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Cicloviagem de férias na Mantiqueira

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Cicloviagem pela Mantiqueira: morros que não acabam mais.

Com a aproximação das férias, decidi que queria fazer uma viagem de bicicleta. Primeiro, pensei em conhecer o Circuito das Araucárias, em Santa Catarina, mas resolvi traçar uma rota pela região da Mantiqueira (amo!), facilitando a chegada ao Espaço Araucária (acabamos deixando o carro lá), onde participamos do 17º Encontro Nacional de Cicloturismo.

Como a altimetria era pesada e estávamos pedalando pouco, optamos por ir sem equipamento de camping e dormir em pousadinhas. Instalamos bolsas de selim no esquema bikepacking; usei ainda a bolsa da Vó Joaquina no guidão e uma pochete; o Artur foi com dois porta-volumes de guidão da marca Aresta e uma mochila de ataque.

Dia 1 – Do Espaço Araucária a Itajubá (48,4km – 976m)

Para traçar as rotas no Ride with GPS, uso muito as imagens de satélite do Google Maps e isso, às vezes, resulta em algumas surpresas pelo caminho. Logo nos primeiros quilômetros da viagem, caímos em um quintal e a dona nos informou que a estrada foi fechada devido a uma briga de vizinhos.

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Itajubá acabou sendo o destino do primeiro dia de viagem.

Com a mudança de planos, voltamos pelo mesmo caminho e fomos em direção à cidade de Piranguçu. Encaramos a subida da serra de São Bernardo e passamos pela represa de mesmo nome. Decidimos não passar por dentro da cidade e seguimos direto para Itajubá. Os últimos quilômetros foram no asfalto e – ufa! – havia acostamento na parte mais movimentada da estrada.

Em Itajubá, a querida Deise já tinha nos oferecido hospedagem e foi um prazer enorme reencontrar os amigos que fizemos em uma viagem de carnaval.

Dia 2 – De Itajubá a Maria da Fé (29,5km – 573m)

No dia seguinte, a Deise e o Egg pedalaram conosco até Maria da Fé – o Denis não nos acompanhou, pois tinha uma prova de mtb no domingo e havia programado um giro leve.

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Com os amigos Deise e Egg em Maria da Fé.

Nossos guias nos levaram pela trilha do “alface” (o nome tem relação com as hortas do caminho). Eu já tinha pedalado parte dessa estrada em uma viagem com o Giu e descobri que, se tivéssemos seguido pela esquerda em determinado ponto, teríamos feito um caminho muuuuito mais suave. Nada como pedalar com locais.

Enquanto almoçávamos, uma chuva forte e gelada começou a cair e não parou mais. Desencanamos de seguir até Cristina e, por sorte, conseguimos uma hospedagem em Maria da Fé – estava tudo lotado devido a um evento de moto na região.

Ainda quero voltar para Maria da Fé para conhecer a fábrica de azeites, mas, tirando isso, não há muitos atrativos na cidade.

Dia 3 – De Maria da Fé a Carmo de Minas (55,1km – 1.318m)

Apesar de o dia anterior ter sido encurtado por causa da chuva, mantivemos o destino do terceiro dia: Carmo de Minas. Para complementar o café safado da pousada, fizemos uma parada estratégica na Padaria do Thiaguinho – outra dica boa dos amigos de Itajubá.

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Entre a Beleza e a Paciência.

O dia começou gelado: 9°C, às 7h30, mas logo esquentamos com as subidas. Seguindo pela terra, passamos por dois bairros e suas respectivas serras: a Beleza e a Paciência. Enquanto subia devagar, lembrei de uma frase bobinha sobre relacionamentos: se der certo, beleza; se não, paciência. Neste caso, deu tudo certo, com beleza e paciência!

Depois do almoço em Cristina, seguimos por uma estradinha suave que beira o rio Lambari, pegamos um trechinho curto de asfalto e logo voltamos para a terra. Aprendi com os amigos de Itajubá que, essas estradas de subidas leves geralmente são antigas ferrovias.

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Onde será que vamos parar?

Tudo estava tranquilo até chegarmos à primeira porteira do dia. Cruzamos a propriedade abandonada e logo começou um caminho de gado seguido por uma plantação de bananas. O caminho estava bem sujo em alguns pontos e empurramos as bikes por um tempinho. O bananal deu lugar a muitos pés de café, um single track em um pasto e uma estrada decente no meio de outro enorme cafezal.

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Quando o caminho termina em uma propriedade privada.

Durante esse pedala/empurra, além de me perguntar onde iríamos parar, eu pensava: “Google Maps fanfarrão! É a segunda vez que traço uma rota seguindo estradas indicadas por ele para diminuir o risco de perrengue e ele apronta uma dessas”. A estrada terminou na Fazenda Coqueiro. Atravessamos a última porteira do dia e pedalamos mais um trechinho de terra antes dos 5km de asfalto até o destino do dia.

Incluí Carmo de Minas no roteiro por causa da produção de café. A expectativa aumentou quando tomamos um café muito bom na loja de conveniência do posto na entrada da cidade. Porém, a realidade mostrou que ali era o único lugar onde dava para encontrar um café decente. Fomos à torrefação da Unique (imaginei que tivesse uma lojinha de fábrica), mas eles indicavam o café no calçadão em São Lourenço e, na hora, nem cogitamos incluir esse desvio na rota.

Dia 4 – De Carmo de Minas a Cruzília (59,7km – 1.253m)

Comparado à véspera, tivemos um dia despreocupado, com mais cidades pelo caminho para abastecimento e uma rota bem mais leve, passando por um trecho da Estrada Real. As plantações de café continuavam predominantes na paisagem e foram acompanhadas ainda pelas belas formações do Itatiaia e pelo Pico do Papagaio.

Passamos rapidamente por Caxambu e o Artur resolveu nos guiar dentro da cidade. Ele optou pela rota mais rápida e fomos parar numa estrada de asfalto curta, mas horrível que levava a Baependi. Na rota que tracei, o caminho era mais longo e de terra.

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Entre Carmo de Minas e Cruzília: muitas plantações de café.

