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Itajubá-Virgínia-Itajubá de bike

Itajubá - Virgínia

Estradinhas tranquilas pelos Caminhos da Mantiqueira.

No começo do ano, um dos meus melhores amigos, o Giu, me perguntou quais os meus planos para o Carnaval, pois ele queria cicloviajar. Como passei essa data na Alemanha, adiamos esse plano até o feriado de 1º de maio.

A rota rabiscada foi para dois dias passando por cidades dos chamados circuitos Caminhos da Mantiqueira e Terras Altas da Mantiqueira.

Na sexta-feira à tarde, fomos de carro de São Paulo até Itajubá para começar o pedal no dia seguinte. Aproveitei para encontrar o Denis, do Itajubikers, que conheci numa cicloviagem durante o Carnaval de 2015. Faltou o reencontro com a Deise e com o Egg.

De Itajubá à Virgínia

Depois de um bom café, pegamos uma estrada no sentido de Maria da Fé, porém, foi só com cerca de 12 km que entramos na estrada antiga que liga Itajubá à Maria da Fé. Fomos subindo, subindo, subindo… Quase no topo, encontramos um ciclista que passou por nós na cidade descendo todo feliz.

Em Maria da Fé, fizemos uma foto na antiga estação de trem e, como ainda tínhamos bastante chão pela frente, decidimos fazer uma parada rápida no bar de um posto de gasolina que estava no nosso caminho ao invés de almoçarmos em um restaurante.

Nesse trecho, a estrada é de paralelepípedos e a subida foi mais suave do que eu me lembrava. Paramos para fotografar umas plantações de café e logo reencontramos a terra. Aqui e acolá, passávamos por localidades que não sei identificar se são bairros ou distritos. Em uma delas, perguntei ao rapaz que dirigia um trator qual era o nome do lugar e a resposta veio carregada com o sotaque mineiro, que acho uma graça: “Aqui é Mata, Madibaixo. Se cês continuarem, cês vão passar por Madicima”.

Das Matas, fomos para Pintos Negreiros por uma estrada diferente da que eu havia pedalado antes. Paramos no mercadinho para mais um lanche e voltamos para a estrada. A subida não era tão íngreme, mas a lama, os buracos e as pedras fizeram com que o pedal não rendesse.

Itajubá - Virgínia

“Trânsito” intenso pelo caminho.

Neste ponto, tivemos dúvida se estávamos no caminho certo, pois, além de não encontrarmos ninguém nesse trecho, o mato estava crescendo na estrada indicando que não há muito movimento por ali, além das vacas.

Numa curva pouco depois, erramos uma entrada – achei que fosse apenas a entradinha de uma casa. Começamos a voltar quando encontramos um senhor de moto, que nos informou que a estrada indicada na rota que tracei estava interditada e só dava para passar a cavalo. Eu já estava pronta para tirar a prova, quando ele acrescentou: “mas se vocês continuarem por aqui, vão sair em Virgínia e até lá é só descida”. Depois disso, deixamos a possibilidade de roubada para lá.

A descida até Virgínia foi uma delícia! A primeira coisa que fizemos foi procurar hospedagem e ficamos na mesma pousada onde dormi no Carnaval de 2016, a Bela Vista. Pedimos pizza para o jantar e dormimos cedo.

De Virgínia a Itajubá

Depois de uma enroladinha básica, partimos. O começo foi bem tranquilo e, quando a subida começou, achei aquele trecho muito familiar: passei ali de carro no ano anterior e, na hora, pensei que seria bem legal pedalar por ali. Realmente foi bem legal!

Itajubá - Virgínia

Pausa para uma mexerica antes de chegarmos a Marmelópolis.

Mesmo com algumas paradas para fotos, logo chegamos a Marmelópolis. Almoçamos no restaurante Di Minas, que eu também já conhecia e acho bem bom. Comida fresquinha, orgânica, suco de marmelo e atendimento pra lá de atencioso.

Neste ponto, o Giu já tinha desistido de seguir pedalando. As pernas estavam inteiras, mas ficar sentado no selim não estava muito agradável para ele. Enquanto comíamos, fiquei ponderando duas opções: manter a rota original e correr o risco de entrar numa roubada por causa do horário – ainda teria 15 km de subida puxada, sem a menor ideia das condições da estrada – ou ir pelo asfalto, que eu já conhecia. Acabei ficando com a segunda opção e, depois de me despedir do Giu, fui encarar a Serra da Goiabeira, mas no sentido contrário ao que havia pedalado anteriormente.

Itajubá - Virgínia

Subindo a Serra da Goiabeira sentido Delfim Moreira.

Como a subida era longa, fui girando tranquila, sem pressa, afinal eram apenas 18 km até Delfim Moreira e uma parte seria de descida. Cheguei ao topo em 1 hora, parei para fotografar a placa da divisa entre as cidades e, assim que subi na bicicleta, dois motoqueiros apareceram na curva e diminuíram a velocidade quando me viram. Comecei a descer e eles ficaram atrás de mim por um tempinho, fazendo umas “graças”. Fiquei ressabiada e acabei descendo um pouco mais rápido, mas o alívio veio logo que eles me ultrapassaram e sumiram nas curvas.

Em Delfim Moreira, mandei mensagem para o Giu e voltei para a estrada. Um senhor me indicou o caminho “da linha”, a antiga estrada de trem. Logo no começo, revi os mesmo motoqueiros da serra indo no sentido contrário ao meu e acompanhados por mais um cara. Aproveitei que a estrada estava boa e pedalei um pouco mais rápido.

Itajubá - Virgínia

Estrada “da linha”.

Num ponto, há uma bifurcação e o caminho da esquerda leva à rodovia. Decidi ir por lá para ganhar tempo, para não deixar o Giu preocupado e por um certo receio daqueles motoqueiros (pode parecer bobagem, mas o sexto sentido ficou meio alerta). O começo foi uma descidona linda e, mesmo sendo a rodovia principal, pouco movimentada. Fiz uma parada de dez minutos numa pamonharia no caminho e vi o ônibus que vinha de Marmelópolis passando.

A última parte teve alguns falso planos e mais veículos. A maioria dos motoristas foi legal e tomou distância ao me ultrapassar. Apenas um caminhão passou mais perto do que deveria, me assuntando um pouco. Logo estava na entrada da cidade e foi mais fácil do que esperava chegar ao hotel.

Quando bati na porta do quarto, o Giu ficou surpreso com o tempo que levei.

Gostei bastante do trecho entre Itajubá e Virgínia, mas quero voltar para pedalar também a rota originalmente traçada e tirar a prova sobre essa estrada por onde só passa cavalo (du-vi-do! hehe).

Para quem ficou curioso sobre os roteiros, deixo abaixo os links das rotas:

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Cicloviagem da virada 2017

Admirando a Serra da Beleza

Admirando a vista da Serra da Beleza.

Uma amiga querida, a Vivi, me fez um convite irrecusável para o final de ano: uma cicloviagem só de mulheres. Ela bolou um roteiro bem legal de São João Del Rei a Volta Redonda e mandou um e-mail detalhado com informações de distâncias, altimetrias, hospedagens e estimativa de tempo entre uma cidade e outra.

Embarquei em São Paulo junto com a Fernanda e a Renata com destino a São João Del Rei, onde encontramos a Vivi. O transporte das bikes foi bem tranquilo e o motorista foi bastante atencioso. Não pegamos trânsito e a viagem demorou 8 longas horas. Nessa primeira noite, ficamos no AZ Hostel, no centro histórico. Preço bom e lugar bacana.

De São João Del Rei a Madre de Deus de Minas

Como o café da manhã é oferecido fora do hostel, atrasamos um pouco nossa saída. Pedimos informação para o rapaz na recepção sobre o melhor caminho para sairmos da cidade e logo de cara já lembramos que subida para mineiro é algo bem relativo.

Nós e os caminhões

Vivi ganhou o título de miss simpatia.

Estava com receio dos 13 primeiros quilômetros. Passamos por eles de ônibus no dia anterior e a pista é bem estreita, sem acostamento e com movimento intenso de caminhões. Mas não tivemos qualquer problema. Pelo contrário, numa longa descida, um caminhoneiro até segurou o trânsito para nós.

Primeiro café da viagem

O primeiro café da viagem. Que delícia!

A estrada que vai para Madre de Deus é linda, tranquila e cheia de sobe-desce. Aqui rolou o primeiro café da viagem, sob a convidativa sombra de árvores. Um cara num jipe parou para ver se estava tudo bem e fez uma cara bem engraçada ao perceber que estávamos fazendo café.

Essa estrada é cercada por plantações de milho e não tem abastecimento algum. O calor estava infernal e ao nos depararmos com uma casa no meio do caminho parecia que tínhamos encontrado um oásis. Faltavam poucos quilômetros para a cidade, mas a água geladinha servida pela Mara fez uma diferença enorme.

Em Madre de Deus, almoçamos no restaurante Aconchego Mineiro, da Dalva. Comida simples e saborosa temperada com simpatia. A pousada fica ali perto, depois de uma subida, claro. Tomamos banho e esperamos o sol dar uma trégua antes de darmos uma volta. Não há muito o que fazer por ali, então tomamos um açaí e depois jantamos no mesmo restaurante.

De Madre de Deus de Minas a Bom Jardim de Minas

Pelo gráfico de altimetria, sabíamos que hoje seria um dia de muito sobe e desce. E também o dia de maior quilometragem de toda a viagem. O que nos deixou mais tranquilas é que havia mais cidadezinhas pelo caminho e água não seria um problema como na véspera.

Água, café, queijo e vinho

Água, gatorade, queijos e vinhos.

Seguimos bem até São Vicente de Minas, onde paramos em uma lojinha para pegar água, gatorade e beliscar algumas comidinhas. Descobrimos que aqui é onde fica a fábrica da Polenghi e havia uma boa oferta de diferentes tipos de queijos. Os vinhos também estavam com preços bons e levamos dois.

Quase chegando a Andrelândia, o filho de uma amiga, a Roberta Godinho, foi nos encontrar na estrada. Depois, seguimos até a cidade, onde almoçamos no Pub House. Logo chegou a mãe da Roberta. “Encontrei as meninas de bicicleta.” E depois a tia, a irmã, filhos e sobrinhos. Muita simpatia e ótima recepção. Eles tiraram tantas fotos nossas que a moça do restaurante perguntou: “vocês são famosas?”.

Quando voltamos para a estrada a Vivi reclamou que a bicicleta estava muito pesada para pedalar. Paramos para olhar e percebemos que as marchas mais leves não estavam entrando. O cabo estava meio molenga no sti e pensei se o cabo poderia estar desfiando. Primeiro tentamos regular o câmbio, mas não rolou. Então, ligamos para nosso consultor especial, o Artur, e esse foi o diagnóstico. Fomos à bicicletaria Planet Bike, em Andrelândia, e o Quelson fez a troca.

Olha a subida

Se não gosta de subida, melhor não ir para Minas.

A próxima parada foi em Arantina para água e, por falta de tempo, não teve café na estrada. As subidas não eram íngremes, mas eram longas e frequentes.

Em Bom Jardim de Minas, fomos direto para o centro procurar um lugar para jantarmos, Logo o dono da pousada onde tínhamos reserva apareceu, preocupado conosco – a mesma coisa aconteceu no dia anterior. Ele nos indicou um atalho já que os Chalés Camará ficam a uns 3km da cidade. Óbvio que nem tudo é fácil e tivemos que encarar a pior subida até então: 14%.

A noite terminou com vinho, céu estrelado, risadas e muita conversa boa.

De Bom Jardim de Minas a Conservatória

Café na varanda do chalé

Café para começar bem o dia.

Tivemos uma manhã bem preguiçosa, com direito a enrolar na cama e fazer café na varanda do chalé. A Vivi é dona do charmoso Musette Café e levou um café bem bom, prensa francesa e hario para preparar café. O café plantado pelo pai da Renata também estava na bagagem e eu levei uma cafeteira italiana.

