Cicloviagem Serra da Estrela e Rio Zêzere

Depois do trekking pelas Serras da Freita e da Arada, decidi que a próxima atividade ao ar livre durante as férias seria uma cicloviagem. A princípio, pensei em cruzar a fronteira pedalando e visitar a Espanha, porém, com a segunda onda do Covid-19 por lá, decidi ficar em terras lusitanas e comecei a traçar uma rota apenas para a região da Serra da Estrela, que depois foi alterada para incluir parte da Grande Rota do Zêzere (GRZ ou GR33).

1. Guarda – Nabainhos (53,71 km – 1.274 m)

Como sempre acontece comigo, o primeiro dia de cicloviagem geralmente vem depois de uma noite mal dormida devido ao misto de ansiedade e de ter ido dormir tarde para organizar os últimos detalhes. Fomos de trem até Guarda e já deu para admirar os morros pelos quais iríamos pedalar nos dias seguintes.

A temperatura estava mais fresca do que em Lisboa e, depois de um café, fomos encarar o percurso de longas subidas seguidas por longas descidas. 

No vilarejo de Videmonte, enquanto pegávamos água, um senhor puxou papo e fez questão de contar sobre a viagem de férias ao Brasil há uns tantos anos. Ele falou das cidades por onde passou, inclusive Itanhaém, onde cresci. 

Primeiro trecho da descida para Linhares da Beira. Foto: Artur Vieira.

A partir daí, seguimos por um trecho de terra que começou numa subida com muitas pedras soltas e depois virou um estradão quase plano. Seria perfeito para ganharmos um pouco de velocidade não fosse o vento contra ridículo e gelado. 

Linhares da Beira, uma das muitas aldeias históricas de Portugal. Foto: Artur Vieira.

A subida para Folgosinho foi puxada e sofrida, mas compensada pelo descida até Nabainhos, o nosso destino do dia. Aqui, conhecemos um casal muito simpático, a Paula e o Daniel, que disse que poderíamos acampar no quintal da casa deles. Eles administram a Quinta dos Gata, uma excelente hospedagem na região. 

Foi uma noite de troca de informações: falamos sobre bicicleta com o filho deles, o João, que está começando a pedalar mais a sério, e recebemos várias dicas sobre a região. Ainda experimentamos uma geleia de pêssegos divina feita pelo Daniel com as frutas do quintal.

2. Nabainhos – Manteigas (32,07 km – 968 m)

Dica preciosa dos Gata: a estrada entre Folgosinho e Manteigas, já no primeiro trecho de descida. Foto: Artur Vieira.

Como toda viagem que planejo, é claro que alteramos a rota. Desta vez as mudanças vieram ainda mais rápidas do que o usual, mas o motivo era nobre: uma das dicas do Daniel e do João foi sobre uma estrada que liga Folgosinho a Manteigas. Segundo o João, a estrada mais linda por onde ele já passou. A subida para Folgosinho foi gostosa, mas a partir daí ficou cansativa, com trechos íngremes. 

Já que não deu para conhecermos o Mondeguinho (outra dica dos Gata), ao menos cruzamos o Mondêgo. Foto: Artur Vieira.

A estrada realmente é bem bonita e vimos muitas indicações de trilhas para caminhada. Me senti pequena diante dos morros enormes que se erguiam ao nosso redor. Assim como na véspera, o caminho foi marcado por subidas e descidas longas e muitas curvas. A última descida, já na EN 232, foi um pouquinho mais movimentada, já que estávamos chegando à versão tuga de Campos do Jordão, e com bastante sombra das castanheiras carregadas de castanha-portuguesa. 

3. Manteigas – Unhais da Serra (43,35 km – 1.298 m)

No dia em que tínhamos a subida mais longa da viagem logo de cara, não foi nada animador acordar com cólica. Os primeiros quilômetros foram sofridos, gelados e eu só conseguia pensar na Stacy Sims explicando como o ciclo menstrual influencia o desempenho das mulheres nos esportes.

Uma subida linda dessas e meu útero me torturando. Foto: Artur Vieira.

Já tinha feito essa estrada de carro durante um inverno e foi bem legal ter a chance de tirar fotos ao longo do caminho desta vez – a estrada é de pista simples e sem acostamento. Quando chegamos ao Covão d’Ametade, paramos até para passar um café, que foi animador para enfrentarmos a segunda parte da subida, um tanto mais puxada – embora uns motoqueiros tenham jurado que o pior já tinha ficado para trás.

Alguém estava beeeeeem feliz no ponto mais alto de Portugal continental. Foto: Artur Vieira.

Fiquei super feliz ao chegarmos ao ponto mais alto de Portugal continental de bike, embora, sem neve desta vez. Comemos, bebemos o resto do café, tiramos fotos e voltamos para a estrada porque agora era “só” descer. 

Depois de muito subir, agora é só descer pelos próximos 20km. Foto: Artur Vieira.

Achei lindíssimo o caminho até Unhais da Serra e passamos pelo segundo trecho de gravel da viagem – evitamos o restante porque a trepidação deste dia foi tanta que inchou bastante meu cotovelo com placa (ele tem estado chatinho desde um tombo besta). Em uma das várias curvas em cotovelo do caminho, ainda tive o privilégio de ver um pássaro enorme levantar voo bem na minha frente.

Segunda viagem acampando com as sensacionais redes Kampa. Foto: Artur Vieira.

O acampamento do dia foi à beira do rio Zêzere, em um estacionamento para autocaravanas. Encerramos o dia muito bem com banho de rio, jantar caprichado, queijo de Seia e acampamento com redes.

4. Unhais da Serra – Cambas (57,54 km – 1.050 m)

O friozinho da manhã me fez enrolar um pouco dentro do saco de dormir. Caprichamos no café e partimos para 20km gelados de descida. As estradas eram tranquilas e as paisagens bem bonitas. Em alguns trechos, víamos o rio Zêzere e os morros da Serra da Estrela ao fundo. Deu até mesmo para vermos as torres no topo.

Cerca de um mês antes, não poderíamos pedalar por essa região devido aos incêndios.

Pedalamos um trecho próximo à Aldeia de São Francisco de Assis, que foi atingido por incêndios no final de agosto e começo de setembro deste ano. Além do cenário desolador, pairava no ar um resquício do cheiro de queimado. Por sorte, a aldeia não foi atingida. 

Ficamos um tanto decepcionados com Dornelas do Zêzere, que é bem menor do que imaginamos que seria. Ao menos, encontramos moradores muito simpáticos, como a senhora que ao me ver agachada num pedacinho de sombra a olhar o GPS disse: “Ô, menina, sente-se no banco daqui de casa para descansar” e ainda nos ofereceu água e uma cervejinha. Aceitamos a primeira, mas, apesar da tentação por causa do calor, educadamente recusamos a segunda. 

Encerrando os trabalhos do dia em Cambas. Foto: Artur Vieira.

Depois do frio da manhã, a temperatura subiu bastante. Em Cambas, encontramos uma praia fluvial com excelente estrutura (banheiros, água corrente, mesas e área coberta) e decidimos encerrar o dia por ali. Nosso acampamento foi em uma estação intermodal da Grande Rota do Zêzere, um percurso de 370km que pode ser percorrido à pé, de mtb ou de canoa. Nessas estações intermodais, há espaços para armazenar bicicletas e canoas para quem desejar alternar os meios de transportes ao longo do caminho. 

5. Cambas – Cerejeira/Ferreira do Zêzere (77,08 km – 1.294 m)

Não sei se foi o frio da manhã mais gelada da viagem ou a subida que teríamos que encarar a seguir, mas enrolamos bastante para sair. De volta à estrada, logo de cara foram cerca de 5km com 400m de altimetria. 

O dia começou com uma subida de 4,9km e 393m.

Mais ou menos na metade da subida, fomos ultrapassados por um ciclista com bolsas de bikepacking na bicicleta. Perguntei se ele estava fazendo o Portugal Divide e ouvi em tom de surpresa “vocês conhecem essa prova?”. “Lógico que sim! Inclusive, dois amigos completaram no ano passado”. Acompanhei pela página da prova e vi que o Paulo Barbas também concluiu o desafio.

Por coincidência, esse trecho por onde estávamos pedalando havia sido percorrido por esses mesmo amigos, o Tux e a Gabi. Ao que parece, é uma rota usual no Portugal Divide.

Neste dia pedalamos por estradas mais movimentadas e, portanto, chatinhas. Embora houvesse acostamento com espaço suficiente para pedalarmos com segurança, é um tanto maçante ficar ouvindo o barulho dos carros. Encontramos vários motociclistas e, em uma das paradas, gastei meu alemão para confirmar que estavam a fazer a EN2, uma rota bastante popular em Portugal.

Pedal do dia encerrado, redes e tarp montadas, agora é tomar banho e jantar. Foto: Artur Vieira.

O acampamento do dia foi em Cerejeira, na zona rural de Ferreira do Zêzere. Para chegar lá, pedalamos 10km a mais do que havíamos planejado para o dia. Isso porque não encontramos nenhum lugar que nos agradou em Dornes. O camping Quinta da Cerejeira é gerido por holandeses e tem uma ótima estrutura. Aproveitamos bem já que éramos os únicos hóspedes. 

6. Cerejeira/Ferreira do Zêzere – Fátima (48,61 km – 739 m)

Apesar de estar bem instalada, não tive uma boa noite de sono. Acordei de madrugada com um pernilongo me atormentando e depois, com a chuva. Por sorte, tínhamos montado a tarp, mas meu saco de dormir molhou um pouquinho na parte que ficou descoberta.

Até que enfim um lugar para comprar uma câmara de ar ou um mini automóvel.

Antes de seguirmos para o destino do dia, fomos até o centro de Ferreira do Zêzere onde finalmente encontramos uma bicicletaria (entre outras coisas) para comprarmos uma câmara nova para o pneu dianteiro do Artur. Na descida para Unhais da Serra, ele parou a bike num lugar com espinhos e é óbvio que “deu ruim”. A câmara reserva que levávamos rasgou no bico pouco depois de ser trocada, o primeiro remendo não pegou direito e depois foram surgindo outros microfuros. 

Como estávamos indo para uma região mais povoada, imaginamos que as estradas seriam um tanto sem graça e nos enganamos. Havia trechos muito bonitos e, a melhor parte, figueiras com figos deliciosos. Apesar do vento e das nuvens, escapamos da chuva e, pouco depois do almoço, chegamos à Fátima. Optamos por ficar em um hotel, o que foi muito bom para secarmos os sacos de dormir, as redes e a tarp.

Jantamos com um primo do Artur que nos levou a um restaurante peculiar. Ao chegarmos, parecia fechado, mas, como um assíduo frequentador, ele nos levou para uma porta lateral e depois descemos para a cave. Nada como estar com um local.

7. Fátima – Entroncamento (39,67 km – 231 m)

O último dia de viagem era o mais tranquilo em termos de altimetria, praticamente, só descida. Para “animar” um pouco, o tempo amanheceu chuvoso e com rajadas fortes de vento – depois li que a região central do país estava em alerta amarelo por causa de uma depressão, com rajadas de vento que poderiam chegar a 85km/h no litoral e seriam sentidas em todo o interior. Animador, huh?

