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300 km pela primeira vez

Cheia de empolgação na hora da largada.

Terminei tão bem o Audax 200 km, que bateu a empolgação e logo me inscrevi para os 300 km, também em Rio das Ostras. Tive apenas um mês para me preparar.

Fiz pequenas modificações na dobrável. Coloquei bar-ends e firma-pés e prendi o porta-caramanhola na coluna do guidão. O quadro tem furação, mas em descidas ou em pistas irregulares, tenho que tomar cuidado (não dá para soltar completamente os freios nas descidas, por exemplo) para a caramanhola não cair. As ferramentas foram para a roll-bag da Alforjaria, presa no selim.

Nosso ônibus chegou em Rio das Ostras a tempo de vermos o nascer do sol na praia. Depois, fomos para o hotel descansar um pouco. Não havia muito tempo livre, então comemos, participamos da reunião técnica e fomos nos preparar para largar.

Os primeiros 116 km eram exatamente iguais aos que fizemos na prova de 200 km. A memória funcionou bem e não precisei conferir a planilha até Carapebus. Depois de virar na linha do trem, segui a placa para Quissamã e percebi que não me lembrava daquele trecho. Nos 200 km, não prestei muita atenção ao caminho, pois tivemos a Leonor como guia nesse pedaço. Aí o Shadow avisou que o GPS indicava outra rota, mas olhamos no mapa e vimos que, como indicado na reunião técnica, havia as duas possibilidades: seguir pela estrada ou passar pelo centro da cidade.

Em Quissamã, comemos macarrão, bebemos Coca-Cola e logo partimos. O trecho até Barra do Furado é curto, mas bastante escuro. Como o Thiago avisou durante a reunião que havia muitos buracos por ali, pedalamos com mais cautela. Chegamos bem e ficamos conversando um pouco com o pessoal da organização. O Shadow aproveitou para comer um lanche num trailer a poucos metros do PC.

Na volta para Quissamã, pegamos vento contra durante todo o trajeto, mas conseguimos manter o ritmo de 20 km/h. Mesmo sendo um trecho curto, a escuridão, os buracos e o vento davam a sensação de que a estrada não acabava nunca.

Chegamos ao PC 4 (km 191) depois de 10 horas e meia pedaladas e o Shadow fez a comparação com as 12 horas que levamos para completar o Audax 200 km. Nesta parada, comi mais um pouco de macarrão e tomei um gel com cafeína, que me deixou bastante desperta. O Shadow e a Tati descansaram um pouco, mas eu estava agitada demais.

Porém, pouco depois que começamos a pedalar, o sono foi batendo e pedi para pararmos um pouco. Deitei num banco de ponto de ônibus para descansar por uns 15 minutos, mas nada de conseguir dormir. Levantei uns cinco minutos depois e ao chegar perto, acabei acordando os dois. Logo mais, chegou o Ricardo, que eu conheci no Audax anterior e que nos acompanhou até o final.

Continuamos o caminho rumo a Macaé, quando ouvimos um estouro: era o pneu da Tati que rasgou. Ela trocou a câmara e fez um manchão, mas, poucos quilômetros depois, tivemos que parar de novo para outra troca. Nessa hora percebemos a quantidade de insetos por ali. É só parar um pouco para eles começarem a atacar. E não importa se você está usando calça de ciclista ou luva, eles vão encontrar a tua pele. Acho que vou incluir repelente na lista “o que levar no Audax”.

No PC em Macaé, aproveitei para comer bananas, beber bastante água e descansar um pouco, mas não dormi. O sono já tinha passado.

O trecho que mais gostei no outro Audax foi bem chatinho desta vez. Vento contra o tempo todo. Depois de uma parada rápida em Cantagalo, seguimos para os quilômetros finais. Na volta, tínhamos que pegar o mesmo trecho de subidas e descidas da ida. De longe, já víamos a primeira e pior subida ou, como disse a fixeira Beatriz, “a parede”. Terminado o sobe-e-desce, me empolguei nos quilômetros finais e dei uma aceleradinha. Depois da chegada, a frase do Odir fez mais sentido do que nunca: “300 não são 200 mais 100”.

P.S.
Antes das provas, pesquiso vários blogs com dicas e comentários sobre os brevets. As sensações e experiências são diferentes, é claro. Porém, essas informações servem de orientação sobre o que levar, a importância da boa alimentação e hidratação e outras coisas que às vezes nem passam pela cabeça, mas que parecem muito óbvias quando outra pessoa comenta. Por isso, decidi colocar aqui algumas observações desse brevet. Vai que alguém se identifica. ;)

Esta foi a primeira vez que virei a noite pedalando e lutar contra o sono não foi fácil. Já tinha ouvido histórias de pessoas que dormiram enquanto pedalavam e achava isso impossível, mas aprendi que não é. Da próxima vez, vou me programar para tirar um cochilo tranquilo e nunca mais tomo gel com cafeína quando chegar ao PC.