Cicloviagem da Virada

Que serra mais linda!

Café tomado, fomos para a estrada. O percurso de hoje foi o mais lindo. Começamos num falso plano com vento contra e morros a perder de vista. Ao contrário do que nos falaram, a estrada é tranquila demais e uma delícia para pedalar. Descemos a primeira serra do dia e fiquei para trás, por um misto de receio de descidas íngremes com curvas e paradas parar admirar a paisagem e tirar fotos.

Que calor!

Todo mundo com calor.

Almoçamos em Santa Rita do Jacutinga num restaurante recomendado pela mãe da Vivi e, por causa do calor, enrolamos quase duas horas num café antes de criarmos coragem para encarar a Serra da Beleza.

O tempo começou a virar e o vento contra deu o ar da graça, mas não pegamos chuva. Esta foi a subida mais cansativa, nem tanto pela altimetria, mas pela moleza provocada pelo calor. Faltando uns 2km para o topo, entendi porque ela é chamada de Serra da Beleza: que vista incrível! O lugar é famoso também pelas histórias de ovnis e bastante procurado por ufólogos.

Descemos bem e brindamos o terceiro dia de pedal com cerveja de boteco. Depois, fomos para a casa reservada pela Vivi para a virada, onde fomos muito bem recebidas. Além de decorarem a casa e deixarem um pote com mix de castanhas, nos presentearam com um prosecco.

Relaxamos um pouco antes de tomar banho e dar uma volta pelo centrinho. Não havia muitas opções e acabamos jantando pizza em frente à chamada praça de baixo.

Conservatória

Nosso plano de tomar banho de cachoeira não rolou. A única com acesso fácil, a Cachoeira da Índia, está interditada. Depois do café, a Vivi foi pedalar um pouco para atingir a meta do desafio Rapha 500 do Strava e a Renata foi junto.

Cicloviagem da Virada

Nós e as bikes em Conservatória-RJ.

Almoçamos no restaurante Gema da Roça, que fica na Rodovia Canção do Amor. Um cara que trabalha lá, o Miguel, veio conversar conosco sobre as bikes. Ele falou sobre algumas estradas de terra legais da região, nos deu um mapa dos arredores e se despediu dizendo que iria passar a tarde na Cachoeira do Destino. Fiquei com vontade de vir para cá com a mtb.

Nossa virada foi bem tranquila. Pedimos pizza, brindamos com prosecco e ficamos papeando enquanto a chuva caía forte. Assistimos à queima de fogos da sacada e fomos dormir pouco depois da meia-noite. Definitivamente, um bom começo de ano.

De Conservatória a Volta Redonda

Depois do café, já estava com tudo pronto, mas a saída de hoje foi enrolada. Nos despedimos da simpática família e fomos encarar a Serra da Beleza novamente. No roteiro inicial, iríamos passar por São José do Turvo, mas descobrimos que o caminho até lá é por terra. Com a mudança, pedalamos cerca de 20km a mais.

Descemos tanto na chegada a Conservatória que imaginamos uma subida bem pior do que ela realmente é. Quando chegamos ao topo, até me perguntei: “já acabou?”. Escolhemos um ponto com uma vista incrível e fizemos o último café da viagem, com direito a sequilho para acompanhar.

Os prazeres da descida

Redescobrindo os prazeres da descida na Serra da Beleza.

Encaramos uma longa descida até Santa Isabel do Rio Preto, onde paramos num boteco para comprarmos água. O calor era tanto que acabamos pedindo também uma cerveja. Mal saímos do bar, o pneu da Renata furou e voltamos para trocá-lo.

O restante do caminho foi tranquilo, com poucas subidas, porém, o calor estava insuportável e bateu um pouco de moleza. Fui acompanhando a Fê, que teve uma leve queda de pressão. Em Nossa Senhora do Amparo, mais uma parada rápida para água e isotônico e seguimos para os últimos quilômetros.

Quanto mais perto da cidade, maior a falta de respeito por parte dos motoristas. Tomamos algumas finas, mas, por sorte, não aconteceu nada grave. O desafio final era a ladeira para chegar à casa dos pais da Vivi, que está dividida em três estágios: inclinada, pqp e a subidinha final, que seria ok se não viesse depois da pior parte. Todo mundo empurrou.

Um brinde!

Um brinde para comemorar esses dias fantásticos.

Fomos muito bem recepcionadas pela mãe da Vivi, com uma mesa farta (ela fez moqueca de jaca verde para mim), e pelo Artur, que levou Bauzeras para brindarmos. O restante do dia foi de comilança, piscina e pernas para o ar.

Quando a Vivi fez o convite, eu tinha certeza de que essa viagem seria bem legal. Só não tinha ideia de que seria ainda mais incrível do que eu imaginei. Estradas lindas, companhias especiais, subidas e mais subidas. Fez um danado para a alma!

Quilometragem e altimetria

Dia 1 – São João Del Rei a Madre de Deus de Minas: 59,2km; 994m acumulados
Dia 2 – Madre de Deus de Minas a Bom Jardim de Minas: 91,9km; 1.648m acumulados
Dia 3 – Bom Jardim de Minas a Conservatória: 75,6km; 863m acumulados
Dia 4 – Dia da virada
Dia 5 – Conservatória a Volta Redonda: 65,4km; 828m acumulados

Tem mais fotos e uns vídeos engraçadinhos aqui.

Minha primeira cicloviagem solo

De Itanhandu para Resende

Em abril de 2015, decidi que iria fazer uma viagem de bicicleta sozinha num final de semana. Abri o Google Maps e o Ride with GPS e fui olhando estradas e pensando nas possibilidades. Para facilitar a logística, escolhi cidades com boas opções de ônibus de e para São Paulo como pontos de partida e de chegada. E, entre elas, optei pelas estradas menos movimentadas.

Por vários motivos, a viagem aconteceu apenas em maio de 2016. O dia amanheceu chuvoso e foi assim até minha chegada a Itanhandu. Enquanto pegava água na vendinha da rodoviária, a chuva foi diminuindo e parou de vez assim que comecei a pedalar. Um bom sinal!

De Itanhandu a Alagoa

De Itanhandu para Resende

Peguei um trechinho da Estrada Real que liga Itanhandu a Itamonte e foram 10 km de bastante lama. A estrada estava escorregadia em algumas partes e fui com cautela, principalmente, nas descidas.

A estrada de Itamonte para Alagoa faz parte do Caminho dos Anjos com uma longa subida de 20 km. Como eu sabia o que me aguardava a partir dali, aproveitei para comer um pouco num boteco na cidade.

Nessa saída de Itamonte, já num bairro mais afastado, uma senhora abanou a mão para mim super animada e gritou: "vamos chegar prum cafezim". Por essas e outras que amo viajar por Minas.

De Itanhandu para Resende

A primeira parte da subida é asfaltada e foi bem mais tranquila de pedalar do que no Carnaval graças ao tempo ameno e às marchas mais leves. Parei no mesmo boteco da outra viagem para comprar água antes de encarar o segundo trecho, que é de paralelepípedos e mais íngreme.

De Itanhandu para Resende

Fiquei bem feliz por chegar ao topo sem sinal de chuva. Para descer, escolhi o caminho à esquerda e fui por dentro do Parque Estadual Serra do Papagaio. A estrada é bem bonita, porém, como iria escurecer logo, não parei para tirar fotos.

Pouco antes de encontrar o asfalto novamente, há uma bifurcação e fui pelo caminho da esquerda, pois queria passar em frente à Pousada Casarão (minha primeira opção de hospedagem quando estava planejando o roteiro). Os últimos 10 km foram no asfalto e sem iluminação.

Em Alagoa, fui direto para a Pousada Flores da Mantiqueira, onde a Guela me esperava. Infelizmente, o restaurante do Gustavo estava fechado, mas ela encomendou meu jantar enquanto eu tomava banho. Um senhor que estava na pousada me reconheceu da estrada. Ele passou de moto e me cumprimentou perto da outra pousada.

De Alagoa a Penedo

Enrolei um pouquinho na cama quentinha e saí às 8h30 da pousada depois de um bom café. O começou foi tranquilo e as primeiras subidas foram suaves, com muitas árvores sombreando o caminho e o barulho constante de água.

De Itanhandu para Resende

No meio da primeira subida mais longa, fiquei pensando se poderia ser a primeira serra do dia, mas depois não tive a menor dúvida quando ela realmente começou. Na descida, fui ultrapassada por uma caminhonete que encontrei logo depois parada em frente a uma casa. Conversei um pouco com dois senhores e segui.

A descida ficou pior: mais íngreme, esburacada e com pedras soltas. Levei um tombo besta por estar devagar demais e não conseguir desclipar a tempo. Nada grave.

De Itanhandu para Resende

Em Santo Antônio do Rio Grande, parei num mercadinho para comer e beber algo. Esse distrito de Bocaina de Minas é uma graça e depois descobri que há muitas cachoeiras legais por ali, então, vale a pena voltar.

São apenas 10 km até Mirantão, outro distrito de Bocaina de Minas. Só que tem uma serrinha no meio do caminho. Parei num trailer de lanches para tomar uma coca e depois continuei rumo a Visconde de Mauá.

Esse trecho é predominantemente plano e com algumas descidas. A estrada vai margeando o Rio Preto e ao poucos surgem casas, sítios e pousadas pelo caminho. Pouco antes de começar o asfalto, as subidas recomeçaram com muitas pedras e buracos. Acho que alguns motoristas não gostaram muito de serem ultrapassados por mim nessa parte.

De Itanhandu para Resende

A terra acaba na estrada que liga Visconde de Mauá à Maringá. Há uma subidinha curta até Visconde de Mauá, depois são 3 km até o topo da Serra da Pedra Selada e, por fim, uma longa descida. Apesar da estrada ser linda, foi um pouco chato descer com os carros. Não há acostamento e nem sempre eles reduzem a velocidade ou tomam distância na hora da ultrapassagem.

Cheguei uma hora antes do que havia programado e fui direto para uma pousadinha já reservada. A noite terminou com pizza e cerveja.

De Penedo a Resende

De Itanhandu para Resende

Nem tudo são flores e, para voltar para São Paulo, tiver que encarar quase 13 km na Dutra para chegar à rodoviária de Resende. Deixei para comprar a passagem na hora e dancei, pois o primeiro ônibus já estava lotado.

Essa viagem é uma boa opção para um final de semana, seguindo direto para Resende para pegar o ônibus. Fiz em três dias, pois queria conhecer Penedo por causa da colonização finlandesa. Pena que não encontrei muita coisa além de lojinhas de souvenirs.

Bikepacking e rota

Como a altimetria é puxada, quis viajar leve. Dormi em pousadas e viajei apenas com uma roupa para pedalar, uma roupa de "civil", uma necessaire pequena e um par de chinelos. Ao invés de alforje, optei por acomodar minhas tralhas na bolsa Marimbondo, de bikepacking.

1º dia: 52,5 km com + 1.349m
2º dia: 78,7 km com + 1.716m

Itanhandu-Resende

A rota está disponível no Ride with GPS.

Superagui 2016

Superagui

Seis bicicletas, alforjes e um carrinho de bebê.

Quem me conhece sabe que não sou nem um pouco fã de praia, mas de vez em quando eu vou para acompanhar amigos. Desta vez, o destino foi a Ilha do Superagui e éramos três casais e um bebê de um ano em uma cicloviagem.

Fomos de carro de São Paulo até Cananeia, onde encontramos o pessoal e pegamos o primeiro barco até a Vila no Marujá na Ilha do Cardoso. Esse trecho leva cerca de uma hora. Por garantia, já deixamos a volta combinada.

A primeira parte do pedal foi bastante tranquila. Seguimos por 19 km pela praia com pouco vento contra. No “centrinho” da ilha, nos avisaram que a praia ia até o Bar das Mulheres e lá encontraríamos alguém para nos levar na segunda travessia de barco.

Superagui

Entre uma ilha e outra, travessia de barco.

