na hora da saída da escola. As crianças ficaram ao nosso redor, bastante curiosas. Numa subida, duas menininhas começaram a empurrar a bicicleta do Artur e depois vieram fazer o mesmo comigo. Descemos das bikes e fomos andando lado a lado e conversando um pouco com elas.

Antes da estrada de asfalto para a Reserva do Chimborazo, encontramos um local perfeito para acamparmos com vista privilegiada para o vulcão. Deixamos as bikes na estrada e fomos procurar um lugar para montarmos a barraca. Nisso, um carro de polícia parou. Os policiais não tinham nos visto e ficaram intrigados com as bikes no caminho. Fomos conversar, explicamos sobre a viagem e perguntamos se era permitido acampar por ali. Um deles respondeu: proibido não é, mas é perigoso. Eles foram embora e pensamos: não passa ninguém aqui, como vai ser perigoso?

Chimborazo

Irmãs curiosas.

Foi só falarmos e uma caminhonete estacionou e dela saíram duas mulheres, um homem e duas crianças. Eles tinham ido ali cortar capim para aquecer os animais. O Artur ficou cerca de uma hora conversando com o cara e eu, com as crianças. As mulheres cortaram todo o capim sozinhas e o cara ficou apenas observando.

Resolvemos procurar outro lugar para acampar e seguimos em frente até uma vila que parecia abandonada. O Artur foi na frente e logo voltou dizendo: há uma opção de hospedagem, por 12 dólares o quarto ou podemos acampar de graça. Converse com a belga que está por lá. E ele voltou para a estrada para tirar fotos do Chimborazo, que estava lindo nesse final de tarde.

Chimborazo

Camping próximo ao Chimborazo.

Tínhamos lido sobre a Casa Condor em algum site, mas o lugar parecia abandonado e foi uma surpresa encontrarmos os belgas Justine e Edward. Optamos pelo camping, mas aproveitamos a cozinha para prepararmos o jantar e muito chá.

Logo chegaram os mexicanos Cynthia e Gustavo que estão viajando num Fusca. Ambos os casais têm a meta de chegar a Ushuaia. Porém, os belgas juntaram dinheiro e planejam viajar por um ano, enquanto os mexicanos estão na estrada há dois anos e vão trabalhando pelo caminho para bancar a viagem.

Mesmo tendo ido dormir tarde por causa das boas conversas, acordamos cedo por causa do barulho do vento. Arrumamos nossas coisas e tomamos café da manhã com calma, antes de nos despedirmos dos casais.

El Arenal

Atravessando a região desértica El Arenal.

Tínhamos bastante subida pela frente e muito vento, em alguns momentos a favor, mas quase sempre contra. A maior parte do caminho foi pela região El Arenal, um ecossistema chamado de páramo seco, de clima desértico.

Nas laterais da estrada, havia barrancos que pouco a pouco estão sendo desgastados pela erosão causada pelo vento. Pudemos sentir um pouco disso na pele, pois o vento trazia areia e até algumas pedrinhas que batiam com força no capacete e no rosto.

El Arenal

Vicuñas.

El Arenal é também uma área de preservação da vicuñas e tivemos a sorte de encontrarmos dois grupos grandes desses animais na beira da estrada.

Quando cruzamos a estrada Ambato-Guaranda, nos despedimos do Chimborazo. O vento contra com areia ficou ainda pior e eu tive dificuldade de pedalar nesse trecho. Mas logo veio a descida. Chegamos a um pequeno povoado e ali decidimos seguir por um trecho de downhill. Foram 7km descendo ao lado de um vale lindo e então chegamos à Salinas.

Salinas

Tinha lido sobre a cidade no blog do Cass, mas eu quis conhecer o lugar depois de ler um post que o Artur achou na internet. Salinas tem esse nome porque, 40 anos atrás, sua economia girava em torno de uma mina de sal, que pertencia a uma família muito rica. Até que um padre italiano foi morar na cidade e decidiu por fim a esse monopólio. Ele conseguiu empréstimos e organizou uma cooperativa para produzir queijo.

Salinas

Queijaria em Salinas com capacidade para processar 10 mil litros de leite por dia.

Esse modelo deu tão certo que começaram a surgir outras cooperativas e, atualmente, são 30 pueblos integrados com Salinas produzindo queijos (gruyére, parmesão, dambo e outros), chocolates deliciosos, lã de alpaca e de ovelha, frutas e cogumelos desidratados, produtos de soja e até bolas de futebol. Alguns produtos são exportados para Alemanha, Itália, Finlândia e Japão.

Salinas

O Tour Salinerito passa pelas principais fábricas da cidade. Pagamos 15 dólares para duas pessoas.

Depois do tour, sentamos num banquinho da praça e fomos abordados pela polícia da imigração que queria ver nossos documentos. Eles nos acompanharam até o hostel, onde estavam os passaportes, e, embora o policial tentasse manter uma pose de durão perguntando quando chegamos, por onde entramos, quanto tempo ficaríamos no país e tal, ao ouvir que estávamos viajando de bicicleta, a policial abriu um sorriso e exclamou “¡que chévere!”.

Salinas

Gianpaolo: ótima conversa e excelente comida.

Nesses dias em Salinas, conversamos bastante com um italiano que mora no Equador há 12 anos, o Gian Paolo. Fomos três vezes à pizzaria dele e ficamos, pelo menos, duas horas e meia batendo papo. De Salinas, pedalamos até Guaranda, onde pegamos um ônibus de volta para Quito.

Trechos pedalados

Palungo – La Merced 57 km – 824 m acumulados
La Merced – Molinuco 25 km – 693 m acumulados
Molinuco – Tambopaxi 30 km – 1.039 m acumulados
Tambopaxi – meio volta do Cotopaxi 28 km – 426 m acumulados
Meia volta do Cotopaxi – Lasso 53 km – 269 m acumulados
Lasso – Isinlivi 46 km – 1.108 m acumulados
Isinlivi – Quilotoa 33,8 km – 1.496 m acumulados
Quilotoa – Zambahua 12,4 km – 83 m acumulados
Riombamba – Casa Cóndor 30 km – 1.245 m acumulados
Casa Cóndor – Salinas 37 km – 1.006 m acumulados
Salinas – Guaranda 23,8 km – 217 m acumulados

Comida

Em geral, a comida do Equador não empolgou muito. As refeições quase sempre eram compostas por uma sopa (a maioria de macarrão com frango) e o prato principal com arroz, lentilha (às vezes), salada e carne.

Nas cidades pequenas, embora os restaurante até tivessem um cardápio, normalmente, havia apenas uma opção. Em Lasso, assim que sentamos, o garçom trouxe dois copos de suco e depois as tigelas de sopa. Devolvi uma delas porque tinha frango e avisei que não como carne. Ele fez uma careta e disse que só tinha arroz, salada e ovo para mim.

Na primeira noite no Tambopaxi, pedimos o menu completo. A sopa de entrada era muito gostosa: um creme de batata com queijo e uma fatia de abacate. Depois, vieram batatas fritas e carne para o Artur e berinjela para mim. Tudo estava delicioso, porém, as porções deixavam a desejar para quem tinha pedalado o dia todo. Pedi mais uma porção de sopa para cada um e eles capricharam mais.

Em Isinlivi, comemos muito! Além de sopa de legumes, comemos couve-flor e brócolis, uma salada morna de tomates, ervilhas, pimentões e cogumelos, pequenas panquecas de batata e bolinho de chuva servido com melado como sobremesa.

