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Serra Fina em três dias

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Casinha na montanha.

Depois de adiar algumas vezes a travessia da Serra Fina, finalmente, surgiu a chance de riscá-la da minha “lista de desejos”. Nem me lembro direito como foi, mas, quando dei por mim, estava planejando por a façanha em prática no final de julho com as queridas Luana e Sofia.

Para facilitar a logística, minha mochila e parte da comida e do equipamento ficaram com a Lu e a Sofi já que o combinado era elas me pegarem de carro no trabalho na sexta-feira. Tive uma semana bem corrida antes da travessia, com direito a viagem a trabalho, e o companheirismo que eu já sabia existir foi reforçado mais ainda quando recebi uma foto com as três mochilas organizadas pelas duas.

Na sexta, tivemos alguns contratempos e acabamos chegando depois da meia-noite em Passa Quatro. Agilizamos o que foi possível na hora e fomos dormir. Nosso transfer estava agendado para as 4h30, mas o atraso foi grande e a Patrícia chegou quase às 6h da manhã. Pelo menos, deu tempo para tomarmos o café da pousada já que o Sérgio e a esposa prepararam tudo às 5h30.

Primeiro dia – Da Toca do Lobo até depois do Maracanãzinho (8,6km)

No caminho para a Toca do Lobo havia vários corredores de montanha. E eu sabia de alguns conhecidos que estavam por ali para realizar meia travessia, mas vi que tinham saído bem cedo e, pelo ritmo deles, com certeza, não iríamos nos encontrar (e não nos vimos mesmo). Nos deparamos também com grupos guiados, que iriam fazer a travessia em dois dias, e descobrimos que algumas agências oferecem o serviço de porteadores, que levam as barracas e parte da comida para o local do pernoite.

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Mesmo começando mais tarde, ainda pegamos trechos com bastante sombra.

Começamos a caminhada às 6h45, subindo sem pressa. Tínhamos lido que o trecho até o Capim Amarelo é o pior pelo ganho de altimetria e não queríamos abusar, porém, notamos que a subida é íngreme, mas menos dura do que havíamos imaginado.

Paramos ora para tirar o casaco, ora para fotos, ora para um lanchinho mais longo e, ainda assim, chegamos às 11h35 ao cume do Capim Amarelo (2.491m). Ficamos felizes, pois ouvimos que não chegaríamos ali antes das 14h. Nesse cume rolou a primeira coincidência da travessia: dei de cara com a Valéria, minha professora de corrida, que mora em Passa Quatro há alguns meses.

Logo continuamos o caminho e íamos ultrapassando e sendo ultrapassados por dois mineiros de São Gonçalo do Pará (arredores de Divinópolis-MG). Passei o track da travessia para um deles usando o sistema de transmissão wireless do gps (adorei descobrir essa funcionalidade) e nos despedimos deles por volta das 16h30, quando encontramos um ponto com vista para a Pedra da Mina e decidimos acampar por lá.

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Vista do nosso primeiro camping; a Pedra da Mina fica à esquerda desse pico.

Nosso plano inicial era ficarmos na base da Pedra da Mina, mas o atraso da saída, a vista do camping e o risco de não encontrarmos lugar para nos instalarmos por lá (tinha muita gente na trilha!) nos fizeram mudar de ideia. Montamos a barraca com calma e aproveitamos os últimos raios de sol – que aliviavam o frio provocado pelo vento – para trocarmos as roupas fedidinhas da trilha por outras mais quentinhas e limpinhas.

Devido à alteração do local do pernoite, tivemos que racionar um pouco a água. Ainda tínhamos o suficiente para bebermos tanto à noite quanto pela manhã e até para um cafezinho, mas jantamos lanches ao invés de cozinharmos. Enquanto comíamos, ficamos atentas aos ratos que rondavam nossa comida – um deles chegou a passar pelo meu pé.

Fomos muito cedo para a barraca (18h). O cansaço das últimas noites mal dormidas e o esforço desse primeiro dia fez com que dormíssemos logo, com direito apenas a uma espiada na bela lua cheia. Por volta das 22h, o vento aumentou bastante e acordamos várias vezes à noite por causa do barulho.

Segundo dia – Camping depois do Maracanãzinho até o bambuzal (8,4km)

Por termos deitado tão cedo, achamos que acordaríamos a tempo do nascer do sol, mas nos enganamos. Saímos da barraca às 7h, vestimos as roupas de trilha e preparamos o café: pão sírio com pasta de amêndoas e especiarias, abacate, queijo, salame (para a Lu e a Sofi, eu sou vegetariana) e café, claro.