Em relação à comida, todo mundo fala sobre a fome durante e depois do Audax e eu não sei bem o que é isso. Enquanto estou pedalando, por mais que tente seguir a dica de “comer sem sentir fome e beber sem sentir sede”, em alguns momentos fico um pouco enjoada. Na volta, em Quissamã, tive que me forçar para terminar o pratinho de macarrão. Por isso, vou experimentando lanchinhos diferentes para descobrir o que funciona bem para mim. A lista, por enquanto, inclui:

* Hershey’s de paçoca – levo uns três, pelo menos;
* mel – vários daqueles sachês pequenininhos;
* carboidrato em gel – fizeram uma propaganda tão grande sobre o gosto intragável que, quando experimentei, nem achei tão ruim assim;
* Coca-Cola – a dica veio do blog do Odir (http://asbicicletas.wordpress.com) e dá um ânimo incrível.

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Audax 200 km em Rio das Ostras

New Yorker no Audax!
Foto do Christian Sens.

No domingo da prova, madrugamos, tomamos café da manhã (pastel e caldo de cana!) e partimos. Quase 130 ciclistas e o objetivo de completar 200 km em até 13 horas e 30 minutos. Aos poucos, os grupos foram se distanciando, cada um no seu ritmo.

O início foi bem tranquilo. Tivemos apoio de guardas que seguravam o trânsito quando passávamos em cruzamentos e havia um carro acompanhando os ciclistas em parte do percurso até Cantagalo. A estrada estava tranquila, com poucos carros e, apesar do maior movimento de veículos, também não tivemos problemas no trecho urbano, em Macaé.

A passagem pelos PCs 1 e 2 foi rápida. Apresentamos os passaportes, comemos bananas, enchemos as caramanholas e fomos em frente. Faltando uns 35 km para o PC 3, vimos os primeiros ciclistas voltando. O calor aumentava e paramos um pouquinho para tomar uma Coca-Cola (dica do Odir) numa vendinha de beira de estrada.

A parada no PC 3 foi a mais longa. Almoçamos o macarrão com molho ao sugo (a vegetariana agradece!) oferecido pelos organizadores, descansamos um pouco, reencontramos os amigos e voltamos para a estrada.

O ritmo da volta foi mais sossegado, com outra parada entre PCs. Ficamos papeando com ciclistas do Rio sobre as provas noturnas e dei algumas dicas para a dona do restaurante que quer aprender a pedalar. Meu ânimo era tanto que o Shadow até brincou: “quero um pouquinho disso que você tomou”. Se bem que, logo depois, ele descobriu uma garrafa com café e acabei ficando um pouco para trás até o PC 4.

Encaramos uma parte chatinha de pedalar, com asfalto bastante irregular no acostamento. Em compensação, os últimos quilômetros antes do PC 5 foram os mais agradáveis. Estrada impecável, paisagem incrível, temperatura mais amena. Pedalamos com mais velocidade, mais ou menos junto com o “time das fixas”.

Os últimos quilômetros foram no escuro e, como tínhamos tempo, seguimos bem tranquilamente.

A alegria ao chegarmos foi enorme e teve um gostinho ainda mais especial para mim: completei meu primeiro brevet na véspera do meu aniversário. Foi o melhor presente!

***

Quando o Odir me falou para fazer o Audax com a Dahon, achei que ele estava brincando. Porém, quando contei para o Silas que estava inscrita na prova em Rio das Ostras, ele sugeriu a mesma coisa. E o Toni Pedalante também.

Para acabar com a dúvida, aproveitei duas cicloviagens para testar a pequena em longas distâncias. Depois de encarar a subida para Campos do Jordão e a ida para Itu pela estrada dos Romeiros, a decisão estava tomada.

Carnaval em Campos do Jordão

Início da jornada.

A ida

“Ah, eu vou vai!” E assim, num impulso, resolvi encarar a serra de Campos do Jordão em uma cicloviagem durante o Carnaval.

Na manhã de sábado, partimos de ônibus até Taubaté. A ida seria pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, passando por Tremembé. Apesar do calor, a primeira parte foi bem tranquila. Logo depois da primeira subida, paramos em frente ao posto da Polícia Rodoviária e aproveitamos para reabastecer as caramanholas.

O primeiro morrinho foi brincadeira perto do que veio depois. A placa indicava a distância até Campos do Jordão: 28 km. De subida! Sempre digo que sou ruim de subidas e percebi que o maior problema é a afobação. Quero que acabe logo e começo num ritmo mais intenso do que aguento. Aí, canso rápido e demoro para recuperar o fôlego. Porém, como a serra de Campos não acabaria tão cedo assim, fui me controlando para não exagerar.