Mesmo sem provar as especialidades de Cruzília, cidade conhecida pela produção de queijos premiados, minhas melhores lembranças de lá são relacionadas à comida: um delicioso cheesecake com cobertura de damasco que comemos ao chegar e biscoitinhos comprados em uma padaria ao partirmos.

Dia 5 – De Cruzília a Carvalhos (63km – 1.464m)

No quinto dia da viagem, justo quando começava a colheita do café na região, a paisagem da nossa rota mudou complemente. Algumas estradinhas deram lugar a estradões e pedalamos mais expostos ao sol.

Cortamos um trecho do caminho porque não queríamos passar em uma fazenda turística, mas em outra parte não teve jeito e passamos por uma propriedade privada de alguma empresa. Pedimos permissão a um casal cuja casa ficava a poucos metros da porteira e eles disseram que podíamos seguir.

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Cachoeira do Bananal, no caminho para Aiuruoca.

Ao passarmos pela cachoeira do Bananal (que eu tinha visto pelo Google Maps), vimos  um camper e logo conhecemos seu dono, que estava fotografando e filmando a queda d’água. Mário, morador de Itamonte e viajante solitário, nos mostrou diversos detalhes do camper construído por ele e não parava mais de falar.

Poucos quilômetros depois desse encontro, tivemos mais uma mudança de percurso porque o gps indicava um caminho onde não víamos estrada alguma. Ao invés de seguirmos para Serranos, fomos parar em Aiuruoca, que não estava nos planos para essa viagem. Para voltarmos à rota, optamos por continuarmos até Carvalhos.

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Não parece, mas tinha muita subida nesse caminho.

Há duas estradas que ligam as cidades e seguimos via Posses. O caminho é bem bonito e com muitas subidas, claro. Cerca de 8km antes de chegarmos, passamos pelo bairro das Posses e paramos para bater papo com o simpático casal José Antônio e dona Bina. A conversa rendeu por mais de uma hora e terminamos o pedal do dia sob um belo céu estrelado.

Dia 6 – De Carvalhos a Bocaina de Minas (30,4km – 875m)

Como pulamos um pernoite logo no começo da viagem, decidimos mudar o destino do dia e descansarmos um pouco mais. Essa decisão e o frio da manhã contribuíram para sairmos mais tarde.

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Descobrindo novos picos na Mantiqueira.

Descobrimos uma formação linda por ali, o Pico do Muquem, e ficamos atiçados para voltar e fazer o cume. Parte do caminho era sentido bairro Francês dos Carvalhos, mas lá pelo km 11 havia uma bifurcação e continuamos na direção da cachoeira da Estiva. Já sabíamos que se tratava de uma propriedade privada, mas o dono da pousada em Carvalhos disse que poderíamos entrar sem problema já que o local pertence a um primo dele. E vale a pena esse pequeníssimo (menos de 1km) desvio: a cachoeira é linda!

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A serra parece tão inocente nesta foto.

Um dia curto de pedal nessa região nem de longe significa moleza e tivemos que encarar a, até então desconhecida, Serra da Aparecida. Em menos de 1,5km, subimos 152m, chegando a 32% (!!!) de inclinação. A descida teve areia, pedras soltas e erosões.

Com a fome que estávamos, ficamos com receio de chegarmos tarde para o almoço em Bocaina de Minas (já tínhamos nos dado mal em Aiuruoca), mas comemos muito bem no Restaurante do João Grande. Considerando o quantidade de distritos que a cidade possui, imaginei que ela seria maior, porém, é pequena e sem muitas opções de hospedagem e restaurantes. Ainda assim, comemos uma pizza bem boa no jantar.

Foi neste dia que ficamos sabendo sobre a crise no abastecimento de combustível no país. Mesmo em um lugar tão pequeno, vimos uma filinha no único posto e ouvimos alguns comentários do dono da vendinha. “Corri para abastecer meu carro hoje. Já está faltando combustível nas cidades ao redor daqui.”

Dia 7 – De Bocaina de Minas a Itamonte (66,7km – 1.360m)

Depois de um trechinho de asfalto até o trevo, pedalamos por uma serra suave (e gostosa!) e logo chegamos a Santo Antônio do Rio Grande. Foi a segunda vez que passei por ali e nem repeti as estradas.

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Encantada com o entorno de Itamonte.

A subida que veio a seguir não era nada tranquila, mas a baixa velocidade nos permitiu apreciar ainda mais a região. O barulho de água foi constante por muitos quilômetros e havia bastante mata ao lado da estrada. Ao que parece, o trajeto ali não tem muito movimento e por um bom tempo não encontramos ninguém. Pelo caminho, descobrimos ainda a RPPN Morro do Elefante, que trabalha com agricultura orgânica e proteção e conservação da fauna e flora da região. Mais um local para visitar em outra oportunidade.

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Nenhum sinal dos moradores de Belo Monte.

Em Santo Antônio, havíamos sido informados de que, no bairro Belo Monte, haveria uma vendinha no caminho onde poderíamos nos abastecer. O que encontramos foi uma vilazinha com igreja, posto de saúde e escola fechados. Embora estivesse bem cuidada e o único local com aspecto de abandonado fosse a fábrica de laticínios, não vimos uma alma sequer.

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Fazenda Guatambu: hospedagem incrível em Itamonte.

Passamos em frente à Fazenda Guatambu/RPPN François Robert Arthur, onde nos hospedamos no ano passado para comemorar o meu aniversário. Além de realizar um excelente trabalho na preservação de um uma região linda, a Endy é responsável pela produção de geleias, kombucha, cervejas, mel e sabonetes artesanais e ainda oferece duas casas incríveis para hospedagem.

A partir da fazenda, foram mais 9km até o asfalto da estrada que liga Itamonte a Alagoa e quase 20km predominantemente de descida até a cidade. Embora considere o entorno de Itamonte belíssimo, não posso dizer o mesmo da área urbana, cortada pela rodovia. Depois de Bocaina de Minas, aqui foi o primeiro lugar onde ouvimos falar com mais intensidade sobre a greve dos caminhoneiros, que estavam protestando em um posto próximo à pousada onde nos hospedamos.

Dia 8 – De Itamonte a Marmelópolis (52,6km – 1.490m)

Voltamos à Estrada Real nos primeiros 10km do dia, por um caminho charmoso que eu já tinha percorrido no sentido contrário. Na sequência, o trecho de Itanhandu a Passa Quatro não traz nada de interessante e é marcado por granjas enormes.