A surpresa foi nos depararmos com um bar fechado e com jeito de abandonado. Descobrimos depois que ele abre apenas na temporada, ou seja, no verão. Aproveitamos para fazermos um lanchinho e depois fomos até uma das casas ali procurar alguém com barco, o que foi bem fácil. Negociamos a ida e a volta.

O último trecho era pela Praia Deserta, com 20 km de extensão. O vento contra aumentou um pouco e deixou o pedal um pouco mais chatinho. Aqui é uma questão de gosto e achei tedioso pedalar numa reta só. Ainda bem que era uma cicloviagem e as companhias animaram o caminho.

O primeiro dia de viagem terminou numa vila onde estão concentradas as pousadas, campings e restaurantes. A Tricia já havia feito nossa reserva, mas o lugar estava bem tranquilo por causa da baixa temporada.

No segundo dia, ficamos de bobeira por ali. Caminhamos, vimos golfinhos, comemos e descansamos.

Superagui

Rumo à Cananeia.

Com receio de perdermos os barcos, saímos cedo no terceiro dia. O tempo estava a nosso favor e, sem vento contra, chegamos adiantados ao primeiro ponto de encontro.

Outra parada para lanche no Bar das Mulheres e descobrimos um jacaré ali perto. Ainda bem que ele estava quietinho tomando sol e nem ligou para nós.

O pedal seguiu tranquilo pelos quilômetros restantes e chegamos quase duas horas antes do previsto. Esperamos num dos bares da Ilha do Cardoso, comendo besteiras e brindando à viagem.

Quando estava pesquisando o roteiro, descobri que existe uma rota de cicloturismo que passa por ali. Para quem tiver interesse, aqui estão os links:

Circuito Lagamar
Cananeia-Superagu

Outra dica é que viajar em maio foi uma boa escolha, pois não estava tão calor e as pousadas não estavam cheias.

Patagônia 2015

Patagônia 2015

Nos arredores de Bariloche.

A escolha do segundo destino de férias em 2015 coube ao Artur e não fiquei surpresa quando ele definiu: “vamos para a Patagônia”. Além de uma viagem de bicicleta, o roteiro incluía visitar a família hermana que ele conheceu quando cicloviajou de Santiago a Ushuaia em 2012.

A Felicitas foi nos buscar no aeroporto em Bariloche e fizemos uma surpresa para o Careca, que não fazia ideia da nossa chegada. Antes de partirmos para o Chile, tivemos um dia de descanso e os amigos aproveitaram para colocar um pouco do papo em dia. 

Paso Cardenal Samoré

Com o tempo contado, fomos de ônibus de Bariloche para Puerto Varas para iniciarmos o pedal. A viagem demorada foi compensada pelas belezas do caminho. Primeiro, passamos por uma parte da Rota dos Sete Lagos e depois seguimos para o Paso Cardenal Antonio Samoré. Ao longo da estrada ainda havia bastante neve e ficamos pensando em como seria pedalar por ali.

Puerto Varas – Ensenada (45 km)

Patagônia 2015

Ciclovia ligando Puerto Varas a Ensenada.

O primeiro dia de pedal foi bastante tranquilo: pedalamos por uma ciclovia que liga Puerto Varas a Ensenada e pudemos admirar o vulcão Osorno por praticamente todo o caminho. Chegamos cedo ao nosso destino e nos instalamos no camping Montaña.

A cidade não oferece muitas opções e parte do comércio ainda estava fechada porque a temporada não havia começado. Nesse camping, por exemplo, há um restaurante que só funciona durante o mês de janeiro.

Passamos o resto do dia admirando o vulcão Osorno na beira do Lago Llanquihue e tirando fotos. Preparamos o jantar e, em homenagem ao Tux e ao Davi, que fizeram a primeira parte da viagem com o Artur em 2012, tomamos vinho de caixinha tetra-pak. Um vinho da casa “melhorado”.

Ensenada – Puelo (79 km)

Patagônia 2015

Tchau, Osorno!

Aos poucos, deixamos o Osorno para trás, mas fomos acompanhados por outros picos nevados por um bom trecho. Havia muita água cristalina por todo o caminho, incluindo o Rio Petrohué. 

O almoço foi em Cochamó e, pela primeira vez, estive num restaurante onde não se serve água. A cidade não tem muita estrutura, mas a região é linda e atrai pessoas interessadas em caminhadas. Há alguns roteiros bem legais de trekking por ali e óbvio que eles estão na minha infindável lista de “quero fazer/quero voltar”.

Patagônia 2015

Olá rípio!

A partir de Cochamó, demos adeus ao asfalto e olá ao rípio. Logo na saída, encaramos um trecho com pedras maiores e muito sobe e desce. Embora não fossem longas e tampouco íngremes, as subidas eram frequentes e estávamos cansados quando encerramos o dia. 

Como era de se esperar, Puelo é uma vila pequena. Porém, teve algumas boas surpresas como um hostel novinho, limpo e ajeitado, um mercadinho bacana e wifi gratuito na praça (hehe). 

Puelo – Hornopiren (92 km)

Este foi o tramo mais longo da viagem. O começo foi no asfalto, com uma vista incrível para picos nevados, mas logo vieram o rípio e um sobe e desce pior do que o do dia anterior. As subidas e descidas eram mais íngremes do que na véspera e mais frequentes também.

Patagônia 2015

Entre Puelo e Contao.

Fizemos uma pausa para comer antes de chegarmos a Contao e vi, pela primeira vez, um leão marinho. 

Quando chegamos à vila, compramos água e mais algumas comidinhas antes de continuarmos. Nesse recomeço, encaramos uma subida chatinha e bateu uma preguicinha, mas tínhamos chegado cedo em Contao e achamos que não valia a pena pernoitar ali. De qualquer forma, o pedal rendeu, pois havia um trecho de asfalto no nosso caminho, já que a Carretera está sendo asfaltada aos poucos.

Patagônia 2015

A vista da chegada a Hornopirén encanta.

Na chegada a Hornopiren, passamos pela casa de um casal que nos havia oferecido carona mais cedo. O preço do camping era bom, mas optamos por ficar numa parte mais central. Acabamos hospedados em um hotel bem legal, com bom preço.

Depois de nos instalarmos, fomos atrás das passagens das balsas para Caleta Gonzalo (companhia Transportes Austral). É preciso ficar atento ainda às datas das balsas, pois, dependendo da época, ela não funciona diariamente.

Chegamos pouco antes do horário de fechamento do escritório e levei um tremendo susto quando a moça disse que não tinha mais lugar para embarcarmos no dia seguinte. Por sorte, o responsável pelo lugar apareceu nesse momento e falou: “eles estão de bicicleta. Pode vender as passagens.” Não havia espaço era para automóveis. 

Hornopiren – Caleta Gonzalo

A primeira providência do dia foi buscar as passagens, que ainda não haviam sido pagas. A atendente já tinha encerrado o caixa quando fomos comprá-las na véspera e, por isso, as deixou apenas reservadas.

Antes de embarcarmos, passamos numa vendinha para comprarmos mais comida e aproveitamos para pegar um vinho. Taí algo interessante no Chile, mesmo em mercadinhos safados, dá para encontrar bons vinhos.

Patagônia 2015

Prendendo as bicicletas no caminhão.

Conhecemos um casal do País Basco que estava começando a viagem pela Carretera. Juntos, combinamos com um caminhoneiro para fazer o transporte das nossas bicicletas num trecho de 10km entre Leptepú e Fiordo Largo, enquanto nós seguiríamos em uma van. O pessoal da empresa de transporte pede para que isso seja feito para não haver atraso na partida da segunda balsa.

A estrada não era ruim como falaram e constatamos que chegaríamos a tempo com as bicicletas. Só que teria sido horrível pedalar com a poeira absurda levantada pelos carros e caminhões passando em comboio.

Patagônia 2015

Duas balsas ligam Hornopirén a Caleta Gonzalo.

A segunda balsa é rápida e em cerca de 20 minutos estávamos em Caleta Gonzalo, dentro do Parque Pumalín.

Esse parque foi criado pelo fundador da empresa The North Face, Douglas Tompkins. Depois de uma viagem à região, ele se apaixonou pela Patagônia, começou a comprar terras por ali e criou áreas de preservação. 

Em Caleta Gonzalo há um café, um centro de informações, cabanas e um camping. O centro de informações estava fechado, pois a temporada ainda não havia começado. E essa foi a mesma explicação dada pelo guarda-parque Jorge para não termos encontrado ninguém responsável pelo camping. Simpático, ele disse para aproveitarmos. 

Patagônia 2015

Camping no Parque Pumalín.

A primeira providência foi tomarmos um banho de pia, pois não há chuveiros ali. O restante do dia foi bem tranquilo. Montamos a barraca, organizamos as tralhas, jantamos e ficamos conversando e tomando vinho até o sono chegar.

Caleta Gonzalo – Chaitén (56 km)

Apesar de muitas subidas, a estrada estava ok no começo. Mas é claro que o rípio piorou depois, com bastante cascalho e pedras grandes. 

Patagônia 2015

Estrada que corta o Parque Pumalín.

Cruzar o parque por essa estrada foi incrível. Primeiro, há um trecho de vegetação mais fechada e depois vimos muitas árvores mortas. Deduzimos que era consequência da última erupção do vulcão Chaitén em 2008.

Patagônia 2015

Muita água pelo caminho.

Alguém pelo caminho nos contou que há pouco tempo ocorreu uma enchente por ali e talvez isso explique algumas árvores arrancadas pelas raízes que vimos nas laterais da estrada, além de um pouco de erosão.

Já próximo à cidade, começa um trecho de asfalto que serve como estrada e como pista de pouso. A vista ao chegar à cidade é bem bonita.

Chaitén está retomando as atividades, porém, ainda tem jeito de cidade abandonada em alguns pontos. Tentamos hospedagem num hostel, mas não havia sinal de vida. Por fim, fomos parar numa cabaña com a regalia de uma cozinha e um “vizinho” brasileiro, o Baki, que estava indo de Curitiba para o Ushuaia de moto. 

Chaitén – Villa Santa Lucia

O tempo amanheceu feio e decidimos tentar uma carona. Um casal nos deixou em El Amarillo, uma vila junto ao parque de mesmo nome e continuação do Parque Pumalín. Ali, havia sido recém-inaugurado um mercado bastante ajeitado, com alimentos, artesanato, roupas e diversos equipamentos para camping. Entrei para comprar café, mas nem precisei: a bebida era cortesia. 

Enquanto tentávamos a segunda carona, reencontramos nosso conterrâneo Baki, que teve um contratempo com a moto e voltava para Chaitén. Vimos também um casal de alemães que estava nas balsas conosco e viajava em uma linda Toyota Land Cruiser com um camper. O Artur se apaixonou!

Nossa carona até Villa Santa Lucia foi um rapaz e sua fofíssima mãe. Ela me convidou várias vezes para visitá-la em La Junta e repetia: “A señora o señorita no lo se.”

A estrada estava em obras e alguns trechos estavam bem ruins para passar. Provavelmente, logo virá o asfalto por aqui também. 

Patagônia 2015

Villa Santa Lucia.

Ao desembarcarmos, encontramos alguns cicloturistas subindo a Carretera Austral. Um casal de franceses, um outro francês que eles conheceram no caminho e que começou a viagem no Rio de Janeiro e um inglês com muitas histórias para contar. Era sua terceira viagem pela Patagônia, além de já ter pedalado na África e percorrido a Transamazônica.

O Artur se apaixonou pela bicicleta do inglês Justin, uma George Longstaff feita sob medida e que o acompanha há 15 anos pelas estradas do mundo.

Villa Santa Lucia – Futaleufu (79,8 km)

Estava apreensiva com esse trecho devido à altimetria mais puxada. Porém, o pedal foi bem mais tranquilo do que imaginei. Encaramos tempo nublado, mas sem chuva e pudemos admirar bem o caminho, repleto de montanhas ainda com neve.

Patagônia 2015

Lago Yelcho.

