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Serra Fina em três dias

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Casinha na montanha.

Depois de adiar algumas vezes a travessia da Serra Fina, finalmente, surgiu a chance de riscá-la da minha “lista de desejos”. Nem me lembro direito como foi, mas, quando dei por mim, estava planejando por a façanha em prática no final de julho com as queridas Luana e Sofia.

Para facilitar a logística, minha mochila e parte da comida e do equipamento ficaram com a Lu e a Sofi já que o combinado era elas me pegarem de carro no trabalho na sexta-feira. Tive uma semana bem corrida antes da travessia, com direito a viagem a trabalho, e o companheirismo que eu já sabia existir foi reforçado mais ainda quando recebi uma foto com as três mochilas organizadas pelas duas.

Na sexta, tivemos alguns contratempos e acabamos chegando depois da meia-noite em Passa Quatro. Agilizamos o que foi possível na hora e fomos dormir. Nosso transfer estava agendado para as 4h30, mas o atraso foi grande e a Patrícia chegou quase às 6h da manhã. Pelo menos, deu tempo para tomarmos o café da pousada já que o Sérgio e a esposa prepararam tudo às 5h30.

Primeiro dia – Da Toca do Lobo até depois do Maracanãzinho (8,6km)

No caminho para a Toca do Lobo havia vários corredores de montanha. E eu sabia de alguns conhecidos que estavam por ali para realizar meia travessia, mas vi que tinham saído bem cedo e, pelo ritmo deles, com certeza, não iríamos nos encontrar (e não nos vimos mesmo). Nos deparamos também com grupos guiados, que iriam fazer a travessia em dois dias, e descobrimos que algumas agências oferecem o serviço de porteadores, que levam as barracas e parte da comida para o local do pernoite.

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Mesmo começando mais tarde, ainda pegamos trechos com bastante sombra.

Começamos a caminhada às 6h45, subindo sem pressa. Tínhamos lido que o trecho até o Capim Amarelo é o pior pelo ganho de altimetria e não queríamos abusar, porém, notamos que a subida é íngreme, mas menos dura do que havíamos imaginado.

Paramos ora para tirar o casaco, ora para fotos, ora para um lanchinho mais longo e, ainda assim, chegamos às 11h35 ao cume do Capim Amarelo (2.491m). Ficamos felizes, pois ouvimos que não chegaríamos ali antes das 14h. Nesse cume rolou a primeira coincidência da travessia: dei de cara com a Valéria, minha professora de corrida, que mora em Passa Quatro há alguns meses.

Logo continuamos o caminho e íamos ultrapassando e sendo ultrapassados por dois mineiros de São Gonçalo do Pará (arredores de Divinópolis-MG). Passei o track da travessia para um deles usando o sistema de transmissão wireless do gps (adorei descobrir essa funcionalidade) e nos despedimos deles por volta das 16h30, quando encontramos um ponto com vista para a Pedra da Mina e decidimos acampar por lá.

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Vista do nosso primeiro camping; a Pedra da Mina fica à esquerda desse pico.

Nosso plano inicial era ficarmos na base da Pedra da Mina, mas o atraso da saída, a vista do camping e o risco de não encontrarmos lugar para nos instalarmos por lá (tinha muita gente na trilha!) nos fizeram mudar de ideia. Montamos a barraca com calma e aproveitamos os últimos raios de sol – que aliviavam o frio provocado pelo vento – para trocarmos as roupas fedidinhas da trilha por outras mais quentinhas e limpinhas.

Devido à alteração do local do pernoite, tivemos que racionar um pouco a água. Ainda tínhamos o suficiente para bebermos tanto à noite quanto pela manhã e até para um cafezinho, mas jantamos lanches ao invés de cozinharmos. Enquanto comíamos, ficamos atentas aos ratos que rondavam nossa comida – um deles chegou a passar pelo meu pé.