Assim que saímos de Passa Quatro, encaramos uma subida que parecia não acabar mais. Subindo devagar – empurrando em alguns trechos inclusive – vimos várias sinalizações de uma ultramaratona que passou por ali. No cume, havia uma casa que parecia abandonada e uma bifurcação. Optamos pelo caminho mais curto e fomos pela direita. A esquerda levava a um lago sobre o qual um conhecido me falou quando mencionei que já tinha pedalado por aquela região.

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Em busca do suco de marmelo.

O caminho escolhido era muito sossegado e ficamos um bom tempo sem ver ninguém. Há diversas estradas que ligam Passa Quatro e Marmelópolis e, sem querer, não repetimos nenhuma em relação à viagem de Carnaval pela Mantiqueira em 2015. Tendo a travessia Marins-Itaguaré como parte da paisagem, paramos bastante para fotos e mais ainda quando encontramos o Toninho, morador de Marmelópolis muito bom de papo.

A conversa se estendeu por um tempo e chegamos à cidade quando estava escurecendo. Já que o restaurante Di Minas estava fechado, jantamos uma panqueca deliciosa na Pizzaria do Gordo, com direito a esfihas de chocolate de sobremesa. O pernoite foi na Pousada Bella Vista, que estava vazia por causa da greve de caminhoneiros.

Dia 9 – De Marmelópolis a Wenceslau Braz (46,8km – 1.494m)

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Belo começo de pedal.

Pegamos a estrada que leva ao bairro dos Quatis e, logo de cara, veio uma subida puxada – segundo o registrado no Strava, havia um trecho com 43,9% (!) de inclinação. Essa estrada fazia parte de uma rota que tracei para percorrer com o Giu e não rolou. Depois do terceiro quilômetro, a subida ficou mais agradável.

Fomos seguindo a estrada até que o gps indicou que estávamos fora da rota. Olhando ao redor, vi uma casa abandonada e não tinha certeza se era por lá que deveríamos seguir. Minha dúvida foi sanada por um senhor que trabalhava desmontando outra casa abandonada. “Pode seguir por ali, sem problema.”

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Trocando o estradão pelas estradinhas.

Pelas marcas no caminho, percebemos que esse atalho é percorrido apenas por motos e cavalos e, mesmo assim, não muitos já que havia alguma vegetação crescendo em partes do solo. Esse primeiro trecho nos brindou com single tracks e árvores que sombreavam o caminho; já o segundo, com areia, pedras e uma longa descida.

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Mercadinho Uai Pegue e Pague, em Taquaral.

Nossa rota alternativa terminou em um trecho do Caminho de Aparecida, no bairro Taquaral, já em Delfim Moreira. Passamos por uma hospedagem de romeiros, com baias para os cavalos, e pela peculiar vendinha Uai Pegue e Pague. Em meio aos produtos da roça, havia os avisos “você não está sendo filmado”, “colha sua verdura e pague o que achar justo”, “obrigado por ser honesto”.

O “almoço” foi no bar do Tadeu, no bairro Salto, também pertencente a Delfim Moreira: batata frita para mim, torresmo para o Artur e cerveja artesanal da região.

Seguimos pelos bairros de Biguá e Água Limpa numa descida suave. O único porém foi o aumento do tráfego que levantava uma poeira chata. Essa estrada é muito usada por ciclistas da região; encontramos alguns pelo caminho e depois descobri que o Denis (Itajubiker) tinha passado por lá mais cedo.

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Ah, Google Maps fanfarrão.

Para fugir do asfalto, incluí na rota um trecho que, no Google Maps, aparentava ser uma estrada, mas era na verdade um caminho de gado. Esse “atalho” no pasto faz parte do Caminho de Aparecia e até que foi pedalável em alguns pontos. Os últimos 6km do dia foram de asfalto, numa leve subida com vento contra.

Nos hospedamos na única opção que encontramos na cidade, a Pousada Castelinho que, como o nome sugere, realmente é um castelinho – impossível passar batido. O jantar, encomendado por nossa anfitriã, foi no restaurante da Derly. Mal acreditamos quando ela começou a trazer as panelas para nossa mesa e não parava mais. Comemos bastante e ainda sobrou muita comida.

Dia 10 – De Wenceslau Braz a Campos do Jordão (36,9km – 1.370m)

O dia começou com o mantra “só no girinho”. De Wenceslau Braz até o bairro do Charco, foram quase 15km de subida ininterrupta num giro constante. Aproveitamos um pouquinho de descida e voltamos a subir até a divisa de Minas Gerais com São Paulo, onde entramos no Horto Florestal de Campos do Jordão.

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Campo de araucárias próximo à entrada principal do Horto Florestal.

A descida pelo parque exigiu atenção já que havia muitas pedras e pontos escorregadios. Na empolgação de pedalar uma full suspension, o Artur bateu o aro em uma pedra e teve o único furo de todo o percurso.

Com a viagem chegando ao fim, incluí um mimo no roteiro e reservei uma cabana charmosa para passarmos a noite. No espaço gigantesco há, além das cabanas, chalés, atividades de arvorismo, paintball, um restaurante e o Zoom Bike Park, um parque feito para quem curte mtb, com diversas trilhas de variados níveis.

Apesar da subida longa, o pedal do dia foi curto e desfrutamos de uma tarde preguiçosa e de um friozinho gostoso, em meio às árvores.

Dia 11 – De Campos do Jordão ao Espaço Araucária (25,5km – 729m)

No último dia de viagem, entramos no ritmo de calmaria. Acordamos mais tarde, tomamos o café da manhã sossegados e saímos sem pressa. Em menos de 10km estávamos no centro da cidade para um programa tão clichê quanto gostoso: almoço na Baden Baden.

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Depois de 515km, de volta ao Espaço Araucária.

Enrolamos um pouco por ali, mas, enfim, fomos percorrer os últimos 17km da viagem. Com subidas, claro. Fizemos algumas fotos em frente ao Espaço Araucária e declaramos encerrada a primeira parte das férias.