Próximo ao lago Yelcho, um cachorro saiu correndo de sua casa e nos acompanhou por cerca de 10 km. Por sorte, paramos numa casa onde as moradoras conheciam seus donos e se comprometeram a devolvê-lo.

Apesar de pequena, Futalefeu é ajeitada. Chegamos num domingo e praticamente todo o comércio estava fechado, claro. A salvação para os ciclistas esfomeados foi um centro comunitário onde acontecia uma feirinha de artesanato.

O Artur comeu duas fatias de um delicioso tiramissu e eu experimentei o mote com huesillos. No Equador, mote é um tipo de milho muito saboroso, mas, em território chileno, é trigo. Tomei a bebida bem gelada e achei gostosa a princípio, só que ela é tão doce que se tornou enjoativa.

Conversando com a senhora que nos vendeu as bebidas e doces, descobrimos que há muitos brasileiros morando em Futalefeu e, por pouco, não cruzamos com um deles.

A cidade possui muitas opções de hospedagem que só funcionam na temporada. E novembro definitivamente não se encaixa nesse período. Para nossa última noite no Chile, nos hospedamos no hotel Antigua Casona e jantamos na Hosteria Rio Grande. Era tanta comida, que nem dei conta.

Futaleufú – Trevelín (50 km)

Tivemos a manhã mais preguiçosa da viagem e também o melhor café da manhã. O dono do hotel, um italiano que há dois anos trocou Milão por Futaleufú, preparou uma mesa farta e ainda nos deu lanchinhos para a viagem.

Patagônia 2015

Minha primeira fronteira de bicicleta.

Os 10 km até a fronteira foram fáceis: asfalto e descida. E a entrada na Argentina foi ainda mais tranquila do que a saída do Chile. O cara que carimbou nossos passaportes até arriscou um pouco de português e o responsável pela aduana apenas perguntou se as bicicletas eram nossas e nos liberou.

O restante do caminho foi ruim por causa das costelas de vaca. E os últimos 7 km foram piores do que os 33 km anteriores. Não bastasse a estrada piorar, o vento contra apareceu, afinal, tínhamos entrado na Patagônia Argentina.

Trevelín é uma cidade bem fofa de colonização gaulesa e famosa pelas casas de chá. Até queríamos experimentar a cerimônia do chá, mas achamos caro (200 pesos por pessoa) e não queríamos nos entupir de doces. Acabamos jantando numa pizzaria mesmo.

Trevelín – Los Alerces (74 km)

Antes de partir, fomos ao mercado e à padaria abastecer nosso estoque de comida. Infelizmente, não encontrei nenhuma opção de empanada vegetariana.

Patagônia 2015

Chegamos e não havia ninguém na portaria.

Os 35 km até Futalaufquen são asfaltados e, apesar de quatro subidas puxadas bem na sequência, esse trecho rendeu. Fomos até o centro de visitantes do Parque Los Alerces onde conseguimos um mapa com indicações de hospedagem pelo caminho.

Seguimos até o Lago Verde, onde há um camping recém-inaugurado que custava 150 pesos. Só que a mulher que nos deu o preço não tinha mais nenhuma informação sobre a estadia. A outra opção de hospedagem ali era um resort, mas isso estava fora de cogitação. Decidimos voltar e ficamos no camping do Rio Arrayanes, um pouco mais em conta (120 pesos) e com boa estrutura – banho quente, banheiros limpos e uma lojinha de conveniência com comida e itens básicos.

Encerramos o dia de pedal com um jantar caprichado e cervejas artesanais geladas no rio próximo a onde montamos a barraca.

Los Alerces – Cholila (51 km)

Arrumamos tudo e deixamos as bicicletas na entrada do camping para podermos fazer a caminhada do Alerce Solitário e até o mirante para um glaciar. Seguimos a dica de atalho da moça do camping e levamos duas horas e 20 minutos para irmos e voltarmos incluindo o tempo para tirarmos muitas fotos da paisagem incrível.

Patagônia 2015

Em busca do Alerce Solitário.

O pedal até Cholila foi cansativo. Pedras, subidas e calor! Não estava mais acostumada a pedalar com 30˚C. Gostei bastante de conhecer o Parque Los Alerces e, com certeza, é um lugar para voltar e fazer mais caminhadas. 

Este foi o dia de encontrarmos ciclistas seguindo para o sul. Foram dois casais (dois americanos e um sul-africano e uma americana) e um trio não sei de onde. O rapaz sul-africano quis saber se estávamos achando a Argentina muito cara, pois estava inconformado com os preços cobrados.

Patagônia 2015

Uma ótima surpresa em Cholila.

Em Cholila, ficamos no hostel Piuke Mapu. Laura, a dona, é professora de apicultura e seu marido, Dario, escalador e guia de montanha. Eles fazem um trabalho de sustentabilidade com separação do lixo, banheiro seco e “bicimáquinas”, bicicletas feitas por um mexicano que passou por ali e que substituem eletrodomésticos. Há uma bicibomba para bombear água, uma bicimolino para moer grãos e uma bicilicuadora para preparar sucos e vitaminas com vista para as montanhas ao redor da cidade. A bici para lavar roupas foi doada a uma senhora.

Conversamos bastante com o Dario que nos contou sobre o trabalho que tenta realizar com os adolescentes de Cholila. Segundo ele, a população está dividida entre os donos da terra e as pessoas que trabalham para eles. A ideia é dar treinamento aos jovens para que eles possam sair desse esquema e atuarem como guias de turismo. Nossa primeira impressão é de que não havia muito o que conhecer por ali, porém, o Dario nos mostrou que estávamos bastante enganados.

Ele também nos contou a história de Butch Cassidy, o ladrão de bancos que fugiu dos Estados Unidos e se escondeu em Cholila. O policial que deveria prendê-lo chegou à cidade e o encanto foi tanto que comprou terras por ali e mandou avisar que não voltava mais. Butch fugiu para a Bolívia, onde, ao que parece, morreu. Ficamos sabendo dessa história porque Dario produz a cerveja Butch Cassidy e vimos algumas garrafas. Infelizmente, não havia nenhuma em estoque para provarmos.

Jantamos no restaurante/café Rai Mapu, indicado pelo Dario e pela Laura. É um espaço alternativo, meio hippie e bastante politizado. Aproveitamos para experimentar a cerveja Ruta 40, também recomendada pelo nosso anfitrião.

Cholila – El Bolsón (77 km)

O último dia pedalado começou com subidas e essa foi a parte fácil. Logo veio o famoso vento contra patagônico que faz o pedal não render e te tira da estrada com uma facilidade assustadora. 

Seguimos assim até Epuyén, onde paramos numa vendinha da estrada para fazermos um lanchinho. O Artur comprou um salame e eu peguei uma garrafinha de suco de mirtilo. Divino!

Antes de voltarmos para a estrada, ficamos conversando com o dono do lugar, o simpático senhor Roberto. Depois de passar a vida toda em Buenos Aires, ele se aposentou, foi a Epuyén visitar alguns amigos e não saiu mais de lá. Ex-fumante, ele nos disse com lágrimas nos olhos sobre um ataque cardíaco que sofreu: “Eu morri e nasci de novo”. Hoje, ele vive uma vida mais simples e uma de suas maiores alegrias é o contato com os viajantes que param em sua venda ao passar pela Ruta 40.

Nossa segunda trégua do vento foi em uma sorveteria em Hoyo, onde dei continuidade à degustação iniciada em Trevelín. O sorvete de morango frescos da região foi, sem dúvida, o melhor de toda essa viagem. E olha que vieram outros mais famosos depois.

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Enfim, El Bolsón.

Chegando em El Bolsón, fomos abordados pelo dono de um hostel, que nos ofereceu um quarto privativo por preço de camping. Ele e sua esposa queriam porque queriam que ficássemos mais tempo ali e foram nos perguntando sobre o roteiro e o que tínhamos achado da viagem.

Encerramos o dia com um menu degustação de cervejas em um restaurante tradicional indicado pelo dono do hostel. A cerveja de framboesa era incrível!

El Bolsón – Bariloche

Decidimos voltar de ônibus para Bariloche porque há muitos caminhões na estrada e não queríamos encerrar a viagem assim. A parte ruim é ter que pagar uma grana para os motoristas ao embarcar as bicicletas. Eles falam que é taxa da companhia, porém, isso é lorota.

Fomos pedalando da rodoviária até a casa da família hermana e todos ficaram muito felizes com nossa chegada antecipada.

Patagônia 2015

¡Que fiaca!

Os dias seguintes em Bariloche foram bem legais. Conhecemos alguns vizinhos, compramos verduras orgânicas, acompanhamos o Careca quando ele foi vender pão. Até tentei aprender a fazer pão com ele, mas me perdi nas medidas: um pouquinho de fermento, joga umas colheradas de açúcar, vai colocando a farinha, esse tanto de água, sal, sementes e voilá!

Ainda assim, passei bastante tempo na cozinha. Fiz temaki, quibe de batatas com verduras e esfihas, que foram carinhosamente chamadas de “empanadas árabes”. Depois desse dia, definitivamente, quero um forno de barro. As esfihas foram assadas em poucos minutos e ficaram deliciosas!

San Martín de los Andes

Continuando com as visitas, fomos para San Martín de los Andes visitar o Ingo, que trocou a Alemanha pela Argentina, conheceu o Artur e o Davi na viagem de 2012 e que eu já havia encontrado quando ele fez uma escala em São Paulo em 2013.

Embora também seja uma cidade turística, San Martín não tem o mesmo apelo de Bariloche, que tende para um turismo de consumo. Isso já foi suficiente para me encantar muito mais.

Fomos conhecer o Museu La Pastera, um antigo armazém de feno para animais onde Che Guevara passou algumas noites durante a viagem de motocicleta que fez pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado. Depois, ficamos andando pela cidade, até a hora de encontrarmos o Ingo novamente. Voltamos no dia seguinte para Bariloche.

Patagônia 2015

A família hermana.

Antes de voltarmos ao Brasil, ainda fomos conhecer um pouco mais de Bariloche. Acompanhados da Sarita, fomos com o Careca conhecer a Colonia Suiza e a região onde fica o Hotel Llao Llao.

Eu já tinha ouvido isso antes e é impossível não concordar: a Patagônia é apaixonante! E olha que visitei só um pedacinho. Com tantas opções para conhecer e explorar, 20 dias servem apenas para deixar um gostinho de quero mais.

Para quem quiser ver mais fotos, clique aqui.

Minas Outback

Minas Outback - ago 2015

Mulheres cicloviajantes na serra velha de Campos do Jordão.

Uma cicloviagem só de mulheres! A ideia surgiu quando, conversando com o Artur e o Tux, sobre um pedal pela Mantiqueira, foi usado o termo Minas Outback. Era uma referência ao estado de Minas Gerais e à ideia do Oregon Outback, mas adotei o termo com outro objetivo.

Minas Outback - ago 2015

Mantiqueira é sempre uma boa escolha.

Planejei um roteiro e chamei algumas meninas que sei que gostam de cicloviajar. Como foi a primeira vez que organizei algo assim, preferi chamar pouca gente. No começo, achava que seríamos apenas a Gabi e eu, mas, aos poucos, algumas mulheres foram topando e chamando outras.

Para não corrermos o risco de perder o ônibus, a Nataly sugeriu invertermos a rota. Essa mudança deixou o pedal mais tranquilo, ficamos folgadas em relação aos horários no domingo e ainda ganhamos uma horinha de sono.

Minas Outback - ago2015

Campos do Jordão – Monteiro Lobato – São Francisco Xavier – Caçapava.

No sábado, conseguimos embarcar as dez bicicletas e os alforjes sem qualquer problema e partimos às 6h para Campos do Jordão. Tomamos café da manhã perto da rodoviária e “chocamos” os atendentes do lugar pelo tanto que comemos (e olha que nem foi tanto assim).

O pedal começou gelado com a descida da serra velha. Foi uma delícia passar de novo por ali e lembrar da minha primeira cicloviagem.