Foto depois do café em São Mamede. Foto: Artur Vieira.

Mesmo assim, insisti em um pequeno desvio na rota e fomos tomar café e comer um salame de chocolate numa freguesia vizinha de Fátima, a pequena São Mamede. De quebra, ainda descobri que existe um “Caminho de Nazaré”.

A chuva deixou o pedal gelado. Meu peito estava aquecido, mas senti falta de um par de cobre-sapatilhas e de luvas de dedos longos. Em geral, pegamos estradas tranquilas e, no tramo com caminhões, éramos bastante respeitados. Fiquei tensa apenas quando, ao fazer uma curva em uma rotatória, o vento quase me jogou para fora da estrada. Pelos menos, tivemos um trecho de vento a favor que rendeu bastante.

Descemos a Serra de Aires e Candeeiros, passamos por Torres Novas e logo mais chegamos à estação de trem em Entroncamento. O pedal rendeu mais do que imaginávamos e ficamos duas horas esperando nosso trem – mais tempo do que a viagem de 52 minutos até Lisboa.

Apesar de ter planejando tanto o roteiro, adorei o fato de termos feito quase tudo diferente. Usamos bastante o Komoot para traçar os percursos diários e, em geral, eles nos direcionou para estradas tranquilas e bem bonitas. Vai demorar um pouco até eu tirar férias de novo, mas já estou animada para as próximas minicicloviagens.

Para quem quiser mais informações sobre a rota que percorremos, subi o gpx no Wikiloc.

Trekking nas Serras da Freita e da Arada

 

Pernoite Serra da Arada

Quintal do primeiro pernoite.

O primeiro trekking em terras portuguesas, sem dúvida, o mais difícil que fiz até hoje. Depois de considerarmos algumas opções, seguimos a excelente sugestão dos Bons Selvagens e fomos encarar a rota O Morto que Matou o Vivo.

Gestoso à Serra da Arada

O início do trekking foi em Gestoso e, considerando que o trajeto é circular, o jeito mais fácil de chegarmos lá foi alugar um carro. Pegamos a estrada pela manhã, contudo, considerando alguns atrasos de praxe, iniciamos a caminhada às 15h50, o que não foi tão ruim já que os dias são mais longos nesta época do ano. Em pouco mais de 4km, passamos pelas aldeias Gestoso, Gestosinho e Bondança, antes de começarmos a primeira subida mais íngreme.

TarpOca

Com a previsão de tempo bom, deixamos a barraca em casa.

A primeira noite foi em meio a torres eólicas, com vista para diversos morros. Achei um luxo montar o acampamento às 20h e jantar ainda com luz do dia. Quando escureceu, foi interessante ver as luzes acesas ao longe e notar que há muito mais aldeias por ali do que consegui enxergar durante o dia.

Não dormi tão bem quanto esperava e, pela manhã, senti as primeiras dores musculares, mas acordei bem disposta e animada pelo nascer do sol visto do alto. Depois de um bom café, partimos às 9h.

Serra da Arada a Drave

Quando descer cansa

Muito cuidado para não escorregar nessas pedras.

Logo no começo do segundo dia, encaramos o trecho que considerei o mais exaustivo de toda a travessia. Foram apenas 2km em uma descida tão tensa que levamos quase 4h para percorrê-la. Além de íngreme (mais de 300m de desnível), era um curso de água com pedras escorregadias e cercado por vegetação. Alguns troncos e galhos foram providenciais, mas era preciso tomar cuidado já que uma das plantas da região é cheia de espinhos.

No final, cruzamos uma estrada e passamos pela pequena Póvoa das Leiras. Era dia de mercado e foi singular perceber que se tratava de um minimercado sobre rodas. Cumprimentamos os locais, enquanto um senhor separava os pedidos de dentro do baú.

Ao deixarmos o trechinho de asfalto da vila para trás, notamos setas indicando o caminho da Ultra Trail Serra da Freita. O percurso era contrário ao que estávamos seguindo e fiquei pensando em como seria subir os mesmos 2km molhados que havíamos percorrido.

As árvores do caminho

A vista da véspera foi o caminho do dia.

Voltamos a subir por uma trilha bem bonita em uma encosta até chegarmos ao cume da montanha oposta ao nosso acampamento da noite anterior. Apesar de ser mais aberto, lembrei da crista do Capim Amarelo, na Serra Fina. A descida, que começou suave neste ponto, logo se tornou acentuada até chegarmos ao Rio Paivó, onde aproveitamos a água para relaxar antes de encararmos a próxima subida.

Depois de mais um cume, passamos a outra encosta e, em seguida, a uma estrada de terra. O dia rendeu mais do que o esperado e logo estávamos na aldeia desabitada de Drave. Embora não haja moradores desde 2000, descobrimos que o local é um ponto turístico popular tanto pela sua história, quanto pelos rios e cachoeiras ao seu redor. Foi o lugar onde encontramos mais pessoas durante todo o percurso, 12, talvez.

Aldeia desabitada

A aldeia de Drave e suas casinhas de pedra.

A aldeia é pitoresca com suas casas de pedra e telhados de xisto, algumas das quais foram compradas pelos escoteiros com o intuito de criarem uma Base Nacional. Sem dúvida, é um lugar para voltar com mais tempo para explorar as trilhas e aproveitar as águas.

Para encerrar o dia, finalmente, estreei minha rede Kampa e dormi super bem. Com os ombros doloridos por causa da mochila, a rede foi bastante confortável e isso não é jabá.

Drave a Rio de Frades

A saída de Drave foi morro acima, claro, e logo despencamos metade da altimetria que acabáramos de ganhar; a descida era cheia de pedras soltas e exigia atenção.

Mar de morros portugueses

Para sair de Drave é preciso subir.

Levando em consideração nosso atual condicionamento físico e o tempo que nos restava para completar o percurso, o Artur havia proposto um plano B, encurtando a rota num ponto mais adiante. O problema era saber se conseguiríamos atravessar o rio no local. Como “navegadora” expliquei que ali era o momento de decidirmos o que fazer e optamos por percorrer um trecho no asfalto até voltarmos à continuação da trilha. Isso nos permitiu ver por onde saímos de Drave e conhecer o chamado Portal do Inferno e Garra.

O rio é a trilha

Quando o rio é a trilha.

A volta à trilha nos levou por um pequeno riacho e fomos descendo até Regoufe, a única aldeia do caminho onde encontramos um lugar para comer, o Café Montanha, e aproveitamos para tomar uma cerveja já que o calor por aqui não é brincadeira. Vale também pela simpatia no atendimento.

De Regoufe a Covelo de Paivó

De Regoufe a Covelo de Paivó por uma estradinha tranquila.

De Regoufe a Covelo de Paivó são 4km praticamente de descida. Ao passar pela aldeia, um senhor que acabara de encostar sua bicicleta num cantinho veio conversar comigo para confirmar se estava vindo de Regoufe e saber qual meu destino. Me despedi com a recomendação para aproveitar enquanto tenho forças.

Trilha pelo rio

Quando o rio é novamente a trilha.

Saindo da aldeia, a trilha seguia por mais um rio. Meu primeiro pensamento foi que não haveria subidas ou descidas fortes e esse trecho renderia. Não poderia estar mais enganada. Alguns pontos nas margens eram tranquilos para caminhar com um pouco de areia ou pedras, outros estavam tomados por árvores, arbustos e a infame planta cheia de espinhos. Alternamos a margem, mas era preciso estar atento aos pontos em que dava para atravessar de um lado para o outro.

O cansaço foi aumentando conforme a luz do dia diminuía. Pensamos em acampar numa parte um pouco mais alta ao lado do rio, mas as marcas de cheias passadas não eram animadoras. Apesar de uma previsão do tempo boa, um quê de prudência sempre vai bem.

Superando obstáculos

Algumas das árvores caídas que encontramos no caminho.

Como o Rio de Frades corre entre colinas com plantações de eucalipto, logo notei os terraços nas encostas e deduzi que levariam a uma estrada. Com várias árvores caídas pelo caminho, a solução foi “escalar” algumas delas até uma estrada dentro da plantação e então para a estrada principal.

Pernoite no ponto de ônibus

Registro do nosso último acampamento antes de desmontarmos as redes.

Chegamos à parte baixa da aldeia Rio de Frades pelo asfalto e optamos por ficar na parte baixa que é mais vazia e também porque eu estava sentido uma dor nada agradável no joelho. Montamos as redes em um ponto de ônibus na parte recuada de uma curva e dormimos embalados pelo som do rio.

Rio de Frades a Gestoso

Rio de Frades

Parte alta de Rio de Frades com suas casas de pedra e hortas.

Acordamos cedo para nosso último dia de caminhada. A trilha nos levou à parte alta da aldeia e fiquei encantada com o charme do lugar. Nosso caminho era o mesmo da PR6 (Pequena Rota), também conhecida como Caminho do Carteiro, que liga Rio de Frades a Tebilhão, passando por Cabreiros.

 

Vista quase no final da subida

Nada mal tomar um segundo café da manhã com uma vista dessas.

No final da parte mais íngreme da subida e antes de a trilha seguir por um bosque, fizemos uma pausa para apreciar a vista enquanto tomávamos o segundo café da manhã. Troquei rápidas palavras com uma senhora em Cabreiros e seguimos para Tebilhão por uma estradinha curta, que me lembrava paisagens de filmes da Idade Média.

Cabreiros e Tebilhão

Tebilhão vista a partir de Cabreiros.

Continuamos por um trecho da GR28 (Grande Rota), com um desvio à la Bons Selvagens, por uma canaleta de água. Os espinhos irritantes estavam lá, mas com o calor que fazia era bem melhor do que seguir pelo asfalto. Subimos mais um pouco e chegamos a outro riozinho convidativo para uma pausa.

Enfim, Gestoso

Encerrando o primeiro trekking em terras portuguesas

A subida continuou suave e cercada por árvores por uns 2km e foi sofrido dar adeus às sombras e voltar ao sol quente. Encaramos uma última ladeira e avistamos novamente a paisagem rochosa em torno de Gestoso que tanto me fazem pensar no Parque Nacional de Itatiaia. Pouco depois, já foi possível avistar a aldeia. Encerramos o trekking e pegamos a estrada de volta para Lisboa.

Montanhas Mágicas

O caminho que percorremos faz parte de uma região chamada de Montanhas Mágicas e é óbvio que o nome me fez pensar nas Montanhas Mágicas da Mantiqueira. Assim como a Serra que Chora, as montanhas portuguesas nos presentearam com muita água, paisagens lindas e subidas de respeito.

O trekking foi mais puxado do que eu esperava, ainda mais depois de um ano e meio sem colocar a cargueira nas costas e dois meses de quarentena. Por termos encurtado o percurso, deixamos de percorrer justamente o trecho do Morto que Matou o Vivo, que foi a inspiração para esse destino. Sem problemas, isso já me atiçou para traçar uma rota em que ele esteja incluído.

Números

Dados gravados no Garmin eTrex Touch 35 e exportados para o Strava.

