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17º Encontro de Cicloturismo

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Foto oficial do 17º Encontro. Créditos: Walter Magalhães.

Neste ano, encerramos nossas férias no 17º Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura, organizado pelo Clube de Cicloturismo do Brasil. Mesmo tendo bastante contato com o pessoal do clube (até demos uma palestra sobre a viagem para o Equador), essa foi a primeira vez que participamos do evento, que acontece todos os anos no feriado de Corpus Christi, em Campos do Jordão.

O encontro foi uma oportunidade ímpar para revermos amigos queridos e ainda conhecermos outras pessoas com o mesmo interesse por viagens de bicicleta.

A programação desta edição incluía palestras de pessoas cujas viagens acompanhei pelas redes sociais como a Andrea e o Bruno (Larguei Tudo e Fui) e o Ricardo Martins (Roda América e agora Roda Mundo), de figuras bastante conhecidas no mundo do cicloturismo como a Rafaela e o Olinto e ainda alguns que eu não conhecia e foram surpreendentes como a Taline e o Acauã (Amorbikecafé) e o José Guilherme Veiga (Ushuaia-Alasca).

Foram quatro dias intensos que passaram rápido demais. Em meio a conversas, risadas e aprendizados, tivemos espaço para muita emoção. O agradecimento por um par de alforjes sorteados veio em forma de poesia e foi difícil conter as lágrimas. Dona Hercília comoveu muita gente com suas palavras ao agradecer o mimo trazido pelo, agora amigo, Veiga.

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Ouvindo as histórias do José Guilherme Veiga.

Foi dele também a palestra que mais me marcou. Com muito bom humor, ele contou sobre tudo o que deu errado em sua jornada: dor no joelho, vento contra por todo o caminho, companheiro de viagem que foi embora sem avisar, bicicleta quebrada no meio da Dalton Highway (estrada no Alaska simbólica até na quilometragem: 666km) e, no final, assistir à cena dos ursos destruindo sua bicicleta e alforjes.

Alguém que nunca fez uma viagem de bike poderia pensar que essa é uma tremenda furada, mas o vídeo que ele mostrou na sequência, repleto de paisagens lindas e sorrisos enormes, confirmou que, apesar dos momentos difíceis, viajar de bicicleta traz leveza e muita felicidade.

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Parte da galera no segundo dia de pedal autoguiado.

Além das palestras, o encontro inclui sugestões de roteiros para pedais autoguiados e um pedal coletivo no penúltimo dia, em ritmo tranquilo. Neste ano, fomos a uma cachoeira encarando subidas e descidas na região de Piranguçu.

Quem quiser mais informações sobre as atividades basta acessar o site. O clube promove ainda uma palestra mensal e gratuita no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, uma ótima chance para entrar em contato com apaixonados por cicloviagens.

Aproveito para deixar aqui meus agradecimentos ao pessoal do clube pelo convite e pela oportunidade de ter participado desse encontro. Obrigada, de coração!

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Cicloviagem de férias na Mantiqueira

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Cicloviagem pela Mantiqueira: morros que não acabam mais.

Com a aproximação das férias, decidi que queria fazer uma viagem de bicicleta. Primeiro, pensei em conhecer o Circuito das Araucárias, em Santa Catarina, mas resolvi traçar uma rota pela região da Mantiqueira (amo!), facilitando a chegada ao Espaço Araucária (acabamos deixando o carro lá), onde participamos do 17º Encontro Nacional de Cicloturismo.

Como a altimetria era pesada e estávamos pedalando pouco, optamos por ir sem equipamento de camping e dormir em pousadinhas. Instalamos bolsas de selim no esquema bikepacking; usei ainda a bolsa da Vó Joaquina no guidão e uma pochete; o Artur foi com dois porta-volumes de guidão da marca Aresta e uma mochila de ataque.

Dia 1 – Do Espaço Araucária a Itajubá (48,4km – 976m)

Para traçar as rotas no Ride with GPS, uso muito as imagens de satélite do Google Maps e isso, às vezes, resulta em algumas surpresas pelo caminho. Logo nos primeiros quilômetros da viagem, caímos em um quintal e a dona nos informou que a estrada foi fechada devido a uma briga de vizinhos.