Ao chegarmos à bifurcação para Santo Antônio do Pinhal, tivemos o primeiro e único problema mecânico da viagem. O câmbio dianteiro da Nataly não funcionava mais. Tentamos arrumar, mas a questão era o cabo e não tínhamos reserva. Por sorte, a corrente estava na coroa menor.

Minas Outback - ago 2015

Meu restaurante favorito em Monteiro Lobato.

Em Monteiro Lobato, almoçamos no restaurante Resgate Caipira. Chegamos no finalzinho do almoço, mas ainda tinha comida suficiente para as ciclistas esfomeadas. Subimos a serrinha para São Francisco Xavier com luz do dia, mas a descida foi apenas com as luzes dos faróis.

A hospedagem foi na Pousada Canto dos Pássaros, um pouco antes da entrada de São Francisco. Já havia ficado lá durante outra cicloviagem de fim de semana. O lugar é uma delícia e o atendimento muito simpático. Como tínhamos bastante comida nos alforjes, desencanamos de jantar em algum restaurante e aproveitamos a cozinha comunitária para compartilharmos as guloseimas, os vinhos e cervejas (de pinhão e avelã!).

Estrada do Livro

A manhã começou devagar. Tomamos café da manhã com calma e saímos às 10h da pousada. Pedalamos tranquilamente e logo estávamos em Monteiro Lobato de novo.

Como teríamos que encarar duas serrinhas em uma estrada sem abastecimento, sugeri almoçarmos no mesmo restaurante do dia anterior. Aqui o grupo se dividiu, pois algumas meninas disseram que ainda estavam cheias do café e decidiram seguir pedalando.

A Estrada do Livro também é chamada de Estrada Velha pelos moradores da região. O percurso é lindo, com duas serrinhas curtas e íngremes. Entre uma e outra, fica um dos sítios do Pica-pau Amarelo. Segundo nos contaram, esse é onde Monteiro Lobato morava.

Paramos para uma foto em frente à placa e reencontramos as meninas que optaram por não almoçar. A Vivi e eu ficamos doidas por um café e fomos perguntar se tinha ali. Num tom bastante mal educado, a dona disse: “são dez reais para visitar o sítio e servimos almoço apenas com reserva. Não temos café”. Então tá, não voltamos mais.

Minas Outback - ago 2015

Reagrupando.

De volta à estrada, encaramos o trecho de terra e pedrinhas, que, no sentido Caçapava, é uma subidinha de 3km. Cada uma subia no seu ritmo e, em determinado ponto, parávamos para reagrupar, sem deixar ninguém para trás.

Ao planejar a rota, esqueci de descontar os quilômetros de ida e volta entre São Francisco Xavier e a pousada, por isso, o pedal do dia foi mais curto do que achei que seria. Chegamos a tempo de trocar as passagens para um horário mais cedo e ainda deu para brindarmos à cicloviagem com cervejas no boteco da rodoviária.

Foi uma experiência e tanto! Era uma viagem em grupo, mas havia autossuficiência, pois cada uma era responsável por suas passagens, hospedagem, lanchinhos.

Alguns conhecidos não tinham muita certeza sobre esse pedal. Vai dar certo? Vai ter quórum? No fim, deu certíssimo e foi só o primeiro. Se alguma mulher está na dúvida sobre fazer uma cicloviagem, espero que este evento seja um incentivo. Sozinha ou com amigas, simplesmente vá.

Carnaval na Mantiqueira

CicloMantiqueira

Serra do Ministério, entre Virgínia e Maria da Fé.

Os últimos meses foram tão corridos, que estava difícil até mesmo sairmos de São Paulo. Porém, queríamos aproveitar o feriado de Carnaval e nada melhor do que fazer uma cicloviagem.

Usando um guia do Guilherme Cavallari, o Artur montou um roteiro surpresa por estradinhas de terra da Mantiqueira e só fiquei sabendo para onde iríamos na quarta-feira antes do feriado. Arrumamos tudo na sexta-feira à noite e, sábado cedinho, partimos de ônibus para Itajubá.

Itajubá – Marmelópolis

Depois de comermos um lanche numa padaria perto da rodoviária, começamos o pedal em frente à antiga estação ferroviária da cidade. Passamos por uma área militar, por bairros já com estrada de terra e foram alguns quilômetros até entrarmos na zona rural.

CicloMantiqueira

Delícia de estrada!

Como esperado, a paisagem era linda por todo o caminho. Passamos por trechos com muitas árvores, o que tornava a temperatura mais agradável para pedalar, e o barulhinho de água nos acompanhou durante quase toda a viagem.

Ao cruzarmos com um carro com suporte para bike, a motorista nos perguntou se tínhamos visto um ciclista pelo caminho. “Deixei meu marido em Taubaté e fiquei de encontrá-lo por aqui, mas acho que ele se atrasou.” Não demorou muito e ela passou por nós de novo com o marido resgatado. Muito simpáticos, disseram para pararmos na casa onde estavam. “Vocês verão o carro estacionado na frente.” Paramos para dar um oi para a Amanda e o Pedro e logo seguimos adiante, pois ainda tínhamos muitas subidas pela frente.

Estava meio tarde para almoçarmos em Delfim Moreira, então, optei por um açaí, enquanto o Artur comeu um salgadinho meio tranqueira. Saindo da cidade, passamos em frente à cervejaria Kraemerfass e, embora esteja nos nossos planos conhecê-la, não foi dessa vez.

Para chegarmos à Marmelópolis, encaramos a Serra da Goiabeira, que era de terra na época em que o guia foi editado. O asfalto está bom em quase todos os trechos e a descida é bem gostosa. Ao chegarmos à cidade, fomos parar na pousada Bella Vista, onde encontramos quatro ciclistas de Itajubá que estavam fazendo o mesmo trajeto.

Tomamos banho, jantamos num restaurante simples e de comida farta próximo à Praça Cica e fomos dormir cedo.

Marmelópolis – Itanhandu

O despertador tocou cedo, mas dormimos uma hora a mais. Nos deliciamos com as lichias do café da manhã e acabamos saindo por volta das 10h.

CicloMantiqueira

Subidinha.

Logo no começo, encaramos muitas subidas e várias delas com pedras soltas. Havia muitas fazendas e o roteiro seguiu por estradinhas estreitas e bonitas. Passamos ao lado do campinho do Itaguaré, onde começa a subida para o Pico do Itaguaré, e aproveitamos para fazer um lanche por ali.

CicloMantiqueira

Vista da Serra Fina.

Para chegarmos a Passa Quatro, encaramos uma longa subida, seguida de uma longa descida com vista para a Serra Fina. Paramos algumas vezes para tirar fotos e achei alguns morangos silvestres que estavam deliciosos. Pena que eram poucos.

Passa Quatro é uma cidade fofa e estava toda enfeitada para o Carnaval. Fizemos a boa opção de almoçar na fornaria Antônio. Enquanto comíamos, chegaram os ciclistas que conhecemos em Marmelópolis: Deise, Egg, Denis e Cidy.

Com as barrigas cheias, papeamos um pouco, tiramos fotos e voltamos à estrada. Por questões de hospedagem, eles seguiram para Itamonte e nós paramos em Itanhandu. Esses foram os 10 km mais fáceis e sem graça de toda a viagem.

O Carnaval estava animado em Itanhandu e vimos várias pessoas fantasiadas. As mais marcantes foram o quinteto de Power Rangers e o He-man. Pena que não tirei fotos. Jantamos pizza e voltamos logo para o hotel.

Itanhandu – Virgínia

As rosquinhas de coco do café da manhã estavam incríveis. Comemos todas! Choveu bastante na noite anterior e as estradas estavam com bastante lama. Passamos por várias fazendas e vimos muito gado. Também cruzamos com alguns ciclistas que seguiam na direção de Itanhandu.

CicloMantiqueira

E deu para ver o Pico dos Marins.

Nos outros dias, passamos por trechos do Caminho de Aparecida e da Estrada Real e, neste terceiro dia, percorremos uma parte do Caminho dos Anjos. Também foi dia de avistarmos o Pico dos Marins.

Em seguida, veio a Serra do Palmital. Sem dúvida, foi a mais gostosa do caminho todo. Ela é bem estreita e com uma vista linda, claro! A descida também foi tranquila e chegamos em Virgínia no começo da tarde.

Depois de rodarmos a cidade, paramos num restaurante para almoçarmos. As opções eram “prato raso” e “prato fundo”. Pedi o primeiro, óbvio, e mesmo assim não dei conta da montanha de arroz e feijão que me foi servida.

Pensamos em nos hospedar no Hotel Fazenda Vale da Mantiqueira, pois seria caminho no dia seguinte. Liguei para perguntar se havia vaga e desisti quando a atendente me informou que o gerente tinha autorizado o desmembramento do pacote, porém, a diária teria o mesmo custo do pacote completo: R$ 1.050. Não, obrigada!

Fomos para a outra hospedagem da cidade, a Pousada 13 Lagos, que fica na estrada para Pouso Alto, e havia sido recomendada pelos ciclistas de Itajubá, que já estavam por lá. O fim de tarde e o começo da noite foram divertidíssimos, com muita conversa, risadas e algumas latas de cerveja.

Estávamos preparados para acampar por ali, porém, houve uma desistência de última hora e conseguimos um chalé para passarmos a noite. Fizemos nosso jantar para tirar um pouco de peso da bagagem, comemos e fomos dormir.

Virgínia – Itajubá

Tomamos café da manhã no quarto porque o da pousada era muito tarde para os nossos planos. Organizamos tudo e, na hora de irmos embora, cadê o senhor Mauro para acertar nossa conta? Ele tinha ido buscar pão na cidade para o café e, por causa da espera, saímos cerca de 30 minutos depois do previsto.

Na entrada de Virgínia, mais um atraso: meu pneu traseiro furou. Na hora da troca, mais uma baixa: um raio quebrado. Sorte minha que a roda tem 36 raios e aguentou o tranco do último dia da viagem.

Depois do Hotel Fazenda, há algumas casas com lindos jardins. Os moradores foram muito simpáticos e, como íamos em direção à serra, uma senhora disse que somos corajosos.

CicloMantiqueira

Um pouco de névoa na Serra do Ministério.

Logo depois da igrejinha, começa a Serra do Ministério, com 8 km de subida. O tempo ajudou bastante nessa hora e havia até um pouco de névoa quando chegamos ao topo do morro.

Estávamos começando a descer, quando ouvimos uma buzina amigável. Era o Egg, da turma de Itajubá, dirigindo o carro de apoio. Ele encostou o carro por ali, pegou a bicicleta e foi encontrar o restante da turma na subida da serra.

Seguimos com cautela, eu principalmente, pois havia bastante lama e pedras nos 11 km de descida até Pintos Negreiros, distrito de Maria da Fé. O único bar que vimos por ali estava fechado, então fomos ao mercado comprar pão e queijo para fazermos um lanche. O Artur não resistiu à peça de parmesão que estava na vitrine e o queijo foi parar no meu alforje. Foi uma releitura da brincadeira “o Tux carrega”.

Enquanto comíamos, o pessoal de Itajubá chegou. Eles também aproveitaram para comer algo; ficamos papeando e partimos juntos para a Serra do Pouso Frio, a segunda do dia. Esta serra é mais curta, com 5 km, porém, a subida é mais íngreme e como descreveu o Cavallari, “sem um centímetro de descanso”.

CicloMantiqueira

Denis trocou a aro 29 com suspensão pela garfo rígido com alforjes.

Apesar de algumas paradas, a subida rendeu. Fomos conversando bastante e, na metade do caminho, o Denis ficou curioso para pedalar minha bicicleta com alforjes. Fizemos a troca e, graças a ele, os últimos 2,5 km foram tranquilos para mim. Além de pedalar sem peso, o aro 29 e a suspensão deixaram a subida bem mais fácil.

Pouco depois, o Cidy e o Artur também inverteram as bikes. Dos trechos que percorremos da ciclomantiqueira, este foi o meu favorito. As paisagens lindas e as companhias divertidas somaram-se ao prazer de vencer as duas serras.