  • Gestoso à Serra da Arada: 9,39 km – 531 m
  • Serra da Arada a Drave: 13,48 km – 720 m
  • Drave a Rio de Frades: 20,44 km – 839 m
  • Rio de Frades a Gestoso: 13,39 km – 988 m

Usei os mesmos arquivos de GPX no Google Earth e o resultado foram 6km a menos percorridos. Vai entender! Se alguém souber, os comentários estão abertos.

Google Earth

Google Earth indica 6km a menos do que o Garmin/Strava. 

Minicicloviagem no Alentejo

20190320_172725

Entre Évora e Reguendos de Monsaraz.

Para comemorarmos nossos aniversários, decidimos fazer uma viagem curtinha de bicicleta pelo Alentejo, aproveitando dois dias de folga do Artur. Tracei a rota seguindo a sugestão da querida Luana, que nos recomendou algumas vezes uma visita ao Castelo de Monsaraz. Optamos por ir de trem (comboio) até Évora e gostamos da facilidade que foi viajar com as bikes – há um espaço reservado no vagão, com ganchos para pendurá-las.

Começamos a pedalar depois do almoço. Em poucos quilômetros, passamos da cidade para a zona rural. O asfalto foi substituído primeiro por uma estrada de terra batida com pouco cascalho e depois por trechos com pedras maiores e um pouco de areia. Em certo ponto, vimos uma placa indicando que estávamos em um trecho do Caminho de Santiago Português, na versão do interior. A paisagem nessa região é linda e fizemos muitas paradas para admirar a vista e tirar algumas fotos.

Confesso que tracei a rota sem me preocupar muito com o terreno. Apenas usei a opção “follow roads” do Ride with GPS e fomos surpreendidos por trechos mais técnicos, tanto em descidas quanto em subidas. Deu saudade de uma mbt (btt), mas fomos bem com nossas tourings.

20190320_173233

Caindo de amores pelo Alentejo.

Fizemos uma pausa mais longa em Montoito para comermos algo e, pelo horário, decidimos ir direto para Reguengos de Monsaraz ao invés de visitar o castelo.

A quantidade de vinícolas faz jus ao título de capital dos vinhos de Portugal. Fizemos boas escolhas na cidade. A hospedagem na Casa Monsaraz foi ótima – o café a manhã (pequeno almoço) estava delicioso e havia espaço para deixarmos as bikes. O jantar foi no Chafarica Tapas & Wine Bar, com mais opções vegetarianas e um delicioso lanche de cogumelo – sugestão do atendente.

Castelo de Monsaraz

20190321_113328

Videira no castelo e pedras como na subida.

Como não poderia faltar, no dia seguinte fomos ao Castelo de Monsaraz, próximo à fronteira com a Espanha. Optamos por uma subida alternativa, um calçamento de pedras onde o mato já estava alto. Ali ainda havia fitas marcando o trajeto de uma prova de btt.

20190320_180602

Muito talento nas selfies. Só que não!

Aproveitamos a vista e duas taças de sangria antes de pegarmos o rumo para Évora.

A volta foi pelas estradas EN 256 e 18. Ainda próximos ao castelo, vimos um carro capotado e uma van (carrinha) com parte da lateral avariada. Mas essa visão não serviu de estímulo aos outros motoristas para tirarem os pés do acelerador. Foram poucos os motoristas que realmente tomaram a distância correta ao nos ultrapassarem e ainda menos aqueles que seguiam na velocidade máxima da via.

Paramos em Vendinha para um café e um pastel de nata e ficamos um tempo ali observando o ritmo tranquilo da cidade. Como a estrada não tinha nenhum atrativo, os últimos quilômetros foram pedalados no esquema “vamos pegar o penúltimo trem ao invés do último?”.

20190321_161518

Agora é só pegar o trem de volta para Lisboa.

Mesmo curta, nossa primeira cicloviagem em Portugal nos deixou bastante animados e mal vemos a hora de conhecermos outros caminhos.

Serra Fina em três dias

img_7178

Casinha na montanha.

Depois de adiar algumas vezes a travessia da Serra Fina, finalmente, surgiu a chance de riscá-la da minha “lista de desejos”. Nem me lembro direito como foi, mas, quando dei por mim, estava planejando por a façanha em prática no final de julho com as queridas Luana e Sofia.

Para facilitar a logística, minha mochila e parte da comida e do equipamento ficaram com a Lu e a Sofi já que o combinado era elas me pegarem de carro no trabalho na sexta-feira. Tive uma semana bem corrida antes da travessia, com direito a viagem a trabalho, e o companheirismo que eu já sabia existir foi reforçado mais ainda quando recebi uma foto com as três mochilas organizadas pelas duas.

Na sexta, tivemos alguns contratempos e acabamos chegando depois da meia-noite em Passa Quatro. Agilizamos o que foi possível na hora e fomos dormir. Nosso transfer estava agendado para as 4h30, mas o atraso foi grande e a Patrícia chegou quase às 6h da manhã. Pelo menos, deu tempo para tomarmos o café da pousada já que o Sérgio e a esposa prepararam tudo às 5h30.

Primeiro dia – Da Toca do Lobo até depois do Maracanãzinho (8,6km)

No caminho para a Toca do Lobo havia vários corredores de montanha. E eu sabia de alguns conhecidos que estavam por ali para realizar meia travessia, mas vi que tinham saído bem cedo e, pelo ritmo deles, com certeza, não iríamos nos encontrar (e não nos vimos mesmo). Nos deparamos também com grupos guiados, que iriam fazer a travessia em dois dias, e descobrimos que algumas agências oferecem o serviço de porteadores, que levam as barracas e parte da comida para o local do pernoite.

p1100684_

Mesmo começando mais tarde, ainda pegamos trechos com bastante sombra.

Começamos a caminhada às 6h45, subindo sem pressa. Tínhamos lido que o trecho até o Capim Amarelo é o pior pelo ganho de altimetria e não queríamos abusar, porém, notamos que a subida é íngreme, mas menos dura do que havíamos imaginado.

Paramos ora para tirar o casaco, ora para fotos, ora para um lanchinho mais longo e, ainda assim, chegamos às 11h35 ao cume do Capim Amarelo (2.491m). Ficamos felizes, pois ouvimos que não chegaríamos ali antes das 14h. Nesse cume rolou a primeira coincidência da travessia: dei de cara com a Valéria, minha professora de corrida, que mora em Passa Quatro há alguns meses.

Logo continuamos o caminho e íamos ultrapassando e sendo ultrapassados por dois mineiros de São Gonçalo do Pará (arredores de Divinópolis-MG). Passei o track da travessia para um deles usando o sistema de transmissão wireless do gps (adorei descobrir essa funcionalidade) e nos despedimos deles por volta das 16h30, quando encontramos um ponto com vista para a Pedra da Mina e decidimos acampar por lá.

p1100695_

Vista do nosso primeiro camping; a Pedra da Mina fica à esquerda desse pico.

Nosso plano inicial era ficarmos na base da Pedra da Mina, mas o atraso da saída, a vista do camping e o risco de não encontrarmos lugar para nos instalarmos por lá (tinha muita gente na trilha!) nos fizeram mudar de ideia. Montamos a barraca com calma e aproveitamos os últimos raios de sol – que aliviavam o frio provocado pelo vento – para trocarmos as roupas fedidinhas da trilha por outras mais quentinhas e limpinhas.

Devido à alteração do local do pernoite, tivemos que racionar um pouco a água. Ainda tínhamos o suficiente para bebermos tanto à noite quanto pela manhã e até para um cafezinho, mas jantamos lanches ao invés de cozinharmos. Enquanto comíamos, ficamos atentas aos ratos que rondavam nossa comida – um deles chegou a passar pelo meu pé.

Fomos muito cedo para a barraca (18h). O cansaço das últimas noites mal dormidas e o esforço desse primeiro dia fez com que dormíssemos logo, com direito apenas a uma espiada na bela lua cheia. Por volta das 22h, o vento aumentou bastante e acordamos várias vezes à noite por causa do barulho.

Segundo dia – Camping depois do Maracanãzinho até o bambuzal (8,4km)

Por termos deitado tão cedo, achamos que acordaríamos a tempo do nascer do sol, mas nos enganamos. Saímos da barraca às 7h, vestimos as roupas de trilha e preparamos o café: pão sírio com pasta de amêndoas e especiarias, abacate, queijo, salame (para a Lu e a Sofi, eu sou vegetariana) e café, claro.

img_71491

Com tempo bom, a travessia da Serra Fina oferece um festival de paisagens deslumbrantes.

Tratamos o dia por etapas e a primeira era nos reabastecermos com água. Quando chegamos ao rio Claro na base da Pedra da Mina, ficamos revoltadas ao vermos papel higiênico ali perto. Aliás, essa foi uma tristeza por todo o caminho: muito papel e lencinhos ao longo da trilha.

Enchemos nossas garrafas, esperamos o hidroesteril agir, matamos a sede e tornamos a completar nossos vasilhames antes de começarmos a subida.

No cume da Pedra da Mina (2.798m – quarto mais alto do país), encontramos um pessoal que estava fazendo bate-e-volta via Paiolinho e ficamos papeando enquanto descansávamos um pouco e comíamos. Eles nos ofereceram sequilhos (aceitos de muito bom grado pela Sofi) e bolachas, mas estávamos bem abastecidas com comida.

 

p1100732_

Vale do Ruah, Cupim de Boi, Cabeça de Touro, Pico dos Três Estados e o Itatiaia mais ao fundo.

A passagem pelo Vale do Ruah foi tranquila e rápida graças ao gps. O capim estava bem marcado em vários pontos, o que pode levar a alguma confusão em relação à trilha, embora, com tempo aberto, seja fácil identificar a direção que deve ser seguida.

No final do vale, há o último ponto de água até o final da trilha, o rio Verde. Paramos para encher as garrafas e o dromedário que a Lu carregava justamente para esse momento. A Sofi e eu levamos quatro litros cada uma e a Lu, quatro e meio.

p1100743_

Cupim de Boi à direita e Pico dos Três Estados.

Seguimos no sobe e desce de cumes até o Cupim de Boi (2.543m) e assistimos a um pôr do sol espetacular. Mesmo atentas ao horário, pois não queríamos descer do cume no escuro, tivemos tempo para admirarmos a luz batendo nas formações do Itatiaia.

p11007821

Por do sol no cume do Cupim de Boi com vista para o Agulhas Negras e as Prateleiras.

Nessa hora, as pernas sentiam o esforço da véspera e eu ainda tinha o agravante de ser uma pessoa sem muito fôlego (e que havia doado sangue 15 dias antes). Fomos um pouco mais lentas e decidimos pernoitar no bambuzal, uma grande área de camping logo depois do cume do Cupim de Boi. O lugar é excelente, com bastante espaço para barracas e a proteção dos bambus. No entanto, ficamos horrorizadas ao vermos uma sacola de supermercado cheia de lixo, amarrada e encostada em um canto como se a espera do lixeiro. É muita falta de consciência!

Aproveitando o espaço, montamos a barraca e a tarp, garantindo o conforto do quarto e da cozinha. Usamos lencinhos umedecidos para uma limpeza básica e passamos ao preparo do jantar. Carregar toda aquela água compensou e nosso menu foi: bis, missoshiro, macarrão de feijão preto (opção de proteína) com cogumelos, queijo e bastante azeite e chá de capim cidreira com camomila, para nos aquecer e hidratar. Os ratos nos fizeram companhia de novo durante todo o jantar e tínhamos que ficar atentas.