Fomos muito cedo para a barraca (18h). O cansaço das últimas noites mal dormidas e o esforço desse primeiro dia fez com que dormíssemos logo, com direito apenas a uma espiada na bela lua cheia. Por volta das 22h, o vento aumentou bastante e acordamos várias vezes à noite por causa do barulho.

Segundo dia – Camping depois do Maracanãzinho até o bambuzal (8,4km)

Por termos deitado tão cedo, achamos que acordaríamos a tempo do nascer do sol, mas nos enganamos. Saímos da barraca às 7h, vestimos as roupas de trilha e preparamos o café: pão sírio com pasta de amêndoas e especiarias, abacate, queijo, salame (para a Lu e a Sofi, eu sou vegetariana) e café, claro.

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Com tempo bom, a travessia da Serra Fina oferece um festival de paisagens deslumbrantes.

Tratamos o dia por etapas e a primeira era nos reabastecermos com água. Quando chegamos ao rio Claro na base da Pedra da Mina, ficamos revoltadas ao vermos papel higiênico ali perto. Aliás, essa foi uma tristeza por todo o caminho: muito papel e lencinhos ao longo da trilha.

Enchemos nossas garrafas, esperamos o hidroesteril agir, matamos a sede e tornamos a completar nossos vasilhames antes de começarmos a subida.

No cume da Pedra da Mina (2.798m – quarto mais alto do país), encontramos um pessoal que estava fazendo bate-e-volta via Paiolinho e ficamos papeando enquanto descansávamos um pouco e comíamos. Eles nos ofereceram sequilhos (aceitos de muito bom grado pela Sofi) e bolachas, mas estávamos bem abastecidas com comida.

 

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Vale do Ruah, Cupim de Boi, Cabeça de Touro, Pico dos Três Estados e o Itatiaia mais ao fundo.

A passagem pelo Vale do Ruah foi tranquila e rápida graças ao gps. O capim estava bem marcado em vários pontos, o que pode levar a alguma confusão em relação à trilha, embora, com tempo aberto, seja fácil identificar a direção que deve ser seguida.

No final do vale, há o último ponto de água até o final da trilha, o rio Verde. Paramos para encher as garrafas e o dromedário que a Lu carregava justamente para esse momento. A Sofi e eu levamos quatro litros cada uma e a Lu, quatro e meio.

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Cupim de Boi à direita e Pico dos Três Estados.

Seguimos no sobe e desce de cumes até o Cupim de Boi (2.543m) e assistimos a um pôr do sol espetacular. Mesmo atentas ao horário, pois não queríamos descer do cume no escuro, tivemos tempo para admirarmos a luz batendo nas formações do Itatiaia.

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Por do sol no cume do Cupim de Boi com vista para o Agulhas Negras e as Prateleiras.

Nessa hora, as pernas sentiam o esforço da véspera e eu ainda tinha o agravante de ser uma pessoa sem muito fôlego (e que havia doado sangue 15 dias antes). Fomos um pouco mais lentas e decidimos pernoitar no bambuzal, uma grande área de camping logo depois do cume do Cupim de Boi. O lugar é excelente, com bastante espaço para barracas e a proteção dos bambus. No entanto, ficamos horrorizadas ao vermos uma sacola de supermercado cheia de lixo, amarrada e encostada em um canto como se a espera do lixeiro. É muita falta de consciência!

Aproveitando o espaço, montamos a barraca e a tarp, garantindo o conforto do quarto e da cozinha. Usamos lencinhos umedecidos para uma limpeza básica e passamos ao preparo do jantar. Carregar toda aquela água compensou e nosso menu foi: bis, missoshiro, macarrão de feijão preto (opção de proteína) com cogumelos, queijo e bastante azeite e chá de capim cidreira com camomila, para nos aquecer e hidratar. Os ratos nos fizeram companhia de novo durante todo o jantar e tínhamos que ficar atentas.