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Com tempo bom, a travessia da Serra Fina oferece um festival de paisagens deslumbrantes.

Tratamos o dia por etapas e a primeira era nos reabastecermos com água. Quando chegamos ao rio Claro na base da Pedra da Mina, ficamos revoltadas ao vermos papel higiênico ali perto. Aliás, essa foi uma tristeza por todo o caminho: muito papel e lencinhos ao longo da trilha.

Enchemos nossas garrafas, esperamos o hidroesteril agir, matamos a sede e tornamos a completar nossos vasilhames antes de começarmos a subida.

No cume da Pedra da Mina (2.798m – quarto mais alto do país), encontramos um pessoal que estava fazendo bate-e-volta via Paiolinho e ficamos papeando enquanto descansávamos um pouco e comíamos. Eles nos ofereceram sequilhos (aceitos de muito bom grado pela Sofi) e bolachas, mas estávamos bem abastecidas com comida.

 

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Vale do Ruah, Cupim de Boi, Cabeça de Touro, Pico dos Três Estados e o Itatiaia mais ao fundo.

A passagem pelo Vale do Ruah foi tranquila e rápida graças ao gps. O capim estava bem marcado em vários pontos, o que pode levar a alguma confusão em relação à trilha, embora, com tempo aberto, seja fácil identificar a direção que deve ser seguida.

No final do vale, há o último ponto de água até o final da trilha, o rio Verde. Paramos para encher as garrafas e o dromedário que a Lu carregava justamente para esse momento. A Sofi e eu levamos quatro litros cada uma e a Lu, quatro e meio.

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Cupim de Boi à direita e Pico dos Três Estados.

Seguimos no sobe e desce de cumes até o Cupim de Boi (2.543m) e assistimos a um pôr do sol espetacular. Mesmo atentas ao horário, pois não queríamos descer do cume no escuro, tivemos tempo para admirarmos a luz batendo nas formações do Itatiaia.

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Por do sol no cume do Cupim de Boi com vista para o Agulhas Negras e as Prateleiras.

Nessa hora, as pernas sentiam o esforço da véspera e eu ainda tinha o agravante de ser uma pessoa sem muito fôlego (e que havia doado sangue 15 dias antes). Fomos um pouco mais lentas e decidimos pernoitar no bambuzal, uma grande área de camping logo depois do cume do Cupim de Boi. O lugar é excelente, com bastante espaço para barracas e a proteção dos bambus. No entanto, ficamos horrorizadas ao vermos uma sacola de supermercado cheia de lixo, amarrada e encostada em um canto como se a espera do lixeiro. É muita falta de consciência!

Aproveitando o espaço, montamos a barraca e a tarp, garantindo o conforto do quarto e da cozinha. Usamos lencinhos umedecidos para uma limpeza básica e passamos ao preparo do jantar. Carregar toda aquela água compensou e nosso menu foi: bis, missoshiro, macarrão de feijão preto (opção de proteína) com cogumelos, queijo e bastante azeite e chá de capim cidreira com camomila, para nos aquecer e hidratar. Os ratos nos fizeram companhia de novo durante todo o jantar e tínhamos que ficar atentas.

Antes de dormir, fizemos um pouco de liberação miofascial e aplicamos um gel relaxante para os músculos. Em relação à noite anterior, a sensação de frio era menor (não levamos termômetro para saber a temperatura correta) e dormi com menos camadas. A Sofi era a calorenta do rolê e a Lu, o oposto.

Terceiro dia – Camping do Bambuzal até a rodovia (11,7km)

Ignoramos nossos planos de sair cedo para saborearmos o café da manhã sem pressa: crepioca, abacate, pasta de amêndoas com especiarias, mel, queijo meia-cura feito pela mãe da Lu (di-vi-no!) e café.

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Pausa para o lanche no Pico dos Três Estados.

Após uma bela escalaminhada, chegamos ao cume do Pico dos Três Estados (2.665m) às 10h15, com uma hora de caminhada. Cerca de dez minutos depois, apareceu um casal que estava fazendo a travessia em dois dias e aí tivemos a segunda e maior coincidência da viagem. Conversa vai, conversa vem, a Lu descobriu que o rapaz é primo de um cara que estudou com a irmã dela. Mundinho pequeno!