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Itajubá acabou sendo o destino do primeiro dia de viagem.

Com a mudança de planos, voltamos pelo mesmo caminho e fomos em direção à cidade de Piranguçu. Encaramos a subida da serra de São Bernardo e passamos pela represa de mesmo nome. Decidimos não passar por dentro da cidade e seguimos direto para Itajubá. Os últimos quilômetros foram no asfalto e – ufa! – havia acostamento na parte mais movimentada da estrada.

Em Itajubá, a querida Deise já tinha nos oferecido hospedagem e foi um prazer enorme reencontrar os amigos que fizemos em uma viagem de carnaval.

Dia 2 – De Itajubá a Maria da Fé (29,5km – 573m)

No dia seguinte, a Deise e o Egg pedalaram conosco até Maria da Fé – o Denis não nos acompanhou, pois tinha uma prova de mtb no domingo e havia programado um giro leve.

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Com os amigos Deise e Egg em Maria da Fé.

Nossos guias nos levaram pela trilha do “alface” (o nome tem relação com as hortas do caminho). Eu já tinha pedalado parte dessa estrada em uma viagem com o Giu e descobri que, se tivéssemos seguido pela esquerda em determinado ponto, teríamos feito um caminho muuuuito mais suave. Nada como pedalar com locais.

Enquanto almoçávamos, uma chuva forte e gelada começou a cair e não parou mais. Desencanamos de seguir até Cristina e, por sorte, conseguimos uma hospedagem em Maria da Fé – estava tudo lotado devido a um evento de moto na região.

Ainda quero voltar para Maria da Fé para conhecer a fábrica de azeites, mas, tirando isso, não há muitos atrativos na cidade.

Dia 3 – De Maria da Fé a Carmo de Minas (55,1km – 1.318m)

Apesar de o dia anterior ter sido encurtado por causa da chuva, mantivemos o destino do terceiro dia: Carmo de Minas. Para complementar o café safado da pousada, fizemos uma parada estratégica na Padaria do Thiaguinho – outra dica boa dos amigos de Itajubá.

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Entre a Beleza e a Paciência.

O dia começou gelado: 9°C, às 7h30, mas logo esquentamos com as subidas. Seguindo pela terra, passamos por dois bairros e suas respectivas serras: a Beleza e a Paciência. Enquanto subia devagar, lembrei de uma frase bobinha sobre relacionamentos: se der certo, beleza; se não, paciência. Neste caso, deu tudo certo, com beleza e paciência!

Depois do almoço em Cristina, seguimos por uma estradinha suave que beira o rio Lambari, pegamos um trechinho curto de asfalto e logo voltamos para a terra. Aprendi com os amigos de Itajubá que, essas estradas de subidas leves geralmente são antigas ferrovias.

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Onde será que vamos parar?

Tudo estava tranquilo até chegarmos à primeira porteira do dia. Cruzamos a propriedade abandonada e logo começou um caminho de gado seguido por uma plantação de bananas. O caminho estava bem sujo em alguns pontos e empurramos as bikes por um tempinho. O bananal deu lugar a muitos pés de café, um single track em um pasto e uma estrada decente no meio de outro enorme cafezal.

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Quando o caminho termina em uma propriedade privada.

Durante esse pedala/empurra, além de me perguntar onde iríamos parar, eu pensava: “Google Maps fanfarrão! É a segunda vez que traço uma rota seguindo estradas indicadas por ele para diminuir o risco de perrengue e ele apronta uma dessas”. A estrada terminou na Fazenda Coqueiro. Atravessamos a última porteira do dia e pedalamos mais um trechinho de terra antes dos 5km de asfalto até o destino do dia.

Incluí Carmo de Minas no roteiro por causa da produção de café. A expectativa aumentou quando tomamos um café muito bom na loja de conveniência do posto na entrada da cidade. Porém, a realidade mostrou que ali era o único lugar onde dava para encontrar um café decente. Fomos à torrefação da Unique (imaginei que tivesse uma lojinha de fábrica), mas eles indicavam o café no calçadão em São Lourenço e, na hora, nem cogitamos incluir esse desvio na rota.