Antes de dormir, fizemos um pouco de liberação miofascial e aplicamos um gel relaxante para os músculos. Em relação à noite anterior, a sensação de frio era menor (não levamos termômetro para saber a temperatura correta) e dormi com menos camadas. A Sofi era a calorenta do rolê e a Lu, o oposto.

Terceiro dia – Camping do Bambuzal até a rodovia (11,7km)

Ignoramos nossos planos de sair cedo para saborearmos o café da manhã sem pressa: crepioca, abacate, pasta de amêndoas com especiarias, mel, queijo meia-cura feito pela mãe da Lu (di-vi-no!) e café.

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Pausa para o lanche no Pico dos Três Estados.

Após uma bela escalaminhada, chegamos ao cume do Pico dos Três Estados (2.665m) às 10h15, com uma hora de caminhada. Cerca de dez minutos depois, apareceu um casal que estava fazendo a travessia em dois dias e aí tivemos a segunda e maior coincidência da viagem. Conversa vai, conversa vem, a Lu descobriu que o rapaz é primo de um cara que estudou com a irmã dela. Mundinho pequeno!

Ao assinarmos o livro do cume, vimos vários comentários que se referiam ao Pico dos Três Estados como o último cume da travessia, mas sabíamos que ainda tínhamos o Alto dos Ivos (2.520m) pela frente. Só não sabíamos que ele também exigiria uma escalaminhada. Chegamos ao topo às 13h15 e aproveitamos para fazermos um lanche mais reforçado e também avisarmos a Patrícia (Adventure Transfer) sobre nossa posição para que ela tivesse tempo de se programar para nos buscar.

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Sofia admirando os cumes que ficaram para trás.

A partir desse ponto começamos a descida. As pedras e a inclinação demandam atenção e os bambus (definidos com precisão como bambus-do-capiroto pelos meus amigos do Se ela corre, eu corro!) são um tormento à parte. Eles enroscam, arranham, provocam hematomas e são consistentes por quase todo o caminho.

Conforme fomos baixando a altitude, notamos a mudança na vegetação e logo estávamos na estrada que leva ao sítio do Pierre e depois à rodovia que liga Itamonte à Dutra. Chegamos dez minutos antes do tempo estimado pela Patrícia, que foi nos buscar com pão-de-queijo e Guaranita (eba!).

De volta à pousada, tomamos banho, passamos um café e pegamos a estrada. Em relação à travessia, não poderia ter tido estreia mais perfeita na Serra Fina. O tempo colaborou e tivemos céu azul e vistas incríveis quase que o tempo todo – algumas poucas nuvens nos deixaram receosas em relação à chuva, mas foi só receio mesmo. Minhas companheiras de trilha foram (e são) incríveis! Obrigada, Lu e Sofi, pelos momentos compartilhados e que venham outros. E fica um agradecimento especial ao Artur que, a distância, nos acompanhou, torceu e incentivou.

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Travessia Itaguaré-Marins

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Começando o segundo dia da travessia. Foto: Artur Vieira.

Há algum tempo, o Artur e eu falamos sobre fazer a travessia do Marins para o Itaguaré e aproveitamos o feriado de 21 de abril para realizá-la. No sábado, saímos um pouco atrasados de São Paulo e ainda pegamos bastante trânsito na Dutra. Chegamos à Pousada do Maeda pouco depois das 11h.

Após nos dar várias dicas, o senhor Maeda nos levou até o início da trilha para o Itaguaré. Invertemos a ordem, pois, em caso de chuva na volta, seria mais fácil nos resgatar no acampamento base do Marins. Nesse caminho, passamos por um dos trechos da cicloviagem de Carnaval, quando saímos de Marmelópolis rumo à cidade de Passa Quatro.

Achei o início meio chatinho e cansativo. Levamos cerca de uma hora e meia no trecho de mata, sempre subindo. Encontramos cinco pessoas e estranhamos bastante o fato de dois rapazes estarem carregando facas e facões. Havia também uma cachorrinha, que parecia perdida, e acabou nos acompanhando durante boa parte desse primeiro dia.