Ao assinarmos o livro do cume, vimos vários comentários que se referiam ao Pico dos Três Estados como o último cume da travessia, mas sabíamos que ainda tínhamos o Alto dos Ivos (2.520m) pela frente. Só não sabíamos que ele também exigiria uma escalaminhada. Chegamos ao topo às 13h15 e aproveitamos para fazermos um lanche mais reforçado e também avisarmos a Patrícia (Adventure Transfer) sobre nossa posição para que ela tivesse tempo de se programar para nos buscar.

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Sofia admirando os cumes que ficaram para trás.

A partir desse ponto começamos a descida. As pedras e a inclinação demandam atenção e os bambus (definidos com precisão como bambus-do-capiroto pelos meus amigos do Se ela corre, eu corro!) são um tormento à parte. Eles enroscam, arranham, provocam hematomas e são consistentes por quase todo o caminho.

Conforme fomos baixando a altitude, notamos a mudança na vegetação e logo estávamos na estrada que leva ao sítio do Pierre e depois à rodovia que liga Itamonte à Dutra. Chegamos dez minutos antes do tempo estimado pela Patrícia, que foi nos buscar com pão-de-queijo e Guaranita (eba!).

De volta à pousada, tomamos banho, passamos um café e pegamos a estrada. Em relação à travessia, não poderia ter tido estreia mais perfeita na Serra Fina. O tempo colaborou e tivemos céu azul e vistas incríveis quase que o tempo todo – algumas poucas nuvens nos deixaram receosas em relação à chuva, mas foi só receio mesmo. Minhas companheiras de trilha foram (e são) incríveis! Obrigada, Lu e Sofi, pelos momentos compartilhados e que venham outros. E fica um agradecimento especial ao Artur que, a distância, nos acompanhou, torceu e incentivou.

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Travessia Marins-Itaguaré

Marins - Itaguaré

O imponente Itaguaré.

Desde que fizemos a travessia Itaguaré-Marins em 2015, eu tinha vontade de repetir o percurso em um dia só. O Artur realizou o feito no final de 2016, em um tempo muito bom, e fomos juntos no feriado da Páscoa. 

Sair de São Paulo no começo da tarde de sexta-feira foi uma ótima ideia. Consegui descansar da semana corrida, arrumei minhas coisas com calma e ainda deu tempo de comprar pão e panetone (sim!) para o café da manhã na montanha. A viagem foi tranquila e, finalmente, conheci a estrada que passa pelo Bairro dos Marins.

Ficamos no Acampamento Base Marins, do Dito, que nos recebeu com simpatia. A primeira providência foi montarmos a barraca e ajeitarmos a cozinha. Preparei uma sopa de abóbora com cogumelos para o jantar e fomos deitar cedo.

Travessia Marins - Itaguaré

Café da manhã caprichado antes de encararmos a travessia.

Depois de uma noite mal dormida, enrolamos para levantar e saímos depois do horário programado. Fomos subindo num ritmo bom e chegamos ao Morro do Careca em cerca de meia hora. Quando contávamos duas horas de caminhada/escalaminhada, chegamos à bifurcação para o cume do Marins e a travessia sentido Itaguaré. 

Paramos para um lanchinho e decidimos não fazer o cume do Marins. A trilha, que até então estava bastante movimentada, ficou mais vazia e começou a soprar um vento forte. Eu olhava para as nuvens e torcia para o tempo não virar como na outra vez.

Travessia Marins - Itaguaré

Praticamente um pontinho na montanha.

Logo alcançamos o cume do Marinzinho e, mesmo estando um pouco aérea, o ritmo foi bom. A situação mudou um pouco na sequência. Para sair do Marinzinho sentido Itaguaré, há um lance de corda e, definitivamente, preferi subir essa parte do que descer. As nuvens estavam altas nesse momento e eu só enxergava um abismo branco.

O restante da travessia é marcado por muito sobe e desce. Nos trechos mais baixos, havia bastante vegetação – mais do que eu lembrava da outra travessia – e, de tanto me enroscar nos bambus, ganhei vários hematomas nas pernas.

Na Pedra Redonda, encontramos um pessoal que havia passado a noite ali. Papeamos um pouquinho e voltamos para a trilha. Um pouco mais adiante, cruzamos com um casal que estava fazendo a travessia no sentido oposto. A moça me reconheceu do final de semana anterior, quando participamos juntas do workshop de corrida natural durante a Abertura de Temporada de Montanha. Mundinho pequeno.

Marins - Itaguaré

O relevo apaixonante da Mantiqueira.