Antes de dormir, fizemos um pouco de liberação miofascial e aplicamos um gel relaxante para os músculos. Em relação à noite anterior, a sensação de frio era menor (não levamos termômetro para saber a temperatura correta) e dormi com menos camadas. A Sofi era a calorenta do rolê e a Lu, o oposto.

Terceiro dia – Camping do Bambuzal até a rodovia (11,7km)

Ignoramos nossos planos de sair cedo para saborearmos o café da manhã sem pressa: crepioca, abacate, pasta de amêndoas com especiarias, mel, queijo meia-cura feito pela mãe da Lu (di-vi-no!) e café.

p1100828_

Pausa para o lanche no Pico dos Três Estados.

Após uma bela escalaminhada, chegamos ao cume do Pico dos Três Estados (2.665m) às 10h15, com uma hora de caminhada. Cerca de dez minutos depois, apareceu um casal que estava fazendo a travessia em dois dias e aí tivemos a segunda e maior coincidência da viagem. Conversa vai, conversa vem, a Lu descobriu que o rapaz é primo de um cara que estudou com a irmã dela. Mundinho pequeno!

Ao assinarmos o livro do cume, vimos vários comentários que se referiam ao Pico dos Três Estados como o último cume da travessia, mas sabíamos que ainda tínhamos o Alto dos Ivos (2.520m) pela frente. Só não sabíamos que ele também exigiria uma escalaminhada. Chegamos ao topo às 13h15 e aproveitamos para fazermos um lanche mais reforçado e também avisarmos a Patrícia (Adventure Transfer) sobre nossa posição para que ela tivesse tempo de se programar para nos buscar.

p1100813_

Sofia admirando os cumes que ficaram para trás.

A partir desse ponto começamos a descida. As pedras e a inclinação demandam atenção e os bambus (definidos com precisão como bambus-do-capiroto pelos meus amigos do Se ela corre, eu corro!) são um tormento à parte. Eles enroscam, arranham, provocam hematomas e são consistentes por quase todo o caminho.

Conforme fomos baixando a altitude, notamos a mudança na vegetação e logo estávamos na estrada que leva ao sítio do Pierre e depois à rodovia que liga Itamonte à Dutra. Chegamos dez minutos antes do tempo estimado pela Patrícia, que foi nos buscar com pão-de-queijo e Guaranita (eba!).

De volta à pousada, tomamos banho, passamos um café e pegamos a estrada. Em relação à travessia, não poderia ter tido estreia mais perfeita na Serra Fina. O tempo colaborou e tivemos céu azul e vistas incríveis quase que o tempo todo – algumas poucas nuvens nos deixaram receosas em relação à chuva, mas foi só receio mesmo. Minhas companheiras de trilha foram (e são) incríveis! Obrigada, Lu e Sofi, pelos momentos compartilhados e que venham outros. E fica um agradecimento especial ao Artur que, a distância, nos acompanhou, torceu e incentivou.

17º Encontro de Cicloturismo

5d28378b-60f3-4bdd-b27b-3145a586343f

Foto oficial do 17º Encontro. Créditos: Walter Magalhães.

Neste ano, encerramos nossas férias no 17º Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura, organizado pelo Clube de Cicloturismo do Brasil. Mesmo tendo bastante contato com o pessoal do clube (até demos uma palestra sobre a viagem para o Equador), essa foi a primeira vez que participamos do evento, que acontece todos os anos no feriado de Corpus Christi, em Campos do Jordão.

O encontro foi uma oportunidade ímpar para revermos amigos queridos e ainda conhecermos outras pessoas com o mesmo interesse por viagens de bicicleta.

A programação desta edição incluía palestras de pessoas cujas viagens acompanhei pelas redes sociais como a Andrea e o Bruno (Larguei Tudo e Fui) e o Ricardo Martins (Roda América e agora Roda Mundo), de figuras bastante conhecidas no mundo do cicloturismo como a Rafaela e o Olinto e ainda alguns que eu não conhecia e foram surpreendentes como a Taline e o Acauã (Amorbikecafé) e o José Guilherme Veiga (Ushuaia-Alasca).

Foram quatro dias intensos que passaram rápido demais. Em meio a conversas, risadas e aprendizados, tivemos espaço para muita emoção. O agradecimento por um par de alforjes sorteados veio em forma de poesia e foi difícil conter as lágrimas. Dona Hercília comoveu muita gente com suas palavras ao agradecer o mimo trazido pelo, agora amigo, Veiga.

img_6849

Ouvindo as histórias do José Guilherme Veiga.

Foi dele também a palestra que mais me marcou. Com muito bom humor, ele contou sobre tudo o que deu errado em sua jornada: dor no joelho, vento contra por todo o caminho, companheiro de viagem que foi embora sem avisar, bicicleta quebrada no meio da Dalton Highway (estrada no Alaska simbólica até na quilometragem: 666km) e, no final, assistir à cena dos ursos destruindo sua bicicleta e alforjes.

Alguém que nunca fez uma viagem de bike poderia pensar que essa é uma tremenda furada, mas o vídeo que ele mostrou na sequência, repleto de paisagens lindas e sorrisos enormes, confirmou que, apesar dos momentos difíceis, viajar de bicicleta traz leveza e muita felicidade.

img_6846

Parte da galera no segundo dia de pedal autoguiado.

Além das palestras, o encontro inclui sugestões de roteiros para pedais autoguiados e um pedal coletivo no penúltimo dia, em ritmo tranquilo. Neste ano, fomos a uma cachoeira encarando subidas e descidas na região de Piranguçu.

Quem quiser mais informações sobre as atividades basta acessar o site. O clube promove ainda uma palestra mensal e gratuita no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, uma ótima chance para entrar em contato com apaixonados por cicloviagens.

Aproveito para deixar aqui meus agradecimentos ao pessoal do clube pelo convite e pela oportunidade de ter participado desse encontro. Obrigada, de coração!

Cicloviagem de férias na Mantiqueira

img_6628

Cicloviagem pela Mantiqueira: morros que não acabam mais.

Com a aproximação das férias, decidi que queria fazer uma viagem de bicicleta. Primeiro, pensei em conhecer o Circuito das Araucárias, em Santa Catarina, mas resolvi traçar uma rota pela região da Mantiqueira (amo!), facilitando a chegada ao Espaço Araucária (acabamos deixando o carro lá), onde participamos do 17º Encontro Nacional de Cicloturismo.

Como a altimetria era pesada e estávamos pedalando pouco, optamos por ir sem equipamento de camping e dormir em pousadinhas. Instalamos bolsas de selim no esquema bikepacking; usei ainda a bolsa da Vó Joaquina no guidão e uma pochete; o Artur foi com dois porta-volumes de guidão da marca Aresta e uma mochila de ataque.

Dia 1 – Do Espaço Araucária a Itajubá (48,4km – 976m)

Para traçar as rotas no Ride with GPS, uso muito as imagens de satélite do Google Maps e isso, às vezes, resulta em algumas surpresas pelo caminho. Logo nos primeiros quilômetros da viagem, caímos em um quintal e a dona nos informou que a estrada foi fechada devido a uma briga de vizinhos.

img_6389

Itajubá acabou sendo o destino do primeiro dia de viagem.

Com a mudança de planos, voltamos pelo mesmo caminho e fomos em direção à cidade de Piranguçu. Encaramos a subida da serra de São Bernardo e passamos pela represa de mesmo nome. Decidimos não passar por dentro da cidade e seguimos direto para Itajubá. Os últimos quilômetros foram no asfalto e – ufa! – havia acostamento na parte mais movimentada da estrada.

Em Itajubá, a querida Deise já tinha nos oferecido hospedagem e foi um prazer enorme reencontrar os amigos que fizemos em uma viagem de carnaval.

Dia 2 – De Itajubá a Maria da Fé (29,5km – 573m)

No dia seguinte, a Deise e o Egg pedalaram conosco até Maria da Fé – o Denis não nos acompanhou, pois tinha uma prova de mtb no domingo e havia programado um giro leve.

img_6395

Com os amigos Deise e Egg em Maria da Fé.

Nossos guias nos levaram pela trilha do “alface” (o nome tem relação com as hortas do caminho). Eu já tinha pedalado parte dessa estrada em uma viagem com o Giu e descobri que, se tivéssemos seguido pela esquerda em determinado ponto, teríamos feito um caminho muuuuito mais suave. Nada como pedalar com locais.

Enquanto almoçávamos, uma chuva forte e gelada começou a cair e não parou mais. Desencanamos de seguir até Cristina e, por sorte, conseguimos uma hospedagem em Maria da Fé – estava tudo lotado devido a um evento de moto na região.

Ainda quero voltar para Maria da Fé para conhecer a fábrica de azeites, mas, tirando isso, não há muitos atrativos na cidade.

Dia 3 – De Maria da Fé a Carmo de Minas (55,1km – 1.318m)

Apesar de o dia anterior ter sido encurtado por causa da chuva, mantivemos o destino do terceiro dia: Carmo de Minas. Para complementar o café safado da pousada, fizemos uma parada estratégica na Padaria do Thiaguinho – outra dica boa dos amigos de Itajubá.

img_6427

Entre a Beleza e a Paciência.

O dia começou gelado: 9°C, às 7h30, mas logo esquentamos com as subidas. Seguindo pela terra, passamos por dois bairros e suas respectivas serras: a Beleza e a Paciência. Enquanto subia devagar, lembrei de uma frase bobinha sobre relacionamentos: se der certo, beleza; se não, paciência. Neste caso, deu tudo certo, com beleza e paciência!

Depois do almoço em Cristina, seguimos por uma estradinha suave que beira o rio Lambari, pegamos um trechinho curto de asfalto e logo voltamos para a terra. Aprendi com os amigos de Itajubá que, essas estradas de subidas leves geralmente são antigas ferrovias.

img_6447

Onde será que vamos parar?

Tudo estava tranquilo até chegarmos à primeira porteira do dia. Cruzamos a propriedade abandonada e logo começou um caminho de gado seguido por uma plantação de bananas. O caminho estava bem sujo em alguns pontos e empurramos as bikes por um tempinho. O bananal deu lugar a muitos pés de café, um single track em um pasto e uma estrada decente no meio de outro enorme cafezal.

img_6476

Quando o caminho termina em uma propriedade privada.

Durante esse pedala/empurra, além de me perguntar onde iríamos parar, eu pensava: “Google Maps fanfarrão! É a segunda vez que traço uma rota seguindo estradas indicadas por ele para diminuir o risco de perrengue e ele apronta uma dessas”. A estrada terminou na Fazenda Coqueiro. Atravessamos a última porteira do dia e pedalamos mais um trechinho de terra antes dos 5km de asfalto até o destino do dia.

Incluí Carmo de Minas no roteiro por causa da produção de café. A expectativa aumentou quando tomamos um café muito bom na loja de conveniência do posto na entrada da cidade. Porém, a realidade mostrou que ali era o único lugar onde dava para encontrar um café decente. Fomos à torrefação da Unique (imaginei que tivesse uma lojinha de fábrica), mas eles indicavam o café no calçadão em São Lourenço e, na hora, nem cogitamos incluir esse desvio na rota.