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O tempo abriu depois que passamos pelo Itaguaré. Foto: Artur Vieira.

Quando chegamos perto do Itaguaré, o tempo fechou e desencanamos de subir até o cume, pois não teríamos nenhuma visão. Conversamos um pouco com um trio que iria passar a noite ali e eles se prontificaram a cuidar da cachorrinha.

Seguindo a dica do sr. Maeda, enchemos uma garrafa com água perto de um bambuzal. Como era o último ponto de água até o Morro do Careca, nessa hora, percebemos que levamos pouca água para realizar a travessia.

Às 17h, chegamos ao local de acampamento recomendado pelo sr. Maeda, com vista para o Itaguaré. Conversamos com três caras que iriam acampar ali, mas decidimos andar um pouco mais. Depois de uns dez minutos, consideramos que logo iria escurecer, que havia um espaço legal e reservado para montarmos nossa barraca e que não seria nada mal acordar olhando para o Itaguaré e optamos por voltar.

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Nada mal acordar com uma vista dessas. Foto: Artur Vieira.

Montamos nosso acampamento, beliscamos algumas comidinhas e fomos esticar as pernas dentro da barraca. O cansaço foi batendo e, antes que pegássemos no sono, fomos preparar o jantar: polenta com cogumelos. Depois de organizarmos tudo, ficamos admirando o céu estrelado antes de voltarmos para a barraca.

Segundo dia

Acordei várias vezes durante a noite, ora com calor, ora com dor de cabeça, ora porque estava meio torta e acabei atrapalhando um pouco o sono do Artur. Levantamos às 6h. Tomamos café da manhã e desmontamos o acampamento.

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O sobe e desce que nos aguardava no segundo dia. Foto: Artur Vieira.

Logo começou um sobe e desce, com trechos de vegetação fechada e capim alto. Estávamos racionando a água e, enquanto seguíamos em direção ao Marins, fomos considerando duas possibilidades: chegando ao cume do Marinzinho, pegarmos a trilha para a Pousada Maeda, ou fazermos a travessia em dois dias.

Fizemos algumas paradas para descansarmos, eu principalmente, e para comermos. Os caras que acamparam perto de nós na noite anterior estavam num ritmo muito bom e logo nos ultrapassaram. Papemos um pouquinho ao lado da Pedra Redonda, onde eles aproveitaram para descansar um pouco. Depois, eles seguiram sempre na nossa frente

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Vamos em frente. Foto: Artur Vieira.

A parte até o Marinzinho foi a mais puxada para mim. Pouco antes de chegar ao cume, há um trecho com três cordas amarradas para auxiliar na subida ou na descida. Usamos a vermelha, que parecia mais nova.

No cume do Marinzinho, vimos a placa para a Pousada do Maeda. Lembrei do sr. Maeda falando três ou quatro vezes que, se eu não aguentasse, poderia pegar esse “atalho”. Como a parte mais difícil tinha ficado para trás, decidimos continuar com a travessia. Isso significava duas horas a mais de escalaminhada do que se fossemos dali para a pousada.

Chegando à área do charco, ouvimos o barulho de água corrente. O Artur comentou que ali seria um ponto de abastecimento, mas a ideia não me animou muito porque mais para frente há uma placa informando que a qualidade da água é bem ruim. De qualquer forma, não paramos para ganhar tempo.

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E o tempo começou a virar.

A previsão estava certa e logo começou a chuva, que foi ficando cada vez mais forte. Com o cansaço aumentando e muitas pedras no caminho, diminuímos o ritmo e seguimos com cuidado para não escorregarmos. A chuva formou várias cachoeiras no Marins e a água descia com tanta força que dava para ouvirmos o barulho mesmo estando um pouco afastados. A visão era linda, porém, não faço questão de pegar chuva ali de novo.