Reconheci o ponto onde dormimos na primeira travessia, com vista para o Itaguaré, mas é engraçado como minha memória é ruim para esses caminhos. Em vários pontos, era como se estivesse passando ali pela primeira vez. 

Numa área de camping mais próxima à base do Itaguaré, vi um cara juntando gravetos para fazer uma fogueira e empilhando-os justamente ao lado de uma placa que indicava “Proibido fazer fogueiras”. Lembrei do incêndio que atingiu o Marins por causa de um sinalizador de fumaça e fiquei brava, mas a rispidez dele quando o cumprimentei somada à cara de poucos amigos fez com que eu desistisse de dar bronca.

Mesmo na descida, o trecho de mata para chegar ao campinho do Itaguaré continua chatinho por causa das erosões. Aproveitei para matar a sede quando cruzamos o riacho pela primeira vez, mas resisti à tentação de catar os pinhões que estavam pelo caminho (hehe), pois logo iria escurecer e queríamos caminhar um trecho na estrada.

Travessia Marins - Itaguaré

Foram 13 km de travessia e 10 km de caminhada.

Para não chegarmos tão tarde ao Acampamento Base, ligamos para o Dito para pedir para o resgate nos encontrar pelo caminho, mas a ligação estava ruim e ficamos sem saber se ele entendeu ou não. Fomos andando por algumas das estradas da cicloviagem do carnaval de 2015 e bateu uma preguicinha no começo, mas depois entramos num embalo gostoso. Quando estávamos na bifurcação que leva para o centro de Marmelópolis, encontramos o Clóvis, que estava indo nos buscar. Por um minuto, não nos desencontramos.

Havíamos deixado o jantar encomendado e, além da comida caseira do fogão à lenha, o Dito e sua esposa prepararam pinhões – ganhei um monte e estavam deliciosos! De barriga cheia, tomamos banho e fomos deitar.

Acho que nem preciso falar que já estou com vontade de voltar, né?

Flickr.

Travessia Itaguaré-Marins

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Começando o segundo dia da travessia. Foto: Artur Vieira.

Há algum tempo, o Artur e eu falamos sobre fazer a travessia do Marins para o Itaguaré e aproveitamos o feriado de 21 de abril para realizá-la. No sábado, saímos um pouco atrasados de São Paulo e ainda pegamos bastante trânsito na Dutra. Chegamos à Pousada do Maeda pouco depois das 11h.

Após nos dar várias dicas, o senhor Maeda nos levou até o início da trilha para o Itaguaré. Invertemos a ordem, pois, em caso de chuva na volta, seria mais fácil nos resgatar no acampamento base do Marins. Nesse caminho, passamos por um dos trechos da cicloviagem de Carnaval, quando saímos de Marmelópolis rumo à cidade de Passa Quatro.

Achei o início meio chatinho e cansativo. Levamos cerca de uma hora e meia no trecho de mata, sempre subindo. Encontramos cinco pessoas e estranhamos bastante o fato de dois rapazes estarem carregando facas e facões. Havia também uma cachorrinha, que parecia perdida, e acabou nos acompanhando durante boa parte desse primeiro dia.

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O tempo abriu depois que passamos pelo Itaguaré. Foto: Artur Vieira.

Quando chegamos perto do Itaguaré, o tempo fechou e desencanamos de subir até o cume, pois não teríamos nenhuma visão. Conversamos um pouco com um trio que iria passar a noite ali e eles se prontificaram a cuidar da cachorrinha.

Seguindo a dica do sr. Maeda, enchemos uma garrafa com água perto de um bambuzal. Como era o último ponto de água até o Morro do Careca, nessa hora, percebemos que levamos pouca água para realizar a travessia.

Às 17h, chegamos ao local de acampamento recomendado pelo sr. Maeda, com vista para o Itaguaré. Conversamos com três caras que iriam acampar ali, mas decidimos andar um pouco mais. Depois de uns dez minutos, consideramos que logo iria escurecer, que havia um espaço legal e reservado para montarmos nossa barraca e que não seria nada mal acordar olhando para o Itaguaré e optamos por voltar.

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Nada mal acordar com uma vista dessas. Foto: Artur Vieira.

Montamos nosso acampamento, beliscamos algumas comidinhas e fomos esticar as pernas dentro da barraca. O cansaço foi batendo e, antes que pegássemos no sono, fomos preparar o jantar: polenta com cogumelos. Depois de organizarmos tudo, ficamos admirando o céu estrelado antes de voltarmos para a barraca.