Dia 4 – De Carmo de Minas a Cruzília (59,7km – 1.253m)

Comparado à véspera, tivemos um dia despreocupado, com mais cidades pelo caminho para abastecimento e uma rota bem mais leve, passando por um trecho da Estrada Real. As plantações de café continuavam predominantes na paisagem e foram acompanhadas ainda pelas belas formações do Itatiaia e pelo Pico do Papagaio.

Passamos rapidamente por Caxambu e o Artur resolveu nos guiar dentro da cidade. Ele optou pela rota mais rápida e fomos parar numa estrada de asfalto curta, mas horrível que levava a Baependi. Na rota que tracei, o caminho era mais longo e de terra.

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Entre Carmo de Minas e Cruzília: muitas plantações de café.

Mesmo sem provar as especialidades de Cruzília, cidade conhecida pela produção de queijos premiados, minhas melhores lembranças de lá são relacionadas à comida: um delicioso cheesecake com cobertura de damasco que comemos ao chegar e biscoitinhos comprados em uma padaria ao partirmos.

Dia 5 – De Cruzília a Carvalhos (63km – 1.464m)

No quinto dia da viagem, justo quando começava a colheita do café na região, a paisagem da nossa rota mudou complemente. Algumas estradinhas deram lugar a estradões e pedalamos mais expostos ao sol.

Cortamos um trecho do caminho porque não queríamos passar em uma fazenda turística, mas em outra parte não teve jeito e passamos por uma propriedade privada de alguma empresa. Pedimos permissão a um casal cuja casa ficava a poucos metros da porteira e eles disseram que podíamos seguir.

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Cachoeira do Bananal, no caminho para Aiuruoca.

Ao passarmos pela cachoeira do Bananal (que eu tinha visto pelo Google Maps), vimos  um camper e logo conhecemos seu dono, que estava fotografando e filmando a queda d’água. Mário, morador de Itamonte e viajante solitário, nos mostrou diversos detalhes do camper construído por ele e não parava mais de falar.

Poucos quilômetros depois desse encontro, tivemos mais uma mudança de percurso porque o gps indicava um caminho onde não víamos estrada alguma. Ao invés de seguirmos para Serranos, fomos parar em Aiuruoca, que não estava nos planos para essa viagem. Para voltarmos à rota, optamos por continuarmos até Carvalhos.

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Não parece, mas tinha muita subida nesse caminho.

Há duas estradas que ligam as cidades e seguimos via Posses. O caminho é bem bonito e com muitas subidas, claro. Cerca de 8km antes de chegarmos, passamos pelo bairro das Posses e paramos para bater papo com o simpático casal José Antônio e dona Bina. A conversa rendeu por mais de uma hora e terminamos o pedal do dia sob um belo céu estrelado.

Dia 6 – De Carvalhos a Bocaina de Minas (30,4km – 875m)

Como pulamos um pernoite logo no começo da viagem, decidimos mudar o destino do dia e descansarmos um pouco mais. Essa decisão e o frio da manhã contribuíram para sairmos mais tarde.

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Descobrindo novos picos na Mantiqueira.

Descobrimos uma formação linda por ali, o Pico do Muquem, e ficamos atiçados para voltar e fazer o cume. Parte do caminho era sentido bairro Francês dos Carvalhos, mas lá pelo km 11 havia uma bifurcação e continuamos na direção da cachoeira da Estiva. Já sabíamos que se tratava de uma propriedade privada, mas o dono da pousada em Carvalhos disse que poderíamos entrar sem problema já que o local pertence a um primo dele. E vale a pena esse pequeníssimo (menos de 1km) desvio: a cachoeira é linda!

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A serra parece tão inocente nesta foto.

Um dia curto de pedal nessa região nem de longe significa moleza e tivemos que encarar a, até então desconhecida, Serra da Aparecida. Em menos de 1,5km, subimos 152m, chegando a 32% (!!!) de inclinação. A descida teve areia, pedras soltas e erosões.