Sobe, sobe, sobe.

Algumas pessoas foram mais rápidas e o grupo se dividiu um pouco. O sol forte e o calor não ajudaram e a água estava no fim. Quando vi uma caminhonete da DER, não tive dúvidas. Fui perguntar se o rapaz tinha água para nos dar. Muito solicito, ele encheu minha caramanhola e disse para eu beber que ele encheria de novo.

Fiquei lembrando de um texto dos amigos Fabrício e Affonso no blog Ushuaialaska. Eles falaram sobre a “humanidade” que existe em pedir água a outra pessoa e como “negar água é ao mesmo tempo a expressão mínima e máxima da maldade com o outro”.

Numa das paradas curtas para descanso, mandei uma mensagem para o Marcello perguntando se ele tinha encontrado o mirante com lanchonete sobre o qual alguém tinha comentado. A resposta veio rápida: fazendinha no km 38. Olhei para frente e estávamos a apenas alguns metros da entrada.

Torta de ricota com espinafre e saladinha de alface com flor comestível.

Com a fome e a sede que eu estava, parecia realmente que tínhamos encontrado um oásis. Lugar lindo, aconchegante, com comida orgânica e deliciosa! Ficamos lá por quase uma hora, comendo, bebendo e descansando. Depois seguimos em três: Shadow, Marcello e eu.

Reencontramos parte do pessoal pouco depois no mirante (que realmente existe!). Aproveitamos para comer milho cozido, mas perdemos o caldo de cana, pois a barraca já tinha sido desmontada.

Quase lá!

As últimas pedaladas foram no escuro, mas em poucos minutos chegamos a Campos do Jordão. A felicidade de alcançar o destino foi tanta que nem lembrava mais do cansaço.

Reunimos o grupo todo e fomos para a casa que tínhamos alugado, com subida no caminho, para continuarmos no clima, é claro.

Domingo de muita comilança

Cadê o chão?

Depois do café da manhã numa padaria amiga do ciclista, ou seja, com paraciclo, fomos passear em Capivari. No caminho, paramos para uma pedalada no ar: a Larissa foi testar a “bike-tirolesa”. Depois, encaramos a fila do teleférico para aproveitarmos a vista do Morro do Elefante.

O almoço foi na Baden Baden com direito a batata suíça e apfelstrüdel. Os não-vegetarianos optaram pelo eisbein. E todo mundo saiu de lá com a barriga cheia.

Perto de onde estávamos hospedados, decidimos parar em uma cervejaria. Alguns foram pedalar mais um pouco e outros ficaram para o bate-papo, cerveja e batata frita. Até que o Giba voltou com a ótima notícia de que, ali perto, tinha uma casa de espetinhos. E a gula falou mais alto de novo.

A brasília amarela.

Nos divertimos com a Brasília amarela cortada ao meio e adaptada para acomodar a chapa onde os deliciosos espetinhos são preparados. Comi o melhor pão-de-alho da minha vida e minha frustração foi não aguentar comer mais.

De barriga ainda mais cheia, voltamos para casa.

A volta

A Rodovia Monteiro Lobato é sem acostamento, cheia de curvas e tem apenas uma faixa em cada sentido. No entanto, as árvores projetam uma sombra gostosa no caminho e a vista é incrível.

Tive momentos de “Rota Márcia Prado feelings”, pois, embora estivéssemos descendo a serra, havia muitas subidas no percurso. De qualquer forma, foi bem mais tranquilo do que a ida, mesmo pedalando o dobro da distância.

:)

Pedalei sozinha por alguns momentos e parei várias vezes para fazer fotos. Num cruzamento, tinha uma banquinha de doces típicos. Não resisti e comprei um pacotinho de bolinhas de pavê de milho cobertas com chocolate.

Enfim, chegamos a Monteiro Lobato. Meu pai tinha me perguntado umas cinco vezes se passaríamos por lá. O almoço foi recomendação do Shadow e aprovado por todos: restaurante Resgate Caipira. Estava sem fome, mas me rendi quando vi que tinha quiabo e pudim.

Infância.

Antes de deixar a cidade, tirei uma versão meio fajuta de uma foto clássica de amigos. E outra com a Emília, é claro.

A empolgação bateu nos últimos quilômetros e, logo, estávamos em São José dos Campos. Pergunta aqui, pergunta ali e chegamos à rodoviária. Esperamos a turma, batemos a foto oficial de chegada e embarcamos no próximo ônibus.

Adorei a experiência e quero fazer mais e mais viagens. A volta à fazendinha é uma delas, com certeza.

New Yorker e eu.

Meu primeiro Audax

Audax by piacere
Audax, a photo by piacere on Flickr.

“Desculpa te falar isso, mas… você não vai completar.” Essa foi a frase que mais ouvi quando algumas pessoas ficaram sabendo que me inscrevi para o Audax de 200km, em Holambra.