Dia 4 – De Carmo de Minas a Cruzília (59,7km – 1.253m)

Comparado à véspera, tivemos um dia despreocupado, com mais cidades pelo caminho para abastecimento e uma rota bem mais leve, passando por um trecho da Estrada Real. As plantações de café continuavam predominantes na paisagem e foram acompanhadas ainda pelas belas formações do Itatiaia e pelo Pico do Papagaio.

Passamos rapidamente por Caxambu e o Artur resolveu nos guiar dentro da cidade. Ele optou pela rota mais rápida e fomos parar numa estrada de asfalto curta, mas horrível que levava a Baependi. Na rota que tracei, o caminho era mais longo e de terra.

img_6500

Entre Carmo de Minas e Cruzília: muitas plantações de café.

Mesmo sem provar as especialidades de Cruzília, cidade conhecida pela produção de queijos premiados, minhas melhores lembranças de lá são relacionadas à comida: um delicioso cheesecake com cobertura de damasco que comemos ao chegar e biscoitinhos comprados em uma padaria ao partirmos.

Dia 5 – De Cruzília a Carvalhos (63km – 1.464m)

No quinto dia da viagem, justo quando começava a colheita do café na região, a paisagem da nossa rota mudou complemente. Algumas estradinhas deram lugar a estradões e pedalamos mais expostos ao sol.

Cortamos um trecho do caminho porque não queríamos passar em uma fazenda turística, mas em outra parte não teve jeito e passamos por uma propriedade privada de alguma empresa. Pedimos permissão a um casal cuja casa ficava a poucos metros da porteira e eles disseram que podíamos seguir.

img_6524

Cachoeira do Bananal, no caminho para Aiuruoca.

Ao passarmos pela cachoeira do Bananal (que eu tinha visto pelo Google Maps), vimos  um camper e logo conhecemos seu dono, que estava fotografando e filmando a queda d’água. Mário, morador de Itamonte e viajante solitário, nos mostrou diversos detalhes do camper construído por ele e não parava mais de falar.

Poucos quilômetros depois desse encontro, tivemos mais uma mudança de percurso porque o gps indicava um caminho onde não víamos estrada alguma. Ao invés de seguirmos para Serranos, fomos parar em Aiuruoca, que não estava nos planos para essa viagem. Para voltarmos à rota, optamos por continuarmos até Carvalhos.

img_6549

Não parece, mas tinha muita subida nesse caminho.

Há duas estradas que ligam as cidades e seguimos via Posses. O caminho é bem bonito e com muitas subidas, claro. Cerca de 8km antes de chegarmos, passamos pelo bairro das Posses e paramos para bater papo com o simpático casal José Antônio e dona Bina. A conversa rendeu por mais de uma hora e terminamos o pedal do dia sob um belo céu estrelado.

Dia 6 – De Carvalhos a Bocaina de Minas (30,4km – 875m)

Como pulamos um pernoite logo no começo da viagem, decidimos mudar o destino do dia e descansarmos um pouco mais. Essa decisão e o frio da manhã contribuíram para sairmos mais tarde.

img_6551

Descobrindo novos picos na Mantiqueira.

Descobrimos uma formação linda por ali, o Pico do Muquem, e ficamos atiçados para voltar e fazer o cume. Parte do caminho era sentido bairro Francês dos Carvalhos, mas lá pelo km 11 havia uma bifurcação e continuamos na direção da cachoeira da Estiva. Já sabíamos que se tratava de uma propriedade privada, mas o dono da pousada em Carvalhos disse que poderíamos entrar sem problema já que o local pertence a um primo dele. E vale a pena esse pequeníssimo (menos de 1km) desvio: a cachoeira é linda!

img_6570

A serra parece tão inocente nesta foto.

Um dia curto de pedal nessa região nem de longe significa moleza e tivemos que encarar a, até então desconhecida, Serra da Aparecida. Em menos de 1,5km, subimos 152m, chegando a 32% (!!!) de inclinação. A descida teve areia, pedras soltas e erosões.

Com a fome que estávamos, ficamos com receio de chegarmos tarde para o almoço em Bocaina de Minas (já tínhamos nos dado mal em Aiuruoca), mas comemos muito bem no Restaurante do João Grande. Considerando o quantidade de distritos que a cidade possui, imaginei que ela seria maior, porém, é pequena e sem muitas opções de hospedagem e restaurantes. Ainda assim, comemos uma pizza bem boa no jantar.

Foi neste dia que ficamos sabendo sobre a crise no abastecimento de combustível no país. Mesmo em um lugar tão pequeno, vimos uma filinha no único posto e ouvimos alguns comentários do dono da vendinha. “Corri para abastecer meu carro hoje. Já está faltando combustível nas cidades ao redor daqui.”

Dia 7 – De Bocaina de Minas a Itamonte (66,7km – 1.360m)

Depois de um trechinho de asfalto até o trevo, pedalamos por uma serra suave (e gostosa!) e logo chegamos a Santo Antônio do Rio Grande. Foi a segunda vez que passei por ali e nem repeti as estradas.

img_6615

Encantada com o entorno de Itamonte.

A subida que veio a seguir não era nada tranquila, mas a baixa velocidade nos permitiu apreciar ainda mais a região. O barulho de água foi constante por muitos quilômetros e havia bastante mata ao lado da estrada. Ao que parece, o trajeto ali não tem muito movimento e por um bom tempo não encontramos ninguém. Pelo caminho, descobrimos ainda a RPPN Morro do Elefante, que trabalha com agricultura orgânica e proteção e conservação da fauna e flora da região. Mais um local para visitar em outra oportunidade.

img_6620

Nenhum sinal dos moradores de Belo Monte.

Em Santo Antônio, havíamos sido informados de que, no bairro Belo Monte, haveria uma vendinha no caminho onde poderíamos nos abastecer. O que encontramos foi uma vilazinha com igreja, posto de saúde e escola fechados. Embora estivesse bem cuidada e o único local com aspecto de abandonado fosse a fábrica de laticínios, não vimos uma alma sequer.

img_6623

Fazenda Guatambu: hospedagem incrível em Itamonte.

Passamos em frente à Fazenda Guatambu/RPPN François Robert Arthur, onde nos hospedamos no ano passado para comemorar o meu aniversário. Além de realizar um excelente trabalho na preservação de um uma região linda, a Endy é responsável pela produção de geleias, kombucha, cervejas, mel e sabonetes artesanais e ainda oferece duas casas incríveis para hospedagem.

A partir da fazenda, foram mais 9km até o asfalto da estrada que liga Itamonte a Alagoa e quase 20km predominantemente de descida até a cidade. Embora considere o entorno de Itamonte belíssimo, não posso dizer o mesmo da área urbana, cortada pela rodovia. Depois de Bocaina de Minas, aqui foi o primeiro lugar onde ouvimos falar com mais intensidade sobre a greve dos caminhoneiros, que estavam protestando em um posto próximo à pousada onde nos hospedamos.

Dia 8 – De Itamonte a Marmelópolis (52,6km – 1.490m)

Voltamos à Estrada Real nos primeiros 10km do dia, por um caminho charmoso que eu já tinha percorrido no sentido contrário. Na sequência, o trecho de Itanhandu a Passa Quatro não traz nada de interessante e é marcado por granjas enormes.

Assim que saímos de Passa Quatro, encaramos uma subida que parecia não acabar mais. Subindo devagar – empurrando em alguns trechos inclusive – vimos várias sinalizações de uma ultramaratona que passou por ali. No cume, havia uma casa que parecia abandonada e uma bifurcação. Optamos pelo caminho mais curto e fomos pela direita. A esquerda levava a um lago sobre o qual um conhecido me falou quando mencionei que já tinha pedalado por aquela região.

img_6678

Em busca do suco de marmelo.

O caminho escolhido era muito sossegado e ficamos um bom tempo sem ver ninguém. Há diversas estradas que ligam Passa Quatro e Marmelópolis e, sem querer, não repetimos nenhuma em relação à viagem de Carnaval pela Mantiqueira em 2015. Tendo a travessia Marins-Itaguaré como parte da paisagem, paramos bastante para fotos e mais ainda quando encontramos o Toninho, morador de Marmelópolis muito bom de papo.

A conversa se estendeu por um tempo e chegamos à cidade quando estava escurecendo. Já que o restaurante Di Minas estava fechado, jantamos uma panqueca deliciosa na Pizzaria do Gordo, com direito a esfihas de chocolate de sobremesa. O pernoite foi na Pousada Bella Vista, que estava vazia por causa da greve de caminhoneiros.

Dia 9 – De Marmelópolis a Wenceslau Braz (46,8km – 1.494m)

img_6690

Belo começo de pedal.

Pegamos a estrada que leva ao bairro dos Quatis e, logo de cara, veio uma subida puxada – segundo o registrado no Strava, havia um trecho com 43,9% (!) de inclinação. Essa estrada fazia parte de uma rota que tracei para percorrer com o Giu e não rolou. Depois do terceiro quilômetro, a subida ficou mais agradável.

Fomos seguindo a estrada até que o gps indicou que estávamos fora da rota. Olhando ao redor, vi uma casa abandonada e não tinha certeza se era por lá que deveríamos seguir. Minha dúvida foi sanada por um senhor que trabalhava desmontando outra casa abandonada. “Pode seguir por ali, sem problema.”

img_6699

Trocando o estradão pelas estradinhas.

Pelas marcas no caminho, percebemos que esse atalho é percorrido apenas por motos e cavalos e, mesmo assim, não muitos já que havia alguma vegetação crescendo em partes do solo. Esse primeiro trecho nos brindou com single tracks e árvores que sombreavam o caminho; já o segundo, com areia, pedras e uma longa descida.

img_6735

Mercadinho Uai Pegue e Pague, em Taquaral.

Nossa rota alternativa terminou em um trecho do Caminho de Aparecida, no bairro Taquaral, já em Delfim Moreira. Passamos por uma hospedagem de romeiros, com baias para os cavalos, e pela peculiar vendinha Uai Pegue e Pague. Em meio aos produtos da roça, havia os avisos “você não está sendo filmado”, “colha sua verdura e pague o que achar justo”, “obrigado por ser honesto”.

O “almoço” foi no bar do Tadeu, no bairro Salto, também pertencente a Delfim Moreira: batata frita para mim, torresmo para o Artur e cerveja artesanal da região.

Seguimos pelos bairros de Biguá e Água Limpa numa descida suave. O único porém foi o aumento do tráfego que levantava uma poeira chata. Essa estrada é muito usada por ciclistas da região; encontramos alguns pelo caminho e depois descobri que o Denis (Itajubiker) tinha passado por lá mais cedo.

img_6743

Ah, Google Maps fanfarrão.

Para fugir do asfalto, incluí na rota um trecho que, no Google Maps, aparentava ser uma estrada, mas era na verdade um caminho de gado. Esse “atalho” no pasto faz parte do Caminho de Aparecia e até que foi pedalável em alguns pontos. Os últimos 6km do dia foram de asfalto, numa leve subida com vento contra.