Pós-viagem

O plano era aproveitar os dias que tínhamos antes do Encontro Nacional de Cicloturismo para irmos de carro até São Lourenço e Cruzília atrás de um “carregamento” de café, queijo e bolachinhas mineiras e ainda visitar o simpático casal nos arredores de Carvalho. Tudo frustrado pela greve dos caminhoneiros. O tanque do carro estava cheio e achamos mais prudente continuar assim e garantir a volta para a casa pós-feriado.

Pedalar pela Mantiqueira é sempre um programa imperdível. Por mais que já conheça muitos lugares e estradas, ainda é só um pedacinho do que há para ser conhecido. Assim como as pessoas que encontramos pelo caminho, sempre simpáticas ao confirmar uma informação ou até mesmo oferecendo um “cafezim”, jantar e pouso (!).

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Finlândia

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Suomi ou Finlândia.

O motivo que me levou para a Finlândia foi encontrar pessoalmente um amigo com quem eu mantinha contato pela internet há mais de uma década. Fui para lá no final de abril de 2011 e consegui aproveitar um pouco de frio. No norte, ainda havia neve e lagos congelados.

Lapônia

Alugamos uma cabana em Kittilä, a 150 km do Círculo Polar Ártico. A cidade é tranquila, como todas por ali, e fica próxima a uma estação de esqui.

Os planos para o fim de semana eram cross-country esqui, snowboard e sauna. Achei o esqui meio sem graça, mas acho que foi mais a falta de jeito. Mesmo sendo meio (ou muito) descoordenada, gostei do snowboard. Caí e levantei muitas vezes e, no dia seguinte, sentia o corpo todo dolorido. Ainda assim, foi uma pena não ter tempo para praticar mais.

Voltando para Tornio, passamos em Rovaniemi, cidade por onde passa o Círculo Polar Ártico e onde fica a terra do Papai Noel. Como esperado, o local é bastante turístico, com lojinhas de souvenirs, o correio do Noel e, o principal, o encontro com o “bom velhinho”.

Comentei com o Teemu que achei a decoração da sala de espera meio macabra e ele disse que combinava com uma das lendas do Papai Noel. Só fui entender o que ele quis dizer quando assisti ao filme Rare Exports.

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Quatro nacionalidades em uma foto: finlandesa, polonesa, coreana e brasileira.

A “visita” foi rápida. O velhinho perguntou de onde somos e disse algumas palavras no idioma materno de cada um. Depois, tiramos uma foto, que foi disponibilizada para compra na lojinha.

Uma amiga do Teemu trabalhava num bar ali perto e disse que, em alguns happy hours, o lugar ficava cheio de velhinhos de longas barbas brancas, que iam beber algo depois de encerrado o expediente.

Passamos um dia em Tornio, na casa dos pais do Teemu. A cidade faz fronteira com a Suécia e fomos até lá fazer compras num supermercado.

A sauna é uma paixão nacional e quase toda casa tem uma. Para deixar a sauna mais quente, eles têm o jeito correto de arrumar as pedras que ficam sobre a fornalha e ficam jogando água para produzir vapor. Quando o calor fica insuportável, eles vão para o lado de fora “se refrescar”. É comum entrarem num lago ou, durante o inverno, rolarem na neve.

Na Finlândia, a família toda vai para a sauna e todo mundo fica pelado. Uma amiga polonesa que morou por anos lá disse que achou isso muito estranho no começo, mas depois se acostumou. Como eu não tive tempo para me acostumar, fiz sauna acompanhada apenas da mãe do Teemu.

Em viagens, nunca podemos nos deixar levar pelos clichês. Sempre ouvi que os finlandeses eram frios, mas a recepção que tive foi bastante calorosa. A mãe do Teemu me recebeu com um abraço apertado, o pai dele jogou cartas comigo e a avó me convidou para jogar bingo, disse que faria uma almofada para sauna para mim e ainda quis tirar uma foto comigo. Fofos!

Helsinki

O fim de semana acabou e fomos para Helsinki. Por coincidência, Madball e Comeback Kid tocaram naquela semana na capital finlandesa. Foi bem legal encontrá-los, pois, além de serem bandas das quais eu gosto, já tinha tido contato com eles no Brasil e conversamos um pouco depois dos shows.

O pessoal da Lapônia brinca que “Hel-sinki” é um inferno até no nome, mas, para quem mora em São Paulo, a cidade é pequena e calma. Nos meus deslocamentos, usei o transporte público eficiente e pedalei todos os dias. Apesar das diferenças, fazer os deslocamentos de bicicleta acabou sendo um incentivo para eu começar a pedalar em São Paulo também.

Acompanhei um dos feriados mais celebrados na Finlândia, o Vappu. A data é 1º de maio, então, achei que tinha relação com o Dia do Trabalho. Porém, descobri depois que as festividades começaram com base no folclore alemão de Walpurgisnacht, que é a noite em que as bruxas se reúnem no Pico Brocken, nas montanhas Harz.

Os festejos começam na noite de 30 abril e a principal atividade é beber. O povo exagera e é comum ver pessoas passando mal ou já desmaiadas nos parques e ruas da cidade.

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Tango finlandês.

No entanto e ainda bem, as celebrações também incluem música e dança. Assisti a um show da versão finlandesa de tango de uma banda cheia de charme e me diverti muito vendo os casais dançarem.

Suomenlinna

Construída sobre seis ilhas, Suomenlinna é uma fortaleza no mar. Originalmente chamada Sveaborg, em sueco, e Viapori, em finlandês, ela foi erguida em 1748 pela Suécia para proteger o território dos russos. Porém, em 1808, ela foi sitiada e tomada pelas forças russas. Em 1918, um ano após a independência da Finlândia, a fortaleza foi requisitada pelo governo finlandês e passou a se chamar Suomenlinna, que significa castelo da Finlândia.

Para chegar lá, é preciso pegar uma balsa e a viagem dura cerca de 20 minutos. Quando fui, deixei a bicicleta num paraciclo no porto e, quase chegando ao destino, lembrei que tinha deixado alguns itens na cestinha. Voltei para buscar a sacola e ela ainda estava lá.

De volta às ilhas, fui andando a esmo. Ao contrário do que imaginava, há moradores em Suomenlinna e descobri isso quando vi alguns brinquedos no quintal de uma casa. Cerca de 800 pessoas moram ali.