Zumbahua

Frutas deliciosas.

Experimentamos sucos de frutas locais como naranjilla e tomate de árbol, que, como o nome diz, cresce em árvore e é delicioso. Comi physallis direto do pé e comprada na feira e experimentei a versão mais doce que há do maracujá, a granadilla. Já sinto falta dessas frutas.

No restaurante em que almoçamos em Riobamba quase não havia opções para mim. O rapaz abriu uma exceção e me serviu um prato do menu do café da manhã: patacones (banana verde frita) recheados com queijo e acompanhados de ovos fritos. Não me imagino começando o dia com uma refeição dessas.

Nos primeiros dias em Quito, fomos à cervejaria Cherusker. Fiquei feliz por encontrar um hambúrguer vegetariano no cardápio. Estava bom, mas não era nada demais. As cervejas da casa, por outro lado, são muito boas.

Para encerrar a viagem, em nossa última noite no Equador, fomos comemorar na Cervecería Abysmo. A parte de comida era fraca. Não havia nenhuma opção vegetariana, mas eles modificaram o prato de nachos para mim. Ainda assim, tinha tanto queijo cremoso que fiquei logo enjoada. Pelo menos, as cervejas deles são muito boas! Aproveitamos uma promoção e tomamos três tipos: vanilla coffee ale, honey ale e a weissbier da casa.

Enfim

Chimborazo

Terra de vulcões.

As paisagens equatorianas são realmente lindas e não é preciso percorrer grandes distâncias para ver cenários bastante diversos. As pessoas foram muito amigáveis e o fato de estarmos de bicicleta nos permitiu ter um contato maior com elas, que, em alguns casos, nos paravam no meio da estrada para conversar.

Essa viagem foi completamente diferente de todas as que eu tinha feito até então. E foi, sem qualquer dúvida, uma das mais gostosas!

Mais fotos no Flickr.

Carnaval na Mantiqueira

CicloMantiqueira

Serra do Ministério, entre Virgínia e Maria da Fé.

Os últimos meses foram tão corridos, que estava difícil até mesmo sairmos de São Paulo. Porém, queríamos aproveitar o feriado de Carnaval e nada melhor do que fazer uma cicloviagem.

Usando um guia do Guilherme Cavallari, o Artur montou um roteiro surpresa por estradinhas de terra da Mantiqueira e só fiquei sabendo para onde iríamos na quarta-feira antes do feriado. Arrumamos tudo na sexta-feira à noite e, sábado cedinho, partimos de ônibus para Itajubá.

Itajubá – Marmelópolis

Depois de comermos um lanche numa padaria perto da rodoviária, começamos o pedal em frente à antiga estação ferroviária da cidade. Passamos por uma área militar, por bairros já com estrada de terra e foram alguns quilômetros até entrarmos na zona rural.

CicloMantiqueira

Delícia de estrada!

Como esperado, a paisagem era linda por todo o caminho. Passamos por trechos com muitas árvores, o que tornava a temperatura mais agradável para pedalar, e o barulhinho de água nos acompanhou durante quase toda a viagem.

Ao cruzarmos com um carro com suporte para bike, a motorista nos perguntou se tínhamos visto um ciclista pelo caminho. “Deixei meu marido em Taubaté e fiquei de encontrá-lo por aqui, mas acho que ele se atrasou.” Não demorou muito e ela passou por nós de novo com o marido resgatado. Muito simpáticos, disseram para pararmos na casa onde estavam. “Vocês verão o carro estacionado na frente.” Paramos para dar um oi para a Amanda e o Pedro e logo seguimos adiante, pois ainda tínhamos muitas subidas pela frente.

Estava meio tarde para almoçarmos em Delfim Moreira, então, optei por um açaí, enquanto o Artur comeu um salgadinho meio tranqueira. Saindo da cidade, passamos em frente à cervejaria Kraemerfass e, embora esteja nos nossos planos conhecê-la, não foi dessa vez.

Para chegarmos à Marmelópolis, encaramos a Serra da Goiabeira, que era de terra na época em que o guia foi editado. O asfalto está bom em quase todos os trechos e a descida é bem gostosa. Ao chegarmos à cidade, fomos parar na pousada Bella Vista, onde encontramos quatro ciclistas de Itajubá que estavam fazendo o mesmo trajeto.

Tomamos banho, jantamos num restaurante simples e de comida farta próximo à Praça Cica e fomos dormir cedo.

Marmelópolis – Itanhandu

O despertador tocou cedo, mas dormimos uma hora a mais. Nos deliciamos com as lichias do café da manhã e acabamos saindo por volta das 10h.

CicloMantiqueira

Subidinha.

Logo no começo, encaramos muitas subidas e várias delas com pedras soltas. Havia muitas fazendas e o roteiro seguiu por estradinhas estreitas e bonitas. Passamos ao lado do campinho do Itaguaré, onde começa a subida para o Pico do Itaguaré, e aproveitamos para fazer um lanche por ali.

CicloMantiqueira

Vista da Serra Fina.

Para chegarmos a Passa Quatro, encaramos uma longa subida, seguida de uma longa descida com vista para a Serra Fina. Paramos algumas vezes para tirar fotos e achei alguns morangos silvestres que estavam deliciosos. Pena que eram poucos.

Passa Quatro é uma cidade fofa e estava toda enfeitada para o Carnaval. Fizemos a boa opção de almoçar na fornaria Antônio. Enquanto comíamos, chegaram os ciclistas que conhecemos em Marmelópolis: Deise, Egg, Denis e Cidy.

Com as barrigas cheias, papeamos um pouco, tiramos fotos e voltamos à estrada. Por questões de hospedagem, eles seguiram para Itamonte e nós paramos em Itanhandu. Esses foram os 10 km mais fáceis e sem graça de toda a viagem.

O Carnaval estava animado em Itanhandu e vimos várias pessoas fantasiadas. As mais marcantes foram o quinteto de Power Rangers e o He-man. Pena que não tirei fotos. Jantamos pizza e voltamos logo para o hotel.

Itanhandu – Virgínia

As rosquinhas de coco do café da manhã estavam incríveis. Comemos todas! Choveu bastante na noite anterior e as estradas estavam com bastante lama. Passamos por várias fazendas e vimos muito gado. Também cruzamos com alguns ciclistas que seguiam na direção de Itanhandu.

CicloMantiqueira

E deu para ver o Pico dos Marins.

Nos outros dias, passamos por trechos do Caminho de Aparecida e da Estrada Real e, neste terceiro dia, percorremos uma parte do Caminho dos Anjos. Também foi dia de avistarmos o Pico dos Marins.

Em seguida, veio a Serra do Palmital. Sem dúvida, foi a mais gostosa do caminho todo. Ela é bem estreita e com uma vista linda, claro! A descida também foi tranquila e chegamos em Virgínia no começo da tarde.

Depois de rodarmos a cidade, paramos num restaurante para almoçarmos. As opções eram “prato raso” e “prato fundo”. Pedi o primeiro, óbvio, e mesmo assim não dei conta da montanha de arroz e feijão que me foi servida.

Pensamos em nos hospedar no Hotel Fazenda Vale da Mantiqueira, pois seria caminho no dia seguinte. Liguei para perguntar se havia vaga e desisti quando a atendente me informou que o gerente tinha autorizado o desmembramento do pacote, porém, a diária teria o mesmo custo do pacote completo: R$ 1.050. Não, obrigada!

