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Matando a saudade da Alemanha

Férias 2017

Me apaixonando pela Bavaria.

Mas você vai para a Alemanha de novo? Pois é! Sem um pingo de dúvida e apesar do alemão capenga de hoje em dia, a Alemanha é “minha casa longe de casa” e esta é uma viagem que há tempos queria fazer com o Artur. O roteiro foi bem tranquilo: Berlim, Alpes Alemães e reencontros com pessoas queridas. Faltou tempo para todos os encontros que gostaria, mas eu sempre vou embora com a sensação de que ainda volto para lá. É só uma questão de tempo.

Berlim

O primeiro dia já foi de fortes emoções: levei o Artur a uma loja da Stadler, a maior rede de bicicletarias da Alemanha. Minha vontade era de sair de lá com uma bike nova, mas comprei apenas uma revista. São tantas as opções que, quando estive lá em 2012, havia uma sessão apenas de monociclos!

Outro lugar onde daria para surtar fácil não fosse a cotação atual do euro é a loja Camp4. Me sinto consumista falando isso, pois queria levar, pelo menos, metade dos itens de cozinha. O orçamento é que não permitiu.

Férias 2017

Clássicos: Berliner Dom e a Fernsehturm.

Além de visitarmos essas lojas mais de uma vez, fizemos alguns passeios bem turísticos:

– a exposição permanente Topographie des Terrors sobre o período do nazismo;
– Brandenburgertor ou Portal de Brandenburgo;
– Alexanderplatz e Ferhnsehturm (Torre da TV) na antiga Berlim oriental, mas não demos muita sorte, pois a visibilidade estava ruim;
– Berliner Dom ou Catedral de Berlim: ô prédio lindo!
– East Side Gallery e um pouco do que resta do muro.

Visitamos dois mercados de pulgas. Fomos cedo ao da Boxhagenerplatz e ele estava um tanto quanto vazio e meio sem graça. Talvez porque eu tenha lembrança de quando o visitei durante o verão, mas aí é impossível competir porque a cidade toda ganha outros ares. Já o mercado do Mauerpark estava lotado. Há muitas quinquilharias, mas também roupas, acessórios e objetos de decoração feitos por artistas. Encontramos até um brasileiro que vende imãs e quadrinhos de fotos que ele tira pela cidade. No verão, rola uma karaokê bem legal e animado.

Comes e bebes

Berlim é um paraíso quando se trata de comida. É possível comer muito bem com pouco dinheiro. Vou deixar aqui uma listinha de restaurantes que gostei e recomendo:

Macondo: uma amiga me levou lá em 2012 e fiz questão de voltar. Tem as melhores empanadas colombianas!
Vineria de Este: sugestão de outra amiga. Eles servem várias opções para petiscar e tem diversos vinhos para harmonizar.
Tonkin: um vietnamita que surpreendeu. Vale a pena pedir os chás.
Yellow Sunshine: a primeira hamburgueria vegana a qual fui em 2003. Além de deliciosa, ao que parece, ela segue firme e forte.

Kopps: simplesmente a melhor refeição da minha vida! O Kopps é um restaurante vegano que serve comida saudável, local e orgânica de maneira original. Como eles mesmos definem: “por você, deixamos os vegetais sexy”. O Artur quis me surpreender com uma reserva para o Dia dos Namorados, mas tive que dar uma ajuda, pois o site de reservas era em alemão.

Os ingredientes do jantar eram simples, mas foram preparados de forma excepcional. Entradas com beterraba e cenouras coloridas, purê de nabo defumado (servido num vidro com tampa para preservar a fumaça), diferentes tipos de batatas no prato principal (inclusive uma com gosto de maçã, que me fez entender porque no sul da Alemanha batata é chamada de Erdapfel ou “maçã da terra”) e picolé de marzipã com calda de frutas vermelhas de sobremesa. Ah, ainda serviram macarrons no final. Fico com água na boca só de lembrar.

Cafés

Férias 2017

Avocado Toast do Silo Café.

Tinha feito uma lista de cafeterias que queria visitar e fiquei feliz por termos ido a todas. A primeira foi a Silo, a única a qual fomos duas vezes e que serve opções incríveis de café da manhã – pedi a avocado toast (torrada de abacate) servida com hommus e uma pasta de tomate que estava divina. O cappuccino vegano é muito bom e ficou em segundo no meu ranking particular (hehe).

O café The Barn está em alta também e dependendo do horário é difícil conseguir lugar – some-se a isso o fato do espaço ser realmente pequeno. Pedi uma fatia de bolo, mas não achei grande coisa. O Artur adorou o sanduíche de queijo de cabra com figo.