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Vila dos hobbits?

Numa parte de Suomenlinna, há diversos bunkers e, embora as portas de entrada não sejam redondas, lembrei das tocas dos hobbits, que aparecem na trilogia O Senhor dos Anéis.

Foi uma viagem curta, mas muito bem aproveitada. Fiquei com vontade de ir para lá no verão para nadar nos milhares de lagos espalhados pelo país e também de encarar um inverno finlandês para rolar na neve depois da sauna e ir ainda mais para o norte atrás da aurora boreal. Espero voltar!

Do outro lado do mundo, lá na Coreia do Sul

Hallasan

Primeiro contato com a natureza sul coreana: Hallasan.

Com férias marcadas para o final de outubro e começo de novembro de 2013, decidi visitar um amigo e conhecer a Coreia do Sul. Dei muita sorte com a data, pois o outono é a melhor época para visitar o país. As temperaturas são mais agradáveis e é possível ver as cores lindas dessa estação.

Fiz uma boa pesquisa antes de viajar e me animei bastante com as opções de passeios e de lugares interessantes para conhecer durante as quase três semanas de viagem.

Adorei a natureza do país e achei os parques nacionais lindos demais. As cidades são modernas, mas preservam construções antigas e a sociedade valoriza as tradições.

A comunicação não foi tão fácil, pois poucas pessoas falam inglês, mesmo entre os mais novos. No entanto, eles são curiosos e prestativos.

A única parte chatinha foi o deslocamento, afinal só de voo foram mais de 20 horas na ida e mais de 22, na volta. Porém, o que importa é que valeu muito a pena!

Suwon

A primeira atração turística que visitei em Suwon foi a Folk Village. Esse museu a céu aberto tem diversas construções, que reproduzem casas coreanas de acordo com as regiões do país e classes sociais. Alguns funcionários circulam pelo espaço vestidos com roupas típicas. Outros são artesãos que produzem objetos como colheres, facas e cachimbos de maneira totalmente artesanal.

Cachimbos artesanais na Folk Village.

Em determinados horários, acontecem apresentações de danças tradicionais, porém, não dei muita sorte. Durante a minha visita, o show era de um grupo de b-boys (!). E ainda perdi a cerimônia de casamento.

A Hwaseong Fortress é um dos cartões postais de Suwon. O muro, com mais de 5 km de extensão, foi construído entre 1794 e 1796 e é considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. É um lugar gostoso para passear. Ali perto, ocorre uma apresentação de artes marciais, de terça a domingo, às 11h, entres os meses de março a novembro. O show é curtinho, mas bem bacana.

Climbing

Tinha uma pedra no meio do caminho em Gwanggyosan.

Numa manhã, fomos fazer trilha no Morro Gwanggyosan. O caminho era tranquilo, com subidas e descidas. Em alguns trechos, era preciso atenção porque as folhas caídas escondiam pedras soltas e raízes das árvores. As trilhas são tão organizadas que, numa parte do caminho, havia uma parede pequena de pedra e duas cordas para auxiliar na subida. Preferi ir pela lateral, sem usar a corda.

Almoço pós-trilha.

Na volta, pegamos a trilha que leva à entrada principal do Gwanggyosan e aproveitamos para almoçar num dos restaurantes montados em barracas de lona. O tofu feito na chapa era delicioso, mas não gostei da sopa feita com alga (o cheiro de peixe era muito forte) e uma espécie de gelatina de castanha.

Seoul

Neons em Gangnam.

Quando a música do Psy, Gangnam Style, começou a fazer sucesso, descobri que Gangnam é um bairro de classe alta de Seoul e que a letra é uma crítica ao estilo consumista da região, que concentra lojas caras e de marcas de luxo.

Realmente, a região é cheia de lojas e bastante movimentada. Andei pela avenida principal próxima às estações de metrô e pelas ruas paralelas. Ignorei as lojas de roupas e visitei a livraria Kyobo, que tem muitos livros em inglês. Me controlei bem nessa parte, mas aí descobri a lojinha no subsolo que vende itens de silicone para cozinha e não resisti.

Numa das ruas paralelas, fica um restaurante vegetariano delicioso, o Garobee. O buffet no melhor estilo coma à vontade oferece a versão vegetariana de pratos coreanos. Uma delícia!

Insa-dong: região bem turística.

Visitei também a região de Insa-dong, que é charmosa e bastante turística, com muitas lojinhas de souvenirs, de chá e galerias de arte. Andei bastante pelas ruazinhas laterais, interessantes e mais tranquilas. De uma das pontas, dá para ver parte do Parque Bukhansan.

Bukchon Hanok Village

Voltando no tempo no Bukchon Hanok Village.

Gostei muito de passear pelo Bukchon Hanok Village, com suas mais de 900 casas coreanas tradicionais. Era ali que moravam membros da família real e nobres do Período Joseon. Hoje em dia, além de atrair muitos turistas, o bairro é cenário para a gravação de filmes e novelas de época.

Gyeongbokgung Palace

Palácio Gyeongbokgung: lugar lindo, enorme e cheio de história.

O Palácio Gyeongbokgung impressiona pelo tamanho. Eu cruzava portões e jardins e não via o fim. Ele foi construído em 1395 e foi o principal palácio real da Dinastia Joseon. Mesmo com o frio que fazia no dia em que visitei o palácio, havia muitos turistas em todos os cantos.

O último local que visitei em Seoul foi o bairro Itaewon, o mais multicultural. Esta é a região para ir a restaurantes e bares típicos e as referências a outros países estão nas bandeiras ao longo da avenida principal e até nas calçadas com placas simpáticas ensinando como se diz “olá” em diversos idiomas.

Woljeongsa

São muitos os templos budistas espalhados pelo país e alguns deles oferecem a experiência de vivência no templo. Há visitas que duram apenas algumas horas, mas há também a possibilidade de pernoite.

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Salão do Buda e pagoda em Woljeongsa.

Antes de viajar, fiz a minha reserva no templo Woljeongsa, que fica no Parque Nacional Odaesan. Essa era minha terceira opção, mas se tornou a primeira, pois os outros templos que tentei só aceitavam reservas para fins de semana.