No Morro do Careca, ligamos para o Maeda para adiantar nosso resgate. Nossa água tinha acabado, mas nem nos preocupamos em enchermos as garrafas no riacho que existe ali perto. Estávamos quase no final.

A travessia não foi nada fácil e terminamos o percurso bastante cansados. Ao mesmo tempo, estávamos muito felizes e orgulhosos de nós mesmos pelo desafio superado. Concluímos a travessia em dois ao invés de três dias. Foram 5 horas no primeiro dia e, dez horas e 40 minutos no segundo, incluindo as paradas para descanso e lanchinhos na trilha.

Senhor Maeda e a pousada

Assim que começamos a travessia, o Artur falou que só pelas histórias que ouvimos e pelo passeio de Bandeirante, a viagem já tinha valido a pena.

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Conhecendo o museu do montanhismo com o senhor Maeda. Foto: Artur Vieira.

Com 74 anos e muita simpatia, esse senhor nascido em Nagazaki tem muitas histórias legais para contar. A travessia Marins x Itaguaré foi aberta por ele e pelo pessoal do Centro Excurcionista Campineiro (que, aliás, ele ajudou a fundar), em 1993. No ano anterior, ele abriu a travessia da Serra Fina.

Esses e outros feitos são contados no museu do montanhismo, que fica na pousada. Lá estão reunidos equipamentos, roupas, revistas e muitas fotos de diversas expedições das quais ele participou no Brasil e em outros países da América Latina.

Mesmo tendo ficado pouco tempo, achamos a hospedagem excelente. E ficou ainda melhor. Estava tomando café da manhã, quando a senhora Maeda apareceu com um prato de pinhões recém-cozidos e ainda quentes. Na noite anterior, eles viram o quanto gosto de pinhão e, por isso, prepararam esse mimo para eu levar para casa.

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Casal Maeda.

Claro que já estamos pensando em voltar para aproveitarmos a simpatia do casal e as atrações da região. As fotos da travessia tiradas pelo Artur estão aqui.

Carnaval na Mantiqueira

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Serra do Ministério, entre Virgínia e Maria da Fé.

Os últimos meses foram tão corridos, que estava difícil até mesmo sairmos de São Paulo. Porém, queríamos aproveitar o feriado de Carnaval e nada melhor do que fazer uma cicloviagem.

Usando um guia do Guilherme Cavallari, o Artur montou um roteiro surpresa por estradinhas de terra da Mantiqueira e só fiquei sabendo para onde iríamos na quarta-feira antes do feriado. Arrumamos tudo na sexta-feira à noite e, sábado cedinho, partimos de ônibus para Itajubá.

Itajubá – Marmelópolis

Depois de comermos um lanche numa padaria perto da rodoviária, começamos o pedal em frente à antiga estação ferroviária da cidade. Passamos por uma área militar, por bairros já com estrada de terra e foram alguns quilômetros até entrarmos na zona rural.

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Delícia de estrada!

Como esperado, a paisagem era linda por todo o caminho. Passamos por trechos com muitas árvores, o que tornava a temperatura mais agradável para pedalar, e o barulhinho de água nos acompanhou durante quase toda a viagem.

Ao cruzarmos com um carro com suporte para bike, a motorista nos perguntou se tínhamos visto um ciclista pelo caminho. “Deixei meu marido em Taubaté e fiquei de encontrá-lo por aqui, mas acho que ele se atrasou.” Não demorou muito e ela passou por nós de novo com o marido resgatado. Muito simpáticos, disseram para pararmos na casa onde estavam. “Vocês verão o carro estacionado na frente.” Paramos para dar um oi para a Amanda e o Pedro e logo seguimos adiante, pois ainda tínhamos muitas subidas pela frente.

Estava meio tarde para almoçarmos em Delfim Moreira, então, optei por um açaí, enquanto o Artur comeu um salgadinho meio tranqueira. Saindo da cidade, passamos em frente à cervejaria Kraemerfass e, embora esteja nos nossos planos conhecê-la, não foi dessa vez.