O primeiro bike café da viagem foi o Steel Vintage Bikes. O lugar é bem legal e o espaço está bem dividido entre o café e a loja. No primeiro, há opções para café da manhã, brunch, almoço e café da tarde. Na segunda, embora seja possível comprar bicicletas e seus componentes, o que mais havia em exposição eram roupas e acessórios de ciclismo.
Férias 2017

Keirin: de 139m² para 30m² com muita personalidade.

Keirin é uma bicicletaria que serve um café bem bom e outras bebidas. O dono foi muito simpático e nos contou a história da loja que existe desde 2004. Pouco depois de abrirem, o negócio cresceu e eles se mudaram para um prédio bem maior ao lado. Porém, a especulação imobiliária está crescendo na região de Kreuzberg (assim como em todo o mundo) e o dono do imóvel decidiu dobrar o aluguel. Sem condições de bancar, o Keirin voltou para o espaço de origem e o prédio deu lugar ao Museu dos Ramones (que já existia, mas em outro endereço).

Visitamos também a Standert Bicycles, uma bicicletaria bem legal com um café bacana e bem gostoso. Eles têm uma linha de quadros personalizados e é possível fazer um leasing para adquirir uma bike Standert. Além disso, eles mantêm o Team Standert, uma equipe de ciclismo formada “por amigos e novos amigos que pedalam juntos, dão rolê juntos e competem juntos”.

A Cicli Berlinetta é uma loja especializada em customizações e restaurações. Nas últimas horas em Berlin, passamos por lá à noite para uma sessão de vídeos indicada na programação de pré-abertura da Berlin Fahrradschau, a feira de bicicletas de Berlim.

Alpes Alemães

Em busca das montanhas, fomos para Farchant, próximo à divisa com Áustria. Fiquei feliz quando vi neve no estado de Thüringen e meu coração bateu até mais forte ao ver os nomes de várias cidades conhecidas e queridas. Seguimos direto, parando apenas para abastecer e comer algo nos postos do caminho.

Quando chegamos, tive uma surpresa com a hospedagem. Pelas fotos do Booking, achei que tivesse reservado um chalé, mas descobri que estava mais para um “puxadinho”. Há uma porta compartilhada para a residência do casal, para o escritório do filho deles e para o apartamento que reservei. Sala, quarto, banheiro e cozinha aconchegantes e muito bem equipados.

Depois de nos instalarmos, fomos jantar em uma pizzaria. O atendimento era simpático e a comida muito boa, mas não importava o quanto eu falasse em alemão, o garçom só me respondia em italiano. “Prego, segnora!”

O dia seguinte amanheceu chuvoso e tivemos que mudar os planos ao ar livre. Fomos à cidadezinha seguinte, Garmish-Partenkirchen (parte da Via Claudia Augusta, uma rota bastante popular entre cicloturistas) e comemos num café dentro de uma galeria de arte. Depois, fizemos mercado e demos uma volta no centrinho.

Férias 2017

O charmoso Palácio Linderhof.

Seguindo a dica da nossa anfitriã, fomos conhecer o palácio Linderhof. A estrada até lá já é bastante charmosa e estava ainda mais encantadora por causa da neve (sim, eu amo!).

Dos três castelos construídos pelo rei Ludwig II da Bavária, o Linderhof é o único que ele viu concluído. Os outros dois são o Neues Schloss Herrenchiemsee e o famoso Neuschwanstein. O jardim é enorme, mas a construção é menor do que eu esperava. Porém, a atenção aos detalhes e a ostentação impressionam bastante. Lustre de cristal para 108 velas pesando meia tonelada, lustre de marfim vindo da Índia (a peça mais cara de toda a decoração), mesas com tampos de pedras preciosas, vasos chineses com mais de 200 anos, bordados tridimensionais, detalhes em ouro puro nas janelas e tetos…

A visita guiada pode ser em inglês ou em alemão e eles oferecem pastas com o conteúdo em outros idiomas, como francês e espanhol. O início é no hall de entrada e depois subimos aos aposentos reais. Algumas cores são predominantes em certos cômodos e é possível notar uma similaridade entre eles.

Trilhas

Aproveitando o tempo bom, escolhemos uma trilha circular num guia que compramos e fomos atrás de um pouco de montanha. O começo era num parque e foi bem tranquilo. Encontramos muita gente passeando por ali. No trecho até a Kuhfluchtfälle (cachoeira fuga da vaca), havia algumas subidinhas com gelo, mas passei sem cair. Cruzamos uma ponte e aí começou a subida de verdade.

Férias 2017

Acho que tinha um pouquinho de neve.