A descida até Maria da Fé foi marcada pela chuva gelada que caiu forte. Chegando ao posto de combustível indicado no guia, optamos por fazer o último trecho até Itajubá pelo asfalto. Foram longas descidas e algumas subidas, acompanhadas das lembranças de quando o Artur e eu pedalamos por ali na viagem para Aiuruoca.

Aceitamos o convite da Deise e dormimos uma noite em Itajubá. Fomos com ela, o Egg, Denis e sua esposa Mônica ao tradicional Bar da Maria saborear quitutes mineiros. Recomendo o pastel de milho com queijo.

Apesar do cansaço devido às poucas horas de sono (pegamos o primeiro ônibus para São Paulo, às 4:15), cheguei em São Paulo renovada. Paisagens lindíssimas, novos amigos, bicicletas e poder dividir tudo isso com o Artur são alguns dos motivos para que essa viagem tenha sido tão incrível.

Que venha logo a próxima! Para ler o relato do Artur, clique aqui.

Jalapão de bicicleta

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Nós, as bicicletas e a Serra do Espírito Santo. Foto: Artur Vieira.

Quando marquei as férias, decidi que queria cicloviajar e, em algum ponto, surgiu a ideia de irmos para o Jalapão.

Nós sabíamos que não seria fácil. O Artur, que já tinha ido duas vezes para lá, me perguntou algumas vezes se eu tinha certeza dessa viagem. Fui firme na decisão e parti tentando estar o mais aberta possível para perrengues. Só não imaginava que as surpresas viriam antes mesmo de começarmos a pedalar.

Fomos de carro para o Tocantins, passando pelo Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O caminho rendeu até um encontro rápido com um lobo-guará.

Xi, quebrou!

Xi, quebrou!

Quando estávamos quase chegando em Ponte Alta, nosso ponto de partida, o carro quebrou numa estrada de terra pouco movimentada. Tiramos as bicicletas da traseira e fomos atrás de ajuda. Nos dividimos e o Artur voltou para onde o carro estava, enquanto eu seguia o caminho para uma fazenda.

Cheguei molhada de chuva e expliquei a situação para os homens que almoçavam ali. Num ritmo completamente diferente de São Paulo, eles me ofereceram almoço, terminaram de comer e de jogar uma partida de dominó e só então se levantaram para seguir comigo até onde o carro quebrou.

Quando chegamos, o carro estava funcionando, pois um senhor já havia ajudado o Artur tirando ar dos bicos injetores. Agradecemos e seguimos viagem.

Em Ponte Alta, fomos à Pousada Planalto e negociamos para deixar o carro lá. Nosso plano era seguirmos para Novo Acordo, São Felix do Tocantins e Mateiros, retornando para Ponte Alta.

Partimos cedo no dia seguinte e minha bicicleta estava estranha. Foram apenas 2km pedalados, quando o Artur verificou que o movimento central estava solto. Voltamos para Ponte Alta, mas não deu para arrumar, pois uma rosca estava espanada. O jeito foi seguir para Palmas atrás da peça.

Rodamos 48km e o carro quebrou de novo. Tentamos abrir os bicos como havia sido feito na véspera e nada. A estrada também era pouco movimentada, os celulares não tinham sinal algum e demorou um bom tempo até um cara de moto parar e nos informar que havia um sítio ali perto de onde seria possível fazermos uma ligação.

Peguei a bicicleta mais uma vez e fui até lá. Depois de tentativas frustradas de ligar para um mecânico em Ponte Alta, um caminhoneiro que estava por lá apareceu com um cartão de uma autorizada da Bosch em Palmas e consegui chamar um guincho.

Ficamos uma hora e meia esperando sob um sol impiedoso. Chegando em Palmas, deixamos o carro numa oficina mecânica e fomos atrás de uma bicicletaria. O cara do guincho nos deu essa carona e, se não fosse a demora, teria ficado por lá para nos levar de volta à oficina depois.

Bicicleta arrumada, voltamos para a oficina e recebemos a notícia de que a bomba de óleo diesel havia quebrado, não dava para comprar essa peça em Palmas e o carro só ficaria pronto em dois dias.

Para não atrasarmos ainda mais a viagem, combinamos com o dono da oficina de deixarmos o carro lá para ser arrumado e buscá-lo só depois de pedalarmos o Jalapão. Tudo acertado, voltamos com o cara do guincho para Ponte Alta.

Dormimos outra noite na Pousada Planalto, mas ficamos aliviados porque não voltaríamos mais ali, pois não gostamos do jeito da dona.

Enfim, o Jalapão!

O dia começou com neblina, deixando a paisagem mais bonita e o clima um tiquinho mais fresco. Invertemos o roteiro e seguimos sentido Mateiros, numa estrada com muitas subidas puxadas.

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Gruta do Sussuapara. Foto: Artur Vieira.

A primeira parada foi na Gruta do Sussuapara, com apenas 15km percorridos. Tiramos fotos, enchemos as caramanholas e o dromedário e trocamos um pneu de cada bicicleta, furados por espinhos.

Cerca de 10km depois, passamos por uma casa e resolvemos reabastecer as caramanholas por precaução. Enquanto conversávamos com o dono da casa, o Wagner, chegou um rapaz chamado Guilherme, que mora no caminho para a Cachoeira da Velha. Nos despedimos dele com um “até amanhã”.

Chegamos ao Rio Vermelho às 14:40, depois de 61km pedalados, e decidimos passar a noite ali. Almoçamos, remendamos câmaras, tomamos banho de rio e ficamos de bobeira. Montamos a barraca e, apesar do calor, preferimos ficar lá dentro do que encarar os mosquitinhos chatos do lado de fora.

Pegamos no sono pouco depois das 19h, mas acordamos com o barulho de uma chuvinha. O Artur recolheu nossas roupas que estavam num varal improvisado e logo dormimos de novo.

Cachoeira da Velha e Prainha do Rio Novo

Levantamos cedo, tomamos café e desmontamos o acampamento com calma. Eram apenas 10km até a bifurcação que leva à Cachoeira da Velha. A paisagem nesse trecho é bem bonita, com muitas árvores, mas a estrada já começa a ficar cheia de pedras.

Após a bifurcação, são 20km até a antiga Pousada Jalapão. Esse é o local onde o traficante Pablo Escobar construiu uma fazenda de luxo. Segundo o Guilherme, depois de confiscada pelo governo do Tocantins, a fazenda foi transformada em pousada, mas não deu muito certo. Hoje, nesse espaço funciona uma APA (Área de Proteção Ambiental).

Uns 2km antes da APA, há uma indicação de camping numa estradinha lateral. Foram 2km de muita areia e um riozinho até o camping do Paulo, que tinha nos visto na véspera acampados na beira do Rio Vermelho.

Voltamos para a estrada principal e logo chegamos ao nosso destino. Conversamos com o Guilherme e sua família e ele nos mostrou onde poderíamos passar a noite. Fizemos miojos para o almoço e fomos conhecer a cachoeira.

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Cachoeira da Velha. Foto: Artur Vieira.

Foram 10km com algumas subidas, pedras e areia, claro! A Cachoeira da Velha impressiona. Há uma trilha de 1km para a Prainha do Rio Novo. Tentamos seguir por ali, mas desistimos quando chegamos num trecho com uma escada de madeira. Pegamos um atalho pelo mato e voltamos para uma estradinha de areia.

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Prainha do Rio Novo. Foto: Artur Vieira.

Assim como na cachoeira, estávamos sozinhos na prainha. Ficamos um bom tempo na água, que estava morna e deliciosa.

A volta foi mais tranquila. Tomamos banho de chuveiro e preparamos nosso jantar. Apesar de termos nos instalado numa área coberta, montamos a barraca por causa dos insetos, principalmente, os marimbondos enormes que moram ali.

Rumo às dunas

Sem dúvida, este foi o dia mais puxado. Saímos às 8h, depois de nos despedirmos do Guilherme e de sua família, e felizes com as garrafas com gelo que ganhamos.

Como não estávamos dormindo muito bem nas últimas noites, o começo foi meio desanimado. O terreno cheio de pedras também não ajudava muito.

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Cobra-cipó, a danada! Foto: Artur Vieira.

Em determinado ponto, vi uma cobra pequena e de barriga amarela parada na estrada e com a cabeça levantada. Parei, tirei foto e passei bem longe dela. Depois, descobri que era uma cobra-cipó. “Cobra danada! Ela é rápida e vai atrás das pessoas”, contou a dona Benita. Dei sorte porque ela não veio atrás de mim.

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Tinha um pouquinho de areia no caminho. Foto: Artur Vieira.

Paramos na bifurcação para comermos algo e voltamos para a estrada principal. Eram tantas as pedras no caminho, que, mesmo na descida, eu seguia a 8 km/h. Quando as pedras acabaram, a areia foi tomando conta e tive que empurrar em vários trechos.

Ao passarmos pela Comunidade do Rio Novo, nos informaram que faltavam 13km até o bar da dona Benita, na entrada para as dunas. Mesmo com o rendimento baixo, daria tempo de chegarmos antes de escurecer e preferimos seguir ao invés de acamparmos ao lado do rio.

Foi lindo ver a luz do por do sol batendo na Serra do Espírito Santo e, por alguns instantes, até esqueci do cansaço.

Chegamos ao bar assim que escureceu e, em seguida, chegou um guia acompanhado por dois turistas do interior de São Paulo. Ficamos papeando um pouco, mas logo fomos montar a barraca, tomar banho e jantar. Antes de dormirmos, ficamos admirando o céu estrelado. Com certeza, um dos mais bonitos que já vi.

Dunas do Jalapão e Mateiros

O plano era levantar cedo e partir para as dunas, só que a chuva começou uns cinco minutos depois de acordarmos. Tomamos café e, como ela não passava, aproveitei para dormir um pouco mais.

Como o caminho era pura areia, fomos a pé para as dunas. Mesmo com a areia um pouco compactada pela chuva, não dava para pedalar por ali.

Dunas

Um pedacinho das Dunas do Jalapão.

As dunas são lindas e ficamos sozinhos ali admirando a paisagem. Essa é uma vantagem de ir para o Jalapão fora da temporada. Dá para aproveitar as atrações sem ninguém por perto.

Voltamos para o bar da Benita e esperamos o almoço ficar pronto. Comemos, enfrentamos a preguiça e partimos para Mateiros.

O pedal foi curto e a areia ainda estava presente, mas bem menos do que na véspera. Em compensação, foram muitas subidas e costelas de vaca.

Mateiros é uma cidade bem pequena e sem muita estrutura. Ficamos na Pousada Panela de Ferro, que estava sendo construída na última vez que o Artur esteve lá. Lugar limpo, organizado e com um delicioso bolo mangolão (versão “bolística” do pão-de-queijo) no café da manhã.

Jantamos no restaurante da dona Rosa, que havia sido muito bem recomendado. Comi arroz, feijão e ovo frito. Comida simples, mas muito saborosa. O engraçado foi ouvir a dona Rosa falando: “ah, eu já esperava vocês. Tinham me avisado que dois ciclistas estavam a caminho”.

A sobremesa foi um sorvete de manga na sorveteria perto da pousada. Já tínhamos parado ali quando chegamos e recomendo também os sabores murici e buriti.

Fervedouro e cachoeira

O plano de ficar mais um dia em Mateiros para aproveitar os atrativos da região já tinha sido descartado, mas ir ao Fervedouro do Mumbuca e à Cachoeira do Formiga era obrigatório.

A entrada para o fervedouro fica a apenas 1,5km da estrada principal, já no caminho para a comunidade do Mumbuca, de origem quilombola.

Fervedouro

Fervedouro do Mumbuca.

Assim que chegamos ao fervedouro, escutamos o barulho de uma moto. Era o Ceiça, o dono do lugar, chegando para cobrar a entrada (10 reais por pessoa seja para entrar na água ou apenas olhar). Ele conversou um pouco conosco, foi embora, mas voltou logo por causa de um grupo de estudantes de Porto Nacional.