Com a fome que estávamos, ficamos com receio de chegarmos tarde para o almoço em Bocaina de Minas (já tínhamos nos dado mal em Aiuruoca), mas comemos muito bem no Restaurante do João Grande. Considerando o quantidade de distritos que a cidade possui, imaginei que ela seria maior, porém, é pequena e sem muitas opções de hospedagem e restaurantes. Ainda assim, comemos uma pizza bem boa no jantar.

Foi neste dia que ficamos sabendo sobre a crise no abastecimento de combustível no país. Mesmo em um lugar tão pequeno, vimos uma filinha no único posto e ouvimos alguns comentários do dono da vendinha. “Corri para abastecer meu carro hoje. Já está faltando combustível nas cidades ao redor daqui.”

Dia 7 – De Bocaina de Minas a Itamonte (66,7km – 1.360m)

Depois de um trechinho de asfalto até o trevo, pedalamos por uma serra suave (e gostosa!) e logo chegamos a Santo Antônio do Rio Grande. Foi a segunda vez que passei por ali e nem repeti as estradas.

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Encantada com o entorno de Itamonte.

A subida que veio a seguir não era nada tranquila, mas a baixa velocidade nos permitiu apreciar ainda mais a região. O barulho de água foi constante por muitos quilômetros e havia bastante mata ao lado da estrada. Ao que parece, o trajeto ali não tem muito movimento e por um bom tempo não encontramos ninguém. Pelo caminho, descobrimos ainda a RPPN Morro do Elefante, que trabalha com agricultura orgânica e proteção e conservação da fauna e flora da região. Mais um local para visitar em outra oportunidade.

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Nenhum sinal dos moradores de Belo Monte.

Em Santo Antônio, havíamos sido informados de que, no bairro Belo Monte, haveria uma vendinha no caminho onde poderíamos nos abastecer. O que encontramos foi uma vilazinha com igreja, posto de saúde e escola fechados. Embora estivesse bem cuidada e o único local com aspecto de abandonado fosse a fábrica de laticínios, não vimos uma alma sequer.

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Fazenda Guatambu: hospedagem incrível em Itamonte.

Passamos em frente à Fazenda Guatambu/RPPN François Robert Arthur, onde nos hospedamos no ano passado para comemorar o meu aniversário. Além de realizar um excelente trabalho na preservação de um uma região linda, a Endy é responsável pela produção de geleias, kombucha, cervejas, mel e sabonetes artesanais e ainda oferece duas casas incríveis para hospedagem.

A partir da fazenda, foram mais 9km até o asfalto da estrada que liga Itamonte a Alagoa e quase 20km predominantemente de descida até a cidade. Embora considere o entorno de Itamonte belíssimo, não posso dizer o mesmo da área urbana, cortada pela rodovia. Depois de Bocaina de Minas, aqui foi o primeiro lugar onde ouvimos falar com mais intensidade sobre a greve dos caminhoneiros, que estavam protestando em um posto próximo à pousada onde nos hospedamos.

Dia 8 – De Itamonte a Marmelópolis (52,6km – 1.490m)

Voltamos à Estrada Real nos primeiros 10km do dia, por um caminho charmoso que eu já tinha percorrido no sentido contrário. Na sequência, o trecho de Itanhandu a Passa Quatro não traz nada de interessante e é marcado por granjas enormes.

Assim que saímos de Passa Quatro, encaramos uma subida que parecia não acabar mais. Subindo devagar – empurrando em alguns trechos inclusive – vimos várias sinalizações de uma ultramaratona que passou por ali. No cume, havia uma casa que parecia abandonada e uma bifurcação. Optamos pelo caminho mais curto e fomos pela direita. A esquerda levava a um lago sobre o qual um conhecido me falou quando mencionei que já tinha pedalado por aquela região.

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Em busca do suco de marmelo.

O caminho escolhido era muito sossegado e ficamos um bom tempo sem ver ninguém. Há diversas estradas que ligam Passa Quatro e Marmelópolis e, sem querer, não repetimos nenhuma em relação à viagem de Carnaval pela Mantiqueira em 2015. Tendo a travessia Marins-Itaguaré como parte da paisagem, paramos bastante para fotos e mais ainda quando encontramos o Toninho, morador de Marmelópolis muito bom de papo.