Tinha que estar bem atenta porque, em boa parte do caminho, a trilha é estreita, havia ainda muitas raízes bastante escorregadias e quantidade de neve foi aumentando conforme subíamos, chegando ao ponto de afundarmos até os tornozelos. Nesse caminho, assinei meu primeiro livro de montanha (em alemão! hehe) numa cabana para emergências.

Pouco depois, um casal de senhores alemães que estava na nossa frente começou a voltar dizendo a trilha acabava ali. Insistimos e fomos bem além de onde eles pararam. Não é que não havia mais trilha, o problema era a segurança. Chegamos a um ponto de passagem estreito, com um precipício de cada lado e muita neve ocultando o que havia por baixo. Decidimos não arriscar e pegamos o caminho de volta.

Encarando o combo trilha estreita, gelo e raízes escorregadias, fui muito lenta na descida. Num momento em que seguia na frente, escutei um barulho e quando olhei para trás vi o Artur esticando o braço e agarrando uma solitária árvore na beira do precipício de muitos metros de altura. Meu coração parou por um segundo. Ainda bem que havia essa árvore e ele foi rápido! Depois disso, parecia que a trilha não acabava nunca.

Férias 2017

“Far over the misty mountains cold…”

Apesar desse tremendo susto, a trilha é linda demais! Quando começamos, a névoa criou um clima tão especial que passei o dia cantarolando The Misty Mountains Cold. Além disso, tivemos o contraste da neve branquinha e do céu azul, as árvores com os galhos cheios de neve (que ia derretendo, dando a sensação de que chovia na floresta), as quedas de água, as minicascatas congeladas e as cidadezinhas rodeadas pelas montanhas. Tanta imagem bonita para gravar na memória.

Para comemorarmos o aniversário do Artur, fomos conhecer as ruínas do castelo Werdenfels, que fica entre Farchant e Garmish-Partenkirchen. O plano original era irmos correndo, mas com tantas paisagens bonitas pelo caminho, paramos várias vezes para fotos. Esticamos a corrida/caminhada até Garmish-Partenkirchen e almoçamos num árabe que era a única opção para aquele horário (os restaurantes por lá servem almoço entre 11h30 e 14h). Na volta, procuramos alguns caminhos diferentes e ficamos impressionados com a quantidade de opções para caminhada e corrida que há por ali.

Em nosso último dia cheio por ali, fomos conhecer Grainau. A atração da cidade, além da vista incrível para o Zugspitze (o ponto mais alto da Alemanha), é o Eibsee, um lago cercado por várias opções de trilhas de vários níveis. Há plaquinhas informando os caminhos para trail running, caminhada e mountain bike, com dados sobre distância e nível de dificuldade. Como não amar?

Férias 2017

Eibsee congelado e montanhas alemães, incluindo o Zugspitze.

Escolhemos uma trilha curta que circunda o lago, mas demos umas voltinhas numas estradinhas a mais. Apesar de alguns trechos com gelo e de eu quase levar um tombo ridículo, o caminho é tranquilo. Porém, a parte mais legal foi terminar a volta caminhando pelo lago congelado. Fiquei com receio no começo porque não fazia ideia da espessura do gelo, mas criei coragem quando vi mais pessoas andando por ali.

Reencontros na volta para Berlim

A viagem para o sul foi direta, mas a volta para Berlim teve algumas paradas especiais e demorou alguns dias. A primeira foi em Raubling, uma cidadezinha com mais uma loja incrível de artigos esportivos, a Iko, que estava em promoção – só não surtei porque os melhores descontos eram para as roupas de inverno que eu jamais usaria no Brasil.

Férias 2017

Katja, nossa guia em Nürnberg.

O próximo destino foi Hipolpotstein, outra cidadezinha tranquila onde mora uma amiga querida, a Katja. Nos conhecemos em 2003 ou 2004, quando ela morou em Curitiba e essa foi a segunda vez que fui visitá-la na Alemanha. Ficamos conversando um tempão até o sono falar mais alto.

No dia seguinte, tivemos outro dia de turistas com a Katja como guia. Fomos para Nürnberg e, além de andarmos bastante pelo centro, visitamos o castelo imperial, o Kaiserburg, que ficou quase que completamente em ruínas durante a Segunda Guerra Mundial, mas foi reconstruído e hoje atrai muitos turistas.

Saímos cedo no dia seguinte e, em Thüringen, seguimos por estradinhas menores. Paramos em Rudolstadt, pois queria levar o Artur ao café do castelo Heidecksburg, um dos primeiros castelos que visitei na minha primeira viagem para a Alemanha. Rudolstadt continua charmosa, mas está diminuindo, com muitos comércios fechados e a população mais jovem migrando para cidades maiores.

Férias 2017

Os anos passam e a distância afasta, mas o carinho não diminui.