A permanência no fervedouro depende da quantidade de pessoas por ali. Se há muita gente, é permitida a entrada de seis pessoas por vez e por apenas 20 minutos. Foi o que aconteceu com o grupo de alunos. O Ceiça ficou por ali, deitado na rede e contando histórias de como ele mata onças e sucuris, enquanto a professora responsável controlava os grupos.

Ceiça

Ceiça, no Fervedouro do Mumbuca. Foto: Artur Vieira.

Aproveitamos para comer um lanche e conversar com os alunos sobre a nossa viagem. Quando eles foram embora, o Ceiça disse para ficarmos à vontade e para depois passarmos na casa dele (na bifurcação da estrada principal com o caminho para o fervedouro) para pegarmos água gelada.

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Cacheira do Formiga. Foto: Artur Vieira.

A próxima parada era a Cachoeira do Formiga. Seguimos a dica do Ceiça e ignoramos a primeira entrada, cheia de areia. De acordo com ele, a segunda entrada teria areia apenas no começo. Não foi bem assim, porém pudemos pedalar a maior parte dos 6 km até a entrada da cachoeira.

Além de um bar, funciona ali um camping sem muita estrutura. A entrada também custa 10 reais, seja para nadar ou apenas olhar. O camping sai por 20 reais.

O Rio do Formiga tem a água mais limpa que já vi. Ela é um pouco mais fria do que nos outros rios do caminho, mas é bem rápido para se acostumar. Ficamos relaxando por ali e teríamos ficado mais tempo se não fosse o horário e a areia no caminho de volta.

Pouco antes de alcançarmos a estrada principal, o tempo começou a fechar e apertamos o ritmo para chegarmos ao Camping do Vicente. O guia que encontramos no bar da Benita nos informou que o camping havia mudado de lugar. Apesar da placa, deveríamos ignorar o primeiro camping e seguirmos para o próximo, que não teria nenhuma indicação.

Passamos pelo primeiro e continuamos. Do lado direito da estrada (sentido Novo Acordo), havia a placa “Camping do Rio do Formiga”. Ficamos na dúvida se era mesmo o Camping do Vicente e decidimos seguir um pouco mais pela estrada principal. Pedalamos menos de um quilômetro e resolvemos voltar, pois parecia que ia chover a qualquer momento.

A estradinha era curta e chegamos ao camping mais ajeitado de toda a viagem. Um lugar amplo, com muitas plantas, limpo e bem cuidado. Só tinha um porém, não havia ninguém. Pelos adesivos e recados colados num mural, concluímos que ali era mesmo o novo Camping do Vicente, mas nem sinal dele.

Achamos estranho, pois estava tudo aberto, havia celulares e óculos em cima da mesa. Esperamos quase uma hora antes de tomar banho. Nada ainda. Preparamos nosso jantar, comemos e limpamos tudo. Nada! Montamos a barraca e, com um pouco de receio, fomos dormir.

Meia hora depois, passei o maior susto. O cachorro do Vicente começou a latir e a arranhar desesperadamente as portinhas de onde estávamos. Logo pensei: “tem onça aí!” e fiquei quietinha na barraca. De repente, silêncio total. “Que merda! A onça levou o cachorro!”

Adormeci de novo. Duas horas depois, às 23h, acordamos com o barulho e faróis de um carro. Saímos da barraca e perguntamos: “seu Vicente?”. A resposta veio num tom divertido. “Eu mesmo! Não tem luz nesta casa? Acenda aí, menina. Vocês estão bem instalados? Comeram? Fiquem à vontade, podem pegar o que quiserem na geladeira. O bêbado aqui vai dormir e amanhã a gente conversa mais.” Doido!

Seu Vicente e São Félix do Tocantins

De madrugada, escutei o Vicente mandando o cachorro ficar quieto. Ufa! Ele não foi comido pela onça. O barulho era apenas para poder entrar na parte mais alta e dormir em cima do fogão à lenha. Onça, para nós, só mesmo as pegadas.

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Nós e o “véio mentiroso”. Foto: Artur Vieira.

Já tínhamos tomado café quando o seu Vicente apareceu de novo. O mineiro é bom de papo e ficamos cerca de três horas proseando com ele. No dia anterior, ele foi buscar umas madeiras, encontrar alguns amigos e acabou pulando de bar em bar antes de voltar para a casa.

Antes de irmos embora, fomos até o Rio Formiga, que corre no fundo do camping. A mesma água limpa e gostosa da cachoeira. Deu vontade de ficarmos mais um dia ali, só aproveitando esse lugar e ouvindo as histórias do “véio mentiroso”, como ele mesmo se definiu.

O pedal do dia foi curto, mas eu estava cansada por causa da noite mal-dormida. Chegamos em São Félix e fomos direto para a Pousada Jalapão, que pertence à Irá e foi recomendada pelo seu Vicente.

A Irá preparou um ótimo almoço para nós. Além do trio arroz, feijão e ovo frito, tinha também abobrinha refogada. De barriga cheia, fomos descansar.

São Félix é uma cidade dividida em duas partes e mais ajeitada do que Mateiros. Tomamos um café com pão-de-queijo no Cantinho da Tia Ro e depois ficamos batendo papo com a Irá e um rapaz de Brotas (esqueci o nome dele), que trabalha com rafting.

A fome voltou e fomos comer pizza do lado de lá da cidade. Tinha pizza vegetariana, mas nada de especial. A metade de alho estava mais gostosa, porém não consegui comer muito. Já tinha tomado uma jarra inteira de suco de cupuaçu.

Voltamos para o outro lado e fomos dormir.

Serra do Gorgulho e seu Camilo

Levantamos às 5:30 e tomamos café no Cantinho da Tia Ro. A quilometragem do dia era alta: 80km até a lanchonete do Camilo.

Catedral

Catedral.

Encaramos muitas subidas, mas tivemos vento a favor e os primeiros 30 km renderam, mesmo com várias paradas para fotos. Logo, chegamos à Catedral, que impressiona pelo tamanho.

Pedalamos 50 km até o Rio Novo. Atravessamos a ponte e paramos no posto fiscal para comer e pedir água. Ficamos quase uma hora ali conversando com o Gentil e o Valteir. Eles trabalham num esquema de escala. São sete dias e meio ali e, 22 dias e meio em Palmas.

Voltamos para a estrada e foram muitas subidas. Neste dia, em pleno Jalapão, viramos atração turística. Primeiro, um casal parou e pediu para tirar fotos conosco. Eles moram em Palmas e estavam resolvendo alguns negócios na região. Depois, dois rapazes que trabalham nos Correios e seguiam para São Félix também pararam para fotos. Infelizmente, esqueci de perguntar os nomes.

As primeiras formações da Serra do Gorgulho apareceram e nos decepcionamos achando que era só aquilo. Porém bastou pedalarmos um pouco mais para vermos as outras partes, com lindas e enormes rochas vermelhas.

Outra subida

Pedra, areia, subida. Tudo junto!

Os 30 km restantes não renderam muito. O vento passou a soprar contra, o calor estava forte, a areia deu o ar da graça e os trechos próximos a riachos começavam com boas descidas, mas terminavam no início de subidas íngremes.

Conseguimos chegar à lanchonete do Camilo dentro do horário previsto, entre 15h e 16h. Nos hidratamos bastante ali e seguimos para a fazenda, onde acampamos. Como ainda tínhamos algumas horas de luz, aceitamos a sugestão do Camilo e fomos até um riozinho a uns 4 km do camping. Tivemos que empurrar em alguns trechos de areia, mas valeu a pena.

Enquanto tomávamos banho, nosso jantar era preparado. Arroz, feijão, omelete e, para meu deleite, uma salada fresquinha de tomate, alface e repolho. Comemos feito ogros!

Fomos deitar logo depois. Estava ventando bastante e eu estava com receio de que chovesse durante a noite. Por sorte, a chuva não veio.

Novo Acordo

Depois de um café com pão quentinho e fatias de abacaxi, partimos para os últimos 70 km de Jalapão.

A paisagem mudou bastante durante o percurso e a estrada também. Foi um dia com buracos de erosão e longas descidas com muitas pedras, o que exigia bastante cautela. Eu ia devagar, cheia de cuidados, e o Artur descia feito doido. Nada como ter técnica.

Mais ou menos na metade do caminho, começaram as fazendas com grandes plantações de soja. Essa cultura está dominando a região e foi a paisagem mais feia de todo o percurso. Neste dia, fez muito calor e achei o trecho final bem chato. As subidas próximas a Novo Acordo também não eram animadoras.

Enfim, chegamos! Decidimos ir de ônibus para Palmas, pois eu não estava muito animada para pedalar mais 120 km no dia seguinte.

Foram oito dias seguidos de pedal e 500 km percorridos. Definitivamente não foi fácil, mas adorei. Esta foi a cicloviagem mais longa e mais intensa que fiz até o momento. Também foi a primeira vez que acampei (ter dormido numa barraca em festivais de música na Europa não conta).

O agradecimento mais especial vai para o Artur, que topa as minhas loucuras e é a pessoa mais companheira que há. Nossas andanças pelo mundo estão só começando.

Obrigada à Cintia e ao Davi por nos receberem tão bem nos dias antes e depois da viagem e pelos empréstimos de equipamentos.

Agradecemos também o Palmas, vulgo Alexandre. Por ser amigo de amigos, ficamos sabendo que ele percorreu o Jalapão de bicicleta em junho de 2013 e entramos em contato para pedir informações. Super atencioso, ele nos deu várias dicas bacanas e nos falou de algumas pessoas que encontraríamos pelo caminho.

Levamos algumas fotos que o Palmas tirou e fomos entregando pelo caminho: Guilherme, Val e Ruan, na Cachoeira da Velha, dona Benita, pessoal da Comunidade do Prata, perto de São Félix, Paulo, próximo ao Rio Vermelho, e seu Marcos, quase chegando em Novo Acordo. Será que alguém vai levar as nossas fotos?

Tem mais fotos no meu Flickr e no do Arturo. E informações sobre a rota estão aqui.

General Salgado

“Mi, vamos para Salgado de bicicleta?” A pergunta foi feita pelo Giu num tom de brincadeira que poderia virar coisa séria, mas ficou arquivada por meses, um ano, talvez. Até que, com as férias chegando e todos os meus planos dando errado, decidi que era isso que eu faria. Comentei com o Artur, que se prontificou a ir comigo.

Começamos a pedalar a partir de Hortolândia, o que nos garantiu uma noite agradável com amigos e excelente companhia nos primeiros quilômetros. Tivemos também uma conversa sobre as condições de algumas estradas e alteramos o roteiro.

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Lasanha de aspargos verdes com cogumelos. Foto: Artur Vieira.

1º dia – De Hortolândia a Rio Claro

Depois de nos despedirmos da Cintia e do Davi, seguimos pela Rodovia dos Bandeirantes.

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Amigos queridos. Foto: Artur Vieira.

Não tínhamos pedalado muito quando encontramos um homem vestindo roupas de ciclismo e caminhando pela estrada com um mochilão. Vagner saiu de São Bernardo do Campo e vai andar até Brasília para levar uma carta contra a corrupção para a presidente Dilma Rousseff.

Ele contou que já viajou muito de bicicleta, sendo uma das viagens até Araçatuba para ver sua mãe, que faleceu três meses após a visita. A marcha para Brasília está sendo a pé porque “de bicicleta é muito fácil”.

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A caminho de Brasília. Foto: Artur Vieira.

A Bandeirantes é relativamente plana e o dia rendeu. Mesmo saindo tarde e fazendo algumas paradinhas, chegamos por volta das 14h ao nosso destino.

Não conseguimos vaga no primeiro hotel encontrado via Google e, por indicação, fomos parar no Hotel Santo Antônio, meio muquifo, porém, melhor do que nada.