O templo foi fundado em 643, destruído e reconstruído várias vezes. As construções atuais foram erguidas depois da guerra entre as Coreias. O principal símbolo é a pagoda octagonal, com mais de 15 metros de altura. Acredita-se que tenha sido construída no século X e que guarde as relíquias do Buda.

Para chegar ao templo, fui de metrô até a rodoviária Dong Seoul, peguei um ônibus intermunicipal até Jinbu e um ônibus local. Cheguei antes do horário, então aproveitei para tirar fotos e andar um pouquinho pelo templo. Fiquei olhando as opções de trilhas no parque mesmo sabendo que não daria tempo de fazer nenhuma.

Depois de completar minha inscrição, fui encaminhada para o meu quarto. O ondol (sistema de chão aquecido) deixava o quarto bem quentinho. Num canto, estavam o uniforme do templo e os edredons para dormir.

A primeira atividade foi montar o mala, que é uma espécie de rosário budista. Segundo me explicaram, ele possui 108 contas, que representam as 108 agonias humanas.

Participei de duas cerimônias budistas, uma logo após o jantar e outra às 4:20 da manhã. Por um tempo, foi gostoso apenas ouvir os mantras entoados, porém, depois de um tempo, senti falta de entender o o significado de tudo.

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Às 21h, as luzes do templo são apagadas.

À noite, depois que saí do Salão do Buda, resolvi fazer algumas fotos por ali. Estava um pouco distraída e quase trombei com um monge. Ele foi super curioso e me perguntou de onde sou, quanto tempo ficaria na Coreia, se estava sozinha, qual o meu prato coreano favorito e o que eu faço no Brasil. Quando achei que conseguiria fazer algumas perguntas também, ele se despediu e saiu quase correndo.

Fiquei decepcionada com a experiência, pois esperava mais contato com os monges e queria aprender sobre os rituais. Quando escolhi esse programa, fiquei animada com as fotos do pessoal participando da cerimônia do chá e conversando com os monges. Porém, a programação que fizeram para mim era bastante livre e eu estava sozinha quase o tempo todo. Como eu era a única estrangeira no templo nesses dias, acho que eles resolveram simplificar. Uma pena!

Jeju

Quando estava pesquisando sobre o que fazer na Coreia, vi algumas fotos da ilha vulcânica Jeju. Logo depois, meu amigo sugeriu passarmos um fim de semana prolongado por lá e topei na hora, claro. A ilha não é muito grande e, para facilitar os deslocamentos, alugamos um carro.

Hallasan

Na trilha Seongpanak.

A primeira atração foi visitar o Parque Nacional Hallasan, onde fica o ponto mais alto do país: o vulcão Halla, com 1.950 metros. Tinha escolhido fazer a trilha Seongpanak, descrita como a mais longa, porém, indicada para iniciantes. Foram 9,6 km de subida ininterrupta. O tempo estimado para subir era de 4h30, de acordo com o site do parque, mas nós fizemos em 2h40.

Hallasan

Cratera do vulcão Halla.

A vista da cratera do vulcão é incrível! Fizemos algumas fotos ainda na parte demarcada da trilha, mas o local estava muito cheio. Então, decidimos ir um pouco além e seguimos por um trecho da borda. Foi uma ótima ideia. A vista era ainda mais bonita e o local estava tranquilo, sem outros turistas. Tiramos muitas fotos e comemos nossos lanches antes de encararmos a descida.

Jeju

Passeio tranquilo na Manjanggul.

Além do Hallasan, queria conhecer a Manjanggul, uma caverna formada pela passagem da lava do vulcão. Considerada patrimônio da humanidade pela Unesco, a caverna tem cerca de 7,5 km de extensão, porém apenas 1 km está aberto para visitação.

Jeju

“Preciso fazer a foto antes que o grupo de turistas chineses termine de subir as escadas.”

No sul da ilha, encontramos o templo budista Yakcheonsa por acaso e resolvemos conhecê-lo. A arquitetura segue a linha dos templos da Dinastia Joseon, porém o Yakcheonsa foi fundado em 1981. Ao contrário de outros templos, aqui é permitido fotografar dentro do salão do Buda. Enquanto fiquei ali, vi algumas pessoas fazendo as saudações budistas.

Jeju

Pentágonos e hexágonos de origem vulcânica.

Outra atração localizada no sul de Jeju é a formação Jusangjeolli, que surgiu quando a lava do vulcão Halla atingiu o mar na praia de Jungmun. Nesse processo de solidificação da lava, as colunas adquiriram formatos de pentágonos e hexágonos.

Jeju é cheia de museus e parques temáticos. Só para citar alguns: há o Museu do Chocolate, da Educação, da Mitologia Grega, do Urso de Pelúcia (aliás, são dois museus dedicados aos Teddy Bears), um Hall da Fama de Baseball e até um parque temático chamado Love Land com várias estátuas em posições sexuais.

Não estava interessada nesses museus, mas como era caminho, paramos no O’Sulloc Green Tea Museum. Tem uma exposição legal com diversos bules e xícaras de diversos lugares do mundo, porém o que mais gostei foi o bolo de chá verde do café. O prédio é cercado por arbustos de chá verde com acesso liberado para o público. Muita gente aproveita para tirar fotos no meio da plantação.

Seongsan Ilchulbong

Seongsan Ilchulbong, Sunrise Peak.

Formado durante uma erupção vulcânica há mais de 100 mil anos, o Seongsan Ilchulbong, é uma cratera com cerca de 600 m de diâmetro. O acesso é fácil e feito por escadas e a vista é linda. O plano inicial era levantarmos cedo e assistirmos ao nascer do sol no topo, porém, o céu nublado não colaborou.

Ficamos um bom tempo admirando a paisagem e tentando ignorar os turistas barulhentos que passavam por ali. Em um momento, aconteceu algo engraçado. Eu estava distraída, mas o Teemu ouviu um grupo de jovens coreanos ensaiando como dizer algo em inglês. Então, sete rapazes vieram até nós e perguntaram se poderíamos tirar uma foto. Concordamos e esticamos os braços para pegarmos os celulares, mas não era bem isso que eles queriam. Ganhamos bandeirinhas da Coreia do Sul, fomos rodeados por eles e fotografados.