A conversa se estendeu por um tempo e chegamos à cidade quando estava escurecendo. Já que o restaurante Di Minas estava fechado, jantamos uma panqueca deliciosa na Pizzaria do Gordo, com direito a esfihas de chocolate de sobremesa. O pernoite foi na Pousada Bella Vista, que estava vazia por causa da greve de caminhoneiros.

Dia 9 – De Marmelópolis a Wenceslau Braz (46,8km – 1.494m)

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Belo começo de pedal.

Pegamos a estrada que leva ao bairro dos Quatis e, logo de cara, veio uma subida puxada – segundo o registrado no Strava, havia um trecho com 43,9% (!) de inclinação. Essa estrada fazia parte de uma rota que tracei para percorrer com o Giu e não rolou. Depois do terceiro quilômetro, a subida ficou mais agradável.

Fomos seguindo a estrada até que o gps indicou que estávamos fora da rota. Olhando ao redor, vi uma casa abandonada e não tinha certeza se era por lá que deveríamos seguir. Minha dúvida foi sanada por um senhor que trabalhava desmontando outra casa abandonada. “Pode seguir por ali, sem problema.”

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Trocando o estradão pelas estradinhas.

Pelas marcas no caminho, percebemos que esse atalho é percorrido apenas por motos e cavalos e, mesmo assim, não muitos já que havia alguma vegetação crescendo em partes do solo. Esse primeiro trecho nos brindou com single tracks e árvores que sombreavam o caminho; já o segundo, com areia, pedras e uma longa descida.

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Mercadinho Uai Pegue e Pague, em Taquaral.

Nossa rota alternativa terminou em um trecho do Caminho de Aparecida, no bairro Taquaral, já em Delfim Moreira. Passamos por uma hospedagem de romeiros, com baias para os cavalos, e pela peculiar vendinha Uai Pegue e Pague. Em meio aos produtos da roça, havia os avisos “você não está sendo filmado”, “colha sua verdura e pague o que achar justo”, “obrigado por ser honesto”.

O “almoço” foi no bar do Tadeu, no bairro Salto, também pertencente a Delfim Moreira: batata frita para mim, torresmo para o Artur e cerveja artesanal da região.

Seguimos pelos bairros de Biguá e Água Limpa numa descida suave. O único porém foi o aumento do tráfego que levantava uma poeira chata. Essa estrada é muito usada por ciclistas da região; encontramos alguns pelo caminho e depois descobri que o Denis (Itajubiker) tinha passado por lá mais cedo.

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Ah, Google Maps fanfarrão.

Para fugir do asfalto, incluí na rota um trecho que, no Google Maps, aparentava ser uma estrada, mas era na verdade um caminho de gado. Esse “atalho” no pasto faz parte do Caminho de Aparecia e até que foi pedalável em alguns pontos. Os últimos 6km do dia foram de asfalto, numa leve subida com vento contra.

Nos hospedamos na única opção que encontramos na cidade, a Pousada Castelinho que, como o nome sugere, realmente é um castelinho – impossível passar batido. O jantar, encomendado por nossa anfitriã, foi no restaurante da Derly. Mal acreditamos quando ela começou a trazer as panelas para nossa mesa e não parava mais. Comemos bastante e ainda sobrou muita comida.

Dia 10 – De Wenceslau Braz a Campos do Jordão (36,9km – 1.370m)

O dia começou com o mantra “só no girinho”. De Wenceslau Braz até o bairro do Charco, foram quase 15km de subida ininterrupta num giro constante. Aproveitamos um pouquinho de descida e voltamos a subir até a divisa de Minas Gerais com São Paulo, onde entramos no Horto Florestal de Campos do Jordão.

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Campo de araucárias próximo à entrada principal do Horto Florestal.

A descida pelo parque exigiu atenção já que havia muitas pedras e pontos escorregadios. Na empolgação de pedalar uma full suspension, o Artur bateu o aro em uma pedra e teve o único furo de todo o percurso.