Tomamos banho, descansamos e fomos para a rua comer. Tinha visto um bar que vende Guinness e quis ir lá. Péssima opção! Pedimos uma cerveja para cada e uma porção de batatas fritas com queijo. A porção era gigante, mas não justifica os 72 reais gastos.

Voltamos para o hotel e fomos dormir cedo.

Distância percorrida: 85,2 km

2º dia – De Rio Claro a Brotas

O despertador tocou às 7h. Organizamos tudo, nos arrumamos, tomamos café e, duas horas depois, estávamos na estrada.

O céu estava sem nuvens e o calor começou cedo. Pedalamos com um pouco de vento contra e o rendimento não estava muito bom. Acho que a alimentação ruim da noite anterior e o fato de termos bebido pouca água contribuíram para esse estado.

Logo começou a serra da região de Itirapina, que eu já conhecia do Audax 400 km de Holambra. Os caminhões iam devagar e, por um trecho, o Artur apostou corrida com um deles o que rendeu algumas risadas do caminhoneiro. Chegando ao topo, paramos para admirar a vista e tirar algumas fotos. Este foi o dia com as paisagens mais bonitas.

Serra de Corumbataí

Serra de Corumbataí.

Decidimos almoçar em Itirapina e fomos parar no camping, pousada e restaurante Paraíso das Águas. Quando fizemos o pedido, a moça avisou que a comida demoraria um pouco para ficar pronta, mas nem ligamos. Aproveitamos para relaxar num banquinho e observar a macaca Kika. Comemos bem e voltamos cheios de energia para a estrada.

Fizemos uma pausa para algumas fotos e, mal voltamos a pedalar, paramos novamente para conversar com um ciclista que seguia na direção oposta. Resumindo uma história meio mal contada, tratava-se de um uruguaio vindo de Campo Grande, seguindo há três anos numa missão social que irá durar seis anos.

Minha experiência com cicloviagens e encontros com cicloviajantes é praticamente nula, mas, com certeza, era uma das bicicletas mais carregadas que já seu viu. Enquanto conversávamos, aproveitei para ver alguns detalhes: sacolas e mais sacolas de supermercado, luvas grossas, garrafas vazias de Gatorade, garrafa térmica de cinco litros, saco de estopa, cadernos, livros, entre outras coisas. Havia ainda um peso extra nas rodas. Cada uma tinha dois pneus e duas câmaras (uma vazia) para “evitar furos”.

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Haja força para carregar todo esse peso. Foto: Artur Vieira.

Chegamos em Brotas por volta das 16h e logo achamos uma pousada. De banho tomado, fomos procurar um lugar para comer. O jantar teve risoto de funghi e chopp black. Perfeito!

Passamos num supermercado para comprar guloseimas para o dia seguinte e um vinho para fechar a noite. Dormimos cedo de novo.

Distância percorrida: 79,8 km

3º dia – De Brotas a Lins

Depois de um bom café da manhã, seguimos na estrada em direção a Jaú. Na saída de Brotas, encontramos vários ciclistas treinando. Alguns perguntaram para onde estávamos indo e avisaram que tinha uma serra no meio do caminho.

Quando passamos pelo Rancho da Pamonha (PC 2 do Audax 400 km), aproveitamos para comer um lanche e pedimos dois para viagem. Impossível não lembrar que encontrei o Tux e o Gabia aqui. Primeira vez que os alcancei em um PC e os dois dizendo que iriam desistir da prova neste ponto. Até parece!

Voltamos para a estrada e logo o tempo mudou. O sol que brilhava na hora do café da manhã foi só para nos enganar. Mais dois ciclistas passaram e perguntaram sobre nosso destino. Como as primeiras gotas de chuva começaram a cair, eles avisaram que 1 km adiante havia um viaduto e 5 km depois, um posto com restaurante. Isso entra na lista das mentiras que os ciclistas contam, pois as distâncias eram de 5 e 10 km, respectivamente.

A chuva ficou mais forte e começou um vento lateral que nos empurrava na direção do guard-rail. Fiquei com receio nas descidas por causa da água na pista, mas não tive problemas. Ainda bem!

Logo veio a serra da região de Dois Córregos e subimos debaixo de chuva. Paramos um pouco numa área de descanso, alongamos e continuamos. Além de mais longa, tive a impressão de que esta serra tem um grau de inclinação maior do que a de Itirapina.

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Ainda bem que não somos feitos de açúcar. Foto: Artur Vieira.

Depois da serra, comecei a sentir frio e decidi pedir café em uma guarita. O guarda veio com ar desconfiado, mas tirou a mão da arma quando me viu. Infelizmente, não tinha café. Agradeci de qualquer forma, e fui com o Artur para o ponto de ônibus, que ficava em frente, onde comemos os lanches comprados mais cedo e ainda quentinhos.

Muito solicito, o guarda perguntou se ficaríamos ali por mais um tempo, pois estava tentando conseguir café com algum morador do condomínio. O café não veio, mas faltavam poucos quilômetros para Jaú.

Por causa da chuva, mudamos os planos de novo. Ao invés de seguirmos de Jaú para Ibitinga, compramos passagens para Bauru e, de lá, para Lins. A espera nas rodoviárias cansou mais do que pedalar. Duas horas em Jaú, uma hora de ônibus, três horas em Bauru, mais uma hora e meia de viagem e o tédio de não ter o que fazer nessas cidades. Ainda bem que fizemos reserva num hotel em Lins e isso nos poupou tempo quando chegamos lá.

Para embarcar, tivemos que embalar as bikes. De acordo com o rapaz do guichê, a Reunidas não tem uma política clara em relação a bicicletas e a decisão de levar as magrelas montadas ou não cabe aos motoristas, que “não costumam gostar da ideia”.

Achamos melhor não esperar para ver e, enquanto aguardávamos o ônibus em Jaú, colocamos as bicicletas nos mala-bikes que o Artur levou. Menino prevenido! O motorista do ônibus de Bauru para Lins perguntou se transportávamos bicicletas e pareceu gostar da resposta. Talvez não implicasse, mas não dava para saber.

Chegamos em Lins pouco depois das 20h. O Artur montou as bicicletas e seguimos para o hotel. Conseguimos estender as roupas molhadas num varal, tomamos banho e fomos dormir.

Distância percorrida: 53,7 km

4º dia – De Lins a Araçatuba

Como este seria o trecho mais longo da viagem, queríamos sair cedo. Porém, por causa da chuva e do transporte em ônibus foi necessário fazer uma revisão básica nas bicicletas, com ajuste dos freios e lubrificação das correntes. Começamos a pedalar somente depois das 10h.

Seguimos pela Via Rondon (SP 300) com céu azul, calor e várias subidas. Tínhamos pedalado pouco quando avistamos uma parada do outro lado da estrada. Decidimos comer alguma coisa ali, pois não sabíamos quais seriam as outras opções no caminho.

jun2013 (30) Res

Kero Kero.

A paisagem foi a mesma por vários quilômetros: canaviais e mais canaviais. Lembrei da brincadeira que o Pedro Sgavioli fez sobre um “tour de cana”, se referindo à possibilidade de um Audax na terra, na região de Bauru. Porém, concluímos que o nosso tour de cana era diferente: saímos de Hortolândia, onde há uma penitenciária, passamos por um centro de detenção em Itirapina (há dois), pela Penitenciária de Avanhandava e por duas clínicas de reabilitação.

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Muitas retas e sobe e desce. Foto: Artur Vieira.

Em frente à Penitenciária de Avanhandava há uma subida enorme e passamos por ali sob o sol forte do meio-dia. Bateu um pouco de cansaço e decidimos parar na próxima cidade para almoçar.

Pouco antes da entrada de Penápolis, havia uma parada, mas seguimos a dica de um policial rodoviário e fomos para a cidade, que começa uns 4 km depois do trevo. Pedimos informação em um posto de gasolina e fomos almoçar no restaurante do supermercado Big Mart. Comida simples e saborosa! Para a minha felicidade, tinha até quiabo.

Descansamos um pouco antes de voltarmos para a estrada e encararmos o resto do sobe e desce. Faltando cerca de 30 km para Araçatuba, estávamos numa subidinha quando um motorista, que ia no sentido oposto, parou o carro, com rack para bicicleta, no acostamento, abaixou o vidro e fez sinal para esperarmos.

O Oscar se apresentou dizendo que é dono da bicicletaria Roda Livre, em Araçatuba. Todo animado, ele perguntou qual o nosso destino e de onde partimos. Depois, contou que organiza um grupo de pedal na cidade e acrescentou que, se precisássemos de algo, era só entrar em contato.

Na região de Birigui, vimos vários anúncios de lojas de calçados. Em seguida, começaram as fazendas de bois de raça. Estávamos em Araçatuba. No caminho, vimos também a faculdade de Odontologia da Unesp, onde o Giu passou cinco anos estudando.

Por causa do horário, o trânsito aumentou um pouco. Ignoramos a placa que proíbe bicicletas na rodovia e continuamos pelo acostamento, sem problemas. Com a ajuda do GPS, o Artur nos guiou até a casa da minha prima, onde passamos a noite.

Distância percorrida: 101,6 km

5º dia – De Araçatuba a General Salgado

Saímos preparados para o pior, pois quem ouvia sobre nosso plano avisava: “a estrada não tem acostamento e está muito ruim”. A rodovia Elyeser Magalhães está sendo duplicada e alguns trechos estão meio bagunçados mesmo, sem sinalização. Porém, os primeiros 20 km renderam bastante.

A ponte sobre o Rio Tietê foi parada obrigatória para fotos. Tão limpinho! Vimos dois senhores pescando e uma placa informando que era proibido pescar em determinado trecho porque é uma rota de barcos.

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Rio Tietê como não se vê na capital. Foto: Artur Vieira.

Depois disso, o rendimento caiu bastante e resolvemos parar para comer, descansar e tirar mais fotos.

O estado de conservação da estrada realmente é bem ruim. Para minha surpresa, em alguns trechos havia acostamento e, à vezes, ele era melhor até do que a pista. No entanto, por vários quilômetros, seguimos pela beira da faixa devido aos buracos, à vegetação, à sujeira (pedras, pedaços de cana etc.) e à falta de acostamento.

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Asfalto incrível da Elyeser Magalhães. Foto: Artur Vieira.

Embora a estrada seja rota de caminhões e treminhões, conforme nos distanciamos de Araçatuba, o trânsito ficou mais tranquilo. E ainda tivemos outra surpresa positiva: ao nos ultrapassar, a maioria dos motoristas mudava de faixa ou, pelo menos, guardava uma distância segura.

Foram mais de 60 km assim, até chegarmos à Rodovia Feliciano Salles da Cunha. Pedalamos um pouquinho ali e paramos na entrada de um sítio, na primeira sombra convidativa que encontramos. Almoçamos a pizza que sobrou da noite anterior antes de encararmos os 12 km restantes.

O sobe e desce recomeçou e as três últimas subidas foram bem longas. A poucos metros da entrada, passamos por um canavial e um dos cortadores de cana gritou para mim: “é passeio?”.

Quando vi o letreiro da cidade, até esqueci o cansaço. Comemoramos a chegada com sorvete e cerveja em frente à praça central da cidade. Depois, mostrei para o Artur a casa onde morava e o quintal onde aprendi a andar de bicicleta.

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Depois de 400 km, chegamos! Foto: Artur Vieira.

Esta foi a primeira vez que pedalei por cinco dias seguidos. Sentia as pernas pesadas de manhã, quando começávamos a rodar, mas a sensação passava logo. Percebi que preciso prestar mais atenção à alimentação e à hidratação e ainda quero ser mais eficiente na hora de separar o que levar nos alforjes.

Tinha pensado em fazer a viagem sozinha, mas fiquei feliz por o Artur ter ido comigo. Certas experiências valem mais quando são compartilhadas e eu dividi esses momentos com alguém tão especial.

Mais do que nunca, a viagem foi o caminho.

Distância percorrida: 80,9 km

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P.S.: o Artur fez fotos lindas dessa viagem e estão todas aqui.