Fomos para a outra hospedagem da cidade, a Pousada 13 Lagos, que fica na estrada para Pouso Alto, e havia sido recomendada pelos ciclistas de Itajubá, que já estavam por lá. O fim de tarde e o começo da noite foram divertidíssimos, com muita conversa, risadas e algumas latas de cerveja.

Estávamos preparados para acampar por ali, porém, houve uma desistência de última hora e conseguimos um chalé para passarmos a noite. Fizemos nosso jantar para tirar um pouco de peso da bagagem, comemos e fomos dormir.

Virgínia – Itajubá

Tomamos café da manhã no quarto porque o da pousada era muito tarde para os nossos planos. Organizamos tudo e, na hora de irmos embora, cadê o senhor Mauro para acertar nossa conta? Ele tinha ido buscar pão na cidade para o café e, por causa da espera, saímos cerca de 30 minutos depois do previsto.

Na entrada de Virgínia, mais um atraso: meu pneu traseiro furou. Na hora da troca, mais uma baixa: um raio quebrado. Sorte minha que a roda tem 36 raios e aguentou o tranco do último dia da viagem.

Depois do Hotel Fazenda, há algumas casas com lindos jardins. Os moradores foram muito simpáticos e, como íamos em direção à serra, uma senhora disse que somos corajosos.

CicloMantiqueira

Um pouco de névoa na Serra do Ministério.

Logo depois da igrejinha, começa a Serra do Ministério, com 8 km de subida. O tempo ajudou bastante nessa hora e havia até um pouco de névoa quando chegamos ao topo do morro.

Estávamos começando a descer, quando ouvimos uma buzina amigável. Era o Egg, da turma de Itajubá, dirigindo o carro de apoio. Ele encostou o carro por ali, pegou a bicicleta e foi encontrar o restante da turma na subida da serra.

Seguimos com cautela, eu principalmente, pois havia bastante lama e pedras nos 11 km de descida até Pintos Negreiros, distrito de Maria da Fé. O único bar que vimos por ali estava fechado, então fomos ao mercado comprar pão e queijo para fazermos um lanche. O Artur não resistiu à peça de parmesão que estava na vitrine e o queijo foi parar no meu alforje. Foi uma releitura da brincadeira “o Tux carrega”.

Enquanto comíamos, o pessoal de Itajubá chegou. Eles também aproveitaram para comer algo; ficamos papeando e partimos juntos para a Serra do Pouso Frio, a segunda do dia. Esta serra é mais curta, com 5 km, porém, a subida é mais íngreme e como descreveu o Cavallari, “sem um centímetro de descanso”.

CicloMantiqueira

Denis trocou a aro 29 com suspensão pela garfo rígido com alforjes.

Apesar de algumas paradas, a subida rendeu. Fomos conversando bastante e, na metade do caminho, o Denis ficou curioso para pedalar minha bicicleta com alforjes. Fizemos a troca e, graças a ele, os últimos 2,5 km foram tranquilos para mim. Além de pedalar sem peso, o aro 29 e a suspensão deixaram a subida bem mais fácil.

Pouco depois, o Cidy e o Artur também inverteram as bikes. Dos trechos que percorremos da ciclomantiqueira, este foi o meu favorito. As paisagens lindas e as companhias divertidas somaram-se ao prazer de vencer as duas serras.

A descida até Maria da Fé foi marcada pela chuva gelada que caiu forte. Chegando ao posto de combustível indicado no guia, optamos por fazer o último trecho até Itajubá pelo asfalto. Foram longas descidas e algumas subidas, acompanhadas das lembranças de quando o Artur e eu pedalamos por ali na viagem para Aiuruoca.

Aceitamos o convite da Deise e dormimos uma noite em Itajubá. Fomos com ela, o Egg, Denis e sua esposa Mônica ao tradicional Bar da Maria saborear quitutes mineiros. Recomendo o pastel de milho com queijo.

Apesar do cansaço devido às poucas horas de sono (pegamos o primeiro ônibus para São Paulo, às 4:15), cheguei em São Paulo renovada. Paisagens lindíssimas, novos amigos, bicicletas e poder dividir tudo isso com o Artur são alguns dos motivos para que essa viagem tenha sido tão incrível.

Que venha logo a próxima! Para ler o relato do Artur, clique aqui.

Jalapão de bicicleta

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Nós, as bicicletas e a Serra do Espírito Santo. Foto: Artur Vieira.

Quando marquei as férias, decidi que queria cicloviajar e, em algum ponto, surgiu a ideia de irmos para o Jalapão.

Nós sabíamos que não seria fácil. O Artur, que já tinha ido duas vezes para lá, me perguntou algumas vezes se eu tinha certeza dessa viagem. Fui firme na decisão e parti tentando estar o mais aberta possível para perrengues. Só não imaginava que as surpresas viriam antes mesmo de começarmos a pedalar.

Fomos de carro para o Tocantins, passando pelo Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O caminho rendeu até um encontro rápido com um lobo-guará.

Xi, quebrou!

Xi, quebrou!

Quando estávamos quase chegando em Ponte Alta, nosso ponto de partida, o carro quebrou numa estrada de terra pouco movimentada. Tiramos as bicicletas da traseira e fomos atrás de ajuda. Nos dividimos e o Artur voltou para onde o carro estava, enquanto eu seguia o caminho para uma fazenda.

Cheguei molhada de chuva e expliquei a situação para os homens que almoçavam ali. Num ritmo completamente diferente de São Paulo, eles me ofereceram almoço, terminaram de comer e de jogar uma partida de dominó e só então se levantaram para seguir comigo até onde o carro quebrou.

Quando chegamos, o carro estava funcionando, pois um senhor já havia ajudado o Artur tirando ar dos bicos injetores. Agradecemos e seguimos viagem.

Em Ponte Alta, fomos à Pousada Planalto e negociamos para deixar o carro lá. Nosso plano era seguirmos para Novo Acordo, São Felix do Tocantins e Mateiros, retornando para Ponte Alta.

Partimos cedo no dia seguinte e minha bicicleta estava estranha. Foram apenas 2km pedalados, quando o Artur verificou que o movimento central estava solto. Voltamos para Ponte Alta, mas não deu para arrumar, pois uma rosca estava espanada. O jeito foi seguir para Palmas atrás da peça.

Rodamos 48km e o carro quebrou de novo. Tentamos abrir os bicos como havia sido feito na véspera e nada. A estrada também era pouco movimentada, os celulares não tinham sinal algum e demorou um bom tempo até um cara de moto parar e nos informar que havia um sítio ali perto de onde seria possível fazermos uma ligação.

Peguei a bicicleta mais uma vez e fui até lá. Depois de tentativas frustradas de ligar para um mecânico em Ponte Alta, um caminhoneiro que estava por lá apareceu com um cartão de uma autorizada da Bosch em Palmas e consegui chamar um guincho.

Ficamos uma hora e meia esperando sob um sol impiedoso. Chegando em Palmas, deixamos o carro numa oficina mecânica e fomos atrás de uma bicicletaria. O cara do guincho nos deu essa carona e, se não fosse a demora, teria ficado por lá para nos levar de volta à oficina depois.

Bicicleta arrumada, voltamos para a oficina e recebemos a notícia de que a bomba de óleo diesel havia quebrado, não dava para comprar essa peça em Palmas e o carro só ficaria pronto em dois dias.

Para não atrasarmos ainda mais a viagem, combinamos com o dono da oficina de deixarmos o carro lá para ser arrumado e buscá-lo só depois de pedalarmos o Jalapão. Tudo acertado, voltamos com o cara do guincho para Ponte Alta.