Tinha lido alguns relatos no blog das Pedalinas, mas a decisão de participar veio mesmo depois de completar a Rota Márcia Prado. São propostas completamente diferentes, mas ter percorrido, em um dia, uma distância muito maior do que faço no dia a dia me deixou super animada. O fato de não acordar com dores no dia seguinte foi outro incentivo.

Em um mês e meio, li mais relatos, busquei dicas de quem já tinha feito a prova, conversei com amigos e fui mexendo na bicicleta. A Caiçara, que tem esse nome, pois veio da praia e tinha guidão alto, ganhou um guidão reto, bar ends, e perdeu o jeito praiano.

Meu amigo Giu me avisou sobre o relevo de morros na região de Holambra, mas, apesar de a incerteza estar começando a dar as caras, insisti nos 200 km.

Quando chegamos para a vistoria, vi o pessoal com pinta de atleta e bicicletas que pesavam, pelo menos, metade da minha e brinquei: “o que estou fazendo aqui?”.

Na largada, percebi que meu ciclocomputador não funcionava. Parei para arrumar e fiquei para trás. Achei que era a última, quando um ciclista (desculpa, sou ruim de nomes) o Guilherme José de Sá (que reencontrei nos 300 km de Holambra, em 2013) parou para me ajudar. Ele seguiu e eu acelerei para alcançar o pessoal.

De cara, percebi que preciso treinar muito as subidas, mas fui levando. Durante um trecho, pedalei mais ou menos junto com outros dois ciclistas. Conversamos um pouco até um deles aumentar o ritmo e seguir sozinho. Depois, foi a minha vez de deixar o outro menino para trás para não perder o PC1.

Eu não tinha muito tempo, por isso a parada foi rápida. Voltei para a estrada e, por um bom trecho, não vi ninguém e até pensei que tivesse errado o caminho, mas logo alcancei outros ciclistas.

O trecho entre o PC1 e o PC2 era menor, porém foi o pior para mim. A 10 km do posto, não tinha mais água, nem gatorade e nem um posto no caminho. O sol deu o ar da graça e as subidas ficaram ainda mais difíceis para mim. Faltando 5 km, olhei o relógio e bateu o desânimo: iria perder o PC. Liguei para o Giu, que já tinha terminado os 135 km, e pedi resgate. Combinamos de nos encontrar no posto.

Quando cheguei, o Albert me saudou com um “ah, vá!” (num tom de mais surpresa ainda do que quando ele soube da minha inscrição) e pediu o passaporte, avisando que só faltava um minuto para o PC fechar. Entreguei correndo e fui beber água.

O pessoal do Audax em Holambra ligou para saber se eu tinha chegado, pois o Giu iria me buscar. Pensei um pouco e retornei a ligação dizendo que não precisava, tinha decidido continuar. O desânimo tinha desaparecido completamente e não sentia mais o cansaço.

O tempo mudou de novo. Foi-se embora o sol escaldante, veio o vento e, em seguida, a chuva. Fui ultrapassada por três ciclistas que estavam no PC2 comigo e haviam saído um pouquinho depois. Ao final de um morro, encontrei os três esperando por mim. Achei incrível essa atenção, porém avisei que eles não deveriam fazer mais isso, já que eu iria atrasá-los. Pedalamos juntos por mais um tempo e eles seguiram viagem.

Quando peguei o trecho sentido Limeira, tive certeza de que não completaria a prova. Tentei mais um pouco e, faltando 11 km para o PC3, as forças acabaram de vez.

Fiz uma loucura (mas pode chamar de burrice também) e aceitei a carona de um senhor que parou para perguntar se estava tudo bem. Ele disse que estava no outro sentido da pista quando me viu e, depois de levar um amigo para casa, voltou para ver se eu estava bem. “Vi vários ciclistas num posto de gasolina e imaginei que você estivesse com eles. Achei um absurdo eles te deixarem para trás.” Eu ri e expliquei que era uma prova de longa distância e que ninguém havia me deixado para trás.

No PC3, reencontrei os três meninos e avisei que era a última, pois o cara atrás de mim havia desistido. Voltei para Holambra de carona com o Richard, o Toni e o Labadia.

Foi impossível não lembrar do que ouvi do dono de uma bicicletaria. “É melhor você ter a frustração de percorrer os 135 km do desafio e perceber que você poderia ir além, do que ficar frustrada por não completar os 200 km”.

Meu lado teimosa ficou um pouco frustrado, sim, mas passou rápido. Pedalei 162 km em 10 horas, num percurso com muitas subidas. Como disse o amigo Kyono, eu conheci o meu limite e agora quero quebrá-lo. A inscrição para os 200 km em Rio das Ostras já está feita. ;)