Nos hospedamos na única opção que encontramos na cidade, a Pousada Castelinho que, como o nome sugere, realmente é um castelinho – impossível passar batido. O jantar, encomendado por nossa anfitriã, foi no restaurante da Derly. Mal acreditamos quando ela começou a trazer as panelas para nossa mesa e não parava mais. Comemos bastante e ainda sobrou muita comida.

Dia 10 – De Wenceslau Braz a Campos do Jordão (36,9km – 1.370m)

O dia começou com o mantra “só no girinho”. De Wenceslau Braz até o bairro do Charco, foram quase 15km de subida ininterrupta num giro constante. Aproveitamos um pouquinho de descida e voltamos a subir até a divisa de Minas Gerais com São Paulo, onde entramos no Horto Florestal de Campos do Jordão.

img_6778

Campo de araucárias próximo à entrada principal do Horto Florestal.

A descida pelo parque exigiu atenção já que havia muitas pedras e pontos escorregadios. Na empolgação de pedalar uma full suspension, o Artur bateu o aro em uma pedra e teve o único furo de todo o percurso.

Com a viagem chegando ao fim, incluí um mimo no roteiro e reservei uma cabana charmosa para passarmos a noite. No espaço gigantesco há, além das cabanas, chalés, atividades de arvorismo, paintball, um restaurante e o Zoom Bike Park, um parque feito para quem curte mtb, com diversas trilhas de variados níveis.

Apesar da subida longa, o pedal do dia foi curto e desfrutamos de uma tarde preguiçosa e de um friozinho gostoso, em meio às árvores.

Dia 11 – De Campos do Jordão ao Espaço Araucária (25,5km – 729m)

No último dia de viagem, entramos no ritmo de calmaria. Acordamos mais tarde, tomamos o café da manhã sossegados e saímos sem pressa. Em menos de 10km estávamos no centro da cidade para um programa tão clichê quanto gostoso: almoço na Baden Baden.

img_6830

Depois de 515km, de volta ao Espaço Araucária.

Enrolamos um pouco por ali, mas, enfim, fomos percorrer os últimos 17km da viagem. Com subidas, claro. Fizemos algumas fotos em frente ao Espaço Araucária e declaramos encerrada a primeira parte das férias.

Pós-viagem

O plano era aproveitar os dias que tínhamos antes do Encontro Nacional de Cicloturismo para irmos de carro até São Lourenço e Cruzília atrás de um “carregamento” de café, queijo e bolachinhas mineiras e ainda visitar o simpático casal nos arredores de Carvalho. Tudo frustrado pela greve dos caminhoneiros. O tanque do carro estava cheio e achamos mais prudente continuar assim e garantir a volta para a casa pós-feriado.

Pedalar pela Mantiqueira é sempre um programa imperdível. Por mais que já conheça muitos lugares e estradas, ainda é só um pedacinho do que há para ser conhecido. Assim como as pessoas que encontramos pelo caminho, sempre simpáticas ao confirmar uma informação ou até mesmo oferecendo um “cafezim”, jantar e pouso (!).

De carro pela Argentina, Chile e Bolívia

dscf2457-cou0301pia1

Rodamos quase 8 mil quilômetros em 18 dias.

Para quem pretendia passar as férias num sítio próximo a São Paulo, uma viagem de carro passando por três países foi uma mudança e tanto. Nossa companheira de férias ganhou uma passagem para Portugal e nós decidimos passear pela América do Sul. Em uma semana, planejamos tudo e pegamos a estrada.

Rumo ao Chile

Os primeiros dias resumiram-se a longas horas na estrada. Foram quase 600km em uma estrada reta, de pista simples, com alguns caminhões e muito calor. A região do Chaco argentino definitivamente não me atraiu. Na primeira noite na Argentina, dormimos em Resistência, que consideramos mais ajeitada do que a vizinha Corrientes.

A segunda noite foi em San Salvador de Jujuy, onde jantamos no restaurante Viracocha, de comida tradicional do norte argentino e que serve uma empanada de quinoa deliciosa.

dscf23281

O primeiro salar da viagem: Salinas Grandes, na Argentina.

A partir de San Salvador de Jujuy, com a aproximação dos Andes, a paisagem e o clima melhoram. A região é bastante árida, com montanhas coloridas e muitos cardones – cactos gigantes. Passamos por Purmamarca, cruzamos o primeiro salar da viagem – o Salinas Grandes – e seguimos para a fronteira com o Chile.

Cruzar o paso de Jama foi bem mais tranquilo do que eu esperava. Os guichês estão organizados em sequência. Carimbos de saída da Argentina nos passaportes, aduana do carro, carimbos de entrada no Chile e aduana do carro. Embora o seguro Carta Verde seja obrigatório e estivesse na pastinha de documentos, nesta fronteira, tive que apresentar apenas o documento do carro e minha habilitação brasileira. Cheguei a mostrar a Permissão Internacional para Dirigir, mas a oficial nem deu bola. O último passo foi a vistoria do carro.

Neste ponto, eu estava com um pouco de dor de cabeça por causa da altitude. Em San Salvador de Jujuy, estávamos a 1.259m e o paso fica a 4.200m. O caminho continua subindo e, em busca do Salar de Tara, chegamos a 4.811m, o que me deixou imprestável. Apesar disso, tivemos uma bela surpresa no caminho para San Pedro de Atacama: começou a nevar no deserto!

O Artur ficou chocado com o tamanho da cidade. Há dezoito anos quando ele esteve lá, havia basicamente um restaurante e um hotel/camping. Hoje em dia, há muitas opções. A rua principal é a Caracoles, onde estão muitas das agências de turismo e restaurantes. Durante o dia, o movimento é pequeno, pois os turistas estão nos tours pela região. À noite, a rua fica lotada.

img_57081

Livraria charmosa a poucos quilômetros de San Pedro de Atacama.

Na minha lista de lugares para conhecer estava a Librería del Desierto, que pertence ao escritor chileno Diego Álamos. Localizada a 6km de San Pedro, a livraria funciona em um contêiner instalado no quintal da casa dele e é focada em autores chilenos. Além da beleza do lugar e da tentação dos livros, a visita vale a pena pela simpatia do Diego. Ficamos cerca de duas horas ali batendo papo.

img_57091

Dunas e anfiteatro no Valle de la Luna.

No final da tarde, fomos ao Valle de la Luna, também a cerca de 6km da cidade. Seguindo a estrada dentro da reserva, fizemos o passeio por dentro das cavernas de sal, passamos pelo anfiteatro e depois chegamos à formação chamada de Três Marias. Ao longo do caminho, há estacionamentos. Tentamos deixar o carro em um deles e seguir a pé até as dunas, mas os guias do parque não autorizaram. Andar por ali valia apenas para quem estava em um tour pago. Bom, deixamos o carro em outro estacionamento e fomos para as dunas para ver o por-do-sol. O lugar fica lotado, então, se quiser pegar um bom lugar, é melhor não ir muito tarde. Algumas agências oferecem a opção de ir para lá pedalando e voltar de carro.

No dia seguinte, paramos na laguna de Chaxa para fotografar flamingos e depois seguimos rumo ao paso Sico. A ideia era acessar uma estrada de terra para chegarmos à laguna Lejía, só que a existência de um posto de carabineiros frustrou nossos planos. Com o argumento de que a estrada por ali é muito ruim e ninguém poderia nos resgatar caso acontecesse algo, eles proibiram nossa passagem.

dscf24971

Caveirinho no cenário do nosso camping selvagem.

Se fôssemos voltar para San Pedro, chegaríamos tarde à cidade, então, decidimos acampar próximos a algumas formações rochosas. Só que o vento era tanto, que não nos animamos a montar a barraca e decidimos dormir dentro do carro. Claro que a ventania parou no meio da madrugada, mas deixamos por isso mesmo. Quando acordamos, nossa respiração condensada no para-brisa do carro tinha congelado. O jeito foi esperar o sol esquentar um pouco e esse gelo derreter para poder dirigir.

Passamos mais uma noite em San Pedro e levantamos cedo para subirmos o vulcão Láscar. A estrada até a entrada para a vila Talabre é asfaltada; a partir daí, é só areia com costelas de vaca. Não vimos o nascer do sol na beira da laguna Lejía, mas o astro rei iluminou os vulcões do caminho de maneira incrível.

dscf25461

Laguna Lejía e diversos vulcões vistos de longe durante subida do vulcão Láscar.

É possível estacionar o carro num ponto relativamente alto para começar a caminhada – partimos de 4.825m. O Láscar é um vulcão fácil do ponto de vista técnico; a subida nada mais é do que uma caminhada. O grande porém é a altitude: eu tinha que andar bem devagar para não perder o fôlego. E valeu muito a pena quando chegamos à cratera do vulcão a 5.449m e vimos a fumacinha saindo – o Láscar é um vulcão ativo. Com o vento aumentando de intensidade, logo começamos a descida com cuidado para não escorregarmos na areia fofa. Chegando ao carro, estávamos um pouco baqueados pelos efeitos da altitude combinados ao esforço físico.

Bolívia

img_5698

Admirando a Ruta de las Lagunas .

Depois da última noite no Atacama, partimos para a Bolívia. Optamos por cruzar a fronteira pelo paso Hito Cajón (também chamado Portezuelo del Cajón) para conhecer a chamada Ruta de las Lagunas. Esse paso gera algumas controvérsias, pois dizem que o risco de assalto na estrada é grande e que a cobrança de propina é frequente – lemos alguns comentários no app iOverlander. Não sei se foi o fato de estarmos entrando e não saindo ou por sermos brasileiros, mas fizemos a imigração sem qualquer problema, enquanto três gringos tiveram que pagar 17 pesos bolivianos (se não me falha a memória) ao deixarem a Bolívia.

Com os passaportes carimbados, fomos informados pelos guardas que a aduana do carro seria feita somente no posto Apacheta, que fica dentro de uma mineradora a 80 km dali, pois a aduana na entrada da Reserva Eduardo Avaroa estava fechada nesse horário. Seguimos com receio de perder o horário e não encontramos ninguém quando chegamos ao posto. O guarda apareceu em 15 minutos e não queria fazer o processo; disse que deveríamos ter feito isso na entrada da reserva e nos mandou esperar. Cerca de 20 minutos depois, me chamou à sua sala e começou a inserir os dados no sistema Sivetur. Para quem viaja com carro próprio na Bolívia, ter os dados do veículo inseridos nesse sistema é fundamental. O consulado brasileiro em Santa Cruz de la Sierra informa que carros fora desse sistema podem ser confiscados e irem a leilão em pouquíssimo tempo, sem que os representantes brasileiros possam interferir.

Assim que recebemos os papéis, voltamos para a estrada e continuamos na direção da Laguna Colorada. Encontramos hospedagem no povoado de Huyallajara, onde todas as casas parecem terem sido transformadas em hospedagem ou vendinha. Além da “cozinha” (um cômodo com um tambor cheio de água e uma pia sem cano), dividimos uma garrafa de vinho boliviano com um casal de peruanos – longe de ser bom, pelo menos não deu dor de cabeça.

img_59321

Árbol de Piedra, uma das atrações do Deserto de Siloli.