Para chegarmos à Marmelópolis, encaramos a Serra da Goiabeira, que era de terra na época em que o guia foi editado. O asfalto está bom em quase todos os trechos e a descida é bem gostosa. Ao chegarmos à cidade, fomos parar na pousada Bella Vista, onde encontramos quatro ciclistas de Itajubá que estavam fazendo o mesmo trajeto.

Tomamos banho, jantamos num restaurante simples e de comida farta próximo à Praça Cica e fomos dormir cedo.

Marmelópolis – Itanhandu

O despertador tocou cedo, mas dormimos uma hora a mais. Nos deliciamos com as lichias do café da manhã e acabamos saindo por volta das 10h.

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Subidinha.

Logo no começo, encaramos muitas subidas e várias delas com pedras soltas. Havia muitas fazendas e o roteiro seguiu por estradinhas estreitas e bonitas. Passamos ao lado do campinho do Itaguaré, onde começa a subida para o Pico do Itaguaré, e aproveitamos para fazer um lanche por ali.

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Vista da Serra Fina.

Para chegarmos a Passa Quatro, encaramos uma longa subida, seguida de uma longa descida com vista para a Serra Fina. Paramos algumas vezes para tirar fotos e achei alguns morangos silvestres que estavam deliciosos. Pena que eram poucos.

Passa Quatro é uma cidade fofa e estava toda enfeitada para o Carnaval. Fizemos a boa opção de almoçar na fornaria Antônio. Enquanto comíamos, chegaram os ciclistas que conhecemos em Marmelópolis: Deise, Egg, Denis e Cidy.

Com as barrigas cheias, papeamos um pouco, tiramos fotos e voltamos à estrada. Por questões de hospedagem, eles seguiram para Itamonte e nós paramos em Itanhandu. Esses foram os 10 km mais fáceis e sem graça de toda a viagem.

O Carnaval estava animado em Itanhandu e vimos várias pessoas fantasiadas. As mais marcantes foram o quinteto de Power Rangers e o He-man. Pena que não tirei fotos. Jantamos pizza e voltamos logo para o hotel.

Itanhandu – Virgínia

As rosquinhas de coco do café da manhã estavam incríveis. Comemos todas! Choveu bastante na noite anterior e as estradas estavam com bastante lama. Passamos por várias fazendas e vimos muito gado. Também cruzamos com alguns ciclistas que seguiam na direção de Itanhandu.

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E deu para ver o Pico dos Marins.

Nos outros dias, passamos por trechos do Caminho de Aparecida e da Estrada Real e, neste terceiro dia, percorremos uma parte do Caminho dos Anjos. Também foi dia de avistarmos o Pico dos Marins.

Em seguida, veio a Serra do Palmital. Sem dúvida, foi a mais gostosa do caminho todo. Ela é bem estreita e com uma vista linda, claro! A descida também foi tranquila e chegamos em Virgínia no começo da tarde.

Depois de rodarmos a cidade, paramos num restaurante para almoçarmos. As opções eram “prato raso” e “prato fundo”. Pedi o primeiro, óbvio, e mesmo assim não dei conta da montanha de arroz e feijão que me foi servida.

Pensamos em nos hospedar no Hotel Fazenda Vale da Mantiqueira, pois seria caminho no dia seguinte. Liguei para perguntar se havia vaga e desisti quando a atendente me informou que o gerente tinha autorizado o desmembramento do pacote, porém, a diária teria o mesmo custo do pacote completo: R$ 1.050. Não, obrigada!

Fomos para a outra hospedagem da cidade, a Pousada 13 Lagos, que fica na estrada para Pouso Alto, e havia sido recomendada pelos ciclistas de Itajubá, que já estavam por lá. O fim de tarde e o começo da noite foram divertidíssimos, com muita conversa, risadas e algumas latas de cerveja.