Com a viagem chegando ao fim, incluí um mimo no roteiro e reservei uma cabana charmosa para passarmos a noite. No espaço gigantesco há, além das cabanas, chalés, atividades de arvorismo, paintball, um restaurante e o Zoom Bike Park, um parque feito para quem curte mtb, com diversas trilhas de variados níveis.

Apesar da subida longa, o pedal do dia foi curto e desfrutamos de uma tarde preguiçosa e de um friozinho gostoso, em meio às árvores.

Dia 11 – De Campos do Jordão ao Espaço Araucária (25,5km – 729m)

No último dia de viagem, entramos no ritmo de calmaria. Acordamos mais tarde, tomamos o café da manhã sossegados e saímos sem pressa. Em menos de 10km estávamos no centro da cidade para um programa tão clichê quanto gostoso: almoço na Baden Baden.

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Depois de 515km, de volta ao Espaço Araucária.

Enrolamos um pouco por ali, mas, enfim, fomos percorrer os últimos 17km da viagem. Com subidas, claro. Fizemos algumas fotos em frente ao Espaço Araucária e declaramos encerrada a primeira parte das férias.

Pós-viagem

O plano era aproveitar os dias que tínhamos antes do Encontro Nacional de Cicloturismo para irmos de carro até São Lourenço e Cruzília atrás de um “carregamento” de café, queijo e bolachinhas mineiras e ainda visitar o simpático casal nos arredores de Carvalho. Tudo frustrado pela greve dos caminhoneiros. O tanque do carro estava cheio e achamos mais prudente continuar assim e garantir a volta para a casa pós-feriado.

Pedalar pela Mantiqueira é sempre um programa imperdível. Por mais que já conheça muitos lugares e estradas, ainda é só um pedacinho do que há para ser conhecido. Assim como as pessoas que encontramos pelo caminho, sempre simpáticas ao confirmar uma informação ou até mesmo oferecendo um “cafezim”, jantar e pouso (!).

Minas Outback

Minas Outback - ago 2015

Mulheres cicloviajantes na serra velha de Campos do Jordão.

Uma cicloviagem só de mulheres! A ideia surgiu quando, conversando com o Artur e o Tux, sobre um pedal pela Mantiqueira, foi usado o termo Minas Outback. Era uma referência ao estado de Minas Gerais e à ideia do Oregon Outback, mas adotei o termo com outro objetivo.

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Mantiqueira é sempre uma boa escolha.

Planejei um roteiro e chamei algumas meninas que sei que gostam de cicloviajar. Como foi a primeira vez que organizei algo assim, preferi chamar pouca gente. No começo, achava que seríamos apenas a Gabi e eu, mas, aos poucos, algumas mulheres foram topando e chamando outras.

Para não corrermos o risco de perder o ônibus, a Nataly sugeriu invertermos a rota. Essa mudança deixou o pedal mais tranquilo, ficamos folgadas em relação aos horários no domingo e ainda ganhamos uma horinha de sono.

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Campos do Jordão – Monteiro Lobato – São Francisco Xavier – Caçapava.

No sábado, conseguimos embarcar as dez bicicletas e os alforjes sem qualquer problema e partimos às 6h para Campos do Jordão. Tomamos café da manhã perto da rodoviária e “chocamos” os atendentes do lugar pelo tanto que comemos (e olha que nem foi tanto assim).

O pedal começou gelado com a descida da serra velha. Foi uma delícia passar de novo por ali e lembrar da minha primeira cicloviagem.

Ao chegarmos à bifurcação para Santo Antônio do Pinhal, tivemos o primeiro e único problema mecânico da viagem. O câmbio dianteiro da Nataly não funcionava mais. Tentamos arrumar, mas a questão era o cabo e não tínhamos reserva. Por sorte, a corrente estava na coroa menor.

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Meu restaurante favorito em Monteiro Lobato.

Em Monteiro Lobato, almoçamos no restaurante Resgate Caipira. Chegamos no finalzinho do almoço, mas ainda tinha comida suficiente para as ciclistas esfomeadas. Subimos a serrinha para São Francisco Xavier com luz do dia, mas a descida foi apenas com as luzes dos faróis.