Dez quilômetros adiante e foi difícil conter a emoção: chegamos à Teichel. Não parecia que minha última visita a essa cidadezinha tinha sido há quase sete anos. Toquei a campainha e aguardei menos de um minuto. Como eu não havia avisado, a surpresa foi tanta que a Heike demorou uns dois segundos para me reconhecer. Ela é a mãe do meu ex-namorado e, apesar da distância e do pouco contato que temos atualmente, ela é uma pessoa que vou levar para sempre no coração. E sei que o sentimento é recíproco, pois, entre as fotos de família num cantinho na sala, há, até hoje, uma foto comigo.

A visita durou o suficiente para colocarmos o papo em dia. Ela perguntou sobre a minha família, me contou que já é bisavó e me deu uma notícia que eu infelizmente já imaginava, a tia, ou melhor, a Tante Gertrud faleceu em 2013, pouco depois de completar 100 anos. Em novembro, fará também dez anos que o marido dela, o Werner, morreu e essa é uma das lembranças mais tristes que tenho, pois ele era muito querido. Nesse balaio de emoções, saí de lá leve e feliz pelo reencontro. E nem tenho palavras para agradecer ao Artur por ter me acompanhado nesse momento.

Férias 2017

Hanna, the Vizsla.

A última parada nesse retorno foi em Leipzig, onde a Frances e a Hanna nos esperavam. Depois de um passeio com a Hanna no Völkerschlachtdenkmal (ou Monumento da Batalha das Nações, em comemoração à derrota de Napoleão), jantamos numa hamburgueria vegana e terminamos o dia vendo fotos antigas de quando a Frances esteve no Brasil pela primeira vez, há 14 anos. Ao invés de se enfiarem numa van até Brasília para um show, ela e o Christoph aceitaram meu convite e passaram um final de semana em Itanhaém, na casa dos meus pais. Pronto, a amizade estava selada.
Férias 2017

Pensa numa pessoa querida! Ok, em duas.

 No dia seguinte, depois de um café da manhã preguiçoso, fomos passear pela cidade e a primeira parada foi em uma… bicicletaria! Mesmo sendo bem menor do que a Stadler e a Iko, a seleção de produtos era incrível e de novo eu queria levar metade da loja. Depois dos passeios, encerramos o dia com vinho e bruschettas.

De volta a Berlim

Atrasamos a volta para Berlim porque fomos à outlet da Stadler (ó céus!), mas chegamos a tempo de deixamos nossas coisas no hotel e seguirmos para a casa do Christoph.

Férias 2017

“Painting me golden”

Quando ainda estava no Brasil, trocamos algumas mensagens e ele me fez um convite para lá de especial: assistir a um show do Rocky Votolato na sala do apartamento dele. Éramos cerca de 20 pessoas no total e foi uma noite muito gostosa. O Artur teve a ideia de levar duas garrafas de cachaça para fazermos caipirinhas para o pessoal. Como eu conhecia poucas pessoas ali, foi engraçado ouvir os sussurros: “aqueles são os brasileiros que estão fazendo caipirinhas”; e ver como alguns alemães se aproximavam timidamente: “será que eu poderia experimentar uma?”.
Férias 2017

Ava, Marisa e Christoph, que família linda!

Ainda nesse clima de amizade, o dia seguinte começou com um brunch no café vegetariano/vegano Satt&Glücklich (satisfeito e feliz). Foi minha despedida da Frances, do Christoph, da Marisa e da fofíssima Ava. Nos demos muito bem, tanto que fiquei um tempão passeando com ela pelo café e me derreti cada vez que ela largava a mão de alguém, vinha na minha direção e me abraçava.

Os últimos dias em Berlim foram de correria porque queríamos ainda fazer várias coisas – óbvio que não deu tempo. De qualquer forma, conseguimos tomar mais um café da manhã no Silo e fomos conhecer um café livraria que descobrimos por acaso, o Shakespeare and Sons, onde tomei o melhor cappuccino vegano da viagem. Além de adorar o ambiente, achei legal ver apenas mulheres trabalhando ali.

Os reencontros continuaram e fiquei muito feliz por rever a Martina, uma querida da República Tcheca que conheci em São Paulo. Entramos em contato para encontros de conversação – eu queria melhorar o alemão e ela, treinar o português – e ficamos amigas desde o primeiro café. O último encontro foi um jantar com amigos brasileiros (Talita, Laura e Gola) que se mudaram para Berlim.

Sempre que volto da Alemanha, é como se deixasse um pedacinho do meu coração por lá. E, por mais que existam vários lugares que ainda quero conhecer, vira e mexe esse país incrível entra como destino para as próximas férias.

Flickr.

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