Depois de descermos do Seongsan Ilchulbong, estávamos admirando a vista quando uma chinesa foi chegando muito perto do Teemu. Ele se virou e percebeu que a amiga dela iria bater uma foto dos dois juntos. Sendo simpático, ele fez pose para a foto. A amiga desceu correndo para ser fotografada com ele também e, em seguida, veio ao meu lado, para mais uma fotografia.

Jeju

Diversos oreums no horizonte.

Em Jeju existem mais de 360 oreums, que são pequenos morros de origem vulcânica. Assistimos a um nascer e um pôr do sol de cima do Saebyol, que tem uma vista lista para várias outros oreums e para o Hallasan. Fomos também ao famoso Sangumburi, cuja cratera tem cerca de 2 km, mas como o acesso é muito fácil, havia gente demais por ali e ficamos só um pouquinho.

Nesses oreums, há muitos montes de terra cobertos pela vegetação e, às vezes, cercados por muros baixos formados por pedras. São túmulos coreanos. Segundo o Teemu me explicou, eles escolhem lugares altos e com paisagens bonitas para enterrar os entes queridos.

Bukhansan

O Parque Nacional Bukhansan fica ao norte de Seoul e é um dos mais visitados.

Bukhansan - Seoul

A caminho do Bukhansan.

Escolhemos a trilha Bukhansanseong, que leva ao pico Baegundae, o mais alto do parque, com 836 m. A estrada até os templos budistas é asfaltada e, às vezes, passava algum carro.

A trilha mesmo começou depois do segundo templo. Com muitas pedras de tamanhos variados, usei bastante as mãos na subida. Os últimos 900 metros foram puxados, mas a trilha é muito bem estruturada. Em alguns trechos, há cabos de aço para auxiliar na subida e na descida.

Bukhansan

Seoul vista de cima.

A vista do topo é linda. Dá para ver Seoul pequenininha e os outros picos do parque. Demos sorte, pois a visibilidade estava boa nesse dia. Ficamos um tempo ali relaxando, apreciando a vista e comendo nossos lanchinhos.

Quando chegamos, já havia muitas pessoas no topo e, enquanto ficamos por ali, esse número aumentou bastante. Por isso, resolvemos descer e procurar um lugar para almoçarmos.

O parque ainda tinha muitas árvores com as cores lindas do outono e aproveitei para tirar bastante fotos. Fiquei com vontade de fazer outras trilhas, mas, como iria pedalar no dia seguinte, não quis forçar muito.

Seoraksan

Seoraksan

Seoraksan: o parque que mais gostei.

Este parque nacional fica na costa leste e tem várias opções de trilhas para até três dias, indicadas no site. Depois de pesquisar bastante as opções de como chegar ao parque (que possui mais de uma entrada), decidi fazer uma trilha em dois dias e ver o nascer do sol do pico mais alto do parque.

Saindo de Dong Seoul de novo, peguei um ônibus que vai para Yangyang e para na entrada do parque em Osaek. Além da cabana do guarda, havia banheiros e umas máquinas para comprar bebidas na entrada. Nada de lojas, cafés e restaurantes como na entrada principal.

A subida de 5,3 km começa logo depois da cabana. Esse ponto fica a uns 650 m do nível do mar e leva até o Pico Daecheongbong, o terceiro mais alto do país, a 1.708 m. Então, é subida praticamente o tempo todo. Encontrei alguns coreanos pelo caminho, mas, de todas as trilhas que fiz na Coreia, esta era a mais vazia.

Seoraksan

Fingindo que não estava morrendo de frio.

Quando cheguei ao topo, o vento era tão forte, que senti minhas mãos congelando, pois estava sem luvas. Por isso, fiquei só um pouquinho ali, tirei fotos correndo e segui para o abrigo Jungcheongbong, a 600 m do pico.

Shelter in Seoraksan

No abrigo Jungcheongbong tem até wi-fi.

Para passar a noite ali, é necessário fazer reserva pela internet. Li que, durante a alta temporada, é bem difícil conseguir uma vaga, mas tive sorte. Consegui a minha apenas dois dias antes e o abrigo não estava cheio.

As minhas mãos estavam tão geladas que doíam e um dos guardas (o único que falava inglês) me entregou um saquinho com algum material que gera calor. Uma maravilha! Depois que o corpo aqueceu de novo, coloquei mais roupas e voltei para o pico para tirar fotos do por-do-sol.

Já instalada no meu cantinho, voltei para a entrada do abrigo para carregar o celular no “posto de carregamento”: um espaço com várias tomadas e cabos de diversos modelos. A regalia incluía também wi-fi gratuito.

Única estrangeira entre coreanos, acabei ganhando alguns mimos. Por meio de mímica, um rapaz me chamou para jantar com ele e os amigos, mas educadamente recusei e uma mulher perguntou se eu havia comido e me ofereceu frutas.

Depois, uma moça me ofereceu um pacotinho de bolachas e perguntou em inglês de onde eu sou. Tentei conversar um pouco mais, porém, o inglês dela não ajudava muito.

Voltei à entrada para trocar mensagens com o Artur e o guarda que fala inglês apareceu com dois copinhos de café e dois bombons. Ele me ofereceu um dos copos, me deu os dois doces e puxou papo. Conversamos por um tempinho e perguntei como ele aprendeu inglês, já que é raro coreanos falarem esse idioma. A resposta foi: “na escola”. E ele aproveita para praticar com os estrangeiros que passam por ali. Que ele se lembre, foi a primeira vez que uma brasileira dormiu nesse abrigo.

Papo vai, papo vem, ele me deu uma pulseira feita de contas de madeira e com o símbolo do rato, o signo dele no horóscopo chinês. Disse que foi comprada no Geumganggul, um santuário do parque que fica em uma caverna.

Seoraksan

Nascer do sol no Pico Daecheongbong.

Dormi pouco e acordei com o barulho dos coreanos se arrumando para sair. Organizei minhas coisas e voltei ao Daecheongbong para ver o sol nascer. Já tinha bastante gente ali e logo chegaram dois rapazes que tinham feito a trilha de Osaek durante a madrugada.

O cenário estava lindo! Montanhas, mar, nuvens e sol.