Dormimos outra noite na Pousada Planalto, mas ficamos aliviados porque não voltaríamos mais ali, pois não gostamos do jeito da dona.

Enfim, o Jalapão!

O dia começou com neblina, deixando a paisagem mais bonita e o clima um tiquinho mais fresco. Invertemos o roteiro e seguimos sentido Mateiros, numa estrada com muitas subidas puxadas.

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Gruta do Sussuapara. Foto: Artur Vieira.

A primeira parada foi na Gruta do Sussuapara, com apenas 15km percorridos. Tiramos fotos, enchemos as caramanholas e o dromedário e trocamos um pneu de cada bicicleta, furados por espinhos.

Cerca de 10km depois, passamos por uma casa e resolvemos reabastecer as caramanholas por precaução. Enquanto conversávamos com o dono da casa, o Wagner, chegou um rapaz chamado Guilherme, que mora no caminho para a Cachoeira da Velha. Nos despedimos dele com um “até amanhã”.

Chegamos ao Rio Vermelho às 14:40, depois de 61km pedalados, e decidimos passar a noite ali. Almoçamos, remendamos câmaras, tomamos banho de rio e ficamos de bobeira. Montamos a barraca e, apesar do calor, preferimos ficar lá dentro do que encarar os mosquitinhos chatos do lado de fora.

Pegamos no sono pouco depois das 19h, mas acordamos com o barulho de uma chuvinha. O Artur recolheu nossas roupas que estavam num varal improvisado e logo dormimos de novo.

Cachoeira da Velha e Prainha do Rio Novo

Levantamos cedo, tomamos café e desmontamos o acampamento com calma. Eram apenas 10km até a bifurcação que leva à Cachoeira da Velha. A paisagem nesse trecho é bem bonita, com muitas árvores, mas a estrada já começa a ficar cheia de pedras.

Após a bifurcação, são 20km até a antiga Pousada Jalapão. Esse é o local onde o traficante Pablo Escobar construiu uma fazenda de luxo. Segundo o Guilherme, depois de confiscada pelo governo do Tocantins, a fazenda foi transformada em pousada, mas não deu muito certo. Hoje, nesse espaço funciona uma APA (Área de Proteção Ambiental).

Uns 2km antes da APA, há uma indicação de camping numa estradinha lateral. Foram 2km de muita areia e um riozinho até o camping do Paulo, que tinha nos visto na véspera acampados na beira do Rio Vermelho.

Voltamos para a estrada principal e logo chegamos ao nosso destino. Conversamos com o Guilherme e sua família e ele nos mostrou onde poderíamos passar a noite. Fizemos miojos para o almoço e fomos conhecer a cachoeira.

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Cachoeira da Velha. Foto: Artur Vieira.

Foram 10km com algumas subidas, pedras e areia, claro! A Cachoeira da Velha impressiona. Há uma trilha de 1km para a Prainha do Rio Novo. Tentamos seguir por ali, mas desistimos quando chegamos num trecho com uma escada de madeira. Pegamos um atalho pelo mato e voltamos para uma estradinha de areia.

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Prainha do Rio Novo. Foto: Artur Vieira.

Assim como na cachoeira, estávamos sozinhos na prainha. Ficamos um bom tempo na água, que estava morna e deliciosa.

A volta foi mais tranquila. Tomamos banho de chuveiro e preparamos nosso jantar. Apesar de termos nos instalado numa área coberta, montamos a barraca por causa dos insetos, principalmente, os marimbondos enormes que moram ali.

Rumo às dunas

Sem dúvida, este foi o dia mais puxado. Saímos às 8h, depois de nos despedirmos do Guilherme e de sua família, e felizes com as garrafas com gelo que ganhamos.

Como não estávamos dormindo muito bem nas últimas noites, o começo foi meio desanimado. O terreno cheio de pedras também não ajudava muito.

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Cobra-cipó, a danada! Foto: Artur Vieira.

Em determinado ponto, vi uma cobra pequena e de barriga amarela parada na estrada e com a cabeça levantada. Parei, tirei foto e passei bem longe dela. Depois, descobri que era uma cobra-cipó. “Cobra danada! Ela é rápida e vai atrás das pessoas”, contou a dona Benita. Dei sorte porque ela não veio atrás de mim.

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Tinha um pouquinho de areia no caminho. Foto: Artur Vieira.

Paramos na bifurcação para comermos algo e voltamos para a estrada principal. Eram tantas as pedras no caminho, que, mesmo na descida, eu seguia a 8 km/h. Quando as pedras acabaram, a areia foi tomando conta e tive que empurrar em vários trechos.

Ao passarmos pela Comunidade do Rio Novo, nos informaram que faltavam 13km até o bar da dona Benita, na entrada para as dunas. Mesmo com o rendimento baixo, daria tempo de chegarmos antes de escurecer e preferimos seguir ao invés de acamparmos ao lado do rio.

Foi lindo ver a luz do por do sol batendo na Serra do Espírito Santo e, por alguns instantes, até esqueci do cansaço.

Chegamos ao bar assim que escureceu e, em seguida, chegou um guia acompanhado por dois turistas do interior de São Paulo. Ficamos papeando um pouco, mas logo fomos montar a barraca, tomar banho e jantar. Antes de dormirmos, ficamos admirando o céu estrelado. Com certeza, um dos mais bonitos que já vi.

Dunas do Jalapão e Mateiros

O plano era levantar cedo e partir para as dunas, só que a chuva começou uns cinco minutos depois de acordarmos. Tomamos café e, como ela não passava, aproveitei para dormir um pouco mais.

Como o caminho era pura areia, fomos a pé para as dunas. Mesmo com a areia um pouco compactada pela chuva, não dava para pedalar por ali.

Dunas

Um pedacinho das Dunas do Jalapão.

As dunas são lindas e ficamos sozinhos ali admirando a paisagem. Essa é uma vantagem de ir para o Jalapão fora da temporada. Dá para aproveitar as atrações sem ninguém por perto.

Voltamos para o bar da Benita e esperamos o almoço ficar pronto. Comemos, enfrentamos a preguiça e partimos para Mateiros.

O pedal foi curto e a areia ainda estava presente, mas bem menos do que na véspera. Em compensação, foram muitas subidas e costelas de vaca.

Mateiros é uma cidade bem pequena e sem muita estrutura. Ficamos na Pousada Panela de Ferro, que estava sendo construída na última vez que o Artur esteve lá. Lugar limpo, organizado e com um delicioso bolo mangolão (versão “bolística” do pão-de-queijo) no café da manhã.

Jantamos no restaurante da dona Rosa, que havia sido muito bem recomendado. Comi arroz, feijão e ovo frito. Comida simples, mas muito saborosa. O engraçado foi ouvir a dona Rosa falando: “ah, eu já esperava vocês. Tinham me avisado que dois ciclistas estavam a caminho”.

A sobremesa foi um sorvete de manga na sorveteria perto da pousada. Já tínhamos parado ali quando chegamos e recomendo também os sabores murici e buriti.

Fervedouro e cachoeira

O plano de ficar mais um dia em Mateiros para aproveitar os atrativos da região já tinha sido descartado, mas ir ao Fervedouro do Mumbuca e à Cachoeira do Formiga era obrigatório.

A entrada para o fervedouro fica a apenas 1,5km da estrada principal, já no caminho para a comunidade do Mumbuca, de origem quilombola.