A hospedagem foi na Pousada Canto dos Pássaros, um pouco antes da entrada de São Francisco. Já havia ficado lá durante outra cicloviagem de fim de semana. O lugar é uma delícia e o atendimento muito simpático. Como tínhamos bastante comida nos alforjes, desencanamos de jantar em algum restaurante e aproveitamos a cozinha comunitária para compartilharmos as guloseimas, os vinhos e cervejas (de pinhão e avelã!).

Estrada do Livro

A manhã começou devagar. Tomamos café da manhã com calma e saímos às 10h da pousada. Pedalamos tranquilamente e logo estávamos em Monteiro Lobato de novo.

Como teríamos que encarar duas serrinhas em uma estrada sem abastecimento, sugeri almoçarmos no mesmo restaurante do dia anterior. Aqui o grupo se dividiu, pois algumas meninas disseram que ainda estavam cheias do café e decidiram seguir pedalando.

A Estrada do Livro também é chamada de Estrada Velha pelos moradores da região. O percurso é lindo, com duas serrinhas curtas e íngremes. Entre uma e outra, fica um dos sítios do Pica-pau Amarelo. Segundo nos contaram, esse é onde Monteiro Lobato morava.

Paramos para uma foto em frente à placa e reencontramos as meninas que optaram por não almoçar. A Vivi e eu ficamos doidas por um café e fomos perguntar se tinha ali. Num tom bastante mal educado, a dona disse: “são dez reais para visitar o sítio e servimos almoço apenas com reserva. Não temos café”. Então tá, não voltamos mais.

Minas Outback - ago 2015

Reagrupando.

De volta à estrada, encaramos o trecho de terra e pedrinhas, que, no sentido Caçapava, é uma subidinha de 3km. Cada uma subia no seu ritmo e, em determinado ponto, parávamos para reagrupar, sem deixar ninguém para trás.

Ao planejar a rota, esqueci de descontar os quilômetros de ida e volta entre São Francisco Xavier e a pousada, por isso, o pedal do dia foi mais curto do que achei que seria. Chegamos a tempo de trocar as passagens para um horário mais cedo e ainda deu para brindarmos à cicloviagem com cervejas no boteco da rodoviária.

Foi uma experiência e tanto! Era uma viagem em grupo, mas havia autossuficiência, pois cada uma era responsável por suas passagens, hospedagem, lanchinhos.

Alguns conhecidos não tinham muita certeza sobre esse pedal. Vai dar certo? Vai ter quórum? No fim, deu certíssimo e foi só o primeiro. Se alguma mulher está na dúvida sobre fazer uma cicloviagem, espero que este evento seja um incentivo. Sozinha ou com amigas, simplesmente vá.

Carnaval em Campos do Jordão

Início da jornada.

A ida

“Ah, eu vou vai!” E assim, num impulso, resolvi encarar a serra de Campos do Jordão em uma cicloviagem durante o Carnaval.

Na manhã de sábado, partimos de ônibus até Taubaté. A ida seria pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, passando por Tremembé. Apesar do calor, a primeira parte foi bem tranquila. Logo depois da primeira subida, paramos em frente ao posto da Polícia Rodoviária e aproveitamos para reabastecer as caramanholas.

O primeiro morrinho foi brincadeira perto do que veio depois. A placa indicava a distância até Campos do Jordão: 28 km. De subida! Sempre digo que sou ruim de subidas e percebi que o maior problema é a afobação. Quero que acabe logo e começo num ritmo mais intenso do que aguento. Aí, canso rápido e demoro para recuperar o fôlego. Porém, como a serra de Campos não acabaria tão cedo assim, fui me controlando para não exagerar.

Sobe, sobe, sobe.

Algumas pessoas foram mais rápidas e o grupo se dividiu um pouco. O sol forte e o calor não ajudaram e a água estava no fim. Quando vi uma caminhonete da DER, não tive dúvidas. Fui perguntar se o rapaz tinha água para nos dar. Muito solicito, ele encheu minha caramanhola e disse para eu beber que ele encheria de novo.