Segundo dia

Acordei várias vezes durante a noite, ora com calor, ora com dor de cabeça, ora porque estava meio torta e acabei atrapalhando um pouco o sono do Artur. Levantamos às 6h. Tomamos café da manhã e desmontamos o acampamento.

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O sobe e desce que nos aguardava no segundo dia. Foto: Artur Vieira.

Logo começou um sobe e desce, com trechos de vegetação fechada e capim alto. Estávamos racionando a água e, enquanto seguíamos em direção ao Marins, fomos considerando duas possibilidades: chegando ao cume do Marinzinho, pegarmos a trilha para a Pousada Maeda, ou fazermos a travessia em dois dias.

Fizemos algumas paradas para descansarmos, eu principalmente, e para comermos. Os caras que acamparam perto de nós na noite anterior estavam num ritmo muito bom e logo nos ultrapassaram. Papemos um pouquinho ao lado da Pedra Redonda, onde eles aproveitaram para descansar um pouco. Depois, eles seguiram sempre na nossa frente

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Vamos em frente. Foto: Artur Vieira.

A parte até o Marinzinho foi a mais puxada para mim. Pouco antes de chegar ao cume, há um trecho com três cordas amarradas para auxiliar na subida ou na descida. Usamos a vermelha, que parecia mais nova.

No cume do Marinzinho, vimos a placa para a Pousada do Maeda. Lembrei do sr. Maeda falando três ou quatro vezes que, se eu não aguentasse, poderia pegar esse “atalho”. Como a parte mais difícil tinha ficado para trás, decidimos continuar com a travessia. Isso significava duas horas a mais de escalaminhada do que se fossemos dali para a pousada.

Chegando à área do charco, ouvimos o barulho de água corrente. O Artur comentou que ali seria um ponto de abastecimento, mas a ideia não me animou muito porque mais para frente há uma placa informando que a qualidade da água é bem ruim. De qualquer forma, não paramos para ganhar tempo.

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E o tempo começou a virar.

A previsão estava certa e logo começou a chuva, que foi ficando cada vez mais forte. Com o cansaço aumentando e muitas pedras no caminho, diminuímos o ritmo e seguimos com cuidado para não escorregarmos. A chuva formou várias cachoeiras no Marins e a água descia com tanta força que dava para ouvirmos o barulho mesmo estando um pouco afastados. A visão era linda, porém, não faço questão de pegar chuva ali de novo.

No Morro do Careca, ligamos para o Maeda para adiantar nosso resgate. Nossa água tinha acabado, mas nem nos preocupamos em enchermos as garrafas no riacho que existe ali perto. Estávamos quase no final.

A travessia não foi nada fácil e terminamos o percurso bastante cansados. Ao mesmo tempo, estávamos muito felizes e orgulhosos de nós mesmos pelo desafio superado. Concluímos a travessia em dois ao invés de três dias. Foram 5 horas no primeiro dia e, dez horas e 40 minutos no segundo, incluindo as paradas para descanso e lanchinhos na trilha.

Senhor Maeda e a pousada

Assim que começamos a travessia, o Artur falou que só pelas histórias que ouvimos e pelo passeio de Bandeirante, a viagem já tinha valido a pena.

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Conhecendo o museu do montanhismo com o senhor Maeda. Foto: Artur Vieira.

Com 74 anos e muita simpatia, esse senhor nascido em Nagazaki tem muitas histórias legais para contar. A travessia Marins x Itaguaré foi aberta por ele e pelo pessoal do Centro Excurcionista Campineiro (que, aliás, ele ajudou a fundar), em 1993. No ano anterior, ele abriu a travessia da Serra Fina.

Esses e outros feitos são contados no museu do montanhismo, que fica na pousada. Lá estão reunidos equipamentos, roupas, revistas e muitas fotos de diversas expedições das quais ele participou no Brasil e em outros países da América Latina.

Mesmo tendo ficado pouco tempo, achamos a hospedagem excelente. E ficou ainda melhor. Estava tomando café da manhã, quando a senhora Maeda apareceu com um prato de pinhões recém-cozidos e ainda quentes. Na noite anterior, eles viram o quanto gosto de pinhão e, por isso, prepararam esse mimo para eu levar para casa.

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Casal Maeda.

Claro que já estamos pensando em voltar para aproveitarmos a simpatia do casal e as atrações da região. As fotos da travessia tiradas pelo Artur estão aqui.