Fervedouro

Fervedouro do Mumbuca.

Assim que chegamos ao fervedouro, escutamos o barulho de uma moto. Era o Ceiça, o dono do lugar, chegando para cobrar a entrada (10 reais por pessoa seja para entrar na água ou apenas olhar). Ele conversou um pouco conosco, foi embora, mas voltou logo por causa de um grupo de estudantes de Porto Nacional.

A permanência no fervedouro depende da quantidade de pessoas por ali. Se há muita gente, é permitida a entrada de seis pessoas por vez e por apenas 20 minutos. Foi o que aconteceu com o grupo de alunos. O Ceiça ficou por ali, deitado na rede e contando histórias de como ele mata onças e sucuris, enquanto a professora responsável controlava os grupos.

Ceiça

Ceiça, no Fervedouro do Mumbuca. Foto: Artur Vieira.

Aproveitamos para comer um lanche e conversar com os alunos sobre a nossa viagem. Quando eles foram embora, o Ceiça disse para ficarmos à vontade e para depois passarmos na casa dele (na bifurcação da estrada principal com o caminho para o fervedouro) para pegarmos água gelada.

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Cacheira do Formiga. Foto: Artur Vieira.

A próxima parada era a Cachoeira do Formiga. Seguimos a dica do Ceiça e ignoramos a primeira entrada, cheia de areia. De acordo com ele, a segunda entrada teria areia apenas no começo. Não foi bem assim, porém pudemos pedalar a maior parte dos 6 km até a entrada da cachoeira.

Além de um bar, funciona ali um camping sem muita estrutura. A entrada também custa 10 reais, seja para nadar ou apenas olhar. O camping sai por 20 reais.

O Rio do Formiga tem a água mais limpa que já vi. Ela é um pouco mais fria do que nos outros rios do caminho, mas é bem rápido para se acostumar. Ficamos relaxando por ali e teríamos ficado mais tempo se não fosse o horário e a areia no caminho de volta.

Pouco antes de alcançarmos a estrada principal, o tempo começou a fechar e apertamos o ritmo para chegarmos ao Camping do Vicente. O guia que encontramos no bar da Benita nos informou que o camping havia mudado de lugar. Apesar da placa, deveríamos ignorar o primeiro camping e seguirmos para o próximo, que não teria nenhuma indicação.

Passamos pelo primeiro e continuamos. Do lado direito da estrada (sentido Novo Acordo), havia a placa “Camping do Rio do Formiga”. Ficamos na dúvida se era mesmo o Camping do Vicente e decidimos seguir um pouco mais pela estrada principal. Pedalamos menos de um quilômetro e resolvemos voltar, pois parecia que ia chover a qualquer momento.

A estradinha era curta e chegamos ao camping mais ajeitado de toda a viagem. Um lugar amplo, com muitas plantas, limpo e bem cuidado. Só tinha um porém, não havia ninguém. Pelos adesivos e recados colados num mural, concluímos que ali era mesmo o novo Camping do Vicente, mas nem sinal dele.

Achamos estranho, pois estava tudo aberto, havia celulares e óculos em cima da mesa. Esperamos quase uma hora antes de tomar banho. Nada ainda. Preparamos nosso jantar, comemos e limpamos tudo. Nada! Montamos a barraca e, com um pouco de receio, fomos dormir.

Meia hora depois, passei o maior susto. O cachorro do Vicente começou a latir e a arranhar desesperadamente as portinhas de onde estávamos. Logo pensei: “tem onça aí!” e fiquei quietinha na barraca. De repente, silêncio total. “Que merda! A onça levou o cachorro!”

Adormeci de novo. Duas horas depois, às 23h, acordamos com o barulho e faróis de um carro. Saímos da barraca e perguntamos: “seu Vicente?”. A resposta veio num tom divertido. “Eu mesmo! Não tem luz nesta casa? Acenda aí, menina. Vocês estão bem instalados? Comeram? Fiquem à vontade, podem pegar o que quiserem na geladeira. O bêbado aqui vai dormir e amanhã a gente conversa mais.” Doido!

Seu Vicente e São Félix do Tocantins

De madrugada, escutei o Vicente mandando o cachorro ficar quieto. Ufa! Ele não foi comido pela onça. O barulho era apenas para poder entrar na parte mais alta e dormir em cima do fogão à lenha. Onça, para nós, só mesmo as pegadas.

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Nós e o “véio mentiroso”. Foto: Artur Vieira.

Já tínhamos tomado café quando o seu Vicente apareceu de novo. O mineiro é bom de papo e ficamos cerca de três horas proseando com ele. No dia anterior, ele foi buscar umas madeiras, encontrar alguns amigos e acabou pulando de bar em bar antes de voltar para a casa.

Antes de irmos embora, fomos até o Rio Formiga, que corre no fundo do camping. A mesma água limpa e gostosa da cachoeira. Deu vontade de ficarmos mais um dia ali, só aproveitando esse lugar e ouvindo as histórias do “véio mentiroso”, como ele mesmo se definiu.

O pedal do dia foi curto, mas eu estava cansada por causa da noite mal-dormida. Chegamos em São Félix e fomos direto para a Pousada Jalapão, que pertence à Irá e foi recomendada pelo seu Vicente.

A Irá preparou um ótimo almoço para nós. Além do trio arroz, feijão e ovo frito, tinha também abobrinha refogada. De barriga cheia, fomos descansar.

São Félix é uma cidade dividida em duas partes e mais ajeitada do que Mateiros. Tomamos um café com pão-de-queijo no Cantinho da Tia Ro e depois ficamos batendo papo com a Irá e um rapaz de Brotas (esqueci o nome dele), que trabalha com rafting.

A fome voltou e fomos comer pizza do lado de lá da cidade. Tinha pizza vegetariana, mas nada de especial. A metade de alho estava mais gostosa, porém não consegui comer muito. Já tinha tomado uma jarra inteira de suco de cupuaçu.

Voltamos para o outro lado e fomos dormir.

Serra do Gorgulho e seu Camilo

Levantamos às 5:30 e tomamos café no Cantinho da Tia Ro. A quilometragem do dia era alta: 80km até a lanchonete do Camilo.

Catedral

Catedral.

Encaramos muitas subidas, mas tivemos vento a favor e os primeiros 30 km renderam, mesmo com várias paradas para fotos. Logo, chegamos à Catedral, que impressiona pelo tamanho.

Pedalamos 50 km até o Rio Novo. Atravessamos a ponte e paramos no posto fiscal para comer e pedir água. Ficamos quase uma hora ali conversando com o Gentil e o Valteir. Eles trabalham num esquema de escala. São sete dias e meio ali e, 22 dias e meio em Palmas.

Voltamos para a estrada e foram muitas subidas. Neste dia, em pleno Jalapão, viramos atração turística. Primeiro, um casal parou e pediu para tirar fotos conosco. Eles moram em Palmas e estavam resolvendo alguns negócios na região. Depois, dois rapazes que trabalham nos Correios e seguiam para São Félix também pararam para fotos. Infelizmente, esqueci de perguntar os nomes.

As primeiras formações da Serra do Gorgulho apareceram e nos decepcionamos achando que era só aquilo. Porém bastou pedalarmos um pouco mais para vermos as outras partes, com lindas e enormes rochas vermelhas.

Outra subida

Pedra, areia, subida. Tudo junto!

Os 30 km restantes não renderam muito. O vento passou a soprar contra, o calor estava forte, a areia deu o ar da graça e os trechos próximos a riachos começavam com boas descidas, mas terminavam no início de subidas íngremes.