Fiquei lembrando de um texto dos amigos Fabrício e Affonso no blog Ushuaialaska. Eles falaram sobre a “humanidade” que existe em pedir água a outra pessoa e como “negar água é ao mesmo tempo a expressão mínima e máxima da maldade com o outro”.

Numa das paradas curtas para descanso, mandei uma mensagem para o Marcello perguntando se ele tinha encontrado o mirante com lanchonete sobre o qual alguém tinha comentado. A resposta veio rápida: fazendinha no km 38. Olhei para frente e estávamos a apenas alguns metros da entrada.

Torta de ricota com espinafre e saladinha de alface com flor comestível.

Com a fome e a sede que eu estava, parecia realmente que tínhamos encontrado um oásis. Lugar lindo, aconchegante, com comida orgânica e deliciosa! Ficamos lá por quase uma hora, comendo, bebendo e descansando. Depois seguimos em três: Shadow, Marcello e eu.

Reencontramos parte do pessoal pouco depois no mirante (que realmente existe!). Aproveitamos para comer milho cozido, mas perdemos o caldo de cana, pois a barraca já tinha sido desmontada.

Quase lá!

As últimas pedaladas foram no escuro, mas em poucos minutos chegamos a Campos do Jordão. A felicidade de alcançar o destino foi tanta que nem lembrava mais do cansaço.

Reunimos o grupo todo e fomos para a casa que tínhamos alugado, com subida no caminho, para continuarmos no clima, é claro.

Domingo de muita comilança

Cadê o chão?

Depois do café da manhã numa padaria amiga do ciclista, ou seja, com paraciclo, fomos passear em Capivari. No caminho, paramos para uma pedalada no ar: a Larissa foi testar a “bike-tirolesa”. Depois, encaramos a fila do teleférico para aproveitarmos a vista do Morro do Elefante.

O almoço foi na Baden Baden com direito a batata suíça e apfelstrüdel. Os não-vegetarianos optaram pelo eisbein. E todo mundo saiu de lá com a barriga cheia.

Perto de onde estávamos hospedados, decidimos parar em uma cervejaria. Alguns foram pedalar mais um pouco e outros ficaram para o bate-papo, cerveja e batata frita. Até que o Giba voltou com a ótima notícia de que, ali perto, tinha uma casa de espetinhos. E a gula falou mais alto de novo.

A brasília amarela.

Nos divertimos com a Brasília amarela cortada ao meio e adaptada para acomodar a chapa onde os deliciosos espetinhos são preparados. Comi o melhor pão-de-alho da minha vida e minha frustração foi não aguentar comer mais.

De barriga ainda mais cheia, voltamos para casa.

A volta

A Rodovia Monteiro Lobato é sem acostamento, cheia de curvas e tem apenas uma faixa em cada sentido. No entanto, as árvores projetam uma sombra gostosa no caminho e a vista é incrível.

Tive momentos de “Rota Márcia Prado feelings”, pois, embora estivéssemos descendo a serra, havia muitas subidas no percurso. De qualquer forma, foi bem mais tranquilo do que a ida, mesmo pedalando o dobro da distância.

:)

Pedalei sozinha por alguns momentos e parei várias vezes para fazer fotos. Num cruzamento, tinha uma banquinha de doces típicos. Não resisti e comprei um pacotinho de bolinhas de pavê de milho cobertas com chocolate.

Enfim, chegamos a Monteiro Lobato. Meu pai tinha me perguntado umas cinco vezes se passaríamos por lá. O almoço foi recomendação do Shadow e aprovado por todos: restaurante Resgate Caipira. Estava sem fome, mas me rendi quando vi que tinha quiabo e pudim.

Infância.

Antes de deixar a cidade, tirei uma versão meio fajuta de uma foto clássica de amigos. E outra com a Emília, é claro.

A empolgação bateu nos últimos quilômetros e, logo, estávamos em São José dos Campos. Pergunta aqui, pergunta ali e chegamos à rodoviária. Esperamos a turma, batemos a foto oficial de chegada e embarcamos no próximo ônibus.

Adorei a experiência e quero fazer mais e mais viagens. A volta à fazendinha é uma delas, com certeza.

New Yorker e eu.