Estávamos preparados para acampar por ali, porém, houve uma desistência de última hora e conseguimos um chalé para passarmos a noite. Fizemos nosso jantar para tirar um pouco de peso da bagagem, comemos e fomos dormir.

Virgínia – Itajubá

Tomamos café da manhã no quarto porque o da pousada era muito tarde para os nossos planos. Organizamos tudo e, na hora de irmos embora, cadê o senhor Mauro para acertar nossa conta? Ele tinha ido buscar pão na cidade para o café e, por causa da espera, saímos cerca de 30 minutos depois do previsto.

Na entrada de Virgínia, mais um atraso: meu pneu traseiro furou. Na hora da troca, mais uma baixa: um raio quebrado. Sorte minha que a roda tem 36 raios e aguentou o tranco do último dia da viagem.

Depois do Hotel Fazenda, há algumas casas com lindos jardins. Os moradores foram muito simpáticos e, como íamos em direção à serra, uma senhora disse que somos corajosos.

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Um pouco de névoa na Serra do Ministério.

Logo depois da igrejinha, começa a Serra do Ministério, com 8 km de subida. O tempo ajudou bastante nessa hora e havia até um pouco de névoa quando chegamos ao topo do morro.

Estávamos começando a descer, quando ouvimos uma buzina amigável. Era o Egg, da turma de Itajubá, dirigindo o carro de apoio. Ele encostou o carro por ali, pegou a bicicleta e foi encontrar o restante da turma na subida da serra.

Seguimos com cautela, eu principalmente, pois havia bastante lama e pedras nos 11 km de descida até Pintos Negreiros, distrito de Maria da Fé. O único bar que vimos por ali estava fechado, então fomos ao mercado comprar pão e queijo para fazermos um lanche. O Artur não resistiu à peça de parmesão que estava na vitrine e o queijo foi parar no meu alforje. Foi uma releitura da brincadeira “o Tux carrega”.

Enquanto comíamos, o pessoal de Itajubá chegou. Eles também aproveitaram para comer algo; ficamos papeando e partimos juntos para a Serra do Pouso Frio, a segunda do dia. Esta serra é mais curta, com 5 km, porém, a subida é mais íngreme e como descreveu o Cavallari, “sem um centímetro de descanso”.

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Denis trocou a aro 29 com suspensão pela garfo rígido com alforjes.

Apesar de algumas paradas, a subida rendeu. Fomos conversando bastante e, na metade do caminho, o Denis ficou curioso para pedalar minha bicicleta com alforjes. Fizemos a troca e, graças a ele, os últimos 2,5 km foram tranquilos para mim. Além de pedalar sem peso, o aro 29 e a suspensão deixaram a subida bem mais fácil.

Pouco depois, o Cidy e o Artur também inverteram as bikes. Dos trechos que percorremos da ciclomantiqueira, este foi o meu favorito. As paisagens lindas e as companhias divertidas somaram-se ao prazer de vencer as duas serras.

A descida até Maria da Fé foi marcada pela chuva gelada que caiu forte. Chegando ao posto de combustível indicado no guia, optamos por fazer o último trecho até Itajubá pelo asfalto. Foram longas descidas e algumas subidas, acompanhadas das lembranças de quando o Artur e eu pedalamos por ali na viagem para Aiuruoca.

Aceitamos o convite da Deise e dormimos uma noite em Itajubá. Fomos com ela, o Egg, Denis e sua esposa Mônica ao tradicional Bar da Maria saborear quitutes mineiros. Recomendo o pastel de milho com queijo.

Apesar do cansaço devido às poucas horas de sono (pegamos o primeiro ônibus para São Paulo, às 4:15), cheguei em São Paulo renovada. Paisagens lindíssimas, novos amigos, bicicletas e poder dividir tudo isso com o Artur são alguns dos motivos para que essa viagem tenha sido tão incrível.

Que venha logo a próxima! Para ler o relato do Artur, clique aqui.