Ao deixarmos a reserva, pagamos o valor dos ingressos, 150 pesos bolivianos por pessoa, já que não havia ninguém para nos cobrar na outra entrada. Paramos para admirar a Árvore de Pedra, antes de continuarmos pelo Deserto de Siloli. Não há uma estrada certinha e as diversas marcas de pneus na areia podem facilmente confundir os motoristas. Atravessamos esse trecho seguindo uma rota baixada do wikiloc e inserida no gps.

Pelo caminho, encontramos diversos Land Cruisers, o carro favorito dos bolivianos para transportar os turistas e acelerar pelo deserto como se não houvesse costelas de vaca. Apesar de ninguém falar nada, pelo jeito como nos olhavam em algumas paradas, tínhamos a sensação de que éramos mal vistos pelos guias por estarmos ali com carro próprio.

img_57271

Encontro inesperado com ciclistas franceses.

Mas o deserto trouxe uma boa surpresa para nós. Encontramos dois ciclistas franceses, os irmãos Clément e Aurélien, que saíram da Colômbia com destino ao Ushuaia. Oferecemos água a eles e ouvimos algumas histórias sobre viagens e o projeto Ocean Cleaner’zh de limpeza e conservação dos oceanos, promovido pelos dois em parceria com mais um amigo.

Uyuni é meio caótica, as regras de trânsito não parecem ter muito valor por ali e a cidade em si não tem muita graça. Tudo é centrado no turismo, com várias agências e seus pacotes clássicos para o salar e arredores, hotéis e restaurantes. Estes oferecem praticamente o mesmo cardápio, que inclui de pizza a comida mexicana, com opções variadas de bebidas a base de café. Jantamos uma pizza nada especial e nos surpreendemos com a cerveja de quinoa – lembrava uma weissbier e era bem boa. Fiquei surpresa também com a quantidade de coreanos passeando por ali – dois dos quais protagonizaram um ensaio fotográfico de casamento no cemitério de trens.

dscf26691

Hotel, restaurante e lojinha no Salar de Uyuni.

Na beira do Salar de Uyuni, contratamos um guia para percorrer um trecho dessa imensidão de sal e fomos até o hotel, onde também funciona um restaurante e uma lojinha de souvenir, claro. Não arriscamos ir com nosso carro porque o sal detona os veículos; além disso, os bolivianos já ficam preparados, forrando a parte de baixo dos carros com lonas.

No caminho entre Uyuni e Villazón, passamos por dois pedágios. Embora um deles fosse bastante informal – uma cancela no meio da estrada com uma casinha ao lado – e bem mais caro (pagamos 20 pesos bolivianos neste e 5 no outro), nosso maior susto foi quando dois militares nos pararam entre as vilas Oploca e Tupiza.

Para nosso azar, ainda trazíamos um galão de combustível, que compramos para cruzar o trecho das lagunas e não foi necessário. Ao revistar o carro, um deles obviamente encrespou com isso. Argumentamos que nos inspiramos nos bolivianos e o questionamento seguinte foi sobre o quanto pagamos pelo litro de gasolina, já que o combustível é vendido por preços diferentes para bolivianos e estrangeiros. Não me recordo os valores exatos, mas quem vem de fora paga o dobro. Até recebemos a “dica” para irmos aos postos com galões, darmos os números dos nossos RGs e enrolarmos um pouco na pronúncia dos nossos sobrenomes (no meu caso, é impossível!) para pagarmos mais barato. No entanto, a Bolívia já é um país de gente sofrida e que passou por tanta exploração, que em momento algum cogitamos essa possibilidade.

O militar aquietou-se ao receber a resposta sobre nossas profissões. Nosso interrogador devolveu nossos passaportes e a carteira de motorista do Artur, disse para esvaziarmos o galão e seguirmos viagem. Considerando o que li em relação ao confisco dos carros não inseridos no Sivetur, fiquei surpresa porque ele não pediu nenhum documento referente ao veículo.

dscf26871

Paisagens bolivianas a caminho da fronteira de Villazón.

A fronteira de Villazón e La Quiaca é integrada e os trâmites de migração são feitos apenas no guichê argentino – assim, não há carimbo de saída da Bolívia no passaporte. Conversamos bastante com o oficial argentino que fez nossa aduana e suspeitamos que ele passou um pano para nós com o responsável pela revistas dos carros. Depois de um tempão examinando toda a bagagem de uma família argentina, ele mal olhou nosso porta-malas e nos liberou.

Argentina

No caminho para Salta, vimos uma procissão da Virgem da Candelária, que fechava parte da rodovia. Embora as pessoas dessa região sejam claramente de origem indígena, a devoção à santa católica mostra bem a influência dos colonizadores espanhóis.

img_59181

Artesanias de Uquía.

Sem pressa, aproveitamos para conhecer algumas vilas charmosas que estavam em nosso trajeto. A primeira parada foi em Uquía, que se destaca pelo artesanato de cerâmica e objetos diversos feitos com o tronco seco dos cardones.

Cercada por montanhas, Tilcara é uma graça e estava bem movimentada com muitos turistas argentinos. Aproveitamos para dar umas voltas pelo centro e comer empanadas e alfajores antes de voltarmos para a estrada. Fizemos ainda uma parada em Purmamarca, famosa pelo Cerro de los Siete Colores e ainda mais turística.

Depois de tantos dias passando por lugares pequenos, foi estranho chegarmos a uma cidade grande como Salta. Por azar, nosso dia livre na cidade era uma segunda-feira e alguns dos museus que queríamos visitar estavam fechados. Por outro lado, no Museu Histórico do Norte, tivemos a sorte de encontrar o Wildo, um guia muito simpático e que ficou animado com a curiosidade deste casal brasileiro.

dscf28801

Videiras de uma dentre as diversas bodegas de Cafayate.

O próximo destino era Cafayate, incluído na lista por ser a cidade com as vinícolas em maior altitude do mundo, a 1.683m acima do nível do mar. Em um dia, fizemos três visitas guiadas, sendo duas com degustação. A Piattelli e a El Esteco são as maiores e com processos mais modernos. Visitamos ainda a Nanni, que produz alguns vinhos orgânicos e cuja visita é gratuita – paga-se à parte a degustação.

De volta ao Brasil

mg_1880

Amigos queridos!

Ao pesquisar o caminho de volta para a casa, optamos por cruzar a fronteira em San Javier/Porto Xavier e passarmos pelo sítio dos amigos Ana e André, também conhecidos como Pedarilhos, que moram em Tangará-SC. Fiquei muito feliz por, finalmente, conhecê-los pessoalmente. Embora rápida, foi uma visita divertidíssima!

Dicas

Meus textos aqui são longos e sei que nem todo mundo tem paciência para lê-los. Então, para facilitar, decidi colocar algumas dicas aqui no final.

San Pedro de Atacama

  • Hostel El Anexo: melhor custo benefício que encontramos em San Pedro de Atacama. A simpática dona sempre reserva algum espaço para camping e motorhomes.
  • Franchuteria: MELHOR padaria da vila sem um pingo de dúvida. Deu água na boca só de pensar nos croissants.
  • Café Bumkaldi: foi o único lugar onde encontramos um café bom. Oferece ainda empanadas e bolos – opções veganas também.
  • Empório Andino: fica numa das pontas da Calle Caracoles e oferece ótimas empanadas.

Tilcara

  • Makoka: lugar charmoso, com um café gostoso e alfajor recheado com doce de cayote (a fruta, parente da abóbora, é chamada de gila em português e é comum no sul do Brasil). No local, é possível encontrar diversos livros sobre culinária local, cultura indígena e sobre a dominação espanhola.

Salta

  • Hostel Yatasto: nossa hospedagem em Salta, com garagem.
  • El Charruá: dica da dona do hostel, agradou à vegetariana e ao onívoro.
  • Casa Moderna: localizado na Calle España, 674, a casa não é nada moderna. Trata-se de um empório antigo – e lindo! Infelizmente, não é permitido tirar fotos.

Cafayate

  • Hostal Caetano: foi o melhor custo-benefício que encontramos na cidade.
  • Bodega Nanni: oferece visitas guiadas gratuitas – a degustação, no final, é paga à parte. Quem faz a visita tem direito a um voucher de desconto (5%) para jantar no restaurante que funciona dentro da vinícola – o desconto é ainda maior para quem pagar em dinheiro. Jantar delicioso!!

Apps

A navegação durante a viagem foi feita basicamente com os aplicativos abaixo. A exceção foi a rota das lagunas, onde usamos um aparelho de gps (eTrex 35) com um track baixado do wikiloc.

  • Google Maps: descobri nesta viagem que o app possibilita baixar mapas para consultas offline.
  • iOverlander: traz dicas de locais para camping (tanto selvagem quanto com estrutura), restaurantes, pontos de água, mecânicos, bancos, fronteiras entre outros. Conteúdo atualizado pelos próprios usuários, é mais voltado para quem viaja de carro, mas encontrei dicas e informações postadas por ciclistas.
  • Maps.me: recomendado pelo casal de peruanos, também traz dicas para viajantes e traça rotas utilizando carro, transporte público, bicicleta e até a pé. É preciso baixar os mapas antes.

#michayarturoenlaruta

Minicicloviagem na Mantiqueira

IMG_5325.jpg

A caminho de São Bento do Sapucaí.

Artur, Giu e eu aproveitamos o feriado de Finados para pedalarmos um trechinho da Mantiqueira. Eles me deixaram incumbida de traçar a rota e reclamaram quando eu avisei que teria bastante asfalto no último dia. “Queremos terra!”

Pois bem! Retracei a rota com informações que achei no Wikiloc, numa combinação de trilhas de jipe e de moto e avisei que iríamos descobrir juntos o estado da estrada. No final, as subidas do primeiro e segundo dias foram tantas que eles desencanaram e voltamos pelo asfalto mesmo, descendo a serra nova de Campos do Jordão. Fuen!

A viagem foi planejada para três dias. De Tremembé a São Francisco Xavier, onde fizemos o primeiro pernoite. Depois, seguimos para São Bento do Sapucaí e, no último dia, retornamos para Tremembé.

IMG_5314.jpg

Pausa para o lanchinho.

Uma das estradas que incluí no roteiro passa por dentro de uma propriedade privada e, quando faltavam uns 2km até a porteira, fomos informados por moradores locais que os proprietários não são muito fãs de ciclistas e até já ameaçaram com arma um grupo que queria cruzar por ali. Desolados porque a subida até ali tinha sido bruta, voltamos e pegamos a estrada mais ou menos paralela para subirmos tudo de novo.

IMG_5322.jpg

Os adesivos não deixam dúvida: ali é rota de ciclistas.

Chegamos a mais uma trifurcação e nos reabastecemos no Bar do Trevo. A rota que tracei seguia pela esquerda, mas, pelo horário, achamos mais prudente irmos pelo outro lado e não pedalarmos no escuro, já que o Giu estava sem luz. A parte chata foi pegarmos mais um trecho de asfalto.

mapa-trem-sfx-sbs-trem.jpg

Rota planejada – o link está logo abaixo.

Aqui estão os links para as rotas traçada e pedalada.

E só para constar, o Giu viajou com uma bike all road, o Artur foi de bike para cicloturismo, ambos usando pneus mais largos e cravudos. Eu fiquei bem feliz com a mtb e suas marchas leves.