Conseguimos chegar à lanchonete do Camilo dentro do horário previsto, entre 15h e 16h. Nos hidratamos bastante ali e seguimos para a fazenda, onde acampamos. Como ainda tínhamos algumas horas de luz, aceitamos a sugestão do Camilo e fomos até um riozinho a uns 4 km do camping. Tivemos que empurrar em alguns trechos de areia, mas valeu a pena.

Enquanto tomávamos banho, nosso jantar era preparado. Arroz, feijão, omelete e, para meu deleite, uma salada fresquinha de tomate, alface e repolho. Comemos feito ogros!

Fomos deitar logo depois. Estava ventando bastante e eu estava com receio de que chovesse durante a noite. Por sorte, a chuva não veio.

Novo Acordo

Depois de um café com pão quentinho e fatias de abacaxi, partimos para os últimos 70 km de Jalapão.

A paisagem mudou bastante durante o percurso e a estrada também. Foi um dia com buracos de erosão e longas descidas com muitas pedras, o que exigia bastante cautela. Eu ia devagar, cheia de cuidados, e o Artur descia feito doido. Nada como ter técnica.

Mais ou menos na metade do caminho, começaram as fazendas com grandes plantações de soja. Essa cultura está dominando a região e foi a paisagem mais feia de todo o percurso. Neste dia, fez muito calor e achei o trecho final bem chato. As subidas próximas a Novo Acordo também não eram animadoras.

Enfim, chegamos! Decidimos ir de ônibus para Palmas, pois eu não estava muito animada para pedalar mais 120 km no dia seguinte.

Foram oito dias seguidos de pedal e 500 km percorridos. Definitivamente não foi fácil, mas adorei. Esta foi a cicloviagem mais longa e mais intensa que fiz até o momento. Também foi a primeira vez que acampei (ter dormido numa barraca em festivais de música na Europa não conta).

O agradecimento mais especial vai para o Artur, que topa as minhas loucuras e é a pessoa mais companheira que há. Nossas andanças pelo mundo estão só começando.

Obrigada à Cintia e ao Davi por nos receberem tão bem nos dias antes e depois da viagem e pelos empréstimos de equipamentos.

Agradecemos também o Palmas, vulgo Alexandre. Por ser amigo de amigos, ficamos sabendo que ele percorreu o Jalapão de bicicleta em junho de 2013 e entramos em contato para pedir informações. Super atencioso, ele nos deu várias dicas bacanas e nos falou de algumas pessoas que encontraríamos pelo caminho.

Levamos algumas fotos que o Palmas tirou e fomos entregando pelo caminho: Guilherme, Val e Ruan, na Cachoeira da Velha, dona Benita, pessoal da Comunidade do Prata, perto de São Félix, Paulo, próximo ao Rio Vermelho, e seu Marcos, quase chegando em Novo Acordo. Será que alguém vai levar as nossas fotos?

Tem mais fotos no meu Flickr e no do Arturo. E informações sobre a rota estão aqui.

Audax 300 km em Boituva

Saindo do PC 3 rumo aos 300 km.

Saindo do PC 3 rumo aos 300 km.

Por causa do trabalho, Artur e eu fomos fazer o Brevet 300 km dos organizadores dia 8 de fevereiro, uma semana antes da data oficial.

Largamos às 5h33 do Boituva Apart Hotel com um pouquinho de chuva. O acostamento perto de Boituva estava muito sujo e, pouco depois do nascer do sol, meu pneu furou.

Antes de chegarmos ao PC 1, o Fábio e o Martin, que largaram às 6h e pedalavam num ritmo forte, passaram por nós. Nesse PC, fizemos uma parada de exatamente meia hora, mais tempo do que gostaríamos.

Continuamos o brevet e logo começou a Serra de Botucatu, que tinha pedalado nos 300 km do ano passado e não acho tão ruim. Porém, o vento contra que nos acompanhava deixou a subida bem chatinha.

Passando o pedágio, pegamos a saída para Rodovia Prof. Hipólito Martins, conhecida como Castelinho, sentido Botucatu. O vento contra não nos abandonou e o calor ficava cada vez pior.

Como disse o Artur, a Castelinho poderia se chamar Rondonzinha, pois, embora não seja tão íngreme, tem 20 km de sobe e desce.

Depois de alguns quilômetros na Rondon, a fome foi apertando e o ritmo diminuindo um pouco. Como já sabia que a estrutura do posto do PC 2 não era tão legal para almoçar, decidimos comer antes e paramos num restaurante no topo de uma subida a uns 10 km do ponto de retorno.

Arroz, salada, ovo frito e farofa de milho para mim. Além dessas opções, carne e feijão para o Artur. E um suco de laranja geladinho.

Seguimos bem até o PC 2 e paramos lá por 20 minutos.

A volta pela Rondon foi puxada para mim. O vento, que agora seria a favor, parou completamente. O céu continuava sem uma única nuvem e o relógio do Artur marcava 35°C (temperatura que se manteve igual até as 17h!).

Nossa água estava quase no fim e ainda faltavam uns 7 km até o posto Castelinho, por isso, resolvemos parar num posto policial. Os guardas foram simpáticos e comentaram que o Fábio e o Martin haviam falado sobre nós.

Paramos no posto Castelinho para pegarmos mais água e tomar sorvete para tentar refrescar um pouco. Nos 18 km restantes da rodovia, uma enorme nuvem ajudou a diminuir o calor, mas ela desapareceu assim que voltamos à Rodovia Castello Branco.

Como sou bem cautelosa nas descidas, fiquei contente por chegar à descida da Serra de Botucatu ainda com luz. O acostamento possui um desnível num trecho (o “degrau” mais alto tem asfalto bom) e há um afunilamento quando começa uma das pontes.

Depois da descida, são 13 km até o PC 3. Outra parada de meia hora e voltamos para a estrada. Paramos para fotografar um arco-íris e, ao retomarmos a pedalada, começou uma chuva forte, mas que não durou muito. Embora já não estivesse tão quente, me senti mais animada com a chuva.

O vento contra resolveu reaparecer no final da prova. Durante a última subida (pouco íngreme, mas loooonga), ao passar por uma saída, a rajada foi forte e deu uma boa segurada na bicicleta.

Brevetamos com 17h26.

Algumas considerações
Sofri bastante com o calor, principalmente na volta pela Rondon. Bebi bastante água e gatorade e procurei me alimentar com frequência. Como, às vezes, fico meio enjoada, sachês de carboidrato em gel e sorvete me ajudam bastante.

O tempo pedalado foi de 14h11. Portanto, ficamos 3h15 parados, o que é muita coisa! Isso inclui PCs, paradas para abastecimento de água e diversas paradas para alongamento.

Artur e eu alongamos menos do que deveríamos no dia a dia e isso resulta em musculaturas encurtadas. Além disso, preciso refazer o bike fit da Caçarola, pois, em pedais mais longos, começo a sentir uma dor que irradia da nádega esquerda para o joelho pela parte posterior da coxa. Por isso, precisei parar tanto para alongar nessa prova.

Num brevet, o ideal é não parar muito. Afinal, mesmo com paradas rápidas, quando somamos os minutos, dá bastante tempo. Sempre lembro da recomendação do Herr Richard Dünner, de que é melhor seguir num ritmo mais tranquilo do que achar que vai recuperar o tempo parado pedalando mais forte. Dificilmente, dá certo.