Depois de fazer muitas fotos, voltei ao abrigo para pegar minha mochila e comecei a descida em direção à entrada principal do parque. Fui bem devagar no início para não forçar os joelhos na descida e porque havia uma camada fina de gelo nas pedras.

Um coreano estava na minha frente e ficava sempre olhando para trás para ver se eu estava bem. Trocamos algumas palavras e ele ficou surpreso ao saber que estava fazendo a trilha sozinha. E não foi o único, pois outras pessoas haviam perguntado a mesma coisa e tido a mesma reação. Reparei que dificilmente os coreanos estão sozinhos e, de acordo com um livro que li sobre a sociedade coreana (escrito por um coreano), isso tem a ver com um senso de comunidade muito enraizado na cultura deles.

Levei quatro horas e meia para fazer os 11 km até a entrada do parque, fazendo várias paradas para tirar fotos. Queria fazer a trilha até o Geumganggul, mas não daria tempo e não tinha certeza se as minhas pernas aguentariam. Fiquei pensando que deveria ter planejado mais um dia no parque. Assim poderia ir até o santuário e ainda fazer a trilha do Ulsanbawi, que tem 4 km, uma escada com mais de 800 degraus e é considerada a mais difícil do parque.

Seoraksan

Buda da Reunificação.

Na entrada principal do parque, fica o Buda da Reunificação, com 14,6 m de altura, excluindo o halo e o pedestal, ou 18,9 m no total. É considerada a maior estátua do Buda sentado feita em bronze no mundo e simboliza a esperança dos coreanos na reunificação das Coreias do Sul e do Norte.

Peguei o ônibus para Sokcho na entrada do parque. Fiquei prestando atenção no caminho e nas gravações que indicam os pontos de parada na esperança de saber onde descer. Até que, em determinada esquina, o motorista olha para mim pelo espelho retrovisor e fala algo em coreano. Repeti mais ou menos o que o Teemu havia me ensinado “busso turminal” e o motorista balançou a cabeça de maneira positiva e indicou a rua por onde eu deveria seguir até a rodoviária.

Comida

Vegetais frescos no mercado em Suwon.

Um dos primeiros lugares que visitei um Suwon foi um mercado que se estende por várias ruas num centrinho próximo à Universidade Ajou. Cozinhamos alguns dias e alguns ingredientes saíram desse mercado como o tofu fresco e ainda quente e a gim, a alga coreana (conhecida pelos brasileiros pelo nome japonês: nori) que vem tostada e temperada com óleo de gergelim e sal.

Koreans like it hot

A base do gochujang: muita pimenta.

Vi muitos sacos de pimenta vermelha, que é uma paixão coreana. Eles fazem uma pasta com essa pimenta, arroz, soja fermentada e sal, chamada de gochujang. Sempre pedia comida sem pimenta e, mesmo assim, se algum ingrediente usado era preparado com gochujang, o prato inteiro ficava picante.

Ainda no Brasil, me inscrevi em um curso de culinária coreana vegetariana. O curso é chamado de Temple Cuisine (cozinha de templo), pois, nos diversos templos budistas espalhados pelo país, a alimentação adotada é a vegetariana. Além de pimenta, claro, eles usam muito óleo e sementes de gergelim, shoyu e alho.

Comida de templo: perfeita para vegetarianos.

Em Jeju, jantei em um restaurante tradicional que serve comida de templo. O prato principal foi arroz embrulhado em folha de lótus e cozido no vapor. Como toda boa refeição coreana, a mesa estava cheia de pratinhos, os banchans, com vários acompanhamentos. Tudo muito saboroso! Foram servidos dois chás: um antes e outro depois do jantar para auxiliar na digestão.

Comi bastante bibimbap, que é a versão coreana de arroz com vegetais. Sempre que tinha, eu pedia a versão dolsot, servida em uma tigela tão quente que o arroz no fundo queima um pouco e forma uma casquinha deliciosa.

Gostei também de gimbap, o sushi coreano, que pode ser feito com diversos recheios, mas nunca com peixe cru. Comi apenas com legumes, porém, vi num cardápio a opção com queijo, que achei um pouco estranha.

Bolinhos de arroz de vários tipos.

Os coreanos não comem muitos doces e as sobremesas não são adocicadas como as brasileiras. Experimentei alguns bolinhos de arroz puros e recheados com uma mistura de castanhas e sementes de gergelim. São gostosos, mas os meus doces coreanos favoritos são Bungeoppang e Jjinbbang. O primeiro, vendido em formato de peixinho, é uma massa de crepe recheada com uma pasta de feijão azuki. O segundo é um pão super macio feito no vapor e com o mesmo recheio de feijão. São deliciosos.

Experimentei também o kkultarae, um doce feito com 16 mil fios finíssimos de mel, recheado com amêndoas e parecido com um casulo. O processo que transforma o bloco endurecido de mel nesse doce é bem interessante. A partir de um buraco no centro, começa a parte de esticar a “massa” para aumentar o buraco, torcer o doce, formando um oito e dobrá-lo ao meio, multiplicando o número de fios. Para que eles não grudem, usa-se farinha de arroz ou amido de milho.

Outros

Depois de terminarmos a trilha no Hallasan, paramos para comer em frente à entrada antes de irmos embora. Aí, passaram duas senhoras coreanas olhando na nossa direção e uma delas apontou para mim e fez um comentário. O Teemu disse que ela estava falando sobre o meu nariz, que, por sinal, é grande segundo os padrões ocidentais. Eu ri e elas também. E a senhora ainda repetiu para o Teemu que meu nariz é lindo.

Tinha ouvido falar que os coreanos são bastante diretos ao fazer perguntas e observações, o que pode soar um pouco rude, às vezes. Eles não veem problema em dizer: “você engordou”, por exemplo. Pelo jeito, eles também não têm receio nenhum de apontar e fazer comentários sobre outras pessoas nas ruas.

Por causa do idioma, usei muita mímica. Só que, às vezes, nem assim funcionava. Enquanto esperava o ônibus para Jinbu, depois do temple stay, uma velhinha coreana tentou puxar papo comigo. Encolhi os ombros, balancei a cabeça e disse “sorry” para indicar que não entendia o que ela falava, mas ela apenas repetiu o que havia dito antes, com o mesmo tom de quem pergunta alguma coisa. Fofa!

Tem mais fotos aqui.