Itajubá-Virgínia-Itajubá de bike

Itajubá - Virgínia

Estradinhas tranquilas pelos Caminhos da Mantiqueira.

No começo do ano, um dos meus melhores amigos, o Giu, me perguntou quais os meus planos para o Carnaval, pois ele queria cicloviajar. Como passei essa data na Alemanha, adiamos esse plano até o feriado de 1º de maio.

A rota rabiscada foi para dois dias passando por cidades dos chamados circuitos Caminhos da Mantiqueira e Terras Altas da Mantiqueira.

Na sexta-feira à tarde, fomos de carro de São Paulo até Itajubá para começar o pedal no dia seguinte. Aproveitei para encontrar o Denis, do Itajubikers, que conheci numa cicloviagem durante o Carnaval de 2015. Faltou o reencontro com a Deise e com o Egg.

De Itajubá à Virgínia

Depois de um bom café, pegamos uma estrada no sentido de Maria da Fé, porém, foi só com cerca de 12 km que entramos na estrada antiga que liga Itajubá à Maria da Fé. Fomos subindo, subindo, subindo… Quase no topo, encontramos um ciclista que passou por nós na cidade descendo todo feliz.

Em Maria da Fé, fizemos uma foto na antiga estação de trem e, como ainda tínhamos bastante chão pela frente, decidimos fazer uma parada rápida no bar de um posto de gasolina que estava no nosso caminho ao invés de almoçarmos em um restaurante.

Nesse trecho, a estrada é de paralelepípedos e a subida foi mais suave do que eu me lembrava. Paramos para fotografar umas plantações de café e logo reencontramos a terra. Aqui e acolá, passávamos por localidades que não sei identificar se são bairros ou distritos. Em uma delas, perguntei ao rapaz que dirigia um trator qual era o nome do lugar e a resposta veio carregada com o sotaque mineiro, que acho uma graça: “Aqui é Mata, Madibaixo. Se cês continuarem, cês vão passar por Madicima”.

Das Matas, fomos para Pintos Negreiros por uma estrada diferente da que eu havia pedalado antes. Paramos no mercadinho para mais um lanche e voltamos para a estrada. A subida não era tão íngreme, mas a lama, os buracos e as pedras fizeram com que o pedal não rendesse.

Itajubá - Virgínia

“Trânsito” intenso pelo caminho.

Neste ponto, tivemos dúvida se estávamos no caminho certo, pois, além de não encontrarmos ninguém nesse trecho, o mato estava crescendo na estrada indicando que não há muito movimento por ali, além das vacas.

Numa curva pouco depois, erramos uma entrada – achei que fosse apenas a entradinha de uma casa. Começamos a voltar quando encontramos um senhor de moto, que nos informou que a estrada indicada na rota que tracei estava interditada e só dava para passar a cavalo. Eu já estava pronta para tirar a prova, quando ele acrescentou: “mas se vocês continuarem por aqui, vão sair em Virgínia e até lá é só descida”. Depois disso, deixamos a possibilidade de roubada para lá.

A descida até Virgínia foi uma delícia! A primeira coisa que fizemos foi procurar hospedagem e ficamos na mesma pousada onde dormi no Carnaval de 2016, a Bela Vista. Pedimos pizza para o jantar e dormimos cedo.

De Virgínia a Itajubá

Depois de uma enroladinha básica, partimos. O começo foi bem tranquilo e, quando a subida começou, achei aquele trecho muito familiar: passei ali de carro no ano anterior e, na hora, pensei que seria bem legal pedalar por ali. Realmente foi bem legal!

Itajubá - Virgínia

Pausa para uma mexerica antes de chegarmos a Marmelópolis.

Mesmo com algumas paradas para fotos, logo chegamos a Marmelópolis. Almoçamos no restaurante Di Minas, que eu também já conhecia e acho bem bom. Comida fresquinha, orgânica, suco de marmelo e atendimento pra lá de atencioso.

Neste ponto, o Giu já tinha desistido de seguir pedalando. As pernas estavam inteiras, mas ficar sentado no selim não estava muito agradável para ele. Enquanto comíamos, fiquei ponderando duas opções: manter a rota original e correr o risco de entrar numa roubada por causa do horário – ainda teria 15 km de subida puxada, sem a menor ideia das condições da estrada – ou ir pelo asfalto, que eu já conhecia. Acabei ficando com a segunda opção e, depois de me despedir do Giu, fui encarar a Serra da Goiabeira, mas no sentido contrário ao que havia pedalado anteriormente.

Itajubá - Virgínia

Subindo a Serra da Goiabeira sentido Delfim Moreira.

Como a subida era longa, fui girando tranquila, sem pressa, afinal eram apenas 18 km até Delfim Moreira e uma parte seria de descida. Cheguei ao topo em 1 hora, parei para fotografar a placa da divisa entre as cidades e, assim que subi na bicicleta, dois motoqueiros apareceram na curva e diminuíram a velocidade quando me viram. Comecei a descer e eles ficaram atrás de mim por um tempinho, fazendo umas “graças”. Fiquei ressabiada e acabei descendo um pouco mais rápido, mas o alívio veio logo que eles me ultrapassaram e sumiram nas curvas.

Em Delfim Moreira, mandei mensagem para o Giu e voltei para a estrada. Um senhor me indicou o caminho “da linha”, a antiga estrada de trem. Logo no começo, revi os mesmo motoqueiros da serra indo no sentido contrário ao meu e acompanhados por mais um cara. Aproveitei que a estrada estava boa e pedalei um pouco mais rápido.

Itajubá - Virgínia

Estrada “da linha”.

Num ponto, há uma bifurcação e o caminho da esquerda leva à rodovia. Decidi ir por lá para ganhar tempo, para não deixar o Giu preocupado e por um certo receio daqueles motoqueiros (pode parecer bobagem, mas o sexto sentido ficou meio alerta). O começo foi uma descidona linda e, mesmo sendo a rodovia principal, pouco movimentada. Fiz uma parada de dez minutos numa pamonharia no caminho e vi o ônibus que vinha de Marmelópolis passando.

A última parte teve alguns falso planos e mais veículos. A maioria dos motoristas foi legal e tomou distância ao me ultrapassar. Apenas um caminhão passou mais perto do que deveria, me assuntando um pouco. Logo estava na entrada da cidade e foi mais fácil do que esperava chegar ao hotel.

Quando bati na porta do quarto, o Giu ficou surpreso com o tempo que levei.

Gostei bastante do trecho entre Itajubá e Virgínia, mas quero voltar para pedalar também a rota originalmente traçada e tirar a prova sobre essa estrada por onde só passa cavalo (du-vi-do! hehe).

Para quem ficou curioso sobre os roteiros, deixo abaixo os links das rotas:

Travessia Marins-Itaguaré

Marins - Itaguaré

O imponente Itaguaré.

Desde que fizemos a travessia Itaguaré-Marins em 2015, eu tinha vontade de repetir o percurso em um dia só. O Artur realizou o feito no final de 2016, em um tempo muito bom, e fomos juntos no feriado da Páscoa. 

Sair de São Paulo no começo da tarde de sexta-feira foi uma ótima ideia. Consegui descansar da semana corrida, arrumei minhas coisas com calma e ainda deu tempo de comprar pão e panetone (sim!) para o café da manhã na montanha. A viagem foi tranquila e, finalmente, conheci a estrada que passa pelo Bairro dos Marins.

Ficamos no Acampamento Base Marins, do Dito, que nos recebeu com simpatia. A primeira providência foi montarmos a barraca e ajeitarmos a cozinha. Preparei uma sopa de abóbora com cogumelos para o jantar e fomos deitar cedo.

Travessia Marins - Itaguaré

Café da manhã caprichado antes de encararmos a travessia.

Depois de uma noite mal dormida, enrolamos para levantar e saímos depois do horário programado. Fomos subindo num ritmo bom e chegamos ao Morro do Careca em cerca de meia hora. Quando contávamos duas horas de caminhada/escalaminhada, chegamos à bifurcação para o cume do Marins e a travessia sentido Itaguaré. 

Paramos para um lanchinho e decidimos não fazer o cume do Marins. A trilha, que até então estava bastante movimentada, ficou mais vazia e começou a soprar um vento forte. Eu olhava para as nuvens e torcia para o tempo não virar como na outra vez.

Travessia Marins - Itaguaré

Praticamente um pontinho na montanha.

Logo alcançamos o cume do Marinzinho e, mesmo estando um pouco aérea, o ritmo foi bom. A situação mudou um pouco na sequência. Para sair do Marinzinho sentido Itaguaré, há um lance de corda e, definitivamente, preferi subir essa parte do que descer. As nuvens estavam altas nesse momento e eu só enxergava um abismo branco.

O restante da travessia é marcado por muito sobe e desce. Nos trechos mais baixos, havia bastante vegetação – mais do que eu lembrava da outra travessia – e, de tanto me enroscar nos bambus, ganhei vários hematomas nas pernas.

Na Pedra Redonda, encontramos um pessoal que havia passado a noite ali. Papeamos um pouquinho e voltamos para a trilha. Um pouco mais adiante, cruzamos com um casal que estava fazendo a travessia no sentido oposto. A moça me reconheceu do final de semana anterior, quando participamos juntas do workshop de corrida natural durante a Abertura de Temporada de Montanha. Mundinho pequeno.

Marins - Itaguaré

O relevo apaixonante da Mantiqueira.

Reconheci o ponto onde dormimos na primeira travessia, com vista para o Itaguaré, mas é engraçado como minha memória é ruim para esses caminhos. Em vários pontos, era como se estivesse passando ali pela primeira vez. 

Numa área de camping mais próxima à base do Itaguaré, vi um cara juntando gravetos para fazer uma fogueira e empilhando-os justamente ao lado de uma placa que indicava “Proibido fazer fogueiras”. Lembrei do incêndio que atingiu o Marins por causa de um sinalizador de fumaça e fiquei brava, mas a rispidez dele quando o cumprimentei somada à cara de poucos amigos fez com que eu desistisse de dar bronca.

Mesmo na descida, o trecho de mata para chegar ao campinho do Itaguaré continua chatinho por causa das erosões. Aproveitei para matar a sede quando cruzamos o riacho pela primeira vez, mas resisti à tentação de catar os pinhões que estavam pelo caminho (hehe), pois logo iria escurecer e queríamos caminhar um trecho na estrada.

Travessia Marins - Itaguaré

Foram 13 km de travessia e 10 km de caminhada.

Para não chegarmos tão tarde ao Acampamento Base, ligamos para o Dito para pedir para o resgate nos encontrar pelo caminho, mas a ligação estava ruim e ficamos sem saber se ele entendeu ou não. Fomos andando por algumas das estradas da cicloviagem do carnaval de 2015 e bateu uma preguicinha no começo, mas depois entramos num embalo gostoso. Quando estávamos na bifurcação que leva para o centro de Marmelópolis, encontramos o Clóvis, que estava indo nos buscar. Por um minuto, não nos desencontramos.

Havíamos deixado o jantar encomendado e, além da comida caseira do fogão à lenha, o Dito e sua esposa prepararam pinhões – ganhei um monte e estavam deliciosos! De barriga cheia, tomamos banho e fomos deitar.

Acho que nem preciso falar que já estou com vontade de voltar, né?

Flickr.