Para quem quiser saber mais sobre os tempos, o Artur organizou nossas anotações sobre as paradas.

Primeira parada alongamento (cerca de 50k) – 4min
Parada furo de pneu (54km) – 10min
Parada PC1 (77,7km) – 30min
Parada para pegar água e alongar (110km) – 8min
Parada para almoçar (137km) – 40min
PC2/água/alongamento/banheiro (152km) – 20min
Parada sombra/água/alongamento/protetor solar (167km) – 10min
Parada alongamento (178km) – 5min
Parada Polícia/água gelada (182km) – 10min
Parada Castelinho (187km) – 15min
PC 3 (226km) – 30min
Paradas diversas no ultimo trecho – 15min

Total de paradas: 3h15
Total pedalado: 14h11
Total: 17h26

Fim de ano em Aiuruoca

A caminho do Vale do Matutu. Foto: Artur Vieira.

A caminho do Vale do Matutu. Foto: Artur Vieira.

Apesar da vontade de viajarmos, só conseguimos planejar o que faríamos na véspera do embarque. Sexta-feira à noite, em uma hora, Artur e eu conseguimos resolver tudo: compramos passagens e garantimos hospedagem. No sábado, partimos para Itajubá e, no domingo, seguimos para Aiuruoca.

Aiuruoca é uma cidade pequena, porém com grande extensão territorial. Escolhemos uma pousada fora da cidade, a Pico do Papagaio, mas eram apenas 4 km de estrada asfaltada. Gostamos de várias pousadas para os lados do Vale do Matutu, no entanto, como o caminho é de terra, não sabíamos as condições da estrada e a previsão era de chuva, achamos melhor não arriscar.

Eu não fazia ideia do tanto de subidas que havia por ali e, embora o ritmo tenha sido de cicloviagem tranquila e a quilometragem diária tenha sido baixa, foi preciso fôlego e força nas pernas.

No dia 30, fomos conhecer a Cachoeira dos Garcias, que tem 30 metros de queda. Da pousada até lá, são cerca de 13 km. O começo foi tranquilo, no entanto, logo vieram trechos de subida íngreme, com calçamento. Não era muito confortável pedalar por essas pedras e, como algumas estavam soltas, achei mais seguro empurrar em algumas partes.

Na volta, fomos para a cidade e ficamos observando o movimento na praça central enquanto esperávamos a pizzaria abrir. Por conta de um evento que destacava as raízes culturais da região, assistimos à apresentação cantada do terço de São Gonçalo. Ah, as tradições do interior.

A programação do dia 31 foi conhecer o Vale do Matutu e partimos com a recomendação de almoçarmos no restaurante da Tia Iraci. O caminho de 21 km atravessa a cidade, tem subidas puxadas e é lindo!

O restaurante é uma delícia. Comida caseira e saborosa, além da feijoada vegetariana mais gostosa que já comi. Porém, achamos que a comida demorou muito. Chegamos às 12h30 e fomos almoçar quase às 14h porque o pessoal estava preparando a ceia de ano novo.

Para não ficar muito tarde, acabamos não indo a nenhuma cachoeira por essas bandas, mas achamos um cantinho por onde passava um riozinho e aproveitamos para relaxar na água refrescante.

Agora que conferimos que a estrada está em boas condições, decidimos nos hospedar no Vale do Matutu quando voltarmos. Além das várias pousadas charmosas, fica mais fácil explorar as atrações dessa região. E, com a oferta de almoço e jantar em algumas dessas pousadas, nem é preciso ir para a cidade.

Viramos o ano sozinhos na pousada, assistindo a um pouquinho dos fogos. Não poderia ter sido melhor. Como disse o Artur, que 2014 seja um ano de muito amor e pedal.

Romeiros num domingo

Dois meses sem pedalar longas distâncias e invento de fazer a Estrada dos Romeiros de São Paulo até Itu. São cerca de 100 km e muitas subidas. Pedalei esse caminho em março de 2012 e foi super tranquilo. Desta vez, senti. Fizemos num ritmo bom, com média de 20 km/h, mas, no final, estava usando as marchas mais leves para qualquer subidinha safada.

Logo depois de Barueri, encontramos muitos romeiros a cavalo e, mais para frente, havia vários ciclistas treinando. Apesar de já estar mais cansada (preciso recuperar minha forma!), o trecho depois de Pirapora do Bom Jesus foi gostoso. A paisagem é mais bonita e o tempo estava bom também, com temperatura mais fresca.

Chegando em Itu, fugimos da loucura do Bar do Alemão e almoçamos no Tonilu, que estava bem mais tranquilo. Depois, voltamos de ônibus e ainda aproveitamos o restinho do dia em São Paulo.

Um ano depois

Desafio 200 km em Boituva.

Desafio 200 km em Boituva.

Amanhã, 9 de dezembro de 2012, acontece a quarta edição da Rota Márcia Prado. Ano passado, fiz esse caminho com mais 3 mil ciclistas. Desta vez, mais de 6 mil se inscreveram.

Foi a primeira vez que pedalei mais de cem quilômetros. Imagine só. Tinha começado a pedalar com mais frequência em agosto, cerca de 15 km por dia indo e voltando do trabalho. Às vezes, um pouquinho mais. Nunca tinha passado dos 40 km e decidi fazer um caminho com 100 km, pois saí da estação Vila Olímpia e não do Grajaú. Empurrei a bicicleta em várias subidas, parei várias vezes para lanchinhos e fotos com os amigos. No final, pedalei 125 km em 12 horas e achei o máximo!

Depois descobri o Audax e me encantei. Cada prova é uma experiência nova. Em janeiro de 2012, tentei meu primeiro brevet. Não deu, mas ficou o aprendizado e consegui completar outras provas depois. Conforme fui aumentando meu limite, defini como meta para 2012 o brevet de 400. Tentei duas vezes, em Rio das Ostras e em Holambra, e não deu certo.

Quando saiu o calendário 2013, fiquei animadíssima. Decidi fazer os 200 km urbanos no Rio de Janeiro e os 200 km de Holambra. Em SP, o percurso do primeiro brevet da série foi  o mesmo da primeira prova que tentei. Achei que seria uma ótima maneira de encerrar o ano. Para completar, vários amigos, além dos costumeiros audaciosos, decidiram participar. Seria uma festa.

Iria fazer dois brevets em uma semana. Viajei para o Rio e fui bem até o primeiro PC. Tinha deixado para trás a subida, que era o meu maior receio, e estava no começo da segunda descida. Nem me lembro o que houve exatamente. Foi tão rápido e, quando dei por mim, estava indo para o chão. O sangue caindo nos óculos me assustou, mas o corte não foi profundo. Com o corpo quente e capaz de mexer braços e pernas, pensava: “droga, não posso perder muito tempo aqui ou vou chegar tarde ao segundo PC”. Só que não dava mais.

No pronto-socorro, a dor no braço aumentava cada vez mais. A tomografia indicou que está tudo bem com a cabeça. A má notícia veio com o raio-x: uma fratura bem próxima à articulação do cotovelo. O médico avisa que vou precisar de uma cirurgia seguida de fisioterapia. Deixei o tratamento para ser feito em São Paulo por recomendação médica. “A cirurgia não é urgente. Então, é melhor você ver isso em SP, assim, quem te operar vai também acompanhar sua recuperação.”

Ainda não sei quanto tempo vou ficar sem pedalar, mas já sei que bike, para mim, só no ano que vem. Infelizmente. Mesmo assim, a meta para 2013 continua sendo brevetar até os 600 km. É uma questão de conhecer nossos limites e superá-los.

De Rio das Ostras a Farol de São Tomé

Farol de São Tomé

Acabei não escrevendo nenhum relato sobre os meus últimos brevets. Embora a memória não seja das melhores, quero deixar algum registro sobre cada prova. Então seguem três posts de uma vez só.

400 km em Rio das Ostras

A prova começou bem e foi tranquila até Quissamã. Logo depois, viria o trecho de 38km até Barra do Furado, que tinha sido a pior parte durante os 300km. Para minha surpresa e alegria, mexeram no asfalto e havia menos buracos. Aproveitei para ouvir um pouco de música e essa parte acabou sendo rápida.

Em Barra do Furado, comi um queijo quente com salada e, enquanto esperava o lanche ficar pronto, chegaram outros ciclistas. Seguimos depois em um grupo com mais de dez pessoas. Isso foi ótimo porque pegamos um trecho completamente escuro e com muitos, muitos buracos! Depois o grupo se dividiu, mas o caminho já estava mais tranquilo.

Faltando pouco para a metade, seguíamos o Shadow, o Nino Coutinho e eu, quando um dos pneus do Nino furou. Pelo menos, estávamos dentro de uma vila e o local era um pouco mais iluminado.

O Shadow estava no começo de uma gripe e com uma bicicleta diferente. Isso refletiu no rendimento e diminuímos um pouco a velocidade. Chegando ao PC em Farol de São Tomé, ele disse que não conseguiria continuar a prova. Como
não conseguimos um carro para ele voltar e ele teria que passar a noite nessa cidade, decidir parar ali também. Dormimos em uma pousadinha e voltamos de ônibus no dia seguinte.

300 km pela primeira vez

Cheia de empolgação na hora da largada.

Terminei tão bem o Audax 200 km, que bateu a empolgação e logo me inscrevi para os 300 km, também em Rio das Ostras. Tive apenas um mês para me preparar.

Fiz pequenas modificações na dobrável. Coloquei bar-ends e firma-pés e prendi o porta-caramanhola na coluna do guidão. O quadro tem furação, mas em descidas ou em pistas irregulares, tenho que tomar cuidado (não dá para soltar completamente os freios nas descidas, por exemplo) para a caramanhola não cair. As ferramentas foram para a roll-bag da Alforjaria, presa no selim.

Nosso ônibus chegou em Rio das Ostras a tempo de vermos o nascer do sol na praia. Depois, fomos para o hotel descansar um pouco. Não havia muito tempo livre, então comemos, participamos da reunião técnica e fomos nos preparar para largar.

Os primeiros 116 km eram exatamente iguais aos que fizemos na prova de 200 km. A memória funcionou bem e não precisei conferir a planilha até Carapebus. Depois de virar na linha do trem, segui a placa para Quissamã e percebi que não me lembrava daquele trecho. Nos 200 km, não prestei muita atenção ao caminho, pois tivemos a Leonor como guia nesse pedaço. Aí o Shadow avisou que o GPS indicava outra rota, mas olhamos no mapa e vimos que, como indicado na reunião técnica, havia as duas possibilidades: seguir pela estrada ou passar pelo centro da cidade.

Em Quissamã, comemos macarrão, bebemos Coca-Cola e logo partimos. O trecho até Barra do Furado é curto, mas bastante escuro. Como o Thiago avisou durante a reunião que havia muitos buracos por ali, pedalamos com mais cautela. Chegamos bem e ficamos conversando um pouco com o pessoal da organização. O Shadow aproveitou para comer um lanche num trailer a poucos metros do PC.

Na volta para Quissamã, pegamos vento contra durante todo o trajeto, mas conseguimos manter o ritmo de 20 km/h. Mesmo sendo um trecho curto, a escuridão, os buracos e o vento davam a sensação de que a estrada não acabava nunca.

Chegamos ao PC 4 (km 191) depois de 10 horas e meia pedaladas e o Shadow fez a comparação com as 12 horas que levamos para completar o Audax 200 km. Nesta parada, comi mais um pouco de macarrão e tomei um gel com cafeína, que me deixou bastante desperta. O Shadow e a Tati descansaram um pouco, mas eu estava agitada demais.

Porém, pouco depois que começamos a pedalar, o sono foi batendo e pedi para pararmos um pouco. Deitei num banco de ponto de ônibus para descansar por uns 15 minutos, mas nada de conseguir dormir. Levantei uns cinco minutos depois e ao chegar perto, acabei acordando os dois. Logo mais, chegou o Ricardo, que eu conheci no Audax anterior e que nos acompanhou até o final.

Continuamos o caminho rumo a Macaé, quando ouvimos um estouro: era o pneu da Tati que rasgou. Ela trocou a câmara e fez um manchão, mas, poucos quilômetros depois, tivemos que parar de novo para outra troca. Nessa hora percebemos a quantidade de insetos por ali. É só parar um pouco para eles começarem a atacar. E não importa se você está usando calça de ciclista ou luva, eles vão encontrar a tua pele. Acho que vou incluir repelente na lista “o que levar no Audax”.

No PC em Macaé, aproveitei para comer bananas, beber bastante água e descansar um pouco, mas não dormi. O sono já tinha passado.

O trecho que mais gostei no outro Audax foi bem chatinho desta vez. Vento contra o tempo todo. Depois de uma parada rápida em Cantagalo, seguimos para os quilômetros finais. Na volta, tínhamos que pegar o mesmo trecho de subidas e descidas da ida. De longe, já víamos a primeira e pior subida ou, como disse a fixeira Beatriz, “a parede”. Terminado o sobe-e-desce, me empolguei nos quilômetros finais e dei uma aceleradinha. Depois da chegada, a frase do Odir fez mais sentido do que nunca: “300 não são 200 mais 100”.

P.S.
Antes das provas, pesquiso vários blogs com dicas e comentários sobre os brevets. As sensações e experiências são diferentes, é claro. Porém, essas informações servem de orientação sobre o que levar, a importância da boa alimentação e hidratação e outras coisas que às vezes nem passam pela cabeça, mas que parecem muito óbvias quando outra pessoa comenta. Por isso, decidi colocar aqui algumas observações desse brevet. Vai que alguém se identifica. ;)

Esta foi a primeira vez que virei a noite pedalando e lutar contra o sono não foi fácil. Já tinha ouvido histórias de pessoas que dormiram enquanto pedalavam e achava isso impossível, mas aprendi que não é. Da próxima vez, vou me programar para tirar um cochilo tranquilo e nunca mais tomo gel com cafeína quando chegar ao PC.

Em relação à comida, todo mundo fala sobre a fome durante e depois do Audax e eu não sei bem o que é isso. Enquanto estou pedalando, por mais que tente seguir a dica de “comer sem sentir fome e beber sem sentir sede”, em alguns momentos fico um pouco enjoada. Na volta, em Quissamã, tive que me forçar para terminar o pratinho de macarrão. Por isso, vou experimentando lanchinhos diferentes para descobrir o que funciona bem para mim. A lista, por enquanto, inclui:

* Hershey’s de paçoca – levo uns três, pelo menos;
* mel – vários daqueles sachês pequenininhos;
* carboidrato em gel – fizeram uma propaganda tão grande sobre o gosto intragável que, quando experimentei, nem achei tão ruim assim;
* Coca-Cola – a dica veio do blog do Odir (http://asbicicletas.wordpress.com) e dá um